terça-feira, 1 de setembro de 2015

Bem no fundo

De Paulo Leminski


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Elza Soares, Miltinho e Samba do Ziriguidum


Seriados

Jim das Selvas era Tarzan e campeão olímpico de natação. Chita aplaudia e Jane perguntava que bicho ia dar. Havia um grito que, no futuro, Johnny Weissmuller deu no Fantástico e quase enterrou o próprio mito. Quem mandou? O menino viu tudo aquilo e muito mais. Era o tempo dos seriados como foi o tempo da Jovem Guarda para a música. Ingenuamente lindos. Os tempos de agora são de sangue e putaria, no pior sentido. Greta Garbo nem em Irajá acabou. Ela acabou porque ninguém a conhece, assim como Orlando Silva, aquele que compareceu à despedida de Belini no campo do Atlético Parananense. Cante o Carinhoso na voz de um breganejo aí! A moda agora é a da impressora que faz tudo. Fabricarão bilaus e xerecas para a brincadeira virtual. Jesus Cristo, eu estou aqui.!Glória a Deus e copo com água benzida para todos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

outubro

De Paulo Leminski

outubro
no teto passos pássaros
gotas de chuva

Elis Regina Triste


No paraíso

Meu paraíso foi construído em cima de um terreno invadido. Não lembro por quem, pois eu estava no bucho da minha mãe. Ela morreu de tanto beber. Mas antes, com meu pai, que era viciado em outras drogas até se matar com o crack, construíram o barraco com papelão, compensado usado, plástico preto, etc. Tem um rio fedido aqui na frente. Quando chove eu rezo para ele não invadir meu pedaço. Fui criado pelos vizinhos. Aqui tem uma turma de bom coração. Os traficantes também têm e eu fui alimentado por alguns deles, que morreram ou estão presos. Mas quem vive da droga é uma raça que nunca acaba. Tem o dinheiro fácil e, dependendo do acordo, proteção. Um dia achei um livro dentro de um saco de plástico que o rio deixou no barranco embaixo da minha janela. Eu aprendi a ler nos dois anos que frequentei uma escola aqui perto. Depois desisti. O livro era bem diferente daquilo que a professora com cara de fuinha ensinava como se estivesse há anos sem trepar. Também, quem ia querer comer aquela coisa? Mas foi assim que comecei a entrar em outros mundo, que é o de quem escreve. Parece uma mágica isso. Resolvi ser mais catador de lixo reciclável só para ir atrás de mais histórias escritas. O dinheiro que ganho dá para não morrer de fome. Leio direto nas horas qlivres. Como faço meu horário, às vezes passo uma semana com os olhos pregados nas letras - às vezes o coração aos pulos. Já disse que funciona mais que droga. Acho que aprendi a falar melhor assim, sem muitos erros. Talvez eu escreva alguma coisa a respeito um dia. A respeito do meu paraíso. Aqui. Não preciso de muito. Apenas que não me encham o saco.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um tapa, para começar

Há certas pessoas que nasceram para apanhar na cara. Em público. O rostinho branco e arredondado prontinho para ficar a marca do tapa, aquele descrito pelo tarado do Nelson Rodrigues - quando o que dói mais é o barulho. Há os que estão prontos para levar surra de cinta, no meio da rua, fivela deixando marcas pelo corpo.  Então, ajoelhados, de mãos postas, pedem perdão pela canalhice que aprontaram, pela falta de caráter como DNA de família. Marmanjões facilmente reconhecidos pelo sorriso puxa-saco, aquele "inteligente",que surge para agradar a quem quer que seja, mesmo que o momento seja errado e o cancro humano não esteja entendendo nada do que disseram ou da situação. Quebrar os dentes de um pulha desse tipo seria o ideal, mas aí o coitado do dentista teria muito trabalho de reconstituir parte da fachada do crápula. Um bom tapa, que deixa a marca dos dedos na face do vagabundo é suficiente. Ou não? Muitas vezes tal tipo têm orgasmos com isso - e depois aprontam mais para apanhar de novo e, quem sabe, poder gritar que quer mais e mais e que nasceu para isso. Nestes casos, quebrar algumas costelas fica de bom tamanho para o digno representante da escória. 

Orgia do nexo

De Nelson Capucho

orgia do nexo:
no dicionário
as palavras fazem sexo
                       

Dalva de Oliveira Hino ao Amor


terça-feira, 25 de agosto de 2015

É tudo o que sinto

De Paulo Leminski

Inverno 
É tudo o que sinto 
Viver 
É sucinto.

Racionais MC's e Vida Loka Parte II


Quem acha

Quem acha vive se perdendo. Noel Rosa teve a inspiração quando, de manhã, depois das noites de orgia, voltava para a Vila Isabel e roubava garrafas de leite na porta das casas vizinhas. Claro que isso foi inventado, mas o passado é bom porque a gente edita. Essa é do Armando Nogueira, aquele que colocou Garrincha driblando no espaço de um lenço. Me perdi sem me achar. Isso é pior ou melhor? Quem se acha é sério demais, do tipo imaculado, o machão que sabe tudo, que não sorri, que ferra com todo mundo e, em casa, fica só de calcinha vermelha rendada dançando rumba na frente do espelho. Zé Trindade saltaria de lado e pediria para o jacaré sair pra lá. O que seria toda essa colagem de lembranças que ficaram e ficarão? Nada. E tudo.  

