quarta-feira, 1 de abril de 2015

Carregador de livros

Os livros estavam empilhados numa estante dentro da garagem que virou depósito de tranqueiras. Eram muitos. Além destes, havia caixas e caixas de papelão cheias que foram parar ali quando ele se mudou para aquela casa já ocupada. Deixou-os quietos, mas foi comprando mais e lendo os novos no seu velho estilo de quatro, cinco, seis simultaneamente, com a exceção dos grandes ídolos. Sim, ele era macaco de auditório de alguns escritores, como o Fonseca, o Chandler, o Roth, o King, o Capote, o Wolfe, o Talese, o Castro, por aí. Esses ele pegava e devorava sem dar atenção a nenhum outro. E fazia isso na cama, no banheiro, na sala, no escritório, etc. Com o tempo foi esquecendo os da garagem, até que conseguiu um espaço para acomodar todos com o carinho devido. Abriu o espaço sombrio e passou a transportar seu tesouro antigo. À medida que ia empilhando os exemplares junto ao corpo, começou a sentir algo diferente, só identificado na terceira viagem. O contato deles o fazia recordar em ritmo acelerado tudo o que já tinha lido. Recebeu uma overdose de literatura com ingredientes de vários gêneros. Quando terminou tudo, descansou com a certeza de que sua vida e seu vocabulário tinham ficado muito mais enriquecidos.

terça-feira, 31 de março de 2015

O sorvete é...

Enfiou a língua no bola do sorvete e olhou para o céu. A lua começou a derreter e a boca se encheu de poeira. Lunar? Não acreditava na descida do homem lá, porque tudo tinha sido feito num estúdio escondido num deserto. Talvez até atrás daquela montanha do Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Spielberg já filmava? Olhou de novo. Um foguete entrou no olho da lua e o sorvete agora parecia o globo terrestre esperando o Grande Ditador para brincar. Algo estava acontecendo e ele tentou rememorar. Foi a buchada de bode, pensou. Ou a meia garrafa de Pitu, calibrada com doses de Jurubeba. O Expresso 222 parou perto e ele quis seguir a Procissão. Olha a faca! Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou contar, eu venho lá do sertão... O Fino da Bossa agora está no palco do céu, mas João Gilberto ainda faz dim-dom. Ele achou que era hora de dormir. Guardou o sorvete no bolso da camisa e mandou um beijo para São Jorge Benjor.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Presentes

De Dalton Trevisan


— Sabe o que o João deu para o nenê, filho dele? Meia dúzia de fraldas e um pião amarelo.

João Bosco Jade


Vou me matar!!

Ela tinha acabado de enfiar a esponja dentro do copo quando o celular tocou uma, duas, três vezes. Parou, lavou as mãos, enxugou no avental mesmo e atendeu. Era a cunhada, lá dos confins do Brasil, dizendo que ia se matar se o marido a largasse. Acostumada com a família aloprada espalhada pelo território nacional, ela respondeu com um rosnado, desligou o telefone e foi terminar de lavar a louça do almoço na casa da patroa. O telefone tocou novamente. Ela não atendeu. De novo, aí ela atendeu e já ia dizer para a cunhada que ela deveria era fazer uma festa em vez de ameaçar tomar veneno de rato. Antes disso, contudo, a outra contou que apareceu uma "irmã" da igreja, que aquilo tinha sido coisa de Deus, que estava mais calma e que já tinha esquecido a ideia de acabar com a própria vida. A milhares de quilômetros, com a pia de aço limpa e brilhando, a que ouviu tudo tomou um gole de café forte e pensou: "Mas se eu contar essa história para meu irmão, ela, que é falha das ideias, não vai ter trabalho de se matar - é ele quem vai fazer o serviço". 

quinta-feira, 26 de março de 2015

imperativo da primavera

De Roberto Prado

humano, assuma o ar silvestre
época de amor conforme o calendário
flores façam tudo o que não digo
coração, aceite o eixo terrestre
ninho esta vida leve no bico
viva de brisa o papo sozinho
estações, aqueçam seu poeta
primaveras, passem com carinho

Itamar Assumpção Prezadíssimos Ouvintes


Em busca do tempo

Leu num livro a história de uma cidade de Minas Gerais que perdeu o tempo. Queria ir para lá de qualquer jeito. Teve de esperar. Ele sonhava acordado com a chegada naquele vilarejo escondido entre montanhas e onde o povo falava daquele jeito, uai. Estava escrito que, sem luz, água encanada, nem radinho de pilha, porque ali as ondas não chegavam, alguém um dia se deu conta que a única folhinha do calendário que existia estava defasada. Aí um começou a perguntar para outro se lembrava em que dia estavam. A cidade inteira não sabia. Foi então que encontraram a solução: mandaram um emissário a cavalo resgatar o dia, o mês, o ano, enfim, o tempo, em outra cidade. O que se encantou com a história finalmente foi para lá, mas isso depois de anos. Encontrou o lugarejo, que era mais ou menos tudo o que imaginava: uma rua com algumas casas, um bar, uma pequena farmácia, um armazém, gente conversando na soleira da porta... O coração disparou de felicidade. Mas logo veio a decepção quando um matuto ouviu o sinal e tirou o aparelho celular do bolso da camisa - para falar com um compadre.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Nome

