terça-feira, 21 de janeiro de 2014

via

De Paulo Leminski

via sem saída
via bem

via aqui
via além
não via o trem

via sem saída
via tudo
não via a vida

via tudo que havia
não via a vida
a vida havia

Robertinho Silva Cravo e Canela


Oi, vô!

Embaixo da cama ele se escondeu. Medo de uma visita que o deixava envergonhado. Ficou lá por horas ouvindo as falas de desespero dos pais, parentes e vizinhos que o procuravam. Caiu no poço? No outro instante estava em cima da cama. Velho. O fraldão apertando a cintura e um cheiro de cocô no ar. Cortinas fechadas. Mas o sol poderia entrar inteiro ali naquele cômodo nos fundos da casa. Ele enxergava pouco. Qual o sentido da vida? Talvez só o filme do Monty Python poderia explicar. Agora era muito tarde. Sessenta anos se passaram entre um momento e outro. A memória era forte apenas para os primeiros anos da vida, mas ele continuava a sentir o cheiro da merda e o fraldão apertando a cintura. De repente uma pequena e macia mão lhe faz um carinho na cabeça. Ele escuta um "oi, vô!" que o transporta através dos tempos, das almas, das vidas. Responde e sorri como se estivesse renascendo no corpo do neto.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

numa cidade tão grande

De Paulo Leminski

   por mais que eu ande
nada em mim imagina
   o que é que menina
tão pequena está fazendo
   numa cidade tão grande

Zico e Zeca na Fazenda São Francisco


Carótida

Não havia sangue na carótida quando ele passou a navalha. Saiu um jato de ar, como se tivesse furado a câmara de um pneu. Ele olhou no espelho e torceu para que fosse murchando até ficar vazio. Nada aconteceu. Era muito sofrimento para uma única pessoa, pensou. Como entrara naquele estado de letargia? Lembrava apenas que assassinara o psiquiatra esmagando a cabeça com a máquina italiana de café que ele mantinha no consultório. Também percorrera locais onde trabalhou e colocara bombas-relógio embaixo das cadeiras dos chefes de quem recebera ordens. Morreram todos, mas isso não tirou aquele peso que o fazia chamar um guindaste para levantar da cama e começar a odiar a luz de todo dia. Tiros em cachorros que incomodavam foram disparados. Queimou os livros que mais gostou de ler. Parou de tomar banho e então passou dias escolhendo a arma que daria fim a tudo aquilo. Tentou, mas não deu certo. Descobrir que era um vazio ambulante era pior que tudo. Foi então ao borracheiro e pediu para que tapasse aquele buraco. Não queria contaminar os outros com o que saía de dentro.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Xipófogas

Milhares de formigas cobriram o menino no jardim da infância. Ele ficou feito uma bola, inchado pelas mordidas e pelo fato de ser alérgico. Olhei aquilo e pensei que era um castigo, porque ele veio depois de uma irmanzinha que não nasceu. Quando ele apareceu chorei feito um desesperado e não sabia o motivo. Talvez porque no fundo da alma desejasse outra mulher em casa, além da minha mãe. Ficamos perto, mas distantes. Um dia ele se queimou com a água que fervia numa panela no fogão da cozinha minúscula. Ficaram as marcas. As minhas marcas eram mais profundas. Nos perdemos por caminhos diferentes, mas os mesmos. Foi depois que nos encontramos. Já com filhos. Sangue do meu sangue, descobrimos o que sempre existiu e eu lutava para não entender. E nos unimos tanto na vida e na arte que até parece que nossas almas sempre foram xipófogas - em corpos diferentes.

asco

De Paulo Leminski

   arisco asco
a partir de ti refaço
   uma alma em pedaços

Telefone Mudo Trio Parada Dura


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Labuta, puta, labuta

Ouviu que o pai estava na labuta e nunca mais esqueceu. Jamais procurou o significado porque tinha medo do que poderia aparecer. Ao mesmo tempo ouviu o xingamento de puta. Isso ele imaginava o que era. Labuta. Puta. Tinha quatro anos e a labuta da puta virou uma frase na alma do menino. Ele guardou no cofre, trancou e jogou a chave num bueiro que poucos conheciam. Até o dia em que, adulto, tomou um porre e foi levado por amigos a um puteiro de beira de estrada, luz vermelha a iluminar a porta de entrada. Viu uma linda morena e foi deitar com ela. Deitar, porque era totalmente virgem por timidez e cagaço. Acordou com ela ao lado fazendo cafuné. Não era tão linda, mas carinhosa. Perguntou as horas, a manhã de sábado explodia um sol lá fora. Fizeram alguma coisa? quis saber. Ela disse que não. Contou que passou a noite no salão, e que teve vários clientes que levava a um outro quarto enquanto ele dormia. Era a labuta. Da puta.

violento

De Paulo Leminski

ver é violento

que golpe
aplicar no vento?

