quinta-feira, 12 de novembro de 2015
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
M. de memória
De Paulo Leminski
Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.
Não
Ele entrou naquela sala, sentou numa cadeira de plástico branca e ficou ouvindo aquilo que considerou ladainha sem sentido. Tinha tomado apenas uma dose, há algumas horas. Não queria se entregar pelo bafo. Na verdade obrigaram-no a ir até ali. Ele resistiu o quanto pode - e entre a sugestão e o comparecimento... quantos porres... Não lembrava porque estava na fase dos apagamentos. Naquele dia foi - para conferir e dizer que tinha ido, afinal, foi o filho mais velho o aconselhador. Estava quase levantando para se mandar para o bar mais próximo quando um sujeito de cavanhaque, óculos de grau, camisa quadriculada, calça jeans, foi até a frente para falar. Não lembra o resto da conversa, apenas de uma parte, poderosa demais. Disse o fulano que no milionésimo de segundo que antecedia virar o copo e engolir o veneno, naquele instante, um não poderia modificar todo o resto da vida. Porque depois, a vontade, a fissura, o costume, sabe-se lá o que, passaria. Aí, na sequência de se tomar conhecimento do poder deste não, os outros viriam com mais facilidade, e sucessivamente, até... Agora ele estava pensando nisso, de novo, no mesmo local onde esteve 26 anos atrás - e seu coração se encheu de alegria. O não entrou na sua alma e ele só o pronunciava agora para recusar quando lhe ofereciam o copo cheio em festas ou encontros onde as pessoas não sabiam de seu passado. Então ele riu por dentro, olhou em volta e rezou para que os outros presentes pudessem ter o mesmo destino, aquele que começou com um não e se transformou num sim à vida.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Redemoinho
Não abriu a boca. Sabia que havia alguma coisa ali dentro, mas ficou quieto. Pensou que estava ficando adulto, aos 70, porque um dia alguém lhe disse que o papo de ser menino era desculpa. Ele nunca se livrou dos medos de criança. Nem das alegrias, que carregava em caixas cheias de bolas de gude, piões, carrinhos sem rodas, aviões de lata. Adulto. O redemoinho que sentia bem abaixo do peito o fez lembrar fotos de furacões feitas de satélites e apresentadas nos horários nobres dos telejornais. Lá vem! Boca fechada. Não sabia o que estava lá dentro porque a mente não conseguia decifrar. Olhou pela janela e viu a luz amarela pendurada num poste. Um vento frio invadia o ambiente. Sozinho. Era melhor assim? Não, não sabia de nada, apenas que era aquilo, no momento - e que tinha de passar. Um cachorro latiu na rua. Outros responderam. Veio uma dor, ele abraçou a própria barriga e se curvou. Pai, mãe e filhos que olhavam de fotos penduradas na parede se preocuparam. Ele deitou no chão e a posição fetal foi inevitável. Veio um choro sentido, convulsivo, como se para pagar todos os pecados do mundo. Sozinho. Sete imagens do Espírito Santo dentro de capelinhas de madeira observavam em silêncio no canto de uma estante. Então conseguiu pensar em algo. Aquela era a dor do ser humano. O redemoinho sumiu. Ele se esticou e levantou. Estava salvo. Por enquanto.
máscara
De Sérgio Rubens Sossélla
no dia em que eu colocar u’a máscara
todos me reconhecerão, na hora
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
O terçol do olho cego
Não enxergo. Nasci assim. Não fiquem com pena. Desenvolvi ao máximo todas as sensibilidades possíveis. Tateio. Cheiro. Ouço. Penso. Meu mundo não é escuro. Porque são sei o que é a luz. Mas eu a sinto. Muito mais do que quem enxerga. Não gosto quando comparam os imbecis com a cegueira. Imbecil é quem faz isso. A convivência social é complicada. Odeio quem tem compaixão babaca ou fica perguntando sobre minhas dificuldades. Saio pouco de casa. Gosto de ouvir música clássica. Estou com um grande problema agora. Ainda não contei a ninguém. Comecei a sentir uma dor embaixo do olho esquerdo. Nasceu uma bolota. Terçol. A dorzinha incomoda, mas o que mais está me encafifando é que a coisa começou a aumentar muito e a tomar conta de todo o olho. Pior: ontem, ao acordar, eu percebi algo diferente e, pelo que já li e me falaram, tenho quase certeza de que era luz. Do dia. Não consegui interromper isso. Fiquei com medo. E se eu começar a ver tudo o que nunca vi em mais de trinta anos de vida? Não quero acabar com o meu mundo. Ele não é de trevas. Não precisa ser iluminado.