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Não discuto

De Paulo Leminski


não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Martinha Eu Daria a Minha Vida


Maldição

Vai ver que foi isso mesmo: a maldição da cabeleira. A turma era do quarto ano do que hoje chamam de primeiro grau. De repente os Beatles invadiram o mundo. Ninguém ali decifrava o idioma inglês. Pra que? Todos fomos abduzidos por uma onda. O que mais chamava a atenção eram aqueles cabelos enormes a cobrir as parte das orelhas. Que coisa! Resolvemos criar a nossa banda. Sem instrumentos, sem música, sem nada – só com os cabelos. Não dava para esperar crescer. Era pra já. Uma das mães dos quatro rapazes da vila era costureira. Foi encarregada de inventar os cabelos. Um pano preto, bem recortado, na medida da cabeça, com a franjinha em linha reta na frente – e pronto. Os encontros duraram quase um mês. Um ficava olhando para a cara do outro – e os quatro para o espelho grande de uma sala. Na radio-vitrola, eles, os originais, que eramos nós mesmos. Anos mais tarde um deles deixou o cabelo crescer até o meio das costas e o cavanhaque batia no peito. Até o dia em que foi convocado para o Exército. Raspou tudo. Vestiu farda por um ano e, depois, ao tentar deixar a cabeleira recuperar o espaço, notou que as entradas estavam querendo saídas. Encontraram. Ficou careca rapidamente. Era o resultado da maldição da cabeleira de pano dos Beatles.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

isso e tanto

De Paulo Leminski

Não fosse isso
e era menos
Não fosse tanto
e era quase

Trio Mocotó Pensando Nela


Seis bolas

Os dois, cansados, voltavam de uma longa viagem de trabalho. Estavam perto da cidade destino, mas as horas de estrada os fizeram parar o carro num restaurante modesto. Um queria jantar. O outro, não. Disse que estava indisposto e, para reforçar o que sentia, passava a mão em círculos sobre o abdome. O garçom marcou o pedido do primeiro. Olhou para o indisposto e ouviu uma pergunta: "Tem sorvete?" Ao ser informado que, sim, ali havia sorvete bom, especial, de vários sabores, veio o complemento. "Então, faz o seguinte: coloque seis bolas numa travessa e, depois, abra uma lata de pêssegos em calda, despeje tudo em cima e me traga". O pedido foi atendido. Ele comeu tudo - para espanto do amigo. Depois, no carro, perto de chegar à cidade, ainda falou: "Quando chegar em casa, vou fazer uma boquinha porque estou com saudade e amo a comidinha da minha mulher".

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Dinheiro

Nunca vi o dinheiro dele. O dinheiro da carteira. Quando pedia uns trocados, ele puxava a dita, virava de costas para mim, tirava as notas menores - e me dava. Sei que era um sacrifício, porque aquele dinheirinho ele suava muito para ganhar. Talvez por isso tenha me transformado no inverso. Se pudesse  - e tivesse, distribuiria entre os filhos, netos, parentes, amigos que estivessem precisando, etc. A cena do filme me influenciou muito também. Japonês, preto e branco, cinema de arte, tela pequena e o motorista circulando pelas ruas de Tóquio, sozinho, com uma pacoteira de notas no banco do carona. Jogava as notas pela janela - rindo. A cena longa, sem trilha sonora, sem nada. Alguém escreveu que ali se mostrava toda a personalidade do personagem. Era ele. Era eu.

Zé Renato Arranha Céu


terça-feira, 18 de agosto de 2015

Era um garoto que...

Era um garoto que amava... só os Rolling Stones. Ele não sabe bem o porquê, afinal, não entendia patavinas de inglês, mas foi melhor assim, afinal, as letras são enfeites de quinta categoria para os raios disparados pela maior banda de rock de todos os tempos. Canonizou Keith Richards, não Mick Jagger. Acha que o sobrevivente é a alma que carrega tudo. Lá na vila jurou que, se um dia o grupo viesse ao Brasil, estaria lá, no gargarejo, mesmo se o show fosse numa clareira no meio da selva amazônica. Nas três vezes que tocaram e cantaram  (I Can't Get No) Satisfaction ao vivo, nestas terras, estava lá - e ainda ganhou de brinde um Bob Dylan na segunda vez que os velhinhos pisaram a terra brasilis. Foi com os filhos. Gostaria de apresentá-los aos netos. Agora se prepara para mais uma experiência inexplicável: a de saracotear sem parar durante as duas horas de inundação sonora, mesmo que esteja a dois quilômetros de distância do palco, como aconteceu em Copacabana - performance cujo encerramento foi um banho de mar no meio de uma noite inesquecível. Idoso com um pouco menos de estrada que os súditos da rainha, sai da passividade para o esbanjamento de energia tanto quanto o cantor bocudo. Está pronto para o ano que vem, pois desconfia que será a celebração derradeira de um amor que pulsa.

sábado

De Paulo Leminski

o mar o azul o sábado
liguei pro céu
mas dava sempre ocupado

Elton Medeiros Pressentimento


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

NAVEGANTE

De Helena Kolody


Navegou
no veleiro dos livros.

Desembarcou
e conferiu.

E o mundo que viu
não era o que imaginou.