Vapor Barato Jards Macalé


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

sangue e esperma

De Paulo Leminski

aos deuses mais cruéis

  juventude eterna


eles nos dão de beber

  na mesma taça

o vinho, o sangue e o esperma

Meu Amor Marinheiro Carminho


No mar, com perebas

Esperava por uma ano inteiro a excursão para o litoral. Destino de sempre: praia do Zé Menino. Iam de ônibus de linha, sempre com seo Ozório dirigindo, ele marido da mãe de santo que resolvia o que ninguém conseguia resolver na vila. Na semana que antecedeu a longa viagem de 100 kms até o mar, a catapora estourou no menino e, ao mesmo tempo que as perebas iam estourando pelo corpo, chegou-se à conclusão de que ele não poderia viajar. Ficou mais doente, caído. Zarolhou e se recusava a comer. Sua reação deu certo. Teve gente que achou até que a água salgada poderia fazer bem. Pela estrada velha de Santos foi todo feliz - e na janela! Se trocou numa daquelas cabines que pareciam casinhas de uma porta só. Colocou o calção de pano com cordão branco amarrado quase no peito. Passou o dia todo dentro da água. Só saiu para comer uma coxa de frango e tomar guaraná. Subiu a serra dormindo. Na semana seguinte as perebas cobriam todo o seu corpo. Achavam que tinha virado um peixe daqueles bem escamosos. Mas o sorriso era o dos viram a sereia flutuando sobre a linha do mar.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Pulsante

Tudo passou como nuvem de sexta, sábado e domingo. Sem temporal. Com mormaço e brisa. Claro, escuro, pulsante. Vida.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

De ônibus

Quero de volta minha lotação colorida dos tempos do Rio capital federal! Lá vem uma que vai para o Méier. E eu nem sabia que era o país do Millôr. O quepe do motorista da Viação Cometa valia muito mais do que o do marechal. Porque o voo nesta cauda era mais que interplanetário. Mais do que a aventura de Flash Gordon no Planeta Mongo. E tinha-se o direito a uma parada para tomar Ovomaltine. Quero ônibus elétrico a deslizar e parar logo depois da curva. Olhar pelo vidro traseiro e ver o motorista colocar aquelas hastes no bicho que deslizava silencioso. Mas não quero sentar no último banco de um ônibus vazio num domingo quase anoitecendo e sentir, entre prédios, casas, luzes, o máximo da solidão que todo mundo tem guardada lá dentro do peito. Aquela que fazemos tudo para que fique lá, escondida. Porque só assim podemos prosseguir e se alegrar com as lembranças dos ônibus que nos embalaram em seus ventres.

liguei para o céu

De Paulo Leminski

   o mar o azul o sábado
liguei para o céu
   mas dava sempre ocupado

O berimbau Naná Vasconcelos


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Pontos

Tropeçou no ponto final. Não veio o ônibus. Caiu do outro lado - e era um precipício de reticências. Não fez interrogação e nem exclamou. Invadiu o infinito sem avisar ou registrar ingresso no livro-ponto. Porque procurou este caminho depois de ter visto um ponto em cruz. Era a mãe no tricô. Ela cega e ele sem querer enxergar nada. Quando disse adeus a agulha atravessou as duas bochechas e a língua. Pontos foram costurados. Não quis mais ficar marcando ponto na vida. Andou de ponto em ponto até chegar ao final. Que era o começo, mas ele não sabia do que. Ponto.

madura

De Paulo Leminski

   delícia pura
a onda cai
   como uma fruta madura

Moraes Moreira Preta Preta Pretinha


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Dentro da cela, no meio da floresta