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Bula no bule
No final da tarde a luz quente e dourada do sol fez o efeito. Na parede de frente da casa, ao lado da porta de entrada, a sombra da luminária se esticou, o branco da lâmpada apagada ficou mais branco, e o reflexo do vidro dentro da sombra parecia coisa acesa. Ele ficou olhando aquilo como se um novo milagre de Fátima tivesse acontecido. Tão simples, tão belo, ao contrário de tudo o que tinha acontecido até ali naquele dia. Contas atrasadas, a máquina de lavar pifada, alguém que o xingou por telefone, o salário cortado, uma suspeita de doença grave, a visão diminuindo, assim com a audição, dores nas juntas. Os remédios do psiquiatra pareciam não fazer mais efeito, apesar de ele estar bem melhor do que quando odiava a luz do dia e se enterrava embaixo de camadas de cobertores. Foi aí que lhe deu o estalo. Correu para a cozinha, procurou no velho coador de pano, esquentou a água, pegou o bule de alumínio que herdou da mãe, colocou a dose certa do pó de café, coou e tomou um gole na caneca decorada com flores. Voltou para frente da casa. O sol tinha baixado. Não havia mais aquilo que considerou "visage" - mas estava feliz. Uma talagada a mais e foi à escrivaninha tentar registrar aquilo. Pensou, pensou e escreveu, com a Parker 51 que amava: Coe o café, bula no bule e tome um gole".
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Coronhada
A cena descrita era muito violenta. Preso, acusado de estupro, bêbado, o personagem levou uma coronhada de fuzil na boca que quase o fez engolir os cacos dos dentes. Estava lá num conto que ele jamais esqueceu porque até o gosto do sangue sentiu ao ler. Pensou nisso quando viu metade de um dos dentes da frente cair, deixando um buraco que parecia a entrada de um túnel para o interior da sua alma. Sujo, olhava-se num pequeno espelho no quarto de uma pensão alugada só para drogados. O ar fedia a lixo podre e fezes. Pelo menos não houve violência, pensou, enquanto tentava achar o pedaço do dente que caíra no chão de cimento úmido. Fim de linha? Não, porque quem está assim só pensa na próxima dose. A dele era através do arpão que entrava até o cérebro para acelerar o coração perto da explosão. Voltou para o colchão de palha manchado de urina e vômito. Deitou, passou o dedo pelo buracão - que pareceu ainda maior, fechou os olhos e, dessa vez, a cena da coronhada parecia real. Lembrou então que a tinha lido quando morava numa casa simples quase todas branca. Fazia muito tempo.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
A macarronada da Mariquinha
Ela subiu na laje, caiu, quebrou a cabeça. Mais de 80 anos. Pau de goiabeira só enverga. Foi para o hospital, saiu do coma, voltou para casa e agora me convida para comer a famosa macarronada. A comilança faz parte do meu inventário sentimental. A primeira vez que mandei aquele grude pra dentro foi como conhecer o nirvana que vinha numa forma retangular de alumínio. Enorme. Talvez tenha sido o queijo derretido em cima, ou a carne moída com molho picante. Ou mesmo a massa, que ela mesmo fazia. Ou toda aquela maratona para chegar à casa dela, de ônibus, num lugar que até hoje lembro ter uma grande praça no ponto final. Ou mesmo o fato de ela trabalhar com o marido na feira, vendendo meias, muitas, de todos os tamanhos, qualidades e cores. Quando me telefonou e disse que me esperava para a pratada, fiquei tão feliz que quase comprei passagem de avião na hora. Senti o gosto na boca, salivei. Estou muito longe da Mariquinha. Esse o nome dela, minha tia seca de corpo e de sorriso amplo. Os filhos dizem que a queda a fez perder o juízo que já não tinha. Como não tinha? Criou os cinco e mais alguns que pegou de gente que não podia segurar o tranco. Aposto que eles, espalhados por aí, com os netos dela, também jamais esquecerão a tal macarronada. No telefonema me disse que vai esperar minha visita e que não morre enquanto isso não acontecer. Eu acredito.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Dois amigos
