quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O brilho

De Helena Kolody

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Vingança

Cansou! Cansou de ser preterido pela maquininha. Cansou de ver crianças, moços, velhos, todos enfim, com os olhos grudados na telinha e/ou digitando mensagens sem parar, ou falando sem parar, como se estivessem transmitindo o anúncio do fim do mundo. Em todos os lugares, públicos ou privados. Em todas as cidades que visitou além da sua. Cansou de ver lançamentos em cima de lançamentos com a última e mais aloprada geringonça tecnológica. Não havia mais as pessoas normais conversando pessoalmente, olho no olho, abraço no abraço. Era tudo na maquininha. Foi então que lembrou do Dr. Phibes e suas vinganças magistralmente perpetradas por Vincent Price. E inventou! A coisa mais moderna, que deixava todos os outros aparelhos no chinelo. E bastava apenas um toque para que o furador de gelo prateado surgisse para varar o crânio do curioso pela última novidade da era moderna.

Kleiton e Kledir Maria Fumaça


terça-feira, 30 de setembro de 2014

O tempo

De Nilson Monteiro


O tempo
enfiou-me o cansaço
das bíblias e dos ídolos
sob as retinas.
Cristalizou-me a esperança
e volatizou-me o medo
costurando o amor
e o ódio
no rebanho de luas.
O tempo
deu-me filhos
amigos, inimgos,
pessoas que rondaram meu coração
como lobos
como cordeiros
ou ainda como
companheiros
O tempo negou-me paz e pressa
rabiscou-me rugas e cicatrizes
soprou-me alegrias e tristezas
dependurou-me sobre a vida
O tempo enxergou-me
espiando pelas lascas das teorias
e metendo o dedo em feridas
encharcadas nos bairros
O tempo
deu-me cabelos brancos
e paciência.
Deu-me
a certeza da dúvida
como motor do mundo.

Trio Parada Dura e Homem de Pedra


Família ladra

Era uma casa nada engraçada. Tinha tudo. Até uma geladeira de R$ 60 mil. Podre de rica a família. Ladra. Desde os tempos dos corsários. Manter a tradição não era problema. Todos os integrantes do clã aprendiam por osmose, ou melhor, nasciam assim. Teve até o caso do bebê que surrupiou a tesoura que lhe cortou o cordão umbilical. Ele guarda até hoje o fruto do furto. Baita troféu! Mas aquele outro menino de pele alva e cabelos encaracolados não tinha nada a ver com aquilo tudo. Alguns desconfiavam até que tinha sido adotado. Não era. Mas a honestidade chegou ali e parou! Tanto que sofria mesmo sem saber a que tipo de família pertencia. Inventavam histórias para justificar a dinheirama que entrava diariamente. Grana viva, na maioria das vezes. Um dia ele comunicou que ia embora. E foi. Era adolescente. Não deu mais notícias. Anos depois apareceu na capa de uma revista internacional como o novo magnata do planeta. Um gênio das finanças. Tinha resolvido ser banqueiro. A família ficou muito feliz.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Rio do mistério

De Paulo Leminski

Rio do mistério 
que seria de mim 
se me levassem a sério?

Escatológica

Escatologia era com ele mesmo. Gostava de ouvir piadas, histórias. Adorava falar os nomes. Até elevava o tom como se aquilo fosse mesmo para chocar ouvidos alheios. Vibrou quando um amigo lhe apontou uma mocinha linda, parecendo um bibelô, e disse que no banheiro ela ia para fazer quibinho, não mais que isso. Ou na cena do filme do Woody Allen, quando a irmã do personagem disse, depois de um encontro que não fazia há anos, que o sujeito a tinha amarrado nua e feito entre os seios dela. Mas um dia leu o conto do Rubem Fonseca em que o casal, que se amava desde os tempos de criança, estava em crise e a paixão só voltou depois que o homem, sem querer, viu o que a mulher tinha feito e esquecido de dar a descarga num banheiro químico durante uma excursão de ricos. Aí ele sentiu uma força tão grande que nunca mais quis saber de histórias a respeito - e evitava ao máximo ir ao banheiro. Tinha medo de se apaixonar por si mesmo.

Pedro Bento e Zé da Estrada e o Seresteiro da Lua


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Penúltima

De Marcos Prado
    Como posso agora estar alegre? 
    era de se esperar que eu desesperasse 
    talvez mais tarde eu desintegre 
    entre o penúltimo gole do último porre 
    e leve ao meu lado os que me seguem sim, 
    perdi a razão do que eu achava e do que eu acho, 
    mas aprendi que o céu é mais embaixo 
    ainda não sei o quanto dei 
    a tantas quantas amei 
    ainda não sei ao certo se eu errei 

