segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

GATO NATO

De  antonio thadeu wojciechowski


gato, que pulo é esse que extrapola?
se não tivesse visto estaria cego
mas vi um dorso no ar entrar de sola
e se agarrar como à madeira o prego
tem flexibilidade de uma bola?
sai pra lá, satanás, que eu te arrenego!
de mansinho, a mágica também rola
e eu cuido estar pegando-o  e não pego
toda a mística de sua alquimia
me assusta pela indiferença intensa
que só sinto ao ouvir enquanto mia
no que será que ele tanto pensa?
ao me ver – como um rei, atende o súdito:
sua resposta é sempre um gesto súbito

Milton Banana Trio O Barquinho


Amigos mortos

Não acontecia sempre, mas ele via. Ele via seus mortos queridos em corpos de outras pessoas depois que os amigos partiram para sempre. Via também em nuvens, como naquele dia em que estava indo para a praia e parou no acostamento para conversar com o Julio. Ultimamente tem visto muito o Pedro. Agora mesmo, quando saiu do banco, onde foi pegar um dinheiro para pagar a diarista, lá vinha o Pedro do mesmo jeito do Pedro, só que num corpo mais mirrado e parecendo falar com as pedras das calçadas. Era ele, teve certeza. Passou perto, sentiu a força estranha que no passado os uniu em amizade, gosto pelas mesmas mulheres, música e literatura. Ficou feliz por ter visto bem de perto. Da outra vez ele estava muito longe e não deu para olhar direito. Então, chegou em casa radiante por saber que o Pedro está muito bem – assim como o neto do Pedro, que também é Pedro, mas não se parece nada com o avô.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Marinês Peba na Pimenta


Doença noticiosa

Não sabe como começou a ficar doente. Não sentia dor, mas a cada dia tudo ia perdendo a cor, interesse, brilho. Foi a todos os médicos possíveis e fez os exames. Nada! Psiquiatras, psicólogos, pais de santo, padres, pastores, ninguém conseguia identificar a origem daquilo. Um dia, descobriu. Foi por acaso. Tinha o costume de acompanhar o noticiário do Brasil e do mundo nos jornais impressos que assinava, nos sites, nos informativos de rádios e televisões. Por esquecimento, deixou de ler as páginas que chegavam de madrugada no jardim acondicionadas num saco plástico transparente. Quando se deu conta, estava mais esperto. Não ligou o computador, manteve o rádio mudo e a televisão como um quadro negro na parede da sala – para testar. Se sentiu tão bem, tão vivo, tão radiante, que foi dar uma volta na quadra e viu o quanto estavam belos os jardins dos vizinhos e as árvores das ruas. Sorriu e decidiu que nunca mais iria acompanhar as desgraças do mundo em forma de notícias. Só não contava com o telefone. No dia seguinte, logo cedo, um amigo ligou: “Viu que foi preso?”

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

verde árvore caída

De Paulo Leminski

verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida

Sergio Murilo Broto Legal


A voz

Foi um técnico em computação que deu para ele o fone de ouvido zero bala. Dentro da caixa. Coisa simples, falou o sabichão, depois de limpar a máquina e lhe cobrar uma dinheirama pela visita. Ele esperou o malaco sair, enfiou os plugs nos buracos e, quando quis ouvir Vicente Celestino cantando Noite Cheia de Estrelas e Silvio Caldas interpretando Velho Realejo, surgiu uma voz que era mais doce do que a da Iris Letieri nos aeroportos. Não distinguiu as palavras saíam da boca de uma mulher ou homem - e isso não importava. É que eram ordens: para que procurasse certos endereços na internet, se comunicasse com algumas pessoas, enfim, eram determinações que ele obedecia mesmo sem querer, porque seus dedos trabalhavam automaticamente a Remington, como ele chamava o seu PC. Não havia nenhuma conexão entre tudo o que via, ouvia e escrevia. Até o dia em que a voz ficou um tempo sem falar através dos fones. Ele se preocupou. Estava acostumado. Então, depois de um longo silêncio, ouviu:"É isso" - e nunca mais a escutou.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A procura

Deu um treco nele. Na verdade, o treco foi aparecendo lentamente, como em ondas de flashes de lembranças do tempo em que era adolescente e não sabia qual o rumo na vida ia tomar. Foi nessa época que, forçado pelo pai que sonhava em ver a carteira de trabalho dele assinada, foi a uma dessas agências oficiais de emprego. Preencheu uma ficha enorme onde a única experiência que colocou foi a de ajudante num boteco de bairro, onde servia mais cachaça do que refrigerante. Claro que nunca foi chamado para nada, mas aquilo começou a tomar conta dele cinquenta anos depois. A sensação da inutilidade, da névoa a impedir que visse ou sentisse alguma coisa que o levasse a uma profissão ou trabalho qualquer. E o lugar colaborava - era estranho, um prédio velho com funcionários que pareciam múmias pedindo descanso. Depois disso ele se perdeu na vida, mas encontrou um caminho profissional que nunca imaginou - e só soube que era aquilo mesmo depois de velho, coisa que hoje o faz rir. Mas aquela sensação do começo, da procura pelo que não sabia... ainda dói muito no seu peito.

Ó, céus

De Roberto Prado


nenhum pio
nada de nuvens
não há azul

ó, céus!, que são tantos,
que cada um tem o seu
e ainda tem quem não veja
quando a gente cai do céu

Sandra de Sá Olhos Coloridos


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Arco-iris

De Helena Kolody

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino 
que há pouco chorou.