Afogados. Perdi dois amigos assim. Nas férias escolares. Não voltaram para a classe. Recebemos os avisos como se fossem bilhetes frios e mal escritos. Afogados. Evitamos falar a respeito, mas a morte trágica fica dentro, como uma sensação ruim. Mil afogados tem a letra de uma música. A conversa no terreiro com os santos que descem para tentar proteger o menino do tiro de misericórdia. Os afogados falam com a gente. Um dos meus quase enlouqueceu uma colega. Fomos à igreja que ficava perto de onde ele morava. Mandamos rezar missa. Ele queria ficar em paz. Ficou. Ela também. Afogados. Tenho esses. Não tenho queimados. Outro tipo de grito que fica no ar. É o desespero da hora sem saída. É a entrega da alma diante da impotência diante da morte. Ficam os recados. Da fragilidade humana. Do pode acontecer. Do aconteceu. Meus amigos. Para sempre.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Sentinela
São três da madrugada. O calor é infernal. O ar tão pesado que daria para cortar com a faca que tenho aqui na cintura. Minha arma principal, porém, é outra. Tenho um fuzil automático que pode cortar o corpo de uma pessoa com uma rajada. Nunca atirei em ninguém. Nem sei porque me deu a louca de vir para essa fronteira. Estou cercado de florestas. Minha guarita é minúscula. Não vejo nada, apenas ouço. Os bichos, os fantasmas, o som do tropel das amazonas que saem em busca de carne humana. Minha farda pesa duzentos quilos. Não posso dormir. Espero um inimigo que nunca apareceu. Defendo minha pátria. Lá embaixo do barranco tem um rio. Ele tem águas barrentas e muito, muito peixe. Às vezes tenho pesadelo acordado quando estou de sentinela no meu turno da madrugada. A água sobe e inunda todo o quartel. Um jacaré enorme entra na guarita e minha cabeça fica presa dentro da boca dele. São três da madrugada. Uma estrela cadente risca o céu lá para os lados de não sei onde. Alguém deve ter visto a mesma coisa neste mundão escuro.
LIÇÃO
De Helena Kolody
A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.
Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.
De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.
frente ao ícone da Santíssima Trindade.
Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.
De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
No banco da sogra
No banco da sogra viajei num Karman Ghia. Eu não era nem sogra, nem sogro do dono do carro. Apenas uma criança que, encantada com aquele carrinho vermelho, foi do Rio de Janeiro e a Vassouras. O motorista era um desconhecido, mas a namorada dele morava com uma tia querida que me dava o colo que nunca tive em casa. Nunca mais esqueci o possante e a praça antiga da cidadezinha. Anos depois, num dia de sol em que fui à janela do prédio público para olhar as árvores, tive uma visão - e alucinei. No pátio coalhado de carros novos, mas em cores sóbrias, estava lá o esportivo tão vermelho quanto aquele onde sonhei acordado nas retas e curvas de uma estrada sem trânsito. Desci correndo e, ao segurança, perguntei sobre o dono. Fui lá falar com ele. O carro era do pai e estava guardado há tanto tempo que os pneus ressecaram. Foi a única reposição que fez depois de tirar da cabeça do velho a ideia de vender a joia. No final de semana seguinte acabei com minha inveja boa que senti. Fui à feira e comprei vários, cada um com uma cor diferente. Entraram na coleção de um sonho de verão.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
O banquete do Macau
Estava tudo cinza. A cidade, o ônibus que sacolejou do subúrbio até o Centro. As pessoas também. Aqui dentro tinha uma luz. Eu ia ao show. O teatro ficava embaixo de um viaduto - desses que invadem salas e, de repente, um carro entra pela janela e pela goela de alguém vendo televisão. Entrei. Quase ninguém naquela sala gigantesca. Cinza escuro. As luzes se apagaram e o artista apareceu. Ele e o violão. O microfone solitário sorriu com a companhia. Não houve aplausos. Ele sentiu o silêncio e começou a cantar. O som do violão cortava o coração. A voz envolvia a alma. Os óculos redondos ressaltavam não os olhos, mas os dentes proeminentes. Ele atacava a vida que, naquela tarde de domingo... era cinza. Viu a luz aqui dentro. Gritou "cuidado!", há um morcego na porta principal. Depois disse que estava cansado, mas que não ia ficar parado lamentando o eterno movimento dos barcos. Então se foi, em silêncio, mas feliz por ter feito. Ficou aqui dentro. Anos depois, em outra cidade, num palco redondo de teatro pequeno, cantou aquele que, disse, considerava o verdadeiro hino nacional brasileiro: Carinhoso. Explicou: todo brasileiro sabe cantar. Apoteótico Macau. Herdeiro de Morengueira. Ele, Jards Macalé - o do Banquete dos Mendigos e do brilho no cinza de sempre.