Araci de Almeida Não Me Diga Adeus


Dois em um

Antonio das Mortes e Corisco se fundiram na lente de Glauber Rocha. Abençoados foram por Antonio Conselheiro em delírio - pouco antes da hora da morte. Eu vi na madrugada de lua cheia.  Eles vieram guiados pela mente de Stephen King e entraram no meu corpo como anjos e demônios prontos para a catequese. Havia uma Papo Amarelo e um punhal de prata enorme. Era o sinal para o juízo final dos que não têm juízo e, como senhores absolutos do poder, fazem dos desvalidos os merdunchos que João Antonio batizou. Para cada um deles uma bala .44 com uma cruz na ponta e a lâmina pronta para entrar bem abaixo do umbigo e varar tudo até sair no topo da cabeça. Assim foi feito. Bastava olhar, mesmo na tv, e ordenar os justiceiros. Bala e punhal entravam ao mesmo tempo, invisíveis aos olhos da multidão. Cães sarnentos apareciam do nada para urinar nos cadáveres. Os miseráveis não choravam. Faziam festa. Quem se apavorava eram os outros escrotos. Sem ninguém pedir, juravam arrependimento. Para estes o punhal era mais cruel: percorria do ânus à boca em câmera lenta. Mas eram tantos os crápulas, assassinos dos anônimos que os sustentavam, que Antonio das Mortes e Corisco um dia se cansaram. Retornaram ao filme. As ervas daninhas não tardaram a tomar conta de tudo novamente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

brisa

De Roberto Prado


como um salário de fome

para o cabeça de vento

vem o sopro da primavera

e sobre este vale tudo de lágrimas

soletra um nome

para que eu viva de brisa

Cascatinha e Inhana Meu Primeiro Amor


Vultos

Óculos na ponta do nariz, estava lendo um trechinho dos escritos de Roger Salter. Este: "Ele está se preparando para a chegada do grande artista que um dia espera ser, um artista no sentido verdadeiramente moderno da palavra, ou seja, sem grandes feitos, mas com convicção pura de sua genialidade". As janelas do escritório estavam abertas no final da tarde e o telhado que dava para ver logo adiante parecia agradecer a partida do sol que o castigou o dia inteiro. De repente, um vulto passa voando e pousa suavemente na beira da calha. Numa fração de segundo. Ao olhar por cima das lentes, o vulto continua vulto. Sabiá, com certeza. De volta à leitura, mais uma: "Ela era calma e lúcida. Tinha a paciência vasta dos insanos". Um grito corta o silêncio. Recebe o aviso de que os da casa lá embaixo estão saindo para uma festa. O pássaro voa. Ele fecha a janela e tenta escrever algo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Lobotomia

De repente olho e vejo aqui na mesa uma gaita de boca azul, um pião e a fieira, um calendário Seicho-No-Ie  que ensina "A alegria da alma manisfesta-se nas ações de amor ao próximo", duas agendas telefônicas com mais de dez anos anos de uso, folhas soltas, nomes se apagando, números que não servem mais, um caderno com anotações de viagem que nunca mais abri, um porta-canetas feito no tempo de internamento no manicômio e o telefone vermelho que achei ser do coronel maluco do filme Dr. Fantástico. A quem interessa a descrição? A mim mesmo, porque quem lê vai imaginar a mesa, a tela do computador, talvez o local e não vai passar perto do real. Jornais da semana se espalham pelo chão e há uma arma com mira telescópica num canto. Chumbinho. Sim, matou. O que? Não interessa. Como Lawrence da Arábia, depois da primeira morte, houve prazer. Mas isso faz tempo e eles não apareceram mais no quintal para levar bala. Será que estou ficando louco? De novo? Sei que em casa há uma camisa de força guardada em algum lugar. Já estive dentro dela. Manso. Agora visto roupas de grife e frequento locais onde os tubarões nadam, deitam e rolam. Deveriam ser abatidos - porque mais alucinados. O sangue escorre de suas bocas e eles querem mais. Isso é outra história. Estou sozinho. Tenho cicatrizes grandes nas têmporas. Me falaram em lobotomia. Estou calmo. Vou tocar a gaita e rodar o pião. Com licença.

Fagner Jura Secreta


Haicai da necessidade de morrer

De Miguel Sanches Neto


Morrer de vez em quando
em muito melhora
a qualidade de nossa obra

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

lâmpada e estrelas

De Helena Kolody

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Renato Teixeira Amanheceu Peguei a Viola


Não

O não era a sua perdição. Tentou achar a nascente daquilo, pois bastava ser contrariado, em qualquer situação, por mais boba que fosse, e via o alçapão se abrir aos pés da sua alma. Mergulhava então na catacumba, purgatório, areia movediça com baratas gigantes. Uma vez viu seu coração ser arrancado a fórceps pela boca e comido por piranhas dentro de um aquário só porque, em casa de parentes, não lhe deram a mostarda marrom para colocar no cachorro quente. Ele pediu, ela estava ali perto, disseram para ele pegar - mas como se levantar dali se ele pediu porque morria de vergonha? Foi por isso que durante muito tempo o mistério do namoro era anabolizado pelo segredo do beijo - e ele apenas se apaixonava por meninas que lhe davam toda bola, mas... Como falar? E se elas dissessem não? Morreria, certamente, de queda de boca no meio-fio, dentes quebrados fazendo-o engasgar até o último suspiro. Tudo acontecia até o dia em que uma palavra se tornou mágica e matou o pesadelo para sempre. Ele ouviu um sim que fez sentido para sua alma atormentada. Foi uma coisa simples, mas aconteceu. Entrou na mercearia e deu vontade de comer pé-de-moleque. Perguntou ao senhor de barbas brancas, que estava atrás do balcão, se ali tinha . Viu os olhos brilharem e um sorriso apresentar um dente de ouro e vários careados. A resposta positiva foi como flash de luz. O doce comido numa longa caminhada de volta para casa fez o resto do serviço de aniquilamento da palavra da perdição.  

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

mentira

De Paulo Leminski

Essa idéia 
ninguém me tira 
matéria é mentira.