De Paulo Leminski

A noite - enorme
Tudo dorme
Menos teu nome

Sergio Murilo Broto Legal


Viagem ao teto

Não gostava de drogas alucinógenas. Na verdade, tinha medo. Leu tanto sobre viagens sem volta durante aqueles anos de paz, amor e napalm na cabeça dos vietcongs, que evitava. Tomava os goles, fumava um e o máximo de doideira que fez foi misturar macarrão, feijão gelado e salada de maionese para acalmar a larica numa madrugada de fumacê. Um dia apareceu um selo de ácido numa viagem ao litoral. Ele resolveu experimentar, mesmo lembrando dos trechos delirantes dos livros de Carlos Castañeda e do bruxo Don Juan que acabara de ler. Guardou a mercadoria, voltou para a cidade grande e, na casa de uma prima, onde parou para dormir, aconteceu. Tomou o LSD e ficou esperando algo que, na sua imaginação, com o passar do tempo, não veio. No meio da madrugada, sem dormir, foi para a cozinha, abriu a geladeira, pegou as duas dúzias de ovos que ali estavam e explodiu-os no teto para ver o efeito. Só então caiu no sono. Quando acordou estavam limpando tudo. Ninguém lhe perguntou nada. Ele viu as manchas amarelas que pairavam sobre a cabeça de todos. Eram as marcas de sua única viagem.

terça-feira, 24 de março de 2015

Ipês floridos

De Helena Kolody


Festa das lanternas!
Os ipês se iluminaram
de globos de cor-de-ouro.

Benito de Paula Ah! Como eu Amei


Mote

Vinha se arrastando pela vida como um mulambo. Um dia não teve mais forças na alma para se levantar e sair do quarto infecto que lhe sobrou de um herança que um dia reluziu a ouro. Tinha queimado tudo e nem lembrava como, porque os neurônios também entraram na fogueira. Acordava, olhava a claridade filtrada na veneziana de madeiras podres, e ficava ali a pensar fragmentadamente, como se a sua mente fosse um caleidoscópio alucinado que só lhe trazia péssimas lembranças. Foi enfraquecendo com os dias. As alucinações aumentaram. Até o dia em que o "monte mote de monte" surgiu escrito na parede suja que ele ficava olhando horas e horas imaginando figuras no reboco mal feito. Rolou do colchão que estava no chão, se arrastou até o banheiro, se segurou na beira da privada, abriu a torneira e do cano caiu a água gelada da salvação. Enquanto pensava no "monte mote de monte", se limpou, vestiu a melhor roupa, saiu cambaleando, tomou um café, comeu um pão, pagou com uma nota de bêbado, entrou numa igreja, rezou, fez o sinal da cruz com água benta e, na saída, encontrou um amigo de longa data que apareceu - e foi seu anjo da guarda enquanto ele passou a criar o monte de mote da sobrevivência.

segunda-feira, 23 de março de 2015

sem licença

De Paulo Leminski


cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença


Leandro e Leonardo Talismã


Vazados

O olho foi vazado por uma caneta tinteiro quando ele estava para se formar no primário. Não foi sem querer. Ele perturbou o colega de classe que era branquelo, tímido, inseguro, enfim, tinha tudo o que o resto da classe queria para desopilar em cima. Mas era ele o que mais perturbava. Até aquele dia em que não falou mal do garoto que ficava vermelho por nada. Apenas disse que uma menina estava muito a fim dele - para fazer sexo. A Sheaffer tinha uma pena linda, parecida com uma unha - e ela entrou feito faca em manteiga amolecida pelo calor. Cego, colocou um tapa-olho e, mais tarde, ao ler a história de Lampião, encasquetou que era descendente de um dos cangaceiros que tiveram as cabeças cortadas depois da emboscada em Angicos. Guardava em casa armas e indumentárias que mandava trazer do Nordeste para o Sul Maravilha. Um punhal de lâmina enorme era seu objeto de estimação. Ele até dormia com ele. Uma noite, não se sabe como, aconteceu: ele perdeu o outro olho, espetado que foi por mais uma ponta de aço.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Para o nenê

De Dalton Trevisan

— Sabe o que o João deu para o nenê, filho dele? Meia dúzia de fraldas e um pião amarelo.


Carlos Gonzaga Diana


A química da cola

O professor tinha a cara de um daqueles cientistas nazistas dos filmes norte-americanos. Era careca e nunca ria. Seu guarda-pó descia até o meio das canelas e sempre estava amarrotado - mas nunca sujo. Dava aula de química e ninguém naquela sala de meia centena de adolescentes conseguia tirar uma nota maior que seis em suas provas. Até que veio a definitiva - e ele deu dois temas que deveriam ser estudados para que o escolhido na hora fosse desenvolvido. Todos fizeram as duas colas, já que o texto era escrito em papel almaço sem timbre nenhum. Mas... Como trocar a folha em branco pela que estava previamente feita? No dia do martírio, com todos nervosos, ele entrou com cara de sacana, sorrisinho disfarçado. Deu o tema e, para espanto de todos, saiu da sala, foi passear no longo corredor daquele colégio público, conforme um aluno mais ousado verificou da porta. Nunca tinha feito isso. Todos trataram de colocar a cola em cima da mesa e esconder rápido a folha em branco. Ele retornou quase no fim da aula. O rosto brilhava de contentamento. Uma semana depois trouxe as provas corrigidas. Ninguém tirou mais que cinco - para aprender a colar direito.

quarta-feira, 18 de março de 2015

o poema como eu quero

de antonio thadeu wojciechowski


eu gosto da coisa real
centrada em si mesma
rica em efeito especial
lixa sob o fluir da lesma
uma puta poesia pura
água que pedra fura
alegria de mulher nua
lente no olho da rua
coisa de quem acha
e não de quem procura