Na frente do cemitério

O soldado enfiou o cano da metralhadora pela janela do carro e a ponta ficou perto da têmpora dele. Minutos antes, no meio da madrugada, tinha feito uma lambança com o carro onde aprendia a dirigir. Quase bateu de frente num táxi - que teve de subir na calçada em frente a um cemitério. Ele pisou fundo porque sabia que o taxista poderia vir atrás. A mulher que estava ao lado apoiou. Não contavam com a barca negra lotada de meganhas vestidos de preto que estava logo atrás e imediatamente ligou a sirene. Ele parou para não ser metralhado. Não tinha habilitação, dirigia de sandália, mas também não bebia. Pediu para o soldado chamar o comandante da tropa. Veio o sargento. Ele mostrou uma carteirinha de oficial. De verdade. O sargento bateu continência, mas recomendou à mocinha que assumisse o volante. Ela fez isso. Mais tarde, já em casa ele tirou de dentro da cueca uma pacoteira de cannabis que carregava por ter comprado antes da aula - e foi dormir aliviado. Naquela noite ele não fumou.

Bebel Gilberto Samba da Benção


sábado, 22 de novembro de 2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Anúncio

De Dalton Trevisan 


a cigarra anuncia

o incêndio de uma rosa

vermelhíssima

Gang 90 Nosso Louco Amor


LSD

Nunca lhe saiu da cabeça o sonho da geração que se dizia de paz e amor. Um sonho não concretizado porque os que estavam prontos para executar o projeto foram presos. Eles queriam que toda uma cidade viajasse com eles. Viagem de LSD, que seria colocado em grande quantidade no reservatório de água que abastecia São Francisco, na Califórnia. A única Califórnia que ele conhecia era uma vila na Zona Leste de São Paulo. Mas a droga sintética... ah, essa ele conhecia sim. Mas nunca tinha experimentado - porque tinha medo de alucinógenos. Contradição? Não pensava nisso. Lembrava apenas da história dos anos 60 e, por isso, começou a juntar pontos, micropontos e selos da droga sintética. Quando achou que tinha quantidade suficiente de pirar toda a cidade careta, foi ao reservatório. No meio de uma madrugada fria. Antes de jogar a droga, levou um tiro na nuca. Caiu na água. O LSD se espalhou. Nos dias seguintes não houve nenhuma alteração no comportamento dos moradores da metrópole. Eles já estavam alucinados há muito tempo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Penúltima

De Marcos Prado
    Como posso agora estar alegre?
    era de se esperar que eu desesperasse
    talvez mais tarde eu desintegre
    entre o penúltimo gole do último porre
    e leve ao meu lado os que me seguem sim,
    perdi a razão do que eu achava e do que eu acho,
    mas aprendi que o céu é mais embaixo
    ainda não sei o quanto dei
    a tantas quantas amei
    ainda não sei ao certo se eu errei 

Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo e Cauby Peixoto e Sangrando


Herói

Fez esforço para colocar o nome no diminutivo porque sabia que seria quase um anão. Os pais eram assim. O que não sabia é que também teria um caráter de rodapé, mesmo porque era inseguro e achava que se prestando a bandalheiras poderia ganhar respeito. Antes se enveredou pelos caminhos da política. Aproveitou a ingenuidade aloprada para tentar derrubar o regime dos gorilas. Nem chegou a ser preso. Foi logo dedurar os companheiros que falavam em camponeses ao tratar de seres perdidos que viviam no mato. Não sofreu ao saber das torturas e dos assassinatos nos porões. Estava já no estágio de rato de esgoto - por isso usava salto alto para crescer alguns centímetros. O tempo passou, ele foi se esgueirando pela vida, enganando aqui e ali até se tornar funcionário público. Vagabundo, claro, mas dedicado. Ia todo dia à repartição, sentava a bunda na cadeira, não fazia nada e voltava para casa a fim de tomar sopa de lata, que gostava fria. Durante o expediente reclamava do governo da hora e do salário. Contava os dias para aposentadoria. Ela chegou. No mesmo dia ele esticou as canelas. Foi saudado como herói da resistência.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Se

De Paulo Leminski

Se 
nem 
for 
terra 
se 
trans 
for 
mar.

Paulinho Nogueira Samba em Prelúdio


Dinheiro

Uma das melhores cenas de filme que tinha visto foi na abertura de um longa japonês, em preto e branco, em que durante muitos minutos a telona se enchia com um jovem dirigindo um carro e jogando dinheiro pela janela ao sabor do vento. Ali se resumia uma das facetas do caráter do personagem. Talvez aquilo tenha penetrado na sua alma de adolescente, porque ele jamais ligou para o vil metal, o papel fedido, como gostava de chamar. Sim, ganhava o suficiente, mas tirando os livros que comprava e uns panos para cobrir o corpo, distribuía o resto entre quem precisava da família ou alguns desconhecidos que encontrava na rua ou em shoppings e achava que necessitavam muito mais que ele. Uns se espantavam, outros ficavam mudos, poucos agradeciam - mas ele não ligava para isso. Um dia foi surpreendido com a visita de um estranho. Trazia uma bolsa enorme cheia de notas de cem dólares. Contou que sabia o que ele fazia e queria ajudar na distribuição, porque tinha muito além da conta. Era um miliardário, herdeiro cuja fortuna não parava de crescer a cada dia. Ele agradeceu, se despediu, pegou aquela dinheirama e foi para o alto de um edifício na rua mais movimentada da cidade. Subiu, abriu a sacola e, ao olhar o rosto de Benjamin Franklin, jura que este piscou para ele. Fechou a bolsa. Alugou um jatinho e foi para o Oeste do México, mais precisamente para San Andrés, naquela ponta saliente do mapa. Ali não deu um puto de um tostão para ninguém - e se transformou num avarento feliz.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Navegante

De Helena Kolody

Navegou
no veleiro dos livros.