Sergio Reis Coração de Papel


Preso

Eles entraram arrombando a porta. Um helicóptero pairava sob o terraço do prédio. Alguns desceram dele, deslizando em cordas. Homens de preto. Só os olhos de fora. Alucinados. Armas modernas apontando e gritos histéricos inundando o ambiente. O café ainda estava quente na xícara. Não consegui dar um único gole. Não me apavorei. Esperava isso. Sentado, ergui os dois braços e espalmei as mãos. Dois gorilas as seguraram, colocaram para trás e me algemaram. Não leram meus direitos. Isso é coisa de filme americano. Desci pelo elevador cercado por dez. A rua em frente ao prédio estava com o trânsito interrompido. Mais policiais, armas, cães mostrando os dentes. Me colocaram no banco de trás da barca. Era assim que a gente chamava as viaturas no tempo de colégio e maconha. Foi a primeira vez que fui transportado assim. Ao chegar na dependência policial havia um batalhão de carniceiros. Tom Wolfe rotulou assim os repórteres em seu clássico "Os Eleitos". Sorri para os que conhecia. O delegado mandou tirar as algemas. Meu advogado chegou em seguida. Estava com o terno Armani que gosta. O perfume não identifiquei. Ele cochichou algo para o manda-chuva. Ele me mandou sair pelos fundos. Voltei para casa. Tive de fazer um café novo.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Passos no mundo

Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar. Nome de música, nome de disco. Pouca gente conhece. Nem te ligo. Ela me ligou. Eu dava mais que um passo. Pegava o Dinossauro da Viação Cometa e ia passar férias no Rio de Janeiro que era Guanabara. O quepe do motorista e a alavanca para fechar a porta eram o máximo. Lá, sempre o mundo saía do lugar. Porque o meu era da vila pobre e no fim da estrada tinha um Cristo querendo me abraçar. Um dia, no bairro onde nasceu um gênio, o Méier de Millôr, fui soltar pipa no terreno vizinho do casarão onde ficava com a tia querida. O muro caído, alguns passos, o brinquedo subindo no ar e um grito vindo não sei de onde. "Se não sair daí eu te queimo de bala". Era um general sem pijama, soube depois. Dei mais um passo para tomar Grapette na areia da praia que hoje é de merda. E muitos passos para comprar bisnagas nas padarias de vascaínos. Um dia vi General Severiano, mas só muito tempo depois soube que as pernas tortas estavam lá. Botafogo. Agora, depois na longa caminhada, vi o grande mural do restaurante Fiorentina, no Leme - e todos os campeões estão lá, os de 58 e 62, sempre nos esperando. O mar é o mesmo. O mundo saiu do lugar sem eu dar um passo.

Revendo uma foto antiga

De Miguel Sanches Neto

Nesta foto do tempo de criança
o que mais me encanta
não é nossa alegria de infantes
mas a réstia de luz de uma manhã
brilhando no chão da varanda.

Ninguém apaga este sol
que nos chega da infância.

Pandeiro Repique Duo Solando Pra Comemorar


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

o que me falta

De Alice Ruiz

Já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me
falta.

João Bosco Jade


Bola de gude

A poucos quilômetros da frieza do asfalto e concreto havia o mar, uma praça, uma igreja no alto da colina e, perto dali, numa rua de terra, meninos brincando com bolinhas de gude. Ele parou para olhar, sentou no chão e aquelas pequenas mãos e dedos ágeis faziam as esferas coreografarem o jogo que levou seu coração ao passado. Pediu para entrar na brincadeira, ele, um senhor de sessenta anos. As crianças acharam esquisito, mas viram que seus olhos verdes pareciam com as de algumas bolinhas - e a bermuda surrada, a camiseta velha e a sandália de dedo eram a verdadeira identidade de um eterno menino. Ele ficou ali por muito tempo, esqueceu o que foi fazer naquele pedacinho do mundo cujas costas eram protegidas pela Mata Atlântica e o peito por um estuário santuário. Era craque no tiros disparados com o dedão pressionando a esfera contra a dobra do indicador. Acertava as outras bolas a qualquer distância. No final, quando disse que precisava ir, os meninos o cercaram e lhe deram algumas daquelas bolinhas de presente. Ele as guardou no bolso, entrou no carro e, na estrada de terra que o fez voltar para o asfalto que o levou depois para a cidade grande, chorou sozinho no final de uma tarde cercada de silêncio.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

não tem cura

De Paulo Leminski


Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

Camisa de Vênus Eu não Matei Joana D'Arc


Se...

Se ele fez curso por correspondência para aprender a escrever... Se tinha 45 anos e estava matando cachorro a grito sem dinheiro pra nada... Se estou lendo a história dele e depois de 130 páginas cheguei ao ponto do início da trajetória de um dos grandes mestres da escrita... Se grandes problemas com álcool o atormentavam e pretendia ser um grande romancista no estilo clássico... Se trabalhou em empresas petrolíferas dos Estados Unidos e foi educado na Inglaterra depois de passar períodos na Irlanda, origem da família da mãe... Se pilotou aviões numa guerra, mas não esqueceu sua vontade de se tornar um nobre no estilo inglês... Se Los Angeles e os assassinatos, corrupção na polícia e na política formaram o painel dos livros que o tornaram famoso... Se esteve em Hollywood e é clássica a sua trombada com Hitchcock... Se Philip Marlowe é o detetive mais cultuado, o mais durão - e que serviu como luva para a fachada de Humphrey Bogart... Se para ele não importava o esclarecimento da trama, mas sim como ela era contada... Se Raymond Chandler não existisse...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Renato Teixeira Tocando em Frente