Os dois desceram do barco no vilarejo do Rio Madeira, em Rondônia. Na viagem iniciada em Porto Velho fizeram amizade com um sargento que também desceu ali. Era o delegado. Foram dormir na delegacia, que nunca tinha preso. Ela ficava ao lado de uma igreja, que não tinha padre e era trancada. A pele dos moradores era amarronzada - e os dentes tão brancos que o brilho feria os olhos. Os dois eram cabeludos e loiros feito exploradores nórdicos. Carregavam mochilas e fotografavam tudo, principalmente as crianças que tinham o sorriso mais sincero do planeta. Um dia resolveram tomar banho nas águas barrentas do rio. Um deles disse que foi uma experiência lúdica. O outro viu um barco ancorado e registrou uma imagem que carregou para sempre na alma como o resumo da simplicidade que sempre buscou - e nunca encontrou. Dois dias depois passou um novo barco e eles partiram cortando florestas, andando por ruas de várias cidades e percorrendo o rio gigante. Mas aquele pedacinho do Brasil ficou preso nas retinas da lembrança, como a porta aberta da cela onde dormiram.

Minhas Mãos Meu Cavaquinho Henrique Cazes


lonjura

De Paulo Leminski

    que pode ser aquilo,
lonjura, no azul, tranquila?

   se nuvem, por que perdura?
montanha,
                    como vacila?

sábado, 4 de janeiro de 2014

Flashes no coador

No coador passa o ano e ficam alguns flashes grudados na memória que um dia vai apagá-los para deixá-los apenas no coração que vai parar - e flashes ficarão na memória dos outros.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Perdido

Perdi o trem, o rumo, o prumo, o sumo, o trilho, a trilha, a mira, a ira, o sono, o encanto, o canto. Perdi sem achar. Amanhã pode ser.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Severino Araújo e a Orquestra Tabajara


tic tac

De Paulo Leminski

  relógio parado
o ouvido ouve
  o tic tac passado

Coisa de bêbado

Um bar escolhido por quem bebe até atravessar as porteiras da razão e ingressar no universo paralelo precisa ser especial. Especial para o delírio. Normalmente é sórdido, mas não como aquele descrito pelo L.F. Veríssimo onde os cães sarnentos eram colocados para dentro e Jesus Cristo pregado na cruz tinha um tapa-olho, que era uma barata esmagada. O bar do bêbado que respira álcool é aquele que é como alma gêmea e onde a bebida, seja ela etanol misturado com água ou uísque 18 anos, tem sabor especial. Ele tinha um assim, perto da casa. Era rico, poderia conhecer o mundo viajando de primeira classe, mas não fazia isso e explicava: "Lá não tem meu bar". Às vezes era obrigado a viajar com a mulher que o aturava há anos. E sempre o carrão tinha problema na estrada. Ele parava o veículo no acostamento, levantava o capô, abria o compartimento destinado à água, tirava um canudinho do bolso e tomava goles e goles de vodka, uma das suas preferidas. Um dia parou de beber, com mais de 70 anos, porque estava com um pé na cova e outro na casca de banana. Se transformou num grande filósofo da vida, viajou o mundo e toda vez que passava em frente ao "seu" bar, apenas balançava a cabeça negativamente, reforçando a certeza de que tudo aquilo não tinha passado de coisa de bêbado.

domingo, 15 de dezembro de 2013

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Boca no trombone

Boca no trombone. Mão na vara. Ele viu sem ouvir. Era uma televisão grande. Preto e branco. Estava pendurada no teto de uma padaria da praça principal da vila. Do outro lado, a torre da igreja protegia tudo. O que seria aquilo? O músico não parava com a cabeça. E a vara ia e voltava. A boca sempre colada. Os olhos, às vezes, ficavam totalmente brancos, como se ele estivesse em êxtase ou morrendo. De prazer, certamente. Que som teria aquele instrumento? Pediu para o portuga aumentar o volume. Ele disse que a tv estava estragada. O pão quentinho saiu. Meia dúzia, por favor! E a música muda comia solta ali enquanto alguém servia ao santo uma dose de Tatuzinho lá no canto do balcão. À noite sonhou com uma banda só de trombones, mas o som não veio. Acordou e foi até a loja de discos. Explicou. O dono colocou uma bolacha no toca-discos. Ele ouviu Raul de Barros. Olhou a foto na capa do LP. Era o mesmo músico da tv. Ele tinha ouvido o som sem ouvir. Nunca mais deixou de acompanhar os trombonistas. Até chegar a Trombone Short. Que felicidade!