Benito de Paula Ah como eu Amei


No fim do corredor

Na minha cabine tem uma micro-tv. Preto e branco. Me trouxeram um dia lá do Paraguai. Deixo ela sempre ligada, mas sem som. Estou dentro de uma cabine que fica no fim do corredor da entrada do prédio comercial. Parte da minha vida se passa aqui. Me pagam para ficar durante toda a noite e madrugada. Depois da meia-noite não passa ninguém lá na rua. Minto. Às vezes um bêbado ou mendigo perdido. Tem uns que me olham. Eu olho para eles. Somos iguais, mas estou aqui protegido - fingindo que protejo. O corredor fica no escuro. A luz amarela espetada sobre a cabeça deve transformar minha aparência numa coisa de meter medo, mesmo porque de boniteza talvez eu tenha apenas a alma. Ganho dois salários mínimos. Não preciso mais. Saio daqui quando começam a chegar os funcionários da limpeza. Nunca durmo em serviço. Faço isso lá no meu barraco de um cômodo. Já me disseram que sou muito solitário. Não penso muito nisso. Nasci assim. Não conheço pai ou mãe. Acho que meu coração é de pedra. Mas eu choro quando vejo na tela minúscula uma criança perdida.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Museu

De Nelson Capucho

Anoitece na praia.
Tudo é vasto; o mundo, os astros:
museu de infinito.

O anjinho

O anjinho nunca lhe saiu da cabeça. Não lembra das feições, mas era um bebê que chorava muito lá no fundo do ônibus. Ele viu também a mãe tirar o peito murcho para lhe dar leite, enquanto se servia de um pedaço de frango com farinha que ela e o marido tinham trazido para comer durante a longa viagem do sertão nordestino para São Paulo. No terceiro dia, o choro parou. Ele, que era uma criança um pouco maior, de nove anos, viu o motorista entrar com o ônibus numa cidadezinha para conversar com algumas pessoas. O anjinho foi deixado lá, para ser enterrado - porque a viagem tinha de continuar para aquela meia centena de passageiros. Os pais não choraram nem se lamentaram. Talvez aquilo fosse comum no lugar de onde vinham. Na rodoviária da cidade grande o menino acompanhou os dois carregando as trouxas mulambentas no meio da multidão. Era tudo o que tinham - além do anjinho que ficou sozinho no meio do Brasil.

Tião Carreiro, Pardinho e Seleção de Pagode


quinta-feira, 12 de março de 2015

Emilinha Borba Fora do Samba


Um grito

Me pagam para bagunçar o coreto. Sou profissional em transformar manifestações em atos violentos, de preferência com mortes de inocentes. Tudo por uma causa. A minha é o dinheiro, porque me lixo para quem está pagando e para quem está morrendo. Faço isso desde os tempos dos gorilas. Cheguei à essência de dar apenas um grito no meio da multidão para tudo se transformar num inferno. Os queimados são os que vão atrás das palavras. Multidão é monstro sem cabeça. A cabeça sou eu. Do mal. Depois fico vendo na tv o estrago que causei. Gosto de fazer isso contando o dinheiro. Sempre peço em dólares. Dinheiro brasileiro é pobre como o povo. Este mesmo que é tudo maria vai com as outras e fica aceitando palpite de bandalhos piores do que eu. Esquerda e Direita são vermes da mesma espécie. Quem me paga está pairando acima disso tudo e sabe onde o estrago vai dar. Caras pintadas que respeito são aqueles fardados que baixam o porrete oficial para aumentar o estrago. Polícia. Não me meto com eles. Sei que há infiltrados no povão, mas conheço todos pelo comportamento. São policiais até se se vestissem de padre. Por isso sei onde me colocar. Sei quem são os que precisam apenas do grito. E eu grito. Depois vou descansar.

quarta-feira, 11 de março de 2015

embaixo

De Paulo Leminski


lá embaixo
vai ter
o que eu acho

Renato Borghetti Rancheiras


Ler e escrever

Sei ler e escrever porcamente. Isso se deve ao amor. Tenho um diploma pendurado na parede da minha cobertura. Esclareço que faturei muito por outros motivos. Se dependesse da minha leitura e da minha escrita, jamais teria saído daquele mocó na vila. Meu problema sempre foram as professoras. Não que elas não soubessem ensinar. A maioria sempre foi dedicada, apesar do salário de fome, mas a questão é que eu me apaixonava por todas, parecia vício - e lá eu queria saber de conjugação de verbos imperfeitos? Elas nunca me deram bola, mesmo porque eu ficava no fundão da sala e parecia um rato molhado, esmirrado e acuado. Concluí todas as etapas porque na escola pública é proibido repetir. Depois fiz uma faculdade de ensino à distância e ganhei o canudo. Coloquei alguém para olhar aquela tranqueira por mim - e fim de papo. Ganhei muito dinheiro de forma ilícita, mas sem matar ninguém, adianto. Também não tirei dos cofres públicos, porque isso eu acho uma sacanagem muito grande. Resolvi contar isso para que um parceiro meu treinasse o texto, como ele explicou. Quer ser escritor, o fulano. Eu fui contando o que queria, ele anotou e depois escreveu. Ele contar minha vida num livro. Eu disse que ela não vale nada. Ele disse que sou um vencedor. Aí já acho que é coisa de puxa-saco - coisa que não gosto. Mas eu tenho a grana e ele sabe ler e escrever.