Desembarcou
e conferiu.

E o mundo que viu
não era o que imaginou.

Carlos Dafé Pra que vou recordar o que Chorei


Catarina

Acordou com saudade da Catarina. Foi seu primeiro carro. Ele batizou assim porque, para ele, era muito parecida com uma carroça. A Catarina era uma perua Variant de faróis retangulares. Comprou da sogra e ficou dirigindo-a por cinco anos sem ter habilitação. Foi com ela que passou o maior sufoco na estrada ao ver parar de funcionar o limpador de para-brisa numa noite de muita chuva - e na subida de uma longa e perigosa serra. A sorte é que era final de férias e o trânsito intenso. Guiava-se pelas lanternas traseiras dos carros. Não podia parar. O filho pequeno estava adoentado e precisava chegar em casa. Chegou. São e salvo. A Catarina também. Nunca bateu em outro carro. Só num poste. Foi no tempo em que ele passou a se afundar em álcool. Destruiu o carro totalmente. Ela foi para o ferro velho. Ele acompanhou durante anos o desmonte do que sobrou. Sempre fez um sinal da cruz ao vê-la. Hoje anda de carrão com alta tecnologia embarcada - e morre de saudade dela, a Catarina querida. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Parte de Manoel

Ele leu e se sentiu o prego usado, enferrujado e torto mais importante do mundo. Ele leu e agora era o pente jogado num terreno baldio e onde bichos passavam sem ao menos cheirá-lo. Ele leu e era pedra falante, era olho globo terrestre de bicho, era o canto a proteger a mata, o rio a invadir silêncios, o menino a entender o andarilho louco, o sapato a caminhar sozinho na floresta. Ele leu porque aquela poesia um dia vai chegar a todas as almas, porque era uma invenção da invenção do invento. Ele leu porque aquilo lhe deu a exata dimensão do nada que todos somos – daí as palavras para dar uma forma a tudo. Ele leu porque o poeta entrou pelo outro lado e desinventou – para tirar essa armadura. Ele leu e se fez parte.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

feliz

De Paulo Leminski

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

Luis Vieira Prelúdio para Ninar Gente Grande


Influenciável

Era influenciável, como um dia ouviu alguém sentenciar. Era mesmo. Ficou com aquilo como uma sombra por dentro e por fora a lhe seguir na caminhada. Lia muito e cada herói escritor que lhe abria as portas através de uma biografia, era como se ele sofresse tal qual. Por isso ao entrar na vida de Chandler, Ray, para os íntimos, viu o pai alcoólatra esgarçando o tecido da convivência com a mãe, as cenas de violência, as mudanças de estado, a ida para a Irlanda, depois para a Inglaterra, os estudos dos clássicos. E tudo isso sob o olhar de Marlowe, o detetive que o escritor criaria anos mais tarde e se tornaria Humprey Bogart para sempre. O álcool também entrou na vida dele, como a do seu ídolo. O álcool também entrou na vida do pai dele, como no pai do ídolo. Só não houve a violência, não houve Estados Unidos, Europa, colégios onde o mundo se abria. Era brasileiro. Misturou tudo, influenciável que era, e se salvou, criando o próprio personagem.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MPB 4 A LUA


Comum

A poesia demorou a fazer sentido para ele. Ok, podem chamar de embotado, mas foi assim mesmo que aconteceu. Começou a ler tarde, porque traumatizado na escola com a imposição da Pata da Gazela. Aquilo ficou atravessado; e a coisa piorou com Meu Pé de Laranja Lima. Pior era ter de escrever sobre o livro. Algo como o famoso relato das férias em composição pedida pela senhora de cabelos brancos, coque e um colar de pérolas falsas. Ele que nunca viajava, passeava, porque a família era pobre demais. Quando pode se livrar, sentia uma coisa ruim ao ver um livro - e se afastava. Até o dia em que não se lembra mais como aconteceu - e a partir daí mergulhou em todos os romances, menos os dos mestres, os clássicos, porque passou a dizer que estava se preparando para eles. A poesia ficava de lado, mas um dia que fez sentido - ou melhor, ele sentiu. Quando? Importa? Foi o deslumbramento tomando conta. E aí ficou parecendo o personagem do livro de Stephen King, que virou filme, para variar, aquele do negão que sente todas as dores do mundo e consegue aspirar com a boca a doença da mulher do diretor da prisão onde estava enjaulado. Queria todas as poesias do mundo, para que mergulhassem nele - inclusive as concretas. Assim, descobriu que tinha limpado parte dos entulhos da alma. E também veio a certeza de que não poderia cometer poesia - por ser humano comum.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Caçulinha


Repara

De Paulo Leminski

Repara bem no que não digo.