de tudo

De Paulo Leminski


  vazio agudo


ando meio



  cheio de tudo

A Cidade Chico Science e Nação Zumbi


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Costeleta que avoa

O avô foi o responsável. Porque falou que voou de "Costeleta". O menino ficou sem entender porque o pai usava costeleta, dos dois lados do rosto - e o avô, não. Mais tarde se apaixonou pela Panair, sentimento que aumentou muito nas asas da voz de Milton Nascimento. Com a empresa revelou-se o Constallation, o rei dos ares antes da era a jato. A seleção brasileira campeã mundial em 1958 voou nele como canarinho. Ele então sonhou em bater asas com os quatro motores e hélices a toda. E pensou nas lindas aeromoças desfilando no corredor e pilotos infalíveis de quepe e impecáveis uniformes. Quando se deu conta, o avião tinha sumido no tempo. Até que o encontrou numa vitrine em loja de aeroporto. Não era da Panair, mas da Real. Comprou. Deixou num lugar de destaque no escritório. Um dia um garoto de cinco anos entrou ali e se encantou com o brinquedo. O dono disse: este é o famoso "Costeleta". O piá olhou sem entender. Mesmo porque hoje pouca gente deixa isso no rosto.

Cada Macaco No Seu Galho Richão


ferida

De Paulo Leminski

   essa a vida que eu quero,
querida

   encostar na minha
a tua ferida

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

num buraco

De Paulo Leminski

debruçado num buraco
vendo o vazio
                      ir e vir

Rafael Rabelo Lamentos do Morro


Palmito e queijo a quente

Ele gostava de pastel de palmito e pastel de queijo. Gostava também do molhinho que colocava ali dentro. Mas o que mais intrigava o pasteleiro da feira de sábado era a mania um tanto quanto masoquista daquele cliente. É que ele só comia logo depois de os pasteis terem sidos tirados do tacho com óleo fervente. E também fazia isso ali ao lado, praticamente com a cara no bafo fervente que subia. No começo o comerciante não entendeu, mas como o rapaz tinha boa aparência, usava roupas decentes, etc, permitiu. Há anos o ritual se repetia - e sempre na mesma hora. Ele não bebia nada e engolia os dois pasteis muito rapidamente. Quase não conversava, pagava e dava sempre uma gorjeta maior que o valor da conta. Ninguém ousava perguntar o por que daquilo. Até que um funcionário novo quis matar a curiosidade. Ele respondeu sem pensar muito: "Como o pastel fervendo porque quero ter a goela ladrilhada como minha mãe. Fico com a cara no vapor porque pretendo ter a pele enrugada como a textura dele". Todo mundo fez que entendeu - e a feira continuou.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Maringá Gastão Formenti


cor de fruta

De Paulo Leminski

   furta a flor
ao crepúsculo cor de fruta
   pássaro tecnicólor

O outro lado

Caiu a noite feito a noite de todos os temores. Havia lâminas afiadas a nos fazer lembrar que ainda estávamos vivos. Até quando? Não era para ser perguntado. Não se podia olhar para trás porque o passado condenava. Para frente eram trevas. O agora eram cortes profundos a cada respiração e as dores eram muito mais lancinantes do que se imaginava. Não havia sangue. O que existia era uma vida sem sentido desde antes do nascer. O que havia era a incapacidade de compreender. O que havia era o açoite dos pensamentos. Eram os gritos da tortura. Eram as entranhas sendo corroídas. Era o cérebro tocando a mesma música. Era o pavor, o terror. Ninguém reclamava. E o silêncio fazia aumentar a dor de cada um naquele nada. Também se rezava. Para o deus imaginado. As orações eram para que a morte chegasse. E ela não chegava, porque tudo aquilo era ela. O outro lado. O desconhecido. O pra sempre.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Dei de cara com a jia