Nossa Senhora Aparecida

Nas águas barrentas mergulhou. Mas isso foi depois de muitas pesquisas, que lhe tomaram anos e anos da vida. Encanou. Era o termo que usava fora do convívio da igreja, onde foi coroinha dedicado. A santa um dia apareceu em sua vida. Lembra apenas do deslumbramento pela cor da pele. Negra. E do manto. Azul com bordados dourados. Foi na primeira excursão à velha catedral. Depois construíram uma gigantesca, mas ele sempre foi rezar na antiga. O local do mergulho foi determinado por computador. Entrou na água exatamente onde ele mesmo determinou que ali a santa tinha sido encontrada. Quase não via nada. Foi até a lama do fundo e ficou a observar, apesar da correnteza forte do rio. Algo cintilou. Não se perguntou como. Esticou o braço, enfiou a mão e tirou aquilo que não conseguia distinguir. Subiu. Entrou no barco. Colocou o que trouxe dentro de um aquário. Trocou a água duas, três vezes. A lama dissipou. Achou uma aliança. Era de ouro. Tinha algo escrito por dentro. Leu: "Protegido". A achado coube em um de seus dedos. Ele então descansou de tudo.

Quinteto Violado Peba na Pimenta


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sob medida

O neto foi logo dizendo que os móveis do casarão antigo não caberiam no apartamento que ela passaria a morar pouco tempo depois da morte do marido. Nem deu bola. O imóvel era dele, mas ela pagaria aluguel com a pensão - e não queria abrir mão de nada, principalmente do piano onde tocava as músicas que um dia apresentou em alguns palcos do interior do Paraná. Foi ver o novo espaço. Ficava no andar acima do neto cuidadoso. Ela entrou, olhou os cômodos e, aí, como se tivesse memorizado o tamanho do que queria trazer, começou a medição - em palmos, para espanto do jovem que a olhava sem acreditar no que via. Ao final, disse: "Podemos trazer tudo. Cabe direitinho". Batatolina. Uma semana depois da mudança, fez uma festa de aniversário para comemorar 88 anos bem vividos.

Martinha Eu Daria a Minha Vida


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Máximo

De Paulo Leminski


Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
sempre acha o máximo.

Elizeth Cardoso Última Forma


Puta da Visconde

Por que fizeram isso com a gente? Tivemos nossos dias de glória como atrações nos mais ricos puteiros da cidade. Os tubarões, os donos dos Três Poderes, todos entravam ali sorrindo e saíam flutuando para continuar a vidinha chata ao lado das esposas. Tudo passa, nada ficará, como cantava o Nelson Ned. Sim, fomos decaindo, chegamos à Rua Riachuelo e, depois, aqui, na Visconde de Guarapuava, onde havia um hotel/casa que nos abrigava durante o expediente e depois. Velhas, gordas, pegávamos qualquer um que pudesse pagar uma miséria pelo programa que nos rendia a refeição do dia. Derrubaram nossa casa. Estamos na rua, literalmente. Mamãe dizia que ser puta só rende quando um bacana se apaixona e casa. A maioria, contudo, termina como nós. Não há retiro para putas. Agora temos que dormir em abrigos, mas não dá para levar para lá nossos clientes, cada vez mais raros, cada vez mais pobres. Pelo menos se alguém me pagasse uma passagem de ônibus para Quixeramobim... Lá tenho um parente. E ninguém vai ler meu passado nas rugas do meu rosto, nas minhas varizes e no meu corpo deformado.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Seda

De Paulo Leminski

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença



Hora de morrer

Vou morrer. Olhei no fundo do cano do revólver apontado na minha direção a menos de cinco metros. Ao lado, a cabeça da bala do trezoitão que iria me matar quando o sujeito apertasse o gatilho e o tambor girasse. Por que tinha feito aquela bobagem de encrencar com bandido de vila? A festa estava mais ou menos, o vagabundo escasquetou que eu tinha olhado para a mina dele. Eu não tinha olhado nem para outra que estava perto - e era mais bonita. Vi isso de soslaio. Não gosto de treta. Mas aí ele veio pra cima e eu peitei. Ele se afastou e tirou o berro que estava atrás, enganchado no cinto. Parei. Ele parou e apertou o gatilho. Não houve explosão. Não houve nada. Pularam em cima do marginal e eu saí correndo alucinadamente. O coração na boca. Ainda bem que até as balas no Brasil não funcionam.

O Terço


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Que volte

De Paulo Leminski

Vida e morte 
amor e dúvida 
dor e sorte 
quem for louco que volte.

Daltonismo

Meu pai é político. Pode xingar, ele não liga. Eu ligava, mas aí fui me acostumando, mesmo porque não falta gasolina na minha moto. Ele nunca me falou como ganhava dinheiro. Melhor: tanto dinheiro. Nunca me importei. Lembro que a família era pobre. Depois que ele se meteu com o assunto, parece que Deus abençoou e nossa vida mudou. Ele se juntou com um que chamavam de capo, mas eu não entendia o significado. Depois se elegeu vereador, deputado estadual e federal. Há muito tempo está lá em Brasília. Eu nunca fiz nada na vida. Agora estou querendo seguir o caminho do pai. Ele disse que eu levo jeito porque sei desenrolar qualquer dificuldade na base da conversa. Mas eu queria saber mais. Um dia ele me chamou num canto e cantou a pedra. "Todo político é daltônico - exceto quando vê dinheiro". Gostei.