Minha vida Meu amor
De Dalton Trevisan
Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
A casa
Já encomendei o projeto. Mandei uma foto da paisagem que quero ver do janelão. Ali de cima dá para enxergar onde termina o pedacinho de terra e começam outros e mais outros e mais outros até chegar no pé daquele morro lá na linha do horizonte. Às vezes tudo fica verde, quando cai água do céu do sertão. Às vezes fica seco, mas os pés de manga, de jaca, ah! esses são como troféus eternos da natureza. E tem também aquele pé de não sei o quê que fica bem na quina de uma divisa e fica parecendo um grande buquê de flores exatamente quando os galhos secam. A gente olha e se deslumbra e se alumia como o sol que é forte desde que surge lá atrás da casa que um dia terei. Ela vai ser fresquinha, toda de concreto aparente, linhas retas, pé direito bem alto, um espação como se fosse um oásis dentro do oásis dentro do deserto. É ali que vou partir para os outros mundos dos livros, viajar nas músicas, escrever as histórias que, aleluia, tenho muitas pra contar. O projeto está encomendado. Quem vai fazer conhece muito bem o dono, porque sangue do meu sangue. Pode ser que nunca a casa brote naquele chão. Mas... precisa? Ela já existe.
o xerife
De Sérgio Rubens Sossélla
hoje, voltei a mesentir
o xerife da cidade fantasma da minha infância
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Ócio e ossos
Ficou viúvo, sem filhos, na casa do sítio. Trabalhava feito um condenado desde que os pais lhe deixaram aquela terrinha. Quando casou, para acabar com a solidão, se ferrou mais. A mulher era um o cão vestindo calcinha. Ele passou a se esfalfar mais no cabo da enxada. Sexo tinha data e hora marcada por ela - e ai se ele não funcionasse! Agora não queria mais lembrar disso. Depois do enterro se jogou na cama e ficou ali lembrando uma conversa que teve com parente da cidade grande. Era sobre um filme parecido com sua vida. O personagem ficou sozinho e nunca mais saiu da cama, do descanso. Um cachorro ia buscar as compras. A um amigo que o visitou, fez encomenda de alimentos para ser levado toda semana. Tinha dinheiro guardado para pagar. Assim ficou, como o do filme, durante meses. Só que o cachorro dele era um vira-lata vagabundo. O bicho ficava ali olhando, comendo uns restos que caíam ao lado da cama, etc. Até que um dia, sem mais nem menos, arrancou dois dedos dos pés do dono com uma só dentada. Gostou. Aí comeu todo o pé esquerdo. Depois, o direito - e continuou se alimentando do resto porque o homem desmaiou no primeiro ataque. O dono do animal não sabia que o ócio deixava os ossos molinhos.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Armas
A gorda encostou as carnes e perguntou que negócio duro era aquele. Eu disse que era uma arma. Ela achou engraçado. Eu disse que era verdade e levantei a camisa. O cabo do 32 apareceu. Ela fez os dentes desaparecerem imediatamente sob os lábios pintados de vermelho cheguei. Estávamos encostados no balcão de uma padaria de bairro. Ela queria comer um doce. Eu queria fugir dali porque era muito tímido. Sabia que ela era puta, muito simpática, mas puta falada. Ela queria me levar e eu não saberia o que fazer. Era o nó que travava tudo. Paguei o doce e fui