O sapo canta na lagoa, Tião, mas eu gosto da jia. Mais sonora a palavra, mais esguia - e rima. Com sua licença, Jackson, mas a música aqui é outra. Nem letra tem, mas tem a cena real de o tiroteio ter começado no salão e eu saí rastejando pela escuridão. Só ouvia o zunir das balas. O que é que eu fui fazer naquele forró nas quebradas? Queria ouvir os reis do baião e do ritmo, arrastar o pé, ver a poeira levantar e o bicho também porque as meninas todas são fogosas e gostam de se atracar para relar o imbigo. Então fui assim, colado no chão, chegar perto do açude. Foi aí que dei de cara com a jia. Estava a um palmo do meu nariz e nem se mexeu. Achei que era cegueta. Mas ela estava imóvel como estátua e pude ver como são belas as coxas que muitas vezes comi sem pensar no bicho dono delas. Ela então coaxou. Ouvi uma voz ordenando para eu entrar na água e ficar quieto. Foi o que fiz. A jia fiou ali, como sentinela. Eu com água até a boca. Ficamos nos olhando por toda a noite. Quando clareou, saí e fui caminhando para casa. A jia veio atrás. Coloquei ela dentro de uma panela com água fria. Ela ficou quieta. Acendi o fogo. Ela não saiu de lá.

hexagrama 65

De Paulo Leminski

   Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
   Do ano mais maligno;
nasce o dia mais bonito.

1 dia,
   1 mês, 1
      ano.

Carlos Gonzaga


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Água fria

Tomou banho de bacia, dentro do balde, no tanque, de caneca quando não cabia mais em lugar nenhum. Água fresca quase gelada tirada do poço furado no meio do quintal. Primeiro foi o pavor, depois o amor. Ficou este. Cresceu e viu chegar água encanada, chuveiro elétrico, depois banheira, água aquecida a gás, assim como o piso todo da casa que comprou por ter se dado bem na vida. Não esquecia, contudo, os primeiros banhos da infância naquela casa de fundos no subúrbio da cidade grande. Até que um dia viu, reluzente, uma bacia enorme pendurada na parte externa de uma armazém que insistia em resistir à modernidade dos supermercados. Parou o carrão, entrou, comprou e levou junto a caneca de alumínio. No banheiro todo marmorizado, encheu com água fria a bacia enorme e sentou bem devagar. Nem lembrava mais a sensação do contato da água gelada com a bunda. Sentou e ficou ali pensando na vida, no pai, na mãe que já tinham ido embora, eles que continuaram tomando banho frio até o fim da vida. Pegou a caneca, encheu e despejou a água no alto da cabeça. Era criança de novo, depois de fugir décadas e não ter encontrado a felicidade.

magnólia

De Paulo Leminski

   Nem tudo envelhece.
O brilho púrpura,
   sob água pura,
ah, se eu pudesse.

   Nem tudo,
sentir fica.
   Fica como fica a magnólia,
magnífica.

Venâncio e Corumba Chuleado da Vovó


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quem é que faz?

Acordou assustado com o sino da igreja. Estranhou. Sempre ouviu. Morava do outro lado da rua. A catedral às vezes lhe parecia um monstro a lhe chamar para a missa do sétimo dia. A sua. Mas isso só em algumas ocasiões. No mais, olhava o povo entrar ali e sair da mesma maneira. Alma ele tinha descartado há muito tempo. Mais uma badalada. Acendeu a luz do teto apertando a perinha pendurada num fio imundo. Sozinho naquele quarto. Há quantos anos? O colchão no chão fedia a azedo. Não havia mais nada ali, a não ser um amontoado de roupas sujas num canto. Ouviu alguns fogos. Eles acenderam um pouco sua memória. Meia-noite, Natal, nasceu Jesus - se é que ele existiu. Não acreditava em nada, a não ser no que estava demorando para vir. Queria sossego. Lembrou de uma música de Dolores Duran que, na voz de Nana Caymmi, pedia uma noite de paz. Ele não tinha nem noite, nem dia, nem nada. Sempre foi assim. Da janela olhou a torre de onde vinha o som. Sem perceber cantou um trecho de outra música. Noite feliz. Perguntou para escuridão: "Quem é que faz?". Não houve resposta. Voltou para a cama. Apagou a luz. Continuou no tormento.