Novos Baianos A Menina Dança


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Tipinha

De Dalton Trevisan

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:

— Pô, você me salvou a vida, cara!

Wanderley Cardoso O bom rapaz


Péssima costura

Acordou e viu o poste a poucos metros. Esticou os braços e segurou firme o volante do carro. A pancada foi seguida de um estrondo. Conseguiu abrir a porta. Atravessou a rua e foi sentar na outra calçada. O transformador em chamas. Todo o bairro no escuro. Madrugada. Algumas pessoas tentaram falar com ele. Desmaiou. Acordou numa mesa metálica de pronto socorro. Olhou para quem o olhava. Jovens estudantes de medicina, imaginou. Xingou a todos, indistintamente. Disse que eles não sabiam o que estavam fazendo. Mais tarde saiu dali com pontos no nariz e na cabeça. Ainda estava bêbado. Foi para casa. À noite voltou a beber. Sem o carro, que teve perda total. Passados muitos anos, olha-se no espelho e vê as cicatrizes. Não bebe há anos, mas concorda que os alunos não souberam costurar sua fachada.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Supremacia da fórmula.

De Roberto Prado

com a ajuda do meu céu
de nuvens esparsas fiz uma você
agora que eu passei para o papel
não está mais aqui quem te vê

Beco com saída

Era uma porta de metal, estreita, com alguma marcas de ferrugem. Ficava no muro alto do fundo do quintal da casa no bairro suburbano. Trancada. Ele descobriu onde escondiam a chave - e abriu. Dois metros à frente viu outra parede alta. À esquerda e à direita um imenso corredor. Um beco! À esquerda ele terminava num matagal. À direita, não sabia. Desceu dois degraus. Foi até o mato. Não dava para prosseguir. Voltou e caminhou vendo as portas dos fundos das outras casas. Aquilo era mágico para um menino de dez anos. Não conhecia nada parecido. Estava ali em férias. Na sua vila o encantamento eram os terrenos baldios e a própria rua, de terra. O corredor parecia não ter fim. Ouvia vários sons enquanto o percorria. Conversas, latidos de cachorros, silêncio. Andou muito até que o fim daquele caminho apareceu. Era uma rua de asfalto todo remendado. Ficou naquele porta olhando alguns carros e pessoas passarem. Não sabia se voltava pelo beco ou se descia para a rua para dar a volta e entrar pela frente da casa dos parentes. Sentou. Alguém perguntou se ele estava bem. Disse que sim. Muitos anos depois lembrou dessa aventura. Era a vida dele.

Tim Maia Azul da Cor do Mar


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Eu só quero chocolate

Comi o chocolate, sim. E daí? Antes, escondido, comi mais. Saí sem avisar ninguém. A desculpa era despachar um presente na agência dos Correios. Tem uma padaria ali do lado. E o paraíso em forma de prateleira com muitos e muitos tipos. Agora a moda é branco e preto, que é marrom. Delícia. Gosto de amargo, meio-amargo. Só não desce os crocantes. Lembro sempre de caco de vidro. Comi e como, sim. E daí? Meu peso? Perto de duzentos. Não, não vou ao médico faz muito tempo. Nem lembro. Acho que era bebê. Depois, me revoltei. Queriam que eu parasse evitasse. Eu tinha cinco anos. Agora tenho doze. Guardo todas as embalagens. Com amor. Adoro as cores, os nomes. Às vezes abro o armário onde estão armazenadas - e fico cheirando. Encosto o rosto nelas. Prazer imenso que sinto. Claro que gosto mais de comer. Ninguém tem nada com isso. Só meu pai. Mas ele morreu e me deixou uma grande herança. Sim, ele morreu de comer chocolate. Eu vivo para honrar a sua memória.

outono

De Paulo Leminski

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar


Sandra de Sá Olhos Coloridos


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

amei em cheio

De Paulo Leminski

Amei em cheio
meio amei-o 
meio não amei-o.

Nalva Aguiar No dia em que saí de Casa


Olho partido

Caiu. Viajou metade do mundo desde uma ilha linda para, num descuido, despencar direto no piso de cerâmica. Olho Grego partido. Ele juntou as duas partes e viu que, bem colado, só apareceria uma reentrância. Lasquinha que sumiu. Alguém falou que isso dava azar. Por isso mesmo resolveu não colar. Ficou esperando. Azar como, se já era um azarado na vida? Talvez a coisa invertesse, no seu caso. O telefone tocou. Era um parente pedindo dinheiro emprestado. Pouca coisa. Ele não sabia dizer não. Enviou para a conta. No outro dia outro telefonema da mesma pessoa. Ia pagar e dar um presente. Muito dinheiro. Tinha ido ao cassino clandestino com o empréstimo. Quebrou a banca. O olho partido estava ali ao lado. Ele agradeceu. Jura que o viu piscar. Achou que estava delirando. A campainha toca. Achou que era mais mais novidade boa. Abriu a porta e só viu um vulto. Era a morte.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