Canção de ninar

A concha gigante estava em cima do frigobar. Na frente dela, uma folhinha Seicho-no-Ie dizia que salvando o próximo, com certeza você é o maior beneficiado. Ele abriu a porta e viu a garrafa de vodca. Abriu a tampa e virou num gole que demorou uma eternidade. Estava sozinho no mundo e tinha salvo uma infinidade de pessoas que cruzaram seu caminho. Ele mesmo… Perdeu tudo, ou seja, perdeu a capacidade de amar o próximo – por isso arrancou Cristo da cruz e o jogou num rio/esgoto depois que lhe tiraram um filho estupidamente. Nem bala perdida. Tiro por vingança. Ele não sabe de que, porque jamais cometera algo pesado contra alguém. O filho era um anjo em forma de gente. Único, fruto de uma noite louca num passado distante onde ele e a mãe, que sumiu no mundo, beberam e se encontraram no entorpecimento. Por isso voltou a se embriagar por não ter coragem de se matar, apesar de tentar. Pegou a concha. Colou o ouvido. Ouviu uma canção de ninar. Levou-a para a cama. Dormiu com a música. Era o menino cantando.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O inferno

O inferno somos nós, não os outros. Cada um tem o seu, particular, porque o demônio toma conta e não há água benta no mundo, ou benção do Papa, ou oração ao Menino Jesus de Praga, ou confissão e comunhão com meia dúzia de hóstias, ou descarrego no terreiro, ou a mão na cabeça do pastor evangélico, enfim, não há nada que o tire quando se instala. Ele pensou em tudo isso naquele dia da semana em que quase tudo deu errado, a começar pela quina pontiaguda da cama que atacou exatamente o ponto onde reconstruiu o tendão que liga os músculos da coxa ao joelho direito. Foi assim que saiu do mundo aparentemente normal que vivia - e foi se arrastando pelas labaredas do dia, onde os outros sobreviviam como sempre - mas ele, não. Porque cada palavra, cada olhar, cada interpretação que dava ao que entrava no ser era pesada demais. Até o cachorro da vizinha, para ele, merecia uma bola de carne com veneno para parar com seu latido esganiçado antes de o galo cantar, galo este que não existia na vizinhança, mas ele jura que também ouviu um, doido, às três da manhã. Depois teve de entrar em engarrafamentos, viu a temperatura da água do carro velho subir a ponto de explodir tudo... Pensou que seria melhor assim, se fosse um carro-bomba, para sair daquilo e ir direto para o... Enfrentou a burocracia oficial em busca de documentos perdidos, notícias dos casamentos anteriores, um parente no hospital, olha ali o seu guarda te multando. À noite, tomou um banho quente e quase virou um animal sem pelo nenhum porque o aquecedor despirocou e um jato fervente lhe caiu nas costas. Foi dormir. Sonhou que teve um sonho. Acordou de volta ao inferno dos outros. Não o seu. Passou rente à quina da cama. Jura que viu ela mandar um beijinho para seu joelho.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Cadáveres

"Não sei como vocês conseguem comer cadáveres". Ele ouviu isso de um menino uruguaio que estava internado na clínica psiquiátrica. Todos ali, de alguma forma, tinham surtado no mundo normal. Ele mesmo tinha chegado ali num charuto, ou seja, enrolado e imobilizado em faixas, porque chegou em casa de madrugada e destruiu com um machado a tv que estava ligada na sala. A mulher pensou que iria assassinar a família toda - por isso pegou os filhos e saiu correndo para a rua e pediu socorro. Não adiantou ele explicar que não era nada daquilo, que seu ódio era contra a televisão e a merda que espalhava. Foi contido. Não resistiu. Doparam-no e ele ficou do jeito que era: calmo. Comer cadáveres! O gringo falou aquilo no dia em que, raro, serviram bife para os pacientes. Alguém então disse que aquilo era de soja. O menino ficou mais possesso. Invadiu a cozinha, pegou uma faca, cortou a palma de uma mão e começou a beber o próprio sangue. Os olhos deles estavam esbugalhados. Eram bonitos. Verdes. Um dia os dois saíram daquela prisão de muros altos. O uruguaio sumiu no mapa. Ele ficou por aí, sempre lembrando dos cadáveres, mas pedindo carne mal passada para comer.

Martinha Eu te amo mesmo assim


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

tudo

De Paulo Leminski

tudo dito,
nada feito,
fito e deito

Paulo Diniz e Maxixe Machine Um Chopp Pra Distrair


Gourmet

A onda gourmet chegou à casa dele. Uma filha disse que iria preparar um sanduíche especial. Ele ficou na dele, esperando do quarto o chamamento para a degustação. O espaço gourmet era uma cozinha cujo fogão estava prestes a matar os ocupantes da casa. O vazamento de gás era terrível. Os armários se esfarelavam. O microondas era do tempo em que se colocava lenha para fazê-lo funcionar. Ouviu uma barulheira. Ela era assim mesmo. Quando foi chamado, quase não enxerga nada no espaço gourmet, tal a quantidade de fumaça. Mas como tudo era moda, comparou a coisa ao fog londrino. Foi para a mesa. Ela não trouxe um sanduba, mas um prédio com vários andares. Ele comeu tudo. Estava muito bom. Quando acabou – e ficou triste e com a barriga estufada, veio outro. Não quis decepcioná-la. Este era maior, com os três tipos de queijo, ovos, bacon, cebola frita, maionese especial, etc. Terminou e se arrastou até o banheiro. Se olhou no espelho. Pensou que iria ter um enfarte. Voltou para a cozinha. Ferveu água e fez um chá de boldo bem forte. Uma dor embaixo do seio direito incomodava-o. Dormiu assim mesmo. No outro dia, mais chá de boldo. No meio da manhã foi ao banheiro e lembrou de uma descrição de Ronald Golias sobre os tipos de produto interno bruto produzidos pelo ser humano. Aquilo que tinha feito não se enquadrava em nenhum deles. Deu a descarga, gastou um tubo de Bom-Ar para não incomodar o bairro e foi dar uma caminhada. Mais tarde a filha perguntou se ele toparia nova experiência. Ele perguntou o que ela pretendia fazer. “Buchada de bode”, respondeu a menina. Ele foi educado e disse que não estava se preparando para ser candidato à presidência do Brasil.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Sabiá