Manhã de Carnaval Baden Powell


assombra

De Paulo Leminski

   primavera de problemas
a luz das flores grandes
   assombra as flores pequenas

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Filtro

Filtro de barro. Ela queria um. Leu não lembra onde que a água que sai da torneirinha é a mais pura possível. Acordou o marido no meio da madrugada. Quero um! Ele achou que era um sonho. No dia seguinte, no café da manhã, quero um! Ele foi trabalhar com o filtro na cabeça. Melhor comprar logo essa bagaça, pensou, porque sabia que a amada não ia sossegar enquanto não tivesse o tal na cozinha. Comprou. Nem fez muita pesquisa. Inauguraram com festa regada a água. Depois ela pediu uma caneca de alumínio, daquelas grandes, porque a água ficaria ainda mais fresquinha. Ele comprou duas. Passou um tempo até que ele teve uma ideia que também veio no meio da noite. Bolou um esquema e foi buscar o líquido para colocar nele, o filtro de barro. Ela nunca soube, mas achou uma diferença no gosto da água assim que experimentou o primeiro gole da nova fonte. Gostou. Se sentiu melhor, mais disposta, passou a olhar tudo com mais paciência, etc. Deixou até de ser insistente nos pedidos. Era o que ele queria. Por isso, nunca mais deixou de ir à igreja. Para pegar água benta de todos os recipientes que podia. Amém.

apagar-me

De Paulo Leminski

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

Samba da Minha Terra Novos Baianos


Sono

Domingo foi ontem. Esqueci porque dormi.

sábado, 30 de novembro de 2013

Sesta

Sábado é a sesta da semana, com a vantagem de no dia seguinte a preguiça continuar.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Felicidade Silvinha Telles


que se foda

De Paulo Leminski

   - que tudo se foda,
disse ela,
   e se fodeu toda.

Beijo para as árvores

Ao subir as escadas o vento lhe chamou atenção. Saía de casa para o anexo em cima da garagem, onde se escondia e fingia trabalhar. Parou. Olhou na direção de onde vinha. Pela primeira vez reparou as árvores da rua paralela. As copas, umas grudadas nas outras, balançavam pra lá e pra cá. Então ele começou a decifrar a conversa entre elas. Eram poemas em forma de zumbidos, muxoxos, estalidos. Palavras indecifráveis mas que faziam sentido para ele, que parado ficou antes do último vencer o último degrau. Ele ouviu quando uma falou para outra que estavam sendo observadas. E aquilo se espalhou. Então as pequenas flores amarelas se transformaram em olhos. E estes eram doces como as curvas das montanhas na linha do horizonte. Ele sorriu por dentro e por fora porque vivia ali um momento raro e mágico. Então mandou um beijo, assim, como se faz, colando ele na mão e assoprando. O beijo enfrentou o vento e entrou nas árvores. Houve um arrepio e, logo em seguida, um agradecimento. Ele então entrou no escritório, fechou a porta, ergueu a persiana da janela e viu as árvores, agora imóveis. O vento foi embora. Mas elas estavam brilhantes, com a luz da mãe natureza.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sem pandeiro

Não sou poeta e não sei tocar um instrumento. Tentei haicai e caí em depressão. Fui de caixa de fósforos e quase incendiei o acervo de discos onde estava toda a obra de Ciro Monteiro. Conheci Leminski mas ele não me conheceu. Foi numa noite fria, tomamos conhaque e quem desmaiou foi a mulher de um amigo dele. Quase escrevi algo num guardanapo do restaurante, mas derrubei um copo e tudo ficou melado. No passado achava que ame-o ou deixe-o era poesia. Mas aí soube que os gorilas diziam isso para quem estava pendurado no pau-de-arara. Acho que traumatizei. Assim aconteceu com o pandeiro. Fui numa festa onde apareceu um regional para tocar chorinho. Não sei por que entrei numas de bater no couro que estava esticado em casa, bem longe dali. Mandaram buscar. Eu não toquei nada e quase fizeram da minha cara um instrumento de percussão. Agora, velho, continuo na mesma. Sem poética. Sem fazer um som. Minha voz é horrível para cantar. Desafino até para repetir um maluco que gravou algo falando em esperma entrando.

hoje

De Paulo Leminski

   que dia é hoje?
um dia, eu soube
   hoje me foge

Nelson Gonçalves Boneca de Trapo


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Assim falou....

Não aguento mais! Vou acabar me afogando na merda das informações. Me jogam todo dia na cara. O motoqueiro que manda dois jornais para a grama. Caem perto do cocô da cadela que aduba a grama e tem mais consistência. As revistas lixos que assino também chegam assim, para foder o final de semana. E tem o noticiário em todos os duzentos canais abertos e a cabo da televisão. Todo mundo falando asneira, com cara de seriedade e com os jornalistas balançando a cabeça em aprovação como idiotas que são. E na internet? As mentiras chegam pelo celular, notebook, PC, pelo cano do esgoto, no rolo do papel higiênico. Chega!!!! Eu quero voltar pra Bahia e fazer um casebre em Arembepe. Puta merda!! Tem Camaçari ao lado e cagaram no mar!! Floresta amazônica, lá no meio do nada. Como? Tem antena parabólica? Enfiem no rabo! Vou procurar uma loca. Loca, não louca, e ler Zaratrusta de trás pra frente e de ponta cabeça. Ou queimar o livro porque tem um "assim falou" no título do Nietzche. Calma benzinho! Estou escrevendo um negócio aqui. Já vou!!!! Está começando a novela? Tchau pra vocês.