embora. O revólver era dessas loucuras que jovens fazem quando têm dão chance. Aquele era um Rossi. Do meu pai. Ele me emprestou porque eu tinha andado mais de ano fardado e, achava o velho, seu filho podia andar com o berro que guardava com carinho em cima do guarda-roupa do quarto. Se algum ladrão entrasse naquela padaria, adeus doce, adeus puta, adeus vida. Eu não saberia o que fazer, apesar de ter a sensação de segurança. Nunca mais quis saber da arma. Nunca mais vi a puta. A padaria continua no mesmo lugar depois de anos. Ninguém encosta mais carnes em mim. Nem gordas, nem magras. Sou um velho. Estou num asilo. Conto histórias que os outros não ouvem, mas riem.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
No mar
É como jogar bilhetes ao mar e não esperar nada. Dentro do navio à deriva. Há uma chance de a coisa ser lida se você colocá-la dentro de uma das garrafas que, há muito tempo, estavam cheias de um líquido que rasgava a garganta. Mas ela tem de ser engolida pela versão moderna da Moby Dick - e algum Mestre Jonas entre dentro dela para ler. Como as garrafas não existem mais e você fica naquela interminável sucessão de anoitecer, amanhecer, sozinho no seu barco, porque sempre foi assim, vá se conformando no fato de ainda ter alguma ideia e, melhor, papel e caneta. Quando isso terminar, terminou. O tigre dentro do barco naquele filme chato foi uma boa ideia de imagem, mas tem que puxar muito pela imaginação para fazer a a analogia ou algo parecido. Um dia vi um no convés, mas foi na fase do delirium tremens por causa da abstinência forçada. Depois descobri que era apenas um quadro chinês na parede e, outra vez filme, lembrei de Derzu Uzala e seu medo com o espírito que encarnava o animal. Alguma coisa bateu no casco. Vou ver. Voltei. A guarda-costeira de algum país. Vão me levar. Perguntei se na prisão poderia escrever. Disseram que sim.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
O filósofo
O filósofo tinha quase dois metros de altura e, quando o conheci, perto dos oitenta anos. Andava meio adernado, curvado, mas falava de uma forma que iluminava qualquer alma atormentada. A coisa que eu mais gostava de ouvir era sobre o equilíbrio emocional. Coisa simples. Uma balança daquelas com dois pratos. No mínimo, dizia, era preciso que a gente desse valor às coisas boas, normais, para que um prato ficasse no mesmo nível do outro, aquele onde estão os tormentos que inventamos ou existem, mas que ganham um peso acima do que de fato têm. Ele bebeu pesado até os 60 anos. Contava sobre seu vício de uma forma exemplar. Tinha dinheiro, muito - sempre teve, coisa de herança. Poderia conhecer as melhores cidades do mundo, se instalar nos hotéis mais luxuosos, mas não saía da sua cidade. Por que? Ah, lá não tinha o bar onde bebia todo dia, explicava. Também se enganava ao enganar a mulher nas raras viagens curtas que fazia de carro. Um importado que, invariavelmente, tinha problemas na estrada e ele precisava verificar. Parava no acostamento, abria o capô, pegava um canudo que levava no bolso, abria o compartimento reservado para água e sorvia a vodka que colocava sempre lá. Ele foi embora há um tempo. Feliz. Sua balança sempre estava desequilibrada. Para o lado das coisas boas.