De Dalton Trevisan

O trino do primeiro sabiá acende o sol na janela.

Maria Bethania As canções que você fez pra mim


Nos enterros

Gostava de ir a enterros. De qualquer um. Conhecido ou não. O motivo não era mórbido. É que tentava entender porque na hora em que o caixão baixava, ou quando começavam a jogar terra em cima, ou quando uma tampa de cimento fechava a chamada última morada, sempre tinha alguém gritando “eu quero ir junto!” – ou algo parecido. Mas ninguém ia. De tanto ver isso, começou a bolar um plano para satisfazer o desejo dos vivos. Esperava o defunto ser comido pelos vermes, sequestrava a/o escandalosa/o, dopava e enterrava junto ao ente querido. Um dia morreu sua amada. No enterro ele também gritou que queria ir junto. À noite foi ao cemitério e se enterrou – para pagar os pecados.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Perto do osso a carne é mais gostosa

De Paulo Leminski


Sossegue coração 
ainda não é agora 
a confusão prossegue 
sonhos a fora 
calma calma 
logo mais a gente goza
perto do osso 
a carne é mais gostosa.

Zeca Baleiro Lenha


Mandacaru

O pai lhe entregou uma caixinha de madrepérola no leito de morte. Disse para ele só abrir passados dois anos do enterro. Obedeceu. Até imaginou ser alguma pedra preciosa, ou um bilhete com declaração de amor nunca foi feita. Não era nada daquilo. Um espinho grande estava acomodado sobre um veludo preto. Embaixo do pano, duas palavras: cegou Lampião. Lembrou da história que o velho sempre contava. O bandido/herói perdeu a visão de um olho por causa de um mandacaru na caatinga. Durante um tempo ele abria a caixa e olhava o espinho. Até que um dia teve uma ideia que não sabe de onde veio. Engoliu o tal acomodado dentro de um bombom Sonho de Valsa. Logo depois sentiu uma pontada. Imaginou que o espinho tenha se instalado em alguma parte do seu aparelho digestivo. Na primeira crise de raiva que teve, a dor naquele local foi imensa, parecia que estava sendo furado de dentro para fora por um punhal. E ele saiu quebrando o que lhe parecia ser inútil - de objetos a pessoas. Ficou assim durante anos, até que a dorzinha e a dorzona passaram. O espinho tinha ido embora. Pouco tempo depois a fossa da casa explodiu. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Clara Nunes O Mar Serenou


De cotonete

Nunca esqueceu o personagem de Agildo Ribeiro que, machão total, desmunhecava todo ao introduzir um cotonete no ouvido direito. Achava engraçado, mas ficou preocupado no dia em que ficou em frente ao espelho e fez o mesmo. O efeito foi ao contrário. Ele virou um bicho tão feio, mas com a mesma aparência humana, que a primeira coisa que fez foi esmurrar a imagem refletida, transformada então em várias com o estilhaçamento. Notou que não sentiu dor na mão - e isso o incentivou a fazer um teste com o vizinho que considerava inimigo. Apertou a campainha, o outro apareceu com cara de quem está a fim de brigar por nada. Ele imediatamente sacou um cotonete do bolso, encaixou no ouvido, girou e, quase que automaticamente, o golpe com a mão encaixou no queixo do infeliz, que desabou feito o Maguila depois do coice que tomou do Holyfield. Tirou o cotonete, voltou para casa e depois ouviu a sirene da ambulância que veio buscar a vítima. A sorte é que ninguém viu. Como gostou da experiência, saiu distribuindo porrada em skinheads, integrantes de torcidas uniformizadas, policiais torturadores, ladrões oficiais ou não. Até o dia em que foi mexer com um fiapo de gente que tomava um copo de leite numa padaria. Tinham lhe informado que era um serial killer. Ele acreditou. Ao chegar perto, colocou o cotonete e, antes da viradinha, levou um tapa bem na orelha da transformação. Uma radiografia feita horas depois mostrou a ponta do cotonete encaixada numa parte do cérebro - e sem possibilidade de ser removida sob risco de morte instantânea. Ele sobreviveu, com lucidez, mas jamais conseguiu reverter o desmunhecamento na direita e na esquerda.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dois

De Sérgio Rubens Sossélla


um passarinho
e uma borboleta
?o que eles são?
dois vôos.