existo

De Paulo Leminski

na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir





Yamandu Costa Carinhoso


Ser humano

Ele disse que só esperava uma coisa na vida: ser humano. Nem acabou de falar e o porrete lhe arrebentou todos os dentes da frente. Um deles entalou na garganta. Ele cuspiu os outros e engoliu junto com o sangue aquele um. Como iria explicar aos brutamontes que se revezavam na tortura o que sempre pensou? Bem que tentou, apesar de ser renegado pelo pai, pela mãe, pelas famílias desde que disse, aos 7 anos, que não acreditava no Deus deles, pois via muita miséria e falsidade no mundo. Foi para a rua e sofreu mais do que cão sarnento. Aguentou firme até o dia da primeira pedra fumada. Então veio o que estava represado. E ele matou exatamente aqueles que achava que eram felizes. Gostava de ver o sangue espirrando da carótida. Aprendeu vendo num filme de samurai. Foi preso depois de muitos assassinados. Confessou tudo antes de apanhar. Mas eles queriam bater para que contasse mais. Não tinha o que falar. Apenas que esperava ser humano. Não conseguiu.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Três minutos

Morreu por causa da piada. Nunca soube, claro. Levou os exames ao médico. Este olhou, balançou a cabeça negativamente e depois disse que o paciente tinha três minutos de vida. Claro que ele achou que era brincadeira, mesmo porque sabia que o doutor era um gozador de primeira. Resolveu entrar nela e perguntou o que poderia fazer em tão pouco tempo. Um miojo, respondeu o clínico geral. Ele então começou a rir, mesmo porque não conhecia tal piada. Só que não conseguia parar e o riso se transformou numa gargalhada. De repente, a dor aguda no peito. Empacotou ali mesmo, para espanto do médico. Enfarte fulminante. O velório foi concorrido. A viúva, que não sabia de nada, voltou para casa desconsolada. Não tinham filhos. Tarde da noite sentiu fome. Fez um miojo. Em menos de três minutos.

Miltinho e Ed Motta Ninguém é de Ninguém


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

imperativo da primavera

De Roberto Prado

humano, assuma o ar silvestre
época de amor conforme o calendário
flores façam tudo o que não digo
coração, aceite o eixo terrestre
ninho esta vida leve no bico
viva de brisa o papo sozinho
estações, aqueçam seu poeta
primaveras, passem com carinho

Toni Tornado eTrio Ternura na BR 3


Viagem

Tomou o chá. Saiu de dentro de um filtro de barro. Colocaram num copo americano. Tinha cor de tijolo. Sentiu ânsia. Não vomitou. Sentou à mesa. O mestre na cabeceira. O mais brasileiro dos estrangeiros. Fechou os olhos. Músicas eram nordestinas no ambiente. 2001 no espaço. O corpo viajando, sem o Expresso 222. De repente ele se olhou. Estava fora e se vendo. A som continuou. Não quis sair. Não teve medo. Chacrona. Ayuasca. União do Vegetal. Ginsberg com Hunter Thompson na veia na viagem a Las Vegas. Uma moto passou na rua. O líder ordenou que todos voltassem. O som parou. Aterrissamento. Ele nunca mais foi lá. Porque assim foi a revelação.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A lua no cinema

De Paulo Leminski

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!



JAMELÃO


Luz no túnel

Ouviu o apito do trem e junto veio uma mensagem. Claro que ele criou isso, mas era assim que sempre acontecia. Cismou de embarcar clandestinamente num cargueiro para descer a Serra do Mar durante a madruga sem lua. Subiu no vagão carregado de soja. Escolheu Piraquara para iniciar a aventura, porque já fora da grande cidade. Deitou e foi sacolejando escuridão adentro. Não teve medo. Teve horror. Entrou na Mata Atlântica e todos os bichos surgiram na sua mente. Da tarântula ao tigre albino que ali não existe. Num dos viadutos conseguiu ver o abismo. De repente o trem parou. Ouviu passos. Foi descoberto. Não imaginou como. Desceu antes de receber a ordem. O trem andou. Caminhou então sobre os dormentes. Entrou num túnel. Ficou ali sentado, com as costas numa das paredes. Era uma proteção. Adormeceu. O sol despontou lá longe na linha do mar. Acordou. Viu a luz no fim do túnel. A mente criou novamente. Era o seu reflexo. Começou a andar sobre um dos trilhos como o maior equilibrista que já existiu.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Desgovernada

De Helena Kolody

A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.

Paulinho Boca de Cantor Barra Lúcifer


Na tempestade

No escuro tudo ficou claro. A tempestade chegou, ele estava sozinho na casa de madeira na beira do lago. O vizinho mais próximo ficava a quilômetros de distância. Ele começou a pensar neste tipo de isolamento ao acompanhar os fragmentos da vida de seu autor predileto. Era, sim, uma opção para se livrar do incômodo da convivência. Bastava a dele com ele mesmo, dificílima. Conseguiu o que queria por acaso. Na verdade a choupana era de um amigo que não achava ninguém com tutano suficiente para ficar naquele fim do mundo tomando conta do lugar, cercado de mata virgem. Sim, havia o lago lindo e silencioso na frente. Enfim, era o que queria. Não levou livros, nem apetrechos para escrever. Conversava consigo mesmo, nadava, comia o suficiente, andava por trilhas, descobria pássaros, bichos... Até o dia da tempestade. Um raio cortou o céu. Uma árvore caiu. Ele se olhou no num pequeno espelho. Era a primeira vez depois de meses. Ou seriam anos? Não se reconheceu. O que refletia achou que era hora de voltar para a cidade. Ele abriu a porta e saiu e desapareceu na chuva.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Amenos