terça-feira, 10 de março de 2015

Estrelas no muro

De Helena Kolody

Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

Rita Lee Mania de Você


Protocolo do mundo novo

O número do protocolo era 108.454. Estava num papel amarelecido pelo tempo. Ele estava no sótão no meio de pilhas e pilhas de jornais e revistas velhas, exércitos de traças, cheiro de bolor. Encontrou aquilo numa caixinha de madeira de forma sextavada. Havia a indicação de um cartório. Imaginou ser algo deixado pelo avô ou bisavô. Nunca seu pai tinha-lhe falado a respeito. Não conhecia a mãe. Ela morreu quando ele nasceu. Se interessou pelo mistério. Curiosidade aguçada pelo forte sentimento saudosista. A casa onde morava parecia um museu de quinquilharias suas e da família. Foi atrás e depois de dias de pesquisa no arquivo-morto lhe entregaram um documento. Era uma escritura de terra. Muita terra. Localizou-a. São Francisco Xavier, em São Paulo. Abriu o Google. Viu serras, matas nativas, cores exuberantes. Foi até lá. Se embrenhou pelo seu mundo novo. Morreu poucos dias depois à beira de um regato. Tinha um sorriso no rosto. Deixou no mesmo cartório a doação para que preservassem o lugar onde descansou.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Rabo de anjo

De Paulo Leminski

Casa com cachorro brabo 
meu anjo da guarda 
abana o rabo.

Ataulfo Alves Pois É


Sem palavras

Ele dominava o cavalo como se quisesse mostrar para o que era, lá no fundo que eu não conhecia - o que tinha ficado para sempre dos tempos em que viveu ali naquele pedaço de terra nos confins. Sentado na soleira da porta eu apenas olhava e ali estava a revelação do meu grande herói. O cavalo era muito mais bonito do que o do Ivanhoé do seriado que eu via na terra sem graça e distante. Terra cinza, sem árvores, onde ele era apenas um operário a cumprir a jornada diária da sobrevivência e a comer a marmita sempre esquentada na água do banho-maria. Espinha ereta, ia e vinha na estradinha de terra e areia. Cavalo na passada, como se estivesse numa passarela. E quando quando o senhor resolvia frear, as patas dianteiras do animal estancavam, escorregavam, levantavam poeira e o focinho baixava quase a tocar no chão. Depois o corpo se virava ao comando dos arreios e o percurso em linha reta era vencido como se o animal e seu dono flutuassem para meus olhos. Depois de algum tempo tudo terminou. Ele apeou da cela e entrou na casa sem dizer nada, como sempre fez e faria por muito tempo. Meu pai não precisava falar.

quinta-feira, 5 de março de 2015

elo

De Paulo Leminski

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

Elis Regina Atrás da Porta


Batatas

Me jogaram na cela como um saco de lixo. Eu me sinto assim desde que comecei a olhar o mundo. Me jogaram aqui porque o dono do mercadinho gritou um tempo depois que enfiei o saquinho de batatas fritas entre os peitos caídos e sem sutiã. Sou uma velha com poucos dentes, poucos músculos, nenhuma beleza e muita pobreza. Fiz aquilo por fome e achei que o saquinho não ia dar prejuízo. Dei uma moedinha no caixa para pagar a caixa de fósforos. Aí as batatas fritas pesaram e o saquinho escorregou e caiu bem entre os pés sujos. Saí correndo. Levei um safanão antes de chegar à primeira esquina. Perdi um dos três dentes que ainda me restavam. Veio a polícia e me jogou neste cubículo com mais 15 homens. Fiquei no meu canto. Eles me olharam com pena. O chefão me ofereceu comida. Eu comi e senti uma alívio no estômago. Não me deixaram explicar a situação para o delegado. Meus netos estão sozinhos em casa e não sei o que aconteceu com eles. Há mais de um mês estou aqui nesta imundície maior que a minha. De vez em quando sonho com aquelas batatinhas crocantes. Acordo com o gosto na boca.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

paciência

a doença boa da preguiça
a não vontade 
o ficar descalço
a paciência
comigo
e mais nada

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

o fundo

De Paulo Leminski

viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície

Marco Pereira Estrela da Manhã


No camburão

Acordou com a luz do sol repartida em dezenas de furinhos. Não sabia onde estava. Lembrava apenas de um caubói que virou no bar metido a intelectual besta. Tinha perdido a conta de quantos velhos jacks tinha tomado. O local onde estava parecia uma caixa de metal. Meteu o pé numa lateral e começou a gritar. Abriram uma porta. Era a traseira de um camburão da Polícia Civil estacionado no pátio da delegacia. Ele estava todo mijado e vomitado. O tira o encaminhou ao plantonista. Ele foi cambaleando. Ouviu um sermão com o pastor policial olhando a documentação que revelava profissão de respeito. Ele perguntou como tinha ido parar na gaiola. Soube então que pegou um táxi, não deu o endereço para onde queria ir e ficou pentelhando o motorista - até que este o entregou na delegacia. Ele foi embora sem ter sentido um mínimo de vergonha. Tomou um banho, colocou roupa nova, trabalhou o resto do dia e, à noite, pediu uma dose dupla de Jack Daniels para rebater.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Metro na cabeça