encouraçado na geladeira
De Sérgio Rubens Sossélla
ao abrir a geladeira naquele dia
depois de alguns anos eu veria a cena
no encouraçado potemkin
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Um doce presente
Meu irmão bebia feito um gambá. Irmão de gambá, filho de gambá, gambá é. Um dia ele me contou que parou de entornar. Duvidei. Foi há quase trinta anos. Ele parou mesmo! Como estava muito distante, quis saber como aconteceu o milagre. Não, ele não foi ao AA e muito menos fez terapia. Gastava todo o dinheiro do salário pagando os tragos diários para ele e todos os amigos da birita. Andava armado. Não matou ninguém. Amém. Mas um dia, contou, que estava quase totalmente durango kid, e como também tinha o vício do cigarro, comprou um maço. Logo depois que pagou, viu um doce de padaria que mexeu com seus hormônios. Não pode satisfazer a fissura - estava completamente liso e quase louco. Aí resolveu parar com tudo. Foi o doce que tornou sua vida doce.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
O rei e eu
Ninguém me contou. Vi. Ouvi. Estava lá. Presencial, como nos leilões com cartas marcadas. Levei uma revista embaixo do braço. Dentro uma foto de mil novecentos e pedrinhas. Nela, ele estava ao lado do outro. O rei e o príncipe. Anos depois, agora, o soberano estava ali, na minha frente. Entrei de sola dizendo que o time dele, o considerado melhor de todos os tempos, não era. Eu disse que tinha outro, muito melhor. Ele perguntou qual, sabendo que vinha alguma coisa que o faria rir. Eu disse o nome do meu. Ele riu. Depois assinou aquela foto. Eu pedi dedicatória para o meu pai, que já estava no céu, ao lado do príncipe. Ele chamegou. Ao sair dali, cercado de seguranças, entrou numa van e, ao ver uma criança ao lado da mãe, segurada pela mão, ali perto, na calçada, chamou-a. Abraçou-a, fez um agrado, algumas perguntas não respondidas. A criança era tímida, não respondeu nada, sorriu e depois voltou para a proteção maternal. Eu saí e, por coincidência, ouvi a senhora dizer para outra, uma amiga, enquanto caminhava como se tivesse recebido uma benção divina, que ele tinha pego sua criança no colo - como é que podia aquilo? Então a outra respondeu que era por isso que ele era o rei. Pelé.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
A princesa etíope
A princesa etíope flutua como Didi em campo aos olhos de Nelson Rodrigues. Ela é tão nobre que esqueceu a nobreza que tem. Ela sabe decifrar os mistérios da alma. Transforma tudo numa sequência de palavras que leva, a um mundo desconhecido, mas sentido, quem as lê. É sentimento, que pode ser encantamento e tormento. A princesa etíope tem dificuldade de decifrar o que chamam de real. É como se estivesse atravessando uma ponte, segura, mas que dá medo. Ela olha para os lados, para o alto - e se ilumina. Mas a ponte está ali, um vento a balança um pouco e ela não sabe se segue em frente, mesmo tendo os passos firmes e a altivez de uma princesa. Suas mãos com dedos compridos seguram onde há de se segurar. Mas por alguns momentos ela acha que aquilo também não é seguro. E o instante do próximo passo, isso é o que fica dentro dela, inquietando, num jogo que às vezes a dilacera, mas ao mesmo tempo a reforça. Porque ela é a princesa etíope, escolhida para isso, para comandar o seu próprio ser. Essa a descoberta que está fazendo. Para o passo. Que será apenas um passo, antes do outro e do outro e do outro. Então ela caminhará sem a ponte. Flutuando, feito Didi em campo.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Na calçada
A planta nasceu numa rachadura na calçada de cimento rústico. E a linha onde ela brotou, terminava/começava na base de um cano de torneira. Dali saía a água para regar as plantas daquele quintal com um pequeno retângulo de terra. Me encantei com aquilo. Visto de cima, era uma combinação de linhas, texturas, enfim, imagem. Ficou para sempre na minha mente, mas também numa fotografia feita em filme 35mm e ampliada no laboratório amador de um amigo. Sempre olho e, confesso, não sei que força ela me transmite. Há flores na pequena planta. A foto é preto e branco, ou seja, colorida, porque preto e branco são cores, apesar de pouca gente pensar nisso. Seria a força da natureza? Seria a proteção que aquela torneira parece dar à companheira de solidão? Será? Pra que saber.? Vou levar comigo para sempre, porque é assim - e não precisa de explicação.
na geladeira
De Sergio Sossélla
ao abrir a geladeira naquele dia
depois de alguns anos eu veria a cena
no encouraçado potemkin
terça-feira, 6 de outubro de 2015
A vida
Olhei pra trás e não me vi. Abri o álbum de retratos da família. Pregado entre quatro cantoneiras está lá um adolescente cabeludo, magricela, sunga diminuta, pose diante de um mar calmo em praia deserta. Eu era razoavelmente bonito e me achava o mais horrível dos homens. Numa outra foto parecia o homem das cavernas, barba enorme e desgrenhada, cabelo batendo no meio das costas, comendo caranguejo, um fio que parece de baba escorrendo e pedaços de carne branca penduradas no cavanhaque como se aquilo fosse árvore de natal de trogloditas. Numa outra, ao lado de uma bomba de posto de gasolina, cabelo curto, barba aparada, jaqueta de couro preta, o rosto seco, mas macilento indicando o drogado disfarçado. Agora estou aqui, muitos e muitos anos depois. Gordo, careca, surdo, dificuldade em dar mais de dez passos, sozinho num barraco de fundos depois do final da periferia, pensão por invalidez mental, filhos em outros planetas, mulheres nem em pensamento. Uma cadela me acompanha. Achei na rua. Entrou no cio outro dia. Tranquei a porta. Uma matilha tenta derrubar a porta. Ela fica esganiçando alucinadamente o tempo todo. Só há uma coisa a fazer: ligar a televisão e colocar no volume mais alto. Olha lá o Luciano Huk oferecendo baile de debutantes para meninas pobres que dançam com o galã da telenovela na versão atual de rainha por um dia do seu Silvio Santos. Será isso a vida?