caminho de espinho

De Paulo Leminski

   longo o caminho
de uma flor
   só de espinho

Minha Candidatura Caco Velho


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

flauta índia

De Paulo Leminski

a flauta índia
diz sempre
                    não ainda

Filme Triste Trio Esperança


Catarro

Sempre gostou do som do catarro. O som da palavra, não o produzido por aquele velho puxando a lesma do fundo da alma para emplastrar o que aparecesse na frente. Catarro, catarrento. Mas até aquele dia não tivera a experiência de produzir em seu corpo uma quantidade suficiente para encher um copo americano, por exemplo. Tinha pensado nisso numa noite mal dormida. Visualizou a imagem ali ao lado, em cima do criado mudo, no lugar onde, em muitas casas deste país, ainda existe a dentadura mergulhada e sorrindo para quem quiser ver. Tossiria de três a cinco vezes e aí faria o esforço para tirar a gosma, a placa catarrenta para cuspir dentro do copo. Conseguiria seu intento? Na noite seguinte foi derrubado por uma febre altíssima. Achou que poderia ser delírio. Não era. A garganta trancou e ele sorriu, mesmo sentindo uma facada no gogó. Ficou quase sem respirar, mas foi paciente consigo mesmo. Sabia que, a qualquer hora, a qualquer minuto, começaria a expectorar, como dizia a propaganda daquela pomada, a tal da Vic, mais antiga do que ele mesmo. No dia seguinte tossiu duas vezes, mas o que saiu foi sangue. Não ficou assustado. Forçou, então, e mais sangue saiu. Junto, contudo, estava lá! E assim foi até a noite. Trocou o copo por um maior, porque era muito sangue para pouco catarro. Pensou em separar tudo depois. Mas não teve tempo. Sentiu-se fraco. Chamou então um irmão que morava próximo. A cena de horror deflagrou o sinal para a ambulância, a UTI do hospital e um tratamento intensivo. Disseram que rompeu uma veia interna. Ele perguntou sobre o catarro. Nem responderam. Voltou para casa duas semanas depois. Mandou fazer um quadro do tamanho de uma das paredes da sala com a palavra. Deixaram de aceitar convites para almoçar ou jantar na casa dele.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Serpente de aço

Viu a lâmina na vitrine de um loja de aeroporto. Alemã. Tinha um desenho e o cabo era de madrepérola. Atração fatal. Comprou, despachou, pegou, guardou. Ficou muito tempo sem vê-la. Lembrou que, quando criança, se alguém escondesse algum objeto do resto da turma, perguntavam se estava chocando. Sim, este estava chocando a serpente. Ele apenas esperava o sinal. Qual? Não sabia. Sentia. Ele veio no dia em que viu uma propaganda partidária. Aquele rosto tomando conta da tela não era de um humano. Era a própria besta do apocalipse. As palavras que saíam daquela boca fediam. Ele sentiu isso sentado na poltrona da sala onde morava sozinho. Foi ao ninho e pegou a serpente. Era pequena ao ponto de desaparecer se ele fechasse a mão em torno dela. Estudou os hábitos da besta. Queria fazer a coisa de dia, diante de muita gente. O melhor lugar era um restaurante que o escroto frequentava com os puxa-sacos de sempre. Foi lá. Entrou. Chegou perto alvo. Chamou-o pelo nome. Recebeu de volta o sorriso fabricado do candidato. O golpe foi certeiro. Na carótida. O sangue espirrou como em filme de samurai. Ele saiu devagar do lugar. Ninguém o incomodou. A luz do sol o fez colocar o óculos escuro. Voltou a pé para casa. Cumprira a missão divina. Guardou a serpente manchada de sangue. Ficou esperando um novo sinal.