Era parente, brimo, mas como já tinha tentado lhe passar a perna uma vez, de forma escrachada, situação que o fez sair atrás do outro com um metro daqueles de madeira, pronto para abrir-lhe a cabeça, achou melhor recomendar toda a família para o perigo. O outro tinha olhar hipnotizador. Tanto que, contava, ele era capaz de roubar a carteira, tirar todo o dinheiro e e ainda receber agradecimentos da vítima pelo que fez.Enquanto falava isso, durante tempos, o que hipnotizava foi aumentando a fortuna - e o dinheiro dele, minguando, já que, para muitos, a sua honestidade tinha um componente fatal: as patas dos cavalos e o pano verde do jogo de carteado. Ambos passaram dos noventa anos e partiram. O desonesto deixou fortuna material. O honesto uma muito maior, tão grande que quem ouve a história através da recordação emocionada de um dos seus seis filhos, fica na torcida para que o tempo regrida - querendo que o metro de madeira rache a cabeça do sacana.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Familiar

De Domingos Pellegrini

A felicidade familiar é como uma planta que cresce todo dia, todo ano, com novos ramos mas também folhas que caem, ramos que quebram, galhos que apodrecem, frutos sadios e frutos bichados, sendo os frutos os dias ou momentos, as folhas sendo as horas, cada uma diferente da outra como são diferentes os minutos.

Zeca Baleiro Lenha


Yes

A professora era a cópia piorada daquele atriz do filme "Quero jogar minha mãe do trem". Do tipo que não precisava abrir a boca para rosnar - e ela rosnava em inglês. Toda os alunos do terceiro ano ginasial morriam de medo dela, principalmente quando chamava o coitado lá na frente, ao seu lado, para fazer perguntas numa língua que ninguém entendia, apesar de amar os Beatles, Rolling Stones, Elvis, Sinatra e Doris Day. Ele resolveu matar a aula naquele dia, algo que nunca tinha feito na vida. Depois do recreio, ficou no pátio assoviando e conversando com a sombra. Só depois descobriu que era o único menino entre as alunas das salas que não tinham aula naquele horário.Foi parar na diretoria, levou um sabão e entrou com o rabo entre as pernas na sala onde ela, the monster, apenas o olhou e fulminou para sempre seu caminho para desvendar a língua dos que inventaram o futebol. Uma muralha então se ergueu e ele nunca se atreveu a ultrapassá-la. Sabe o que é yes e no. Se arriscou a desvendar um but. E ficou por aí, se arrependendo de não ter jogado um trem naquele trem.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Orgia do nexo

De Nelson Capucho

orgia do nexo:
no dicionário
as palavras fazem sexo
        



Irmãs Galvão Pedacinhos


Ateu sem convicção

Ele não acreditava em Deus até o dia em que a coisa apertou. Doença terminal. Tinha pouco tempo de vida. Ao saber, imediatamente tirou do repertório a piada em que o paciente fica sabendo pelo médico que tinha apenas três minutos antes de morrer; ao perguntar o que podia fazer, ouviu do especialista: “Um Miojo”. Resoluto, resolveu não se entregar ao pessimismo, como se isso fosse possível. Sua determinação durou trinta segundos. Foi para casa, jogou-se na poltrona, cochilou e, ao acordar, viu que fachos da luz do sol vazavam a persiana da sala e iluminavam pontos do tapete velho. Passou a acreditar em Deus imediatamente. De joelhos pediu um milagre e perdão por nunca ter acreditado na existência Dele. Sentiu um alívio no peito e dormiu tranquilo. Os meses se passaram. Ele morreu sem sentir muita dor. O corpo foi velado numa capela ao lado do cemitério. Apareceu um padre. Durante a reza uma mulher com maquiagem pesada perguntou à outra o que o da batina estava fazendo ali. Isso porque o morto, todo mundo sabia, era ateu convicto. A que ouviu o relato resolveu especulara. Achou que aquilo era um milagre porque ninguém da família teria pedido a presença do sacerdote por saber do ateísmo do que estava ali com algodão nas narinas. O da batina orou e, ao sair, foi chamado por um senhor que estava na porta do velório ao lado. Só aí descobriu que tinha errado de defunto.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Aviso aos náufragos

De Paulo Leminski

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Tom Zé São São Paulo


Mistura e manda

Acordou com o poste na sua cara. A pancada do carro que dirigia abriu avenidas. Era madrugada. Desmaiou e ao “voltar” estava na maca de um pronto-socorro cercado de estudantes de medicina. Xingou a todos. Foi liberado com vários pontos no rosto e cabeça. À noite bateu cartão no boteco sórdido de sempre. Lembrou disso anos depois que o milagre aconteceu. Agora adora as centenas de garrafas com líquidos de várias cores e dosagens de álcool das prateleiras que percorre no supermercado. Sai do corredor, entra em outro e escolhe a garrafa de vidro de água com gás, com preferência para marcas europeias. Bebe em copo ou taça de cristal. Diz que fica mais louco – e muitos amigos dos tempos de bebedeira concordam. Só lamenta o desaparecimento do refrigerante Grapette, o único que se disporia a tomar, por conta de lembranças do tempo de criança em praias cariocas. Brinca dizendo que, se um dia tomar Fanta Uva, vão ter de chamar o serviço de remoções – e se misturar com gasosa de framboesa…

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Perneta

De Dalton Trevisan

Dou com um perneta na rua e, ai de mim, pronto começo a manquitolar.

Dorival Caymmi, Gal Costa e Só Louco


Alma inundada

No meio do mato do fim do mundo ele vivia. Criado como bicho, como se diz no Brasil pouco conhecido. Andou descalço até os vinte anos. A sola dos pés se transformou em casco. Nunca viu uma letra escrita. Sabia a letra falada e era poeta. Tinha delírios, como dizia a mãe, quando desandava a falar sobre bichos, árvores, rios, nuvens. Os olhos eram verdes. Às vezes dava vontade de chorar. Acontecia assim, do nada. Ele só sabia que sentia um aperto no meio do peito, subia para a garganta... E ele corria para um canto onde nem pai, nem mãe o viam. Depois voltava aliviado, olhava para os dois e sentia algo bom, mas não sabia o que era. Eles um dia morreram e ele foi embora. Chegou na cidade e viu uma barraquinha de churros. Achou estranho. Viu que as pessoas comiam aquilo. Pediu um. E tudo que ele tinha na alma desapareceu na inundação do doce.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

M. de memória

De Paulo Leminski


Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.