Lasque-se

Tá olhando o que aí? Não quero saber se a mula é manca ou se você está mais por fora do que umbigo de vedete. Aqui não tem nhenhenhem. Abriu o espaço em branco, eu meto os dedos. Se sai sinfonia, maracatu, congada, bolero, samba atravessado, o problema não é seu - é meu. Leitor é para ler. E fim de papo. Melhor, meio. Estou virado pelo avesso. Com a macaca. Quem não gostar que se arranque com uma quente e outra fervendo. Texto tem que ter música e porrada, mesmo carinhosa. Aprendi no muque, tateando feito cego em muro chapiscado. Saí do escuro analfabeto e fui olhando e lendo. Encontrei meu time e eles estão aqui ao meu lado. Na estante. Quem quiser entrar nele tem de me convencer. De cara, nas primeiras linhas, com soco no estômago ou magia encantadora ou ainda uma mão a me puxar pelos caminhos. Os deles, que também são meus - e vice-versa. E você? Continua olhando aí? Entendeu o que eu disse ou faz parte da multidão de ignorantes que faz deste país aquilo mesmo que vocês sabem? Nem sei porque botei isso aqui. Vai ver é porque estou triste, sem saber. Não, não é fuga, babaca. É arrancar de dentro e jogar no espaço em branco. Não gostou? Lasque-se.

terça-feira, 28 de julho de 2015

primavera

De Alice Ruiz

primavera
até a cadeira
olha pela janela

Orlando Silva Lábios que Beijei


O espinho sou eu

Eu sou o espinho. Ninguém nunca deu bola pra mim. Só a quem furei - e ceguei um olho. Nunca me procuraram. Nem quando aconteceu (e faz tempo!), nem depois. Resisti a tudo e estou aqui, perdido na caatinga e com o mesmo gosto daquilo que vazei. Já sei que apareci em filme, mas ninguém sabe mesmo o que aconteceu. Filme é invenção em cima da invenção que vai sendo inventada de conversa em conversa. Quando entrei no olho dele, sem querer, o capitão não gritou. Só caiu para trás com a mão tapando onde havia o furo. Homem temperado, aquele. Amargo e doce. Anjo e demônio. Justiceiro. Amado e odiado. Caçado durante anos. E eu aqui me achando - porque furei ele. Quando soube que caiu em emboscada em Angicos, verti uma lágrima. Sim, porque o mandacaru onde nasci chora. Desgraceira aquela que fizeram cortando a cabeça de quase todos do bando. Maldade. Mas aí que a fama aumentou. E eu aqui, no oco do mundo. Várias secas e chuvas depois, ainda espero. Não sei o que. Não quero fama e, pensando bem, se pudesse teria evitado aquela desgraça. Aí, talvez, quem sabe, Virgulino Ferreira da Silva tivesse durado mais tempo. Lampião com os dois olhos seria mais difícil de matar. Mas ele não morreu. Nem eu. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

no espelho

De Sérgio Rubens Sossélla

sim
eu no espelho
vim


O filme da morte

Planejei minha morte há muito tempo. Morte para o cinema. O roteiro veio no dia em que me disseram que tenho fogo no rabo. Minha mãe falava diferente. Ela era mais direta e dizia fogo no cu - por isso me sinto liberado para dizer qualquer palavrão, em qualquer lugar e, se for o caso, para qualquer pessoa que ultrapasse a linha imaginária riscada no chão. Misturei Hitchcok com De Palma, dei um toque de Fellini no script e fiquei com ele guardado aqui, na cachola, até a hora - não da minha morte, mas da filmagem. Sei que o cenário será todo branco, com flores, caixão e o terno. Sei que no close do rosto, sem algodão nas narinas, vou abrir os olhos e, depois que a câmera se afastar, pegarei o celular no bolso do paletó e discarei para alguém. Direi então "agora baixei o fogo" - e depois de guardado o aparelho, continuarei como antes de abrir os olhos, mortinho da silva. The end.

Milionário e Zé Rico Sonhei com Você


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Madrugada São João

A madrugada da avenida São João não é para amadores. A esquina com a Ipiranga, que o baiano rico disfarçado de pobrezinho imortalizou na música para os basbaques, ainda não tinha sido tomada pelo restos de gente do crack. Os bares com quinhentos metros de fundo ficavam abertos até amanhecer - e a lamentar somente o fim da boate Oasis e os salões de bilhar onde reinava o gênio Carne Frita. Mas havia a aura, nebulosa, cores esmaecidas, mulheres sambadas da vida, aprendizes de malandros, malandros em fim de linha, uma cerveja por favor. Às três da madruga, depois do trabalho pesado, o primeiro gole era como voltar à terra, apagar a fadiga, olhar em volta e pensar no que fazer até o primeiro ônibus chegar junto com o raiar do dia. O subúrbio dormia à espera. E um sebo com livros e revistas antigas também, ali na porta de aço ao lado. Foi assim que ele viu a mulher dos sonhos na capa de O Cruzeiro. O que mais chamou atenção foi a cintura de pilão. Pagou o preço. Caminhou até o Vale do Anhangabaú, desceu a ladeira Porto Geral e ficou encostado no poste do ponto abraçado e com ela no peito. Durante todo o trajeto até a vila olhou-a apaixonado. Abriu a porta da casinha de fundos e foi dormir de roupa de tudo no colchão de palha. Estava feliz por ter encontrado. Guardou-a para sempre. Marta Rocha.