De Alessandro Wojciechowski, o Polaco da Barreirinha


Vida/ um ano a mais/ um ano a menos/ que diferença faz/ quando já somos/ mais ou menos/ mais suaves/ mais sábios/ mais fortes/ mais justos/ e de mais a mais/ cromossomos/ um ano a mais/ um ano a menos/ a vida é cais/ e lá vão nossos sonhos:/ barcos pequenos/ um ano a mais/ um ano a menos/ lendo os sinais/ nos esquecemos/ e quando nos lembramos/ é tarde demais/ um ano amais/ outro odiais/ um ano demais/ outro de menos/ um ano tanto fez/ outro tanto faz/ um ano como nunca ouve outro/ um ano sem pagar e só levando o troco/ um ano que vem/ um ano que vai/ e os mesmos ais/ mais amenos.

Trio Mocotó Pensando Nela


Roleta russa

Fizeram todos os cálculos, transmitiram as informações e o canhão foi disparado. Horas depois, quando o exercício tinha terminado, os que atiraram foram ao local onde os projéteis caíram e explodiram. Ele então sentiu, ali, no campo de treinamento, o horror de todas as guerras ao ver os estilhaços que voaram em todas as direções. Um pequena agulha da bala vararia qualquer crânio. Placas como as que encontrou, então, arrancariam a cabeça inteira. Depois soube que cada tiro custara uma fortuna aos cofres públicos. Desde então, toda vez que vê cenas de guerra na televisão, seu estômago se convulsiona e ele vai vomitar e chorar ao mesmo tempo no banheiro. Os discursos justificando a barbárie potencializam tal reação. Numa  das mais recentes, começou a entender um pouco os motivos que faziam o escritor Graham Greene praticar a roleta russa durante boa parte da vida sem explicação aparente e o horror que pirou o coronel Kurtz em Apocalypse Now.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Terror e horror

Entrou pelos fundos na Casa dos Mil Mortos. Era mais aterrorizante do que no filme de Robb Zombie. Tinha mais de mil defuntos, mas por fora era um cemitério que a fotografia poderia até adornar a parede de um hall de hotel de luxo. Muros imaculadamente brancos, árvores frondosas, placas nos gramados. Entrou ali porque queria levar o metal onde estavam os nomes. Noite de breu. Algumas luzes ao longe denunciavam uma pequena cidade na beira do morro. No alto, ele sabia, havia um Cristo que poderia estar vendo a profanação, mas ele não via o Cristo - e isso era o que importava. Na primeira placa que tirou, dois olhos azuis o fitaram. Ele não conseguiu gritar, mas correu como se estivesse sendo perseguido pelo cão por dentro do mato. Sentiu terror. Sentiu horror. E convenceu-se que eles são de morte.

Tipinha

De Dalton Trevisan

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:

— Pô, você me salvou a vida, cara!

Miltinho Laranja Madura


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dois

De Sergio Rubens Sossélla

um passarinho
e uma borboleta
?o que eles são?
dois vôos.

Adriana Calcanhoto Mentiras


Óculos

O óculos era dobrável. Escuro. Achou-o por acaso num canteiro de avenida. Não viu ninguém por perto. Pegou-o, levou para casa, lavou, desinfetou e colocou no rosto na primeira manhã de sol. Nunca mais o tirou, nem para dormir. Se quisesse, como tentou, não conseguiria. Mas, para que tentar? Ao colocar aquela armação com lentes negras, ele passou a enxergar o que jamais tinha prestado atenção. Os olhos das pessoas, seja conhecidas ou não. Antes, tinha medo.
Agora, não precisava, porque ninguém via os seus. Mas ao olhar os outros ele via além, ele conseguia distinguir entre os bons e maus. Os maus, descobriu logo, não revelavam o interior da alma. Os outros, sim. Como? Pelo brilho. Os olhos destes pareciam sorrir, se é que é possível. Ele também começou a ver os detalhes de tudo quanto a natureza oferecia, mesmo numa cidade grande. Por isso deu de cantar feliz por onde andava. Até o dia que alguém achou que ele estava de gozação. Um taco de beisebol apareceu, a pancada foi forte o suficiente para quebrar o óculos. Quando acordou, estava num quarto de hospital. Via tudo cinza. Saiu dali do mesmo jeito. Perdeu a vontade de viver. Mas segurou o tranco. Passa o dia procurando outro óculos igual. Acham que pirou.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