Orlando Silva A Última Estrofe


Detonador

Parou de beber porque parou de beber. Estava morrendo. Não sabia disso pois quem bebe assim está no universo paralelo. Estoporou-se todo em brigas, batidas de carro, comas alcoólicos, prisões por desacato aos policiais, etc. Foi amarrado e internado. Ouviu uma palavra e a ficha caiu, como dizem os que conseguem puxar o freio e retomar o controle da carroça. Há quarenta anos estava se embriagando de água, suco e café. Decolou para a vida e o buraco do inferno para ele era uma lembrança apenas para se manter longe dele. Numa madrugada depois de um estafante trabalho, ao voltar para casa entrou num posto de gasolina e na loja de conveniência viu uma lata de energético diferente. Embalagem bonita, coisa da amazônia, com desenho de guaraná. Comprou. Estava gelada. Foi tomando de canudinho enquanto dirigia para casa. Achou o gosto forte. Entrou em estado de alucinação na estrada que o levava até a chácara onde morava nos arredores da cidade grande. Viu uma sereia sair de um brejo. Uma estrela cadente iluminou uma favela. Alguém o ultrapassou numa bicicleta a jato. No rádio do carro ouviu Hendrix cantando em português e Chico Alves berrando Simpaty for the Devil, acompanhado dos Stones. Conseguiu chegar em casa. Dormiu. No outro dia foi olhar a tal latinha. O teor de álcool era altíssimo. Ele se assustou. Telefonou para o psiquiatra. Ele disse que aquilo era normal e que só seria preocupante se no outro dia ele fosse atrás do mesmo detonador.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Sonhador desprevenido

De Nelson Capucho

ninfas
mênades
sereias
surpreendem no quarto azul
o bêbado de cueca e meias

João Gilberto Louco


Gengivão

Ao abrir a boca e mostrar que ali não havia dentes, só gengivas, a plateia ficou atônita. Sempre acontece isso. Sobrevivo de palestras, ganho muito dinheiro, mas tenho medo de dentista e não quero usar perereca. Meu tema principal é saúde - e o paradoxo é que me faz famoso. Meu apelido é Gengivão. Não ligo. Mostro logo porque estou ali e, depois do primeiro impacto, vou ganhando tudo com a minha lábia. Sou mestre e, no fim, muita gente me aplaude e alguns, demonstrando intimidade, perguntam como consigo beijar as mulheres. Não respondo. O mistério faz parte do sucesso. Perdi os dentes porque me confundiram com um estuprador. Primeiro foi uma pancada com barra de ferro. Depois arrancaram o resto com a ponta de uma faca enferrujada. Eu não tinha nada a ver com aquilo. O anormal foi preso tempos depois e eu fiquei com a boca de molho durante um bom tempo, ou seja, tomando café de canudinho. Foi aí que tive a ideia das palestras. Não me perguntem como. Veio. E comecei a falar do quanto é fundamental tratar da saúde, a começar pela bucal, como dizem os dentistas. Sinto falta dos meus dentes, sim. Olho as fotos antigas e, às vezes, me vem à lembrança o quanto eles eram fortes para destrinchar uma picanha ou abrir garrafas. Mas isso é outra história. Estou pensando em escrever um livro sobre minha experiência, mas sempre adio a empreitada porque começo a rir assim que sento na frente do computador. O problema é que todo vez que acontece isso eu começo a babar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

retalhos de nós mesmos

De Wilson Bueno

Lancinantes os bicos-pássaros
Com que vos fura o túmido ventre
Já cadáver de nós e de nossa víscera
O que chamamos Amor, suas anáguas,
Festim de lírios, zumbir de abelhas
O que de Amor foi enlevo e até cansaço
– Mesmo o açoite e as costas em brasa? –
Se fomos um no Amor consorte
E hoje somos, Amor, retalhos de nós mesmos,
Pobres panos, chita, organdi, seda rala
E foi Amor, sim, que nos fez tão inimigos!

Agnaldo Timóteo, Angela Maria e Mamãe

a

Pátria mamada

Pátria mamada que me pariu! Como posso viver sóbrio nessa terra manguaçada, perdida, desvirtuada, estuprada, estapeada, esfaqueada, virada pelo avesso, cuspida, pisada, saqueada? Nasci no fundo de um poço de desejos, como disse um poeta, mas ao levar o tapa na bunda arregalei os olhos e comecei a ver em que inferno tinha me metido. Quis voltar para o útero, e nem os outros úteros que frequentei aliviaram a minha dor de ver tanta pobreza na riqueza jeca e tanta miséria na pobreza ignorante. Pátria mamada que me pariu! O que eu poderia fazer se não acompanhar o seu porre constante, burro, achincalhado, esculachado, escarrado, escancarado? Bebi álcool puro aos oito anos e me senti inserido no contexto. Foi como incendiar minhas veias, inchar o coração e começar a apodrecer o fígado para viver no universo paralelo que é sua realidade. Agora estou prestes a ser enterrado nas suas entranhas, minha pátria mamada - e peço desculpas pelo que não fiz, porque você não conseguiria ver, nem aprovar, nem nada.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Rildo Hora


Saudosa Amnésia

De Paulo Leminski

Memória é coisa recente. 
Até ontem, quem lembrava? 
A coisa veio antes, ou, antes, foi a palavra? 
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde. 
Nuvens, são sempre brancas. 
O mar? Continua verde.