Jorge Benjor da Capadócia


além das telhas

De Paulo Leminski

luxo saber

além desta telhas
um céu de estrelas

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

dias de encher linguiça

De Paulo Leminski

home o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher linguiça
entre um triunfo e um waterloo

Pra não dizer que não falei das flores Geraldo Vandré


Nua e descabelada

Foi presa por atentado ao pudor. Virou notícia no jornal porque entrou numa galeria de esgoto e deu o maior trabalho à polícia. Juntou multidão para ver o ocorrido. Aquela multidão que pede para pular quem está no terraço do prédio ameaçando suicídio. Ela estava nua. E era linda. Mas ninguém via o rosto. Descabelada, correu por entre bancários e automóveis. Não chovia. O sol era de derreter a moleira. O fedor do esgoto onde ela entrou era intenso, mas havia árvores em volta. Vieram os bombeiros. Entraram. Tiraram a moça, agora coberta por um plástico preto. Quando retornou à luz do sol, um policial pegou no queixo dela e ergueu o rosto. Ao afastar os cabelos, houve um silêncio no mundo. Ela tinha barba cerrada. Naquela hora, o caminhão velho do circo mambembe estava bem distante. O dono não queria assumir o filho que estava começando a crescer na barriga da descabelada.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Lucio Alves Helena, Helena, Helena


certezas de dúvidas

De Paulo Leminski

   nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
   ou um homem de fé

   certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé

Na área de preservação

O barco de alumínio com os três flagelos singrou as águas da baía na noite escura feito breu. O que tinham bebido não estava no gibi. Saíram quando um temporal se armava, apesar das recomendações contrárias. O motorzinho de popa gritava como um bicho a pedir socorro. Fantasmas de navios apareciam de repente como monstros saídos de um filme japonês. Uma luz nas trevas fez o comandante bêbado embicar o barco naquela direção. Na ilhota o casebre era o único a ter vida. Era um arremedo de boteco onde os três beberam mais e contaram que estavam indo para uma fazenda no pé da serra em área onde não se podia arrancar uma folha de grama, por causa dos ambientalistas. Quando saíram a chuva tinha apertado e as pequenas marolas quase afundaram o barquinho. Voltaram. Encharcados dormiram dentro do bar. No outro dia, de sol, saíram e enveredaram por riozinho que desembocava no mar. Chegaram à fazenda. Caminharam até uma casa que serviu de moradia para o dono, um dos três flagelos. Mais tarde comeram carne de tatu ensopada. Um dos três gostou de uma flor e ao chegar perto para sentir o perfume, foi picado na testa por um maribondo. Urrou de dor. Naquela hora sentiu que estava em outra dimensão, a dimensão dos bêbados. Tomou mais um gole e assim foi, junto com os outros, por uma semana. Até que conseguiram voltar. Como flagelos, para a cidade grande. Estavam bem diferentes. Inchados de cachaça.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Periquito

De Paulo Leminski

Morreu o periquito,
A gaiola vazia
Esconde um grito

O bem do mar Dori Caymmi


Avisada


Eu bem que falei para ela esquecer aquilo. Não acreditou. Foi uma vez ao comício do maluco e se encantou como se ali estivesse a própria reincarnação do Jesus Cristinho. Filiou-se ao partido. Distribuía santinho em tempo de eleição. Uma vez ganhou o olhar do doido e quase teve um orgasmo. Chegou em casa contando para a mãe que ele tinha colocado os olhos em cima dela. Quando recebeu o convite para uma convenção da agremiação política dormiu com ele dentro da calcinha. Foi lá. Ouviu o discurso inflamado e as promessas de que tudo iria mudar quando ele, o destemperado, assumisse o governo e tomasse conta do Palácio. Ele ganhou. Ela precisou ser socorrida num posto de saúde depois que ouviu o resultado da apuração. Depois começou a prestar atenção nas atitudes do descerebrado. Ele empregou a família e até o cachorro de estimação ganhou uma sala na sede do governo. O sonho dela começava a desmoronar. Mas isso demorou todo o primeiro mandato e metade do segundo para ela perceber. Começou a sofrer. A dor era maior do que aquela quando o primo a enganara prometendo casamento. Além de tirar a virgindade dela, espalhou o feito para todo o bairro. Definhava a cada discurso. Espumava a cada notícia de roubo explícito. Um dia se jogou embaixo de um ônibus. Não morreu. Os socorristas estranharam que ela tinha uma foto do coisa dentro da calcinha. Mas na parte de trás e enterrada entre as nádegas.