Paulo Sérgio Amor tem que ser Amor


A cadela e as unhas

O pulmão falhou e ele foi parar na UTI. Uma semana ali, no oxigênio, ouvindo gritos de dor, vendo e sentindo a enfermeira com cara de criança passar duas horas para achar uma veia a fim de coletar sangue. Saiu e, na recuperação, começou a pedir coisas. Uma delas é que gostaria de ver e ser visto pela cadela de estimação pela internet. Ainda não se sabe qual seria o diálogo. Quis também o cortador de unhas e deu as indicações de onde encontrá-lo no armário do banheiro da suíte onde dorme sozinho, pois viúvo é. Quem foi procurar começou a rir sozinho ao ver o aparelho de metal, daqueles grandes. Estava dentro da embalagem original e, num canto, estava escrito, na primeira pessoa, que quem o tirasse daquela "casinha" de plástico transparente tinha de devolvê-lo. O enviado especial para a missão riu porque, naquele banheiro, ninguém da casa entrava, apenas o animal. Ao entregar o cortador, perguntou para o dono: "A cadela já sabe ler?" Diante do espanto do outro, completou: "Porque só ela é que entra ali e, por enquanto, ninguém viu o animal cortando as próprias unhas".

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

No parque

De Helena Kolody

Corrida no parque. 
O menino inválido
aplaude os atletas.

Quarteto Novo Algodão


No filme, na mata

Os olhos do garoto olhando para o céu e morrendo lentamente encantaram. O ônibus abandonado no meio do nada, longe de tudo e de todos. Era um filme, mas baseado em vida real. Ele resolveu que faria o mesmo. Não por causa das outras pessoas. Por causa dele mesmo, que não aguentava as outras pessoas. Não houve tarja preta que o aprumasse. Resgatou a mochila de lona verde comprada anos atrás numa loja de material para militares. Não colocou nada dentro - e foi. De carona, como nos tempos de Woodstock ou, para ficar no país, de Águas Claras. Chegou a uma reserva da Mata Atlântica e se embrenhou. Claro que não iria achar um ônibus abandonado, mas depois de três dias avistou uma barraca tipo iglu no alto de um morrote. Foi até lá. A vista era linda. Ele abriu o zíper da casinha. Havia dois esqueletos abraçados. Estavam dentro de um saco de dormir. Ele encostou-os num canto e deitou ao lado. Não teve medo. Só ficou pensando em quanto tempo chegaria àquele visual. Escureceu. Uma chuva fina caiu.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Angela Ro Ro Amor Meu Grande Amor


Musas

De Roberto Prado

anos a fio dando ouvidos
a deuses muito discretos

amigos, amigas, amiguinhos
se sou mero objeto de meus afetos
quem é aquilo sozinho que vai
tropeçando em meus versinhos

A hora certa

Uma vez um amigo lhe disse que, às vezes, é melhor não fazer a fotografia daquilo que a alma pede, mesmo com a câmera na mão. Alguns momentos são para guardar na memória, na alma, no coração. Pensou nisso antes e durante a viagem por lugares que só via em filmes, em fotos, ou descritos nos livros que consumia vorazmente. Mas eram tantos, no curto espaço de tempo permitido pelo dinheiro, que, ao final de cada dia, anotava numa pequena caderneta o que tinha a ver com ele, o que lhe abria as portas da emoção. Voltou para casa e colocou o caderno em cima de uma estante. Nunca mais abriu. Sabia que ali estavam grafadas as palavras que iriam reabrir lugares, coisas, gentes, mas numa outra dimensão - que nem imaginava. Deixou ali, porque também tinha suas teorias, como a do amigo. Para ele, a hora certa chegaria. Ou não. Mas isso era outra história.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Luiz Melodia Pérola Negra


espelho

De Paulo Leminski

acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

Divorciado da realidade

Andava meio perdido na calçada e se deu conta de que a porta da igreja estava aberta. Parou. Viu então o padre de barbas longas e corcunda acentuada. Pensou que era uma benção divina. Perguntou se poderia se confessar. Não fazia isso há décadas. O velhinho olhou para ele e quis saber seu estado civil. Ele tinha perdido a conta de casamentos desfeitos, mas lembrou que, oficialmente, havia um papel que o carimbava oficialmente como divorciado. Era assim que preenchia aquelas papeladas que pedem este tipo de informação. O padre disse que ele não poderia contar os pecados, muito menos comungar no dia seguinte. Lei da igreja. Ele perguntou se, por causa disso, iria queimar eternamente no inferno, já que vivia em outro aqui na Terra. O padre não gostou da pergunta - virou as costas e sumiu na escuridão da nave. Ele ficou parado ali, sob o sol, e imaginou outra cena. Nela dizia ao sacerdote que, sim, era casado no Civil e na igreja; entraria para contar os pecados e o primeiro seria o da mentira. Tinha mentido para poder confessar. Começou a rir da situação e descobriu que o cinza sumira da alma. Sorrindo, entrou numa padaria e comprou um sorvete. Chicabom.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mosca

De Dalton Trevisan

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

Sá, Rodrix e Guarabira Sobradinho


Cinto muito

Cinto muito. Cinto tudo. Cinto. Ele ganhou de um amigo. Há muitos e muitos anos. Nunca mais quis saber de outro. Pensou nisso recentemente, quando foi tirar a bermuda junto com a cueca, de uma vez, sem desafivelá-lo. Não foi muito difícil. Barrigudo, a vestimenta estava no pé da barriga, como falam os nordestinos. Ele então olhou para o cinto, de uma marca de skatistas, coisa que nunca foi e nunca será, mesmo porque chegou aos 70 anos e dá graças a Deus estar vivo. A tira de couro que era preta, perdeu a cor, ficou meio fora do prumo, pedaços das linhas do pesponto penduradas. O cinto da preferência aguentou tudo - e nunca foi tirado para bater em inimigos, apesar de ele ter vontade de fazer isso. No guarda-roupa, pendurados, vários que ele comprou neste tempo. Nunca foram usados. Achava que seria uma traição para com aquele velho companheiro. Então ele desafivelou e o tirou das garras dos passadores da bermuda. Fi com ele entre as mãos, olhando enternecido o companheiro. Saiu dali e mandou mensagens para os filhos. A ordem era para que o cinto estivesse junto na hora da cremação.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Desgoverno

De Helena Kolody

A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.