Navalha

O lado mau dele aparecia apenas de uma maneira: quando lia notícias políticas. Fazia isso por dever de ofício, afinal, funcionário público, assessorava quem ele odiava ao ler as mentiras faladas, a desfaçatez, a cara de pau, a ladroagem travestida em ações para melhorar a qualidade de vida do povo. Era assim que vomitavam todos, quase sem exceção. E quando o lado mau dele tomava conta, ele abria uma gaveta onde, às vezes, um raio de sol que atravessava a persiana da janela da repartição refletia na lâmina da Solinger. Uma navalha, sim. Cabo de madrepérola, aço com largura suficiente para abrigar o desenho de uma caveira trespassada por duas tíbias, coisa que tinha visto num escudo pregado no braço de um policial. A ação era rápida. O corte, suficiente. O jorro de sangue imitava filmes de samurai. Pescoço. Carótida. Sempre acordava nessa hora. Não sabia como, depois da ação, resolveria o problema da sujeira. Mas tinha certeza que parte do problema da sujeira maior desapareceria com a lâmina cortando, cortando, cortando...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

cinismo

De Nelson Capucho

meu cinismo é uma
FLECHA
disparo e me disperso
droga: perdi outro verso

Maria Alcina Fio Maravilha

F

Microfone

Parou na frente da plateia e ficou quieto. Esperou o silêncio completo. O auditório da faculdade estava lotado. Ele era um especialista. Não sabia em que, mas o cartaz espalhado no campus, sim. Esperou mais. Todos olhando. Os professores que o ladeavam começaram a se mexer nas cadeiras. O microfone sem fio estava em sua mão direita. Ele esperou mais, esticou a expectativa até o máximo. Foi então que começou a falar. Disse que tinha perdido aquela noite de sexta-feira para atender ao convite do amigo que estava ao seu lado. Balançou a cabeça negativamente. Aí disparou uma pergunta: "E o que me dão assim que fico diante de vocês?" Os jovens universitários não entenderam nada. Também não falaram e nem perguntara o quê. Aí ele esticou o braço direito e mostrou o microfone que tinha um corpo preto e uma cabeça metálica bem saliente. Ao mesmo tempo, soltou um berro: "Isso!!". Todos caíram na gargalhada. Ele então lembrou do comediante Costinha e suas brincadeiras com todos os tipos de microfones/fálicos. Só depois começou a palestra.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Chuva

De Dalton Trevisan

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos.


Roberto Carlos Quero que vá tudo pro inferno


Sistema alucinógeno

O menino estava deitado no chão da sala. Apagado. Tinha derrubado uma xícara que estava ao lado. O café com leite fez uma mancha que, nos filmes policiais, sempre é um lago de sangue escuro. Ele foi ali a pedido da mãe, para tentar conversar com o rapaz. O guri tomava drogas alucinógenas desde os 13 anos. Aos 16, saiu da casinha, como se diz. Ele esperou o corpo acordar e viu que o cabelo estava cortado no estilo moicano. Brincou que invejava, mas não podia fazer aquilo pois a parte que era para ficar espetada já tinha ido embora há muitos anos. O menino era dócil, mas falava com uma energia que o visitante temia ver uma baba começar a escorrer e não parar mais. Foram para o quarto do garoto que amava LSD e cogumelos. A mãe tinha arrumado a bagunça. O menino usava o "tá ligado" para cada palavra de uma frase. Tinha abandonado a escola, procurava algo nas "viagens", disse. Ouviu o visitante revelar que nunca tinha tomado droga alucinógena porque morria de medo de não voltar. O guri não entendeu e contou que fazia aquilo para contestar o sistema. Ele ainda tentou uma última cartada dizendo que, depois que cortou todos os embalos, tinha ficado muito mais louco - só tomando água. O moicano insistiu na luta contra o sistema. O louco do H2O se emputeceu e vociferou que o grande pilar do sistema era a família - então perguntou para o guri porque ele não se mandava da casa, recusando ser sustentado pela mãe que lhe dava café com leite e bolachinha recheada quando voltava das viagens. O moicano se fechou, virou as costas, deitou na cama, se enfiou embaixo de um cobertor e cobriu a cabeça.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Oriente-se

De Nelson Capucho

piso o roxo dos ipês
tudo me parece normal
grilos
inverno
carnaval

Tom Jobim Insesatez


Opala na cara

Ficou bem humorado só depois de muita estrada da vida. Por isso gostava de contar a história de que tinha aparado um Opalão com a cara e a coragem. Bem, coragem regada a muita caipirinha e cerveja. Sua especialidade era lavar o carro todo sábado. Amava aquilo. Ou amava a trabalheira junto com a manguaçada. Enfim, a caranga ficava um brinco para a semana, porque até as rodas ele tirava para dar um trato ali por dentro. Foi numa dessa que aconteceu. Ergueu o baita com o macaco, tirou uma das rodas e, aí, depois de mais um gole, lembrou que durante a semana tinha ouvido um barulhinho estranho na máquina. Entrou embaixo para verificar. Achou a coisa. Pegou uma ferramenta e foi apertar. O macaco adernou, o carro caiu, quebrou-lhe o nariz e os dentes. Só não morreu afogado no próprio sangue porque alguém da família viu, pediu ajuda e o tiraram dali. A marca no nariz está lá. Alguns dos dentes ainda dão problema. Mas ele há muito tempo está bem porque só toma gasosa de framboesa. Talvez por isso todos que ouvem o episódio acreditam mesmo que ele aparou o Opalão com a cara - e que a coragem vinha da cachaça.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quindim

De Dalton Trevisan


Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu da boca.