grilo

De Alice Ruiz


amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa

Trio Nordestino


quarta-feira, 22 de julho de 2015

pesadelo

De Paulo Leminski

acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

Wilson Simonal Sá Marina


Sórdido

Aquele boteco sórdido tinha de existir. Não, ele não queria beber lá, porque já tinha passado o limite entre a vida e a morte e sobrevivido. Mas queria conhecer porque, quando bebia, desde a hora em que acordava até onde não lembrava mais, fazia sempre em botecos como aquele descrito pelo mestre da escrita. O bar era tão absurdamente sujo que os frequentadores puxavam para dentro os cachorros sarnentos que passavam na calçada em frente. O que mais interessava, contudo, era a imagem de Jesus Cristo com tapa-olho. Se a visse, achava que entraria numa nova dimensão da vida, agora regada a água e suco. Procurou em todo o Rio Grande do Sul, porque a indicação era de lá. Um dia, chegou lá. Entrou e logo se ajoelhou para a imagem. Fez então sinal da cruz e rezou um Pai Nosso. Depois, pediu ao dono do bar para chegar mais perto  do que buscava - verificou então que, realmente, havia uma barata esmagada no olho esquerdo de Jesus. Chorou de emoção. Ia saindo quando lhe perguntaram se queria comer algo. Ele pensou duas vezes e ... por que não? Disse sim, afinal, não tinha morrido com todas as porcarias que mandou pra dentro nos tempos das bebedeiras. Olhou um prato sujo em cima do balcão e pediu o último quibe que estava ali. Lhe disseram que não era quibe. Alguém abanou a mão logo acima do quitute e todas as moscas voaram. Surgiu então um ovo cozido e descascado. Ele dispensou a iguaria - e saiu feliz agradecendo Luis Fernando Verísssimo. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

longe da insensatez

De Nelson Capucho

o que tivesse tido
não me bastaria
de todo haver
eu jamais seria
como sou das coisas
sem serventia

do pó de estrelas
aspiro o brilho
longe da insensatez
                  dos dias


Paulinho da Viola Timoneiro


Um caco de vidro

O caco de vidro escondido no terreno baldio. Fundo de garrafa se elevando em picos sujos pelo tempo. Ali, escondido, acompanhando o silencioso crescimento do mato em volta. Armadilha à espera de um pé descalço, com brancura ingênua como a brincadeira que leva aquele menino a correr olhando para trás no pique-esconde. O caco de vidro é o grito. Ele procura a veia, o osso, lacerando músculos, arrebentando a pele. Sangue regando a relva, manchas no céu, escuridão. Salvem o menino! O vidro, agora rubro, vai para o fundo de um quintal. Um martelo o estraçalha com raiva. Os pedaços jogados no lixo somem daquele pedaço de vila. O menino está salvo. Pé enfaixado e um sorriso nos lábios. Ganhou carinho e guaraná para tomar no bico Ali perto, numa casa de madeira, o chuveiro é aberto e alguém canta. Depois todos daquele universo desaparecem durante o sono. Os cacos de vidro continuam como sempre. Em silêncio.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

De fianco

Abraçou assim, de ‘fianco’ – e era para ser assim mesmo no primeiro encontro depois de anos conversando através das estrelas. Para entrar na alma – como se isso precisasse. Apareceu lá no portão sem aviso, porque assim é que chegam as cartas importantes, escritas a mão, Parker 51, tinta azul lavável. Explicou que o escrever para quem escreve mesmo é uma herança de milhões de anos, muito antes de Homero soltar Ulisses no ar. Televisão e rádio e um locutor, que é poeta, poderia ser Super Big Boy com cultura. Dínamo a rodar e fazer a cadeira girar e o tapete persa a enrolar a seus pés. Uma imagem que remeteu a outra, outra pessoa, mas igual, explosão criativa, ansioso para fazer jorrar o que lhe alimenta, como se não pudesse perder tempo porque a gente não sabe o que pode acontecer agora. Um encontro entre os dois será o Big Bang. Depois, na saída, outro abraço de fianco – revelação em cima da revelação, porque já se sabia pelos sinais que furaram a cidade.

amor ao bar

De Marcos Prado
 
uma pessoa, agora sua íntima
foi parar um dia no hospício
não por uma obsessão legítima
nem por doença ou vício
ele foi por estar claro
que o álcool fazia-lhe mal
e porque o bar o
lembrava um hospital
essa pessoa, que sou eu
percebeu de si a manobra
o que de mim o álcool bebeu
dele ele fez sua obra

Cartola, Leci Brandão Deixa Pra Lá


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Cesar Camargo Mariano, Luizão, Paulo Braga e Bala com Bala


Cavalo com espora

De Luiz Antonio Solda e Paulo Leminski

Eu quero me afogar na salmoura
dormir na manjedoura
ser um monge de outrora
o dia inteiro fazendo hora
Cortar o mal com tesoura
eu quero o mal
mal quero
e tudo me apavora

O polvo
o povo
a pólvora
tudo enfim
que meu cavalo sente
quando me senta
espora.

Duas mães

O psiquiatra perguntou se ele lembrava de alguma coisa antes dos três anos de idade. Só vendo as fotos, disse o paciente, com 35 anos de divã. O doutor queria saber como a mãe o tratava naquele início de vida. Ele só lembrou da história do leite condensado que tomava no lugar do leite materno - e brincava que tinha ficado um docinho para enfrentar a vida. Não tinha mais como perguntar para quem o pariu. Lembrou então que uma pessoa da família poderia informa alguma coisa. Era a irmã da mãe, que morava no mesmo terreno, mas na casa da frente. Fez o telefonema interurbano. Ouviu uma história linda. As duas eram costureiras, mas uma passava o filho para a outra porque era mais devagar, cautelosa com as encomendas. A tia contou que impulsionava a máquina com o pé direito enquanto a perna esquerda ficava de lado para sustentar e proteger a criança. Ele cresceu a chamando de mãe. Um dia chegou chorando desesperadamente naquela casa. Contou que alguém tinha-lhe dito que a tia não era mãe. Era - e só ele e ela sabiam e sentiam isso.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Marina Lima Fullgás