pedra que voa

De Paulo Leminski

Ai daqueles

que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa

Araci de Almeida Seu Riso de Criança


Revolução animal

Foi tudo muito rápido. Um cavalo relinchou para o outro e começou a revolução nas baias. Ali estavam cerca de cem animais tratados com a melhor ração e atendimento veterinário de primeira categoria. O problema, segundo os cavalos, era o dono deles. Um ditador de república de bananas que chegara ao poder pelo voto dos miseráveis, a quem sempre enganou como se fosse o novo messias, e nunca mais saiu porque sua guarda pretoriana era uma das mais sanguinárias do planeta. Os Tonton Macoute do Haiti perto deles eram coroinhas com asas de anjo. Os cavalos traçaram os planos durante as madrugadas. De baia para baia a estratégia foi passada e repassada. Até o dia em que o ditador resolveu cavalgar bem cedinho. O animal escolhido sabia o que fazer, assim como qualquer um que tivesse a honra daquela escolha. Longe da vista de todos, derrubou o líder do povo e o pisoteou até que o corpo se transformasse numa pasta de sangue, ossos e músculos misturados. Então relinchou e empinou as patas da frente - em comemoração.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

no jardim

De Paulo Leminski

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga


Marisa Monte O que Me Importa


Barriga

Comia terra, tijolo, o que desse vontade. Era uma criança com cabeça grande, pernas finas e, obviamente, uma barriga que ia aumentando na medida em que o leque de alimentos não convencionais crescia. Um dia alguém fez uma foto dele. Pés descalços, caça curta, camisa de colarinho branca que só fechava no primeiro botão, perto do gogó. O resto abria espaço, feito uma cortina de teatro, para o espetáculo daquele bucho enorme ornamentado pelo umbigo que parecia pronto a explodir com o resto. Depositário de lombrigas, tomou remédio e melhorou. Então mostraram-lhe o retrato. Morreu de vergonha. Tirou-a da mão de quem fez a maldade e picotou-a ao máximo. Cinquenta anos depois, se arrependeu do gesto. Queria ver a imagem. Para comparar com o barrigão de hoje que se espalha feito uma ameba de banha.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O que quer dizer

De Paulo Leminski

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

Taiguara Universo no Teu Corpo


Crianças

O filho ligou e pediu o cartão de crédito do pai. Queria comprar algo no exterior - e estava a zero. O pai quis saber qual seria o tamanho do estrago. Cinquenta dólares. Autorizou e adiantou que era presente de aniversário, pois sabia que não seria reembolsado. O filho concordou e apareceu para entrar no site, clicar no carrinho e jogar o produto dentro. Pouco antes do processo, o pai perguntou o que ele iria comprar. Um pijama, respondeu o filho. O pai deu a dica: na Casa Edith o filho poderia encontrar uns bem bacanas, tradicionais, do tempo dos shows ao vivo na Rádio Clube que ficava ali perto. O filho disse era era um pijama da turma do Star Trek, vulgo Jornada nas Estrelas. O pai abriu um sorriso. Viu que ali estava um herdeiro nato. O filho tem quase quarenta anos. O pai caminha célere para os setenta. Este então mostrou o avião do Barão Vermelho que acabara de comprar escondido da mulher. Ao filho revelou que, quando ela descobrir, vai dizer que a janela do escritório estava aberta e a aeronave de três asas entrou e pousou - e que ele só viu depois. Pai e filho se abraçaram e sorriram como crianças que se amam.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

buraco

De Paulo Leminski

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir


A Cor do Som Beleza Pura


Candidato a que?

Candidato a que, mesmo? O outro não podia responder. A ponta do cano do Colt Python fazia cócegas na úvula da garganta, mai conhecida pelo povão como campainha. O dedo estava no gatilho e o cão puxado para trás. O candidato podia ver a ponta de algumas balas - tinham uma cruz, mas não eram de prata. Pensou nos filhos. Lembrou que há muito tempo não fazia isso. Sua vida era inteiramente dedicada à política parlamentar. Foi assim que ganhou fama como articulador de primeira, capaz de eleger prefeitos, governadores só com uma aceno de mão - enquanto a outra esperava para o pagamento gordo durante todo o mandato. Os filhos estavam fora do país, estudando para manter o patrimônio amealhado nos acordos que os que o elegiam nunca souberam. Era amigo de todos os empreiteiros e só conhecia a periferia porque obrigado até a comer sarapatel e quiabo gosmento na busca de votos. Candidato a que, mesmo? Ouviu de novo e jamais imaginou que, numa sociedade democrática iria passar por uma situação como aquela. Não conhecia o homem que empunhava aquela arma com uma segurança impressionante. Piscou uma, duas vezes. O cano saiu da boca e ele disse em meio a um suspiro longo: "A nada!". O outro guardou a arma e foi em busca do próximo. O que deixou para trás convocou entrevista coletiva para o dia seguinte. Anunciou que, por motivos particulares, estava desistindo da candidatura e da longa carreira política. Nada mais disse e não permitiu perguntas. Sumiu da vida pública. Hoje gosta de ficar o dia todo vestido com um pijama listrado. Com problema sério na próstata, a calça sempre está molhada/manchada.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Rita Lee Agora Só Falta Você