A Cor do Som Zanzibar


Depois de Orlando Dias

Sempre foi macaca de auditório. O termo seria mais politicamente incorreto se ele dissesse que era macaco de auditório. Ninguém iria entender nos tempos de hoje. Mas ele era isso mesmo. Frequentava os auditórios das rádios que tinham programas ao vivo. Concorria com as mulheres, alucinadas, que gostavam de rasgar as roupas dos cantores. Um dia guardou seu maior troféu: o lencinho que Orlando Dias tirava do bolsinho do paletó ao final das interpretações e agitava para a platéia dizendo "Obrigado minhas fãs!" Ele era "o" fã, mas entendia a generalização. O tempo passou, os programas e os artistas foram para o vinagre - e ele baixou o fogo passando o dia todo de pijama em casa, mas sempre relembrando aquele passado cada dia mais passado. Até que um dia esqueceu tudo por causa de uma mulher. Artista, claro. Nunca a chamou pelo nome, apenas pelo personagem daquele filme: Malena. Soube que ela, italiana, veio morar no Rio de Janeiro. Foi atrás. Descobriu o endereço. Um dia a viu de longe e ficou contente. Teve medo de chegar perto, apesar de Malena estar tranquilamente fazendo compras num mercadinho.  Mas voltou de lá com uma recordação. Conseguiu o capacho da entrada da casa. Agora tinha o lencinho do cantor e o capacho dela. Este ficava ao lado da cama. Antes de dormir, como num ritual, ele o abraçava e cheirava. Então, de olhos fechados, via a personagem andando por uma calçada a beira-mar. Sussurrava o nome e só então dormia em paz.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Último domicílio conhecido

De Miguel Sanches Neto

Habitar a sombra
sem janelas de sol.

Residente e domiciliado
no impreciso, no intervalo,
na entrelinha, no avesso,
o poeta não dispõe de endereço.

Procurado no último
domicílio conhecido,
só encontrarão palavras.
O poema estará vazio.

Morar o poema
apagando pegadas.

Blecaute


Urubu

O urubu pousou na vida dele de uma maneira estranha. Foi ao abrir a persiana do escritório. Ele estava lá, do outro lado da rua, como um rei negro no topo do sobrado do vizinho. Não havia mais nenhum nem ali nem sobrevoando. De vez em quando batia uma brisa e as asas dele se abriam - e ele ficava mais majestoso. À distância parecia jovem. Estaria perdido? Nunca ele tinha visto urubu naquele pedaço da cidade onde filé mignon é comum no prato dos moradores. Claro que pensou na carniça. Mas, onde estaria? Na vizinhança um dia morou alguém que foi parar nas páginas policiais por roubo do dinheiro público, mas isso é outra história. O urubu ficou lá o dia inteiro, lindo, silhueta negra contra o céu azul ou algumas nuvens que ali passavam. Ele ficou observando. Pensou em fotografar mas... Pra que? Há certas cenas, momentos, visões, que é melhor guardar para sempre. O urubu, pensou o observador, deveria ser a ave símbolo do Brasil. Para o país ficar sempre limpo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Borboleta

De Emiliano Perneta

Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...

Lupicínio Rodrigues Nervos de Aço


Sou ladrão!

Sou ladrão, sim - e daí? Ninguém nunca me pegou. Sou o rei dos caras de pau. Claro que tenho um mandato parlamentar. E faz tempo! Tanto que, se bobear, ainda terei forças para colocar meu bisneto na quadrilha. Não tenho vergonha do que faço. Roubo algumas quirelas do orçamento. Tem gente que rouba muito mais. Todo mundo rouba, disso tenho certeza. Sempre fui modesto. Me contentei em ficar com uma parcela do que se transformou em beneficio para o meu povo. Meu povo que vota em mim. Meu povo da família vai muito bem, obrigado. No começo fiquei meio sem jeito para fazer a coisa. Depois, me acostumei. Dinheiro fácil. Me conformei com a história do nosso país. Sempre foi assim, desde que os portugueses mandaram os criminosos povoarem a terra que tudo dá. E como dá! Faço meu serviço direito. Engano a todos com discursos patrióticos e que pregam a honestidade. Para os outros. Não sou honesto. Sou honesto comigo mesmo pois me convenci de que dinheiro traz felicidade. Inventaram aquela lorota que diz ao contrário só para manter a bugrada mansa e na miséria. Sempre sou financiado por quem tem muito mais que. É que eles ganham ainda mais com o trabalho que faço para eles. É o jogo. Sou humilde, mas só gosto de ficar em hotel de muitas estrelas quando viajo para a Europa. Miami é coisa de novo rico cucaracha. Sou um velho ladrão. Ostento apenas lá fora, onde ninguém me conhece. Aqui, se pudesse, andava de Fusca, feito o uruguaio que liberou a maconha. Agora tenho de parar essa confissão. Porque vou queimá-la. Faço isso para desopilar. Isso e a missa que vou sagradamente todo domingo. No sábado me confesso. No dia seguinte, comungo. Para ficar pronto para os roubos da semana. Rezo para morrer num domingo. Eu acredito que exista o céu.