No centro do terreiro

Sentou no banquinho de palha bem no centro do terreiro. Fechou os olhos e as palmas das mãos foram colocadas para cima - por outras mãos. Recebeu apenas uma orientação: se deixar ir. Ele foi, sob o som do atabaque e músicas populares, para a viagem mais alucinante da sua vida. E quem agora lhe falar em outro tipo, quando se cavalga substâncias que podem levar à morte, ele sabe o que dizer. Até o dia em que foi gerado ele viu, porque cena de uma noite silenciosa, céu de estrelas e amor feito na rede. Do outro lado da estradinha estava o pé de manga centenário que o fez sofrer quando soube que foi derrubado. Mas ali, ao ver ele ser cortado, soube que tudo tinha vindo para dentro da sua alma, aquele gigante que presenciou tudo desde os tempos imemoriais dos antepassados estava eternamente salvo. Passou por tudo e acompanhou a mãe carregando uma sacola com comida para o pai caminhando na ladeira infinita, todo dia - e ela feliz porque ele só gostava do que ela fazia. O sacrifício da caminhada ladeira abaixo, ladeira acima, era o de menos. Teve cachoeira, teve pedreira, teve selva, teve rio, teve bola, teve gente. Era tudo vida. Ao abrir os olhos, continuou como sempre, com mais certeza de o normal é que é o delírio.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Cariados

De Sérgio Rubens Sossélla

pesadelos
esses cariados buracos da noite
onde caímos e nos repetimos


A Cor do Som Beleza Pura


Leila na madrugada

Ela olhou do alto da banca de revista e soltou um palavrão. Gamei! Comprei o jornal onde aparecia com uma toalha enrolada na cabeça e um roupão cobrindo o corpão. Nunca mais nos separamos. Mesmo depois da explosão do avião em que estava junto com Agostinho dos Santos. Será que ele cantou só para ela, com aquela voz doce que entra e não sai mais da alma? Musa é musa – e por isso nunca tive inveja dos seus incontáveis homens. Porque Leila Diniz era todas as mulheres do mundo. Ela que foi professora de profissão e da escola da vida. Quando abri os olhos no meio da madrugada e apertei o botão para a tela acender, estava lá um filme com o nome dela – não com ela. Quase chorei de raiva, porque não se faz um lixo como aquele, supostamente para contar a história dela, onde, para começar, o corpo da atriz protagonista era uma tábua de passar roupa – e os coadjuvantes imbecis com roupas imbecis e falando imbecilidades. Desliguei, mas antes vi o final que era mais patético e retumbante do que o resto. Então, no escuro, ela apareceu com aquele sorriso, a voz acariciante e os olhos cujo brilho dizia: “Eles não sabem o que fazem”.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Na lua

De Helena Kolody

Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
falando às estrelas

Nelson Gonçalves Caminhemos


Dentro d''água

Ouviu dizer que, ao contrair uma gripe muito forte, a pessoa entra num estado como se estivesse por muito tempo com a cabeça dentro d'água. Tirou o termômetro do sovaco, olhou o mercúrio nos 40 graus, tossiu - e uma bola de catarro amarelo saiu do seu peito, atravessou a boca e foi parar num guardanapo de papel que tinha no criado mudo. Duas marretas batiam nas têmporas. A nuca espetada por uma adaga. Arrastou os pés e levou o corpo até o banheiro. Encheu a banheira com água morna. Entrou de roupa e tudo. Olhou o teto, fechou as narinas com o indicador e o dedão da mão direita. Afundou. Ficou até o pulmão arder. Quase explodiu. Tirou os dedos, a água entrou pelos dois buracos e depois pelo túnel da boca. Não sufocou. Achou estranho. Os olhos confirmaram que estava mesmo coberto pela água. Então apareceram pessoas conhecidas sorrindo. Ele sorriu também. Depois o céu em frente a uma casa que conheceu nos arredores de Londres. Aí vieram as montanhas em Palm Springs, o K2, o Kilimanjaro, o Fuji. Uma casinha em Arembepe, o mar de cana no interior do Brasil, uma passista de escola de samba, o Zé Trindade pulando de lado, Dick Farney e João Gilberto cantando, o salto do Morato visto de baixo... Tossiu. Sentiu-se afogado. Pulou para fora da água. Tirou a roupa. Se enxugou. Não sentia mais nenhuma dor.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Na batida do pandeiro

A prima batia no pandeiro, o pai dela girava o afoxé, um amigo dedilhava o violão de doze cordas e o líder empunhava o cavaquinho com um sorriso que iluminava o quintal. Chorinho. Era assim, todo sábado, no final da tarde. Eles se reuniam ali e descia tudo lá não se sabe de onde, porque ali Valdir Azevedo e Jacob do Bandolim não eram inimigos. Vai ver que era a presença de São Pixinguinha. Vai ver. O menino ficava encostado numa parede, dedo na boca, e lembrava de algumas músicas que escutava na rádio-vitrola de olho mágico. Ao vivo era outra coisa. Ele sentia o som até no umbigo estufado, principalmente o arrancado do pandeiro. Foi o primeiro instrumento que gostou. Queria saber tocar. Compraram um pequeno para ele. Era uma bateção só. Um dia, num casamento bem longe dali, estava lá o conjunto, e ele queria tocar junto - com o seu pandeiro. Tanto fez que foram buscar em casa. Ele acha que tocou junto. Ninguém reclamou. Depois disso guardou-o e ficou o resto da vida ouvindo o som que tirou do couro naquela noite.