Cavalar

Os cavalos começaram a entrar na vida dele quando ainda era bebê. Olhava do berço a imagem do anjo protetor e fazia associação com o trotar do cavalo da carroça que distribuía leite em garrafa no bairro. Essas associações malucas continuaram durante toda a vida dele. Ninguém se importava, pois era era um gênio para o resto das coisas, inclusive o ensino. Foi a Harvard e voltou um mês depois dizendo que aquilo parecia colégio de subúrbio. Sim, tinha espírito de grandeza. O anjo não o acompanhava mais, porque ele disse um dia que tinha matado Deus – e ficava puto quando alguém dava este crédito a Nietzsche. Resolveu se isolar. Comprou uma fazenda no interior do Paraná com o dinheiro que ganhou em jogos de azar. Azar dos que ele limpou, porque descobriu uma fórmulas de burlar qualquer parada no carteado, porrinha ou jogo de dados. Os cavalos estavam lá, no pasto. Resolveu comer junto. Alfafa e grama. No segundo dia já estava acostumado ao gosto. Sozinho, com vizinhos a quilômetros de distância, queimou as roupas e passou a andar nu e de quatro. Um dia tentou seduzir uma égua. Levou um coice. Morreu com uma marca de ferradura no meio do peito. Antes de apagar definitivamente, ouviu um relincho – e viu novamente o anjo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mentira

De Paulo Leminski

Essa idéia ninguém me tira 
matéria é mentira.

Clementina de Jesus Marinheiro Só


Estrela

A oportunidade chegou! Ele pensou assim ao receber a notícia da viúva de um ex-delegado de polícia que tinha morrido velhinho. Havia uma arma na casa - e ela queria se desfazer daquilo porque morria de medo. Era um revólver, foi informado. Ele pensou num Smith&Wesson ou Colt calibre 45. Se fosse trezoitão serviria também. Foi até a casa, enorme, vazia, só com a velhinha ali dentro e perguntou onde estava o trabuco. Ela o levou até o quarto, pediu que abrisse o maleiro e informou que ele estava ali escondido. Ele, coração batendo, enfiou a mão e tateou. Encontrou um pacote plástico, mas pelo tamanho... Tirou e viu uma cartucheira e abrigando um trequinho de cano tão fino e cabo tão pequeno que teve  vontade de chorar. Duas balinhas estavam acomodadas na cartucheira. Chegavam a ser ridículas para alguém que, no passado, até de metralhadora ponto cinquenta atirou. Ele devolveu para ela e disse que preferia que fosse um revólver de cabo vermelho da brinquedos Estrela. Foi embora e adiou o projeto de limpeza eleitoral. Com aquele 22 velho ele iria é causar risos para quem o apontasse. E ele estava cansado de ser palhaço de poderosos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Mosca

De Dalton Trevisan

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

Jerry Adriani Querida


Em miúdos

Viu pela primeira vez quando era criança. Matadouro. O bicho entrava no corredor como se do outro lado estivesse o pasto mais verde e tenro do Planeta. De repente a marreta descia bem no meio da testa e tudo estava acabado. Mais um pouco ele estava esquartejado e pendurado em ganchos nos açougues da cidade de porte médio. A cena foi tão forte que produziu o seguinte: alguns anos depois ele empunhava aquela mesma marreta - e o som da pancada na testa soava como música para ele. Era um especialista renomado, porque não errava uma. Mas não comia carne. Ninguém perguntava. Num dia de folga encontrou a amada num parque de diversões. Ficaram encantados um pelo outro. Na primeira oportunidade ele levou-a para conhecer a sua profissão. Ela desmaiou antes de a marreta atingir o meio dos olhos do bicho. Quando acordou, ele perguntou o que tinha acontecido. Ela: "Trocando em miúdos, coração, por favor".

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A laço

Não me esforcei, está certo. O laçador também não. Agora estou aqui preso com meus companheiros de rua. Alguns choram. Eu, não. Não aguentava mais aquela vida vadia, sem casa, tendo de procurar comida todo dia e sem lugar definido para dormir. Não há mais seres humanos na Terra! Soube de histórias passadas onde os da minha raça sem raça recebiam comida boa das almas caridosas. Agora só vejo esse povo falando no celular ou digitando no aparelhinho sem se importar com mais nada. Cansei. Quero conferir se o final é aquele mesmo, o tradicional. Não tive coragem de me suicidar no trânsito. Um dia fiquei no meio fio observando o tráfego. Buscava coragem para fechar os olhos e atravessar a via rápida. Aí veio um mané e me deu um bico nas costelas. Perdi o fôlego. Senão ia arrancar um pedaço da panturrilha dele. Agora estou aqui, trafegando na carrocinha. Se eu virar sabão, pelo menos que seja vendido em supermercado onde as empregadas compram para as casas de madame. O veículo não é confortável, mas penso que, se forçar a imaginação, ela se transforma numa carruagem. A da última viagem. 

Raimundos A Mais Pedida


Balada do Inquilino

De Miguel Sanche Neto

Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.

Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.

Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.