Garlos Galhardo Mais uma Valsa, mais uma Saudade


Na paisagem

A mulher gritou, a filha nasceu, um pássaro voou, ele chorou. Lavou o rosto na água fria do balde. O coração estava aos pulos porque era a primeira herdeira. Ele olhou o pé de manga centenário ao lado da casa. Cachos da fruta ainda verde faziam ele sentir o gosto da fruta. Um bezerro mamava na vaca no cercado. Mais adiante os pés de mandioca denunciavam a hora próxima da colheita. Fim de tarde. A parteira apareceu na porta e perguntou se ele não ia ver a filha. Gritou que ela era saudável e a mãe estava bem. Os olhos marejaram. Ele tomou coragem e foi ver a menina. Mas antes um pé de vento fez um lençol branco quase alçar voo no varal atrás da casa humilde. Foi lá tirá-lo. Viu então o bichinho verde. Gafanhoto lindo parecendo folha estilizada. Estava grudado no pano branco. O vento passou. Ele deixou tudo lá. Entrou com o nome da menina na boca. Olhou para a mulher, para a menina, pegou-a no colo e disse: "Esperança".

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

de colchão

De Paulo Leminski

De colchão em colchão
Chego à conclusão
Meu lar é no chão

Camisa de Vênus Deus me dê Grana


De dentro da jaula

Tá olhando o que? Nunca viu um macaco? Você é eu ontem, coisa feia. Pensa que é inteligente. Pois sim! O que está fazendo com o nosso Planeta? Não o do filme, aquela besteira que só os idiotas dos americanos poderiam inventar. Planeta Terra, onde ainda existem algumas regiões que não foram destruídas pela voracidade de vocês, bichos pelados e vestidos. Idolatram carros, vê se pode? Se matam em acidentes, ficam horas parados em engarrafamentos adorando as tranqueiras que os outros palermas vendem como "tecnologia embarcada", poluem tudo - e ainda olham felizes o monte de lata com um motor dentro quando vêem a propaganda na tv. Aí, pensam: "Eu tenho um desses!" E riem! Imbecis! Meu transporte era o cipó. Era. Um dia fui preso por vocês e me jogaram aqui para eu ser apreciado como se fosse um palhaço ou, quem sabe, uma aberração da natureza. Por isso, quando me enche o saco, jogo merda em quem estiver na frente da jaula. E não me olhem com pena! Quem tem que ter pena aqui sou eu. Cambada!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

o sol

De Marcos Prado
      o sol  
      do outro lado 
      da cidade parecia 
      iluminar 
      a china
      simples: 
      abri 
      a cortina

Nonsense

Nonsense. Ele não sabia direito que diabo era aquilo, mas gostou do som. De súbito, lhe veio o complemento que poderia ser... Ah, dane-se. Tascou no caderno espiral onde anotava essas coisas vindas não se sabe de onde: Nonsense. Não Pense. Faça. Virou a página, deixou ali em cima da cama, olhou um poster de Hendrix, colocou Alberta Hunter em vinil na vitrola, saiu para tomar um gole de água do filtro de barro na caneca de alumínio, abriu a porta de trás, viu o quintal com o mato tomando conta de tudo, sorriu por dentro, de felicidade, voltou, olhou o caderno de novo. Nonsense. Foi a um dicionário: Expressão, linguagem ou situação ilógica, absurda, desprovida de sentido ou de coerência. Riu de novo. Agora sabia. Então, fez: apagou tudo.

Baden Powell Tristeza


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

lá embaixo

De Paulo Leminski

lá embaixo
vai ter
o que eu acho

Zizi Possi Caminhos do Sol



No abismo do mar

Desceu a rampa de concreto bem junto a uma das paredes. Noite escura. Ali, durante o dia, era o caminho dos barcos daquele clube. A água chegou-lhe às canelas e não havia mais parede. Ele foi tateando com os pés, como se atraído por uma força estranha. A curiosidade, pensou depois do susto. De repente, nada sólido embaixo. Ele afundou como uma pedra. Se apavorou. Não sabia nadar. A água turva era como uma venda. Começou a bater os pés antes de tocar o fundo - se é que ia tocar. Acelerou mais que as batidas do coração e foi subindo até a cabeça sair fora d'água. Descobriu então que tinha fechado a boca antes de entrar totalmente no abismo de água. Aprendia ali o que é o instinto da sobrevivência que, mais tarde, iria surgir de novo, em outras situações diferentes. Nunca contou isso. Era seu segredo. Poderia ter morrido, mas aprendeu a nadar.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Se o Corpo Abandonar Minha Alma

de Marcos Prado
 
           
           
      se o corpo abandonar minha alma 
      não tenha de mim uma idéia falsa 
      não chore,mantenha a calma 
      estou morto por minha causa cuidado:assim como sua mala 
      o meu caixão não terá alça 