terça-feira, 7 de julho de 2015

gato e janela

De Alice Ruiz

janela que se abre
o gato não sabe
se vai ou voa

Antes e no tempo certo

Matei, sim. Foi consciente. Não foi violento, mas poderia ter sido. Num olhar, depois de um encontro sem querer na rua, me pediu. Pediu, não, implorou. Nunca vi olhos tão tristes. Sentamos para tomar um café no boteco sórdido. Só ouvi coisas maravilhosas de uma vida de realizações, de aprendizado constante, de viagens para lugares paradisíacos, de encontros com pessoas do bem. Mas o olhar do primeiro contato era um pedido. Havia dose suficiente em casa para dizimar uma manada de elefantes. Convidei para continuar a conversa. Fiz um chá decente, servi em porcelana chinesa. Aqueceu a alma e me olhou de novo como no primeiro contato. Fui até o armário, preparei a dose e quando voltei já tinha erguido a camisa do braço direito. Achei fácil a veia. Sou profissional. Injetei. Foi apagando com um sorriso beatificado. Tudo terminou rápido. Levei-o para uma praça bem arborizada. Ficou sentado num banco como se a admirar uma árvore centenária à sua frente. Ao retornar, chorei um pouco. Quando enxuguei as lágrimas, dei de cara com a fotografia que sempre amei. Dois olhos - e dentro deles o meu reflexo. Dois olhos que foram embora bem antes do tempo. E sem pedido.

Veronica Sabino Demais


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Teu nome

De Paulo Leminski

A noite - enorme
Tudo dorme
Menos teu nome


Zezé Gonzaga Falando de Amor


Ilusão e guerra no céu

Foi a coisa mais linda surgida no céu da vila e também a mais destruidora. No tempo certo de soltar papagaio (lá a gente chamava de quadrado), a brincadeira era a mais ingênua e infantil possível, pois a graça era confeccionar os tais com papel de seda e varinhas de bambu, fazer um rabo de pano, comprar carretel de linha e colocá-los no ar. Ficavam lá sustentados pelo vento e colorindo tudo - cada criança encantada com o que tinha ao comando. Então, surgiu. Obra dos adolescentes baianos, filhos do único dentista da redondeza. O deles parecia com o nosso "lata de óleo", mas a construção era diferente. Na folha recortada em forma de retângulo, colavam duas cascas de bambu verde e a rabiola era feita de pedaços de algodão que iam decrescendo de tamanho e, ali, no final, amarravam lâminas de gilette - e toda nossa turma descobriu isso tarde demais. Obrinquedinho deles parecia uma serpente no ar, que ia para a esquerda, direita ou "desbicava" rebolando em mergulho ao comando da linha sobre o dedo indicador. Eles cortaram a linha de todos, durante vários dias - e lá ia o sonho dos ingênuos flanando sem amarras e sem destino até cair em lugares desconhecidos. Ninguém fez mais "quadrados" durante um tempo. Até um foi passar férias no Rio de Janeiro e de lá trouxe várias pipas e o segredo do cerol cortante, a mistura de cola e vidro moído que se passava na linha para as batalhas. A moda pegou, os baianos não levantaram mais vôos e o que era doce ilusão se transformou em guerra constante nos ares.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Choro e fortuna

Olhou algo e começou a choramingar. A mãe não entendeu. Ele não parou. E apontou o dedo. Para a tv. Era um pudim. A mãe não sabia como reverter a situação. Tentou de tudo. Colocou-o no colo, fez cafuné, andou pela casa. Nada. Ele não berrava. Choramingava. Por algum motivo ela lhe deu dinheiro. Cédula dourada. Ele parou com o choro na hora. Pegou o papel e ficou olhando. Só largou quando dormiu de braços e mãos abertas no berço. Sem querer descobriu a fórmula. Tanto que a mãe guardava as notas mais novas para ele. E guardava depois numa caixinha que deixou perto do berço, depois no criado mudo ao lado da cabeceira da cama. Quando cresceu, antes de dormir, ele olhava a quantidade de dinheiro que tinha acumulado. Não gastava nada. Aperfeiçoou o choramingo. Desenvolveu uma técnica. Às vezes bastava fazer um olhar desconsolado para ganhar algo. Expandiu o universo de doadores. Adolescente já tinha mais dinheiro que o pai. Virou empresário. Arrancava tudo dos donos do poder. Milionário, não se divertia, não comprava nada que não revertesse em mais dinheiro. Não casou para não ter herdeiros. Tratava os empregados a pontapés. Achava que todos choravam pitangas para conseguir mais salário e benefícios. Morreu assim. Ninguém derramou uma única lágrima em sua lápide, de mármore cinza, cor que ele mais gostava - a cor de seu cofre.

samambaia

De Alice Ruiz

som alto
vento na varanda
a samambaia samba

Sergio Murilo Broto Legal


quarta-feira, 1 de julho de 2015

no buraco

De Paulo Leminski

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir




Cartola Peito Vazio O Sol Nascerá


No escuro

Perdeu o show da Tina Turner e a visão - tudo ao mesmo tempo agora. Tinha comprado ingresso, viajou mais de mil quilômetros, mas antes de ver a energia negra de pernas luminosas, e bem antes de ver o marido que a espancava depois de cheirar cordas de coca, antes ele foi visitar um amigo na casa do litoral. E foi aí que se perdeu. Talvez tenha sido a carga de adrenalina recebida num passeio de moto - e sem capacete, mas a verdade é que saiu da garupa e entrou numa garrafa de cachaça que o tirou do compasso do tempo. Depois derrubou outra e mais outra... quando acordou, sabe-se lá quanto tempo depois, não estava enxergando nada. Gritou que estava cego, mas ninguém o ouviu. Sozinho, não tinha noção do espaço onde estava. A canela bateu em algo e a dor foi lancinante. Foi tateando tudo e descobriu um quarto. Achou a porta e, ao girar a maçaneta, tomou um banho de estrelas no céu, ao mesmo tempo que sentia a brisa do mar. O coração disparou e a lembrança voltou, como a visão. Tina Turner, àquela altura, cantava Acid Queem num estádio de futebol muito distante. Ele sentou na areia da praia e chorou. De alegria e tristeza.