Um dia nos livraremos do aluguel.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

oração a são nunca

De Roberto Prado

dei duro e eros me abriu seu coração
não preciso nem de boca pra baco me estender o garrafão
marte me deu uma mão
mamom perguntou quanto era e puxou o talão
um belo dia tive de dizer não
mas ainda amo essa humanidade marrom
fiel a eros, baco, marte e mamom

Angela Maria Cinderela


Noite no rio da floresta

A viagem foi longa. De São Paulo a Cuiabá em ônibus toco duro. De lá, carona em caminhão que atolou na estrada para Porto Velho. Uma semana de lama. Depois, barquinhos pelo Rio Madeira para chegar a Manaus, com paradas em vilarejos onde padre só era visto uma vez por ano - e todos pareciam liberados para pecar enquanto aguardavam o homem de batina. Aí ele entrou no barco com a mochila nas costas e um saco de dormir e ficou oito dias ali dentro, na imensidão do rio no meio da floresta. Esperava algo, que não sabia o que era. Apenas tinha uma certeza: sua alma estava nas trevas e ele carregava o peso do mundo. Nem o transatlântico com luzes de Felini no meio da noite conseguiu levar para longe aquilo que o oprimia. Até que, de repente, numa virada de rosto, ele viu a lua clara na noite escura. Era o que procurava sua alma obscura.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Atrás das portas

De Dalton Trevisan

O que não me contam eu escuto atrás das portas.

Maria Alcina Fio Maravilha


Pilhado

Não lembra quando foi a primeira, mas depois de um mês estava engolindo pilhas como se fossem pastilhas Valda. Pode ter sido uma coincidência, mas quando a primeira caiu no estômago ele achou que sentiu uma melhora significativa na vida - que era medíocre até então. Começou a ler os clássicos e bula de remédio. Passou a correr todo dia e chegou a fazer cinco quilômetros sem colocar os bofes pra fora. Banho, tomava três. Apareceu uma mulher que dizia estar doidinha para fazer sexo com ele, coisa que não acontecia desde que foi levado pelo pai para perder a virgindade num puteiro. E a transa dos dois parecia coisa de cinema. A pilha! Ele passou a engolir duas por dia. Certo, era do tamanho palito, mas os resultados começaram a fazê-lo sonhar em mandar para dentro uma do tamanho grande - e de longuíssima duração. Foi o que fez depois de passar um final de semana como se estivesse no paraíso. Os socorristas chegaram o mais rápido possível. Ele não morreu. Mas a pilha do gato ficou entalada no meio da garganta.A vida dele ficou pior do que era antes de engolir a primeira.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Rogério Skylab Tem Cigarro Aí?


Cassetete

Não foi como no filme. Ele estava de bem com a vida sob o céu azul e sol ameno. Mas ao olhar o cassetete que comprara numa feira de antiguidades... teve um troço. Pela primeira vez olhou a etiqueta colada e lá estava escrito que era inglês e do início do século passado. A primeira imagem que veio foi a dos policiais que perseguiam Carlitos. Sim, ele era cinéfilo e tinha um arquivo impressionante de cenas na memória. Aí vieram cenas de pancadaria pura em cima de grevistas, trabalhadores de minas de carvão, estudantes querendo mudar o mundo, etc. Ele empunhou aquele pedaço de madeira e as primeiras vítimas foram os santos e anjos que mantinha num pequeno altar. Depois espatifou a tela do computador que estava ligado, quebrou todos os televisores e espelhos da casa e saiu para rua com olhar esbugalhado - em busca do que não sabia. Não atacou ninguém, mesmo porque as pessoas ficavam bem distantes dele. Foi então que viu um casal de canários da terra ciscando num jardim. Parou e ficou olhando por um longo tempo. Depois sentou no meio-fio e começou a chorar e soluçar feito menino perdido no oco do mundo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Moacir Santos Nanã


Antes da curva

Não foi uma briga qualquer. Era definitiva. Ele bateu a porta com tanta força que a maçaneta voou. Mais um casamento no ralo. Teve vontade de socar a parede, mas se contentou em espatifar o aquário no chão. Depois pegou o peixinho de rabo vermelho e colocou num copo com água filtrada. Estava melhorando. No primeiro casamento deu um tiro na mulher e acertou um filtro. Ainda bem. Foi o primeiro. O que acabara agora era o quinto. Pegou a ruazinha e cismou de andar até não dar mais. Embaixo no viaduto na saída da cidadezinha entrou no bar. Pediu a “poca-ôio”, uma mistura de álcool com metanol. Tomou tudo de um gole. Sentiu tudo queimar. Do céu da boca às paredes do estrômbo, como falava. Andou um pouco e começou a incorporar o inferno na mente. Mirou a estrada e viu uma curva. Parou, sentou, se encostou numa cerca e disse: "O certo, na curva, se perde. O torto, se deita. Nem certo, nem torto, sigo reto em linhas tortas". Não sabia de onde vinha aquilo. Nem ficou sabendo. Caiu para o lado e só foi acordar porque levaram-no de camburão para casa. Ele olhou a porta. A maçaneta estava lá. Quando entrou na sala, viu o peixinho no copo. No outro dia comprou um aquário maior que o antigo