Zé Paraíba


Na loca

No dia em que viu o vizinho sair com a calibre 12 e atirar para esbagaçar um canário que cantava no pé de uma árvore, ele achou que era o momento. Não disse nada em casa. Pegou a estrada de chão e caminhou na direção da serra que sempre via quando abria a janela da casinha do sítio logo que o galo cantava. Andou, andou, atravessou um riacho quase seco, olhou a pastagem pegando fogo, o gado magro, uma mulher jogando milho para as galinhas e pintinhos no terreiro da casa. Do alto do morro cada vez mais aumentava o olho da loca. A loca é um buraco. Ele subiu pelas pedras, se arranhou em espinhos, mas chegou lá. Entrou. Não havia bicho algum. Só ele. Bicho homem desiludido com tudo. Entrou até o fundo, sentou, ficou olhando a luz desaparecer naquela boca aberta da entrada. Dormiu. Acordou. Assim ficou até perder os sentidos. E morrer. Convicto de que o ser humano vai acabar com a Terra, mas ainda acreditando que a Terra iria virar o jogo para a paz reinar novamente.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

marmanjos

De Luiz Solda

somos adultos
tão marmanjos
pra que ficar discutindo
o sexo
de augusto dos anjos?


Dorival Caymmi Marina


Ao som dos atabaques

As seringas com as doses estavam prontas na bolsa que deixou no carro. Ele tomou um pico antes de chegar naquele lugar. Estacionou. Ouviu ao longe o som de batuques. Entrou. O espaço estava lotado. Ele ficou com vontade de voltar e injetar mais cocaína. As arcadas dentárias travavam uma luta. Grudadas. Um anjo vestido de branco o viu e o chamou. Levou ao senhor de cabelos grisalhos. Ele estava sentado. Olhou na alma daquele que nunca tinha visto antes. Este se acalmou um pouco. O senhor falou como a entidade que tinha baixado. Ele ouviu e nunca mais esqueceu. Ouviu que estava muito atrapalhado, mas que sairia daquilo. Que iria pairar sobre as pontas espinhosas. Ele saiu, pegou o carro e atravessou a noite injetando mais. Anos depois retornou ao mesmo lugar. Ouviu o som dos atabaques, prestou atenção nas letras das músicas, sentiu de novo a força do mar, das matas, das cachoeiras, das pedras... E viu o mesmo santo rindo e dizendo feliz que o menino tinha dado trabalho, mas conseguido.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Elogio

De Dalton Trevisan

- Me chamou de putinha. É o que sou?
- Que nada. Isso é carinho.


O poço

O poço atraía. Porque toda a família recomendava às crianças daquelas casas amontoadas num mesmo terreno que ali era perigoso. Havia uma estrutura, uma corda enrolada num carretel de ferro já meio enferrujado - e a manivela que fazia o balde descer e subir. Para descer soltava-se tudo. Lá de baixo vinha o barulho do encontro com a água. Tchibum! Depois alguém arfando e puxando a água. Aí tudo era fechado e o poço ficava lá, atraindo. Um dia deixaram a sua boca aberta. O menino foi lá olhar para as profundezas da escuridão. Viu seu reflexo. Achou que era outra pessoa. Aquilo era mágico. Ele, então, voou. Para baixo. Para cima. Para onde?

Cynara, Cybele e Sabiá


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Obediente

De  Antonio Thadeu Wojciechowski

sobe e desce
              o elevador
               só obedece


Leandro e Leonardo Doce Mistério


De repente

Um dia deu o pandeiro para a namorada. Ela gostava, mas nunca o tocou. Toda vez que ia à casa dela, olhava-o ali exposto numa estande. O couro tinha umas manchas do bicho e um carimbo escrito contemporânea. Ele reparava nisso e naquelas orelhas de lata -  ouvia um som que parecia vir de longe, lá do fundo de sua mente. Um dia, escondido, pegou o instrumento, sentiu-o na mãos e, num canto da casa que estava vazia, bateu. O coração pulou. Ele bateu de novo. E aí começou a tocar num ritmo que fazia seu pé direito acompanhar. Se flagrou cantando no compasso - e contando uma história que também vinha lá do fundo da alma e tinha a ver com a vida vivida, a vida real. Descobriu, então, de repente, que era um repente. Aí foi para a praça tocar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Choro na tela

Foi tirar um cochilo depois do almoço, mas chorou antes. Viu uma coisa na tv que não acreditou - mas acreditando. Algo que um dia pensou fazer quando era menino sonhador, mas não conseguiu. E achava que seria impossível, depois de ver tanta coisa ruim durante sua longa existência. História real em forma de documentário ou algo parecido. Os dois irmãos se enfiavam em locais onde seres humanos ajudavam seres humanos. Trabalhavam, faziam amizade, detectavam a alma daquelas pessoas. Depois de um tempo, iam embora, pensavam e apareciam de novo com seus  ternos bonitos. Abraçavam de saudade verdadeira aqueles velhos amigos. E revelavam: eram milionários de nascença. Como tinham gostado do que viram, perguntavam se podiam contribuir financeiramenbte para que continuassem o trabalho humanitário. Invariavelmente todos choravam. E ele chorou também. De alegria por descobrir pessoas que fizeram o que não pode fazer. Mesmo porque estava num local onde ajuda era vital - e nunca chegou.

Zé Ramalho Admirável Gado Novo