o xerife
De Sérgio Rubens Sossélla
hoje, voltei a mesentir
o xerife da cidade fantasma da minha infância
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Na paisagem
Quando vejo alguém falando em pragas que assolam o Planeta, fico puto. A praga maior, a que originou todo desequilíbrio e fez desencadear todas as outras, não é citada. Ele escreveu isso sob a luz de uma lamparina, com caneta Bic escrita fina, tinta quase no fim, em papel de embrulho amassado. Foi dormir pensando nisso. Morava num deserto onde, de dia, esquentava a mais de quarenta graus. Na primeira vez que esteve ali, vindo do Sul, onde nasceu, havia muita mata, muitos pássaros, muitos bichos. Depois de anos teve de se entocar na casinha que os pais deixaram, pois uma confusão terminada em sangue o obrigara a fugir, a se esconder. Aí já não encontrou mais nada - nem o pasto, a primeira praga. O açude secou, os bichos sumiram de morte morrida ou matada, os povos se arretirou, como falavam por lá. Ele ficou porque já não tinha forças nem ânimo. Andou ,muito por aqueles lados e viu o uso de herbicidas, viu o assassinato da terra, viu a morte em várias versões, e viu a maior praga, que era como no sul, onde morava em favela: o homem, a espalhar a doença e transformar tudo em amebas pestilentas. No dia seguinte guardou o papel com carinho. Pensou em pedir para alguém o colocar em seu caixão. Talvez pudesse apresentar sua descoberta lá do outro lado, para o todo poderoso. Quem sabe... Mas aí achou que a fome estava fazendo-o delirar demais. Rasgou o que escreveu e ficou olhando a paisagem esturricada.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Zé Tom
Toquei a campainha. O Zé abriu e eu vi o Tom. Todos. Porque ele sempre foi assim. Pega tudo, desde o sotaque do Cabral até o zunido do computador. Passa pelo batuque do saravá, índios marcando o compasso no terreiro da taba, samba, rock, smetack, jackson, aquele. O gravador ligado e uma torrente de informações impregnando a fita cassete. Existe rock brasileiro era o mote. Naquela sala de um apartamento simples saiu toda uma enciclopédia de vida musical como o próprio. O Zé do Tom. Quarenta anos depois ói ele mais Zé do que Tom, porque alucinadamente brasileiro. E manda tomar no toba quem renega o forró em Limoeiro, o som das máquinas e o olhar brasileiro de quem mostra as costelas, com olhar esbugalhado na frente do mar e recebendo nas costas toda a energia. Aquela. Que tomou conta quando ele abriu a porta, deixou entrar e sair. Tom Zé.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Cansaço
Cansei. Da alma. Escrevi assim porque não tenho forças para pensar muito. O dia esgotou todo tipo de energia. Corri, comi feijão com arroz, bife, farinha e pimenta. Não dormi. Não dava. O dever me chama. Que coisa esquisita isso. Quem chama? Desde o sinal da cruz da primeira hora da manhã até a hora da Ave Maria rogai por nós os pecadores, um fazer atrás do outro. Pra que? Pergunto agora porque olho e não vejo, apenas sinto que tudo me consumiu como se eu olhasse um poço e a escuridão me deixasse apenas com a pele, osso, músculos. A mente? Não sei mais. Cadê o meu sono para que tudo volte ao normal? Por favor, uma esmolinha de compreensão para que o corpo sem recheio pouse na grande cama e o teto entoe a canção de ninar. Amanhã... amanhã...
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Com a torneira
Ela conversava com a torneira enquanto lavava roupa no tanque lá no fundo da casa. Ouvir ele falando isso foi algo muito marcante, mesmo porque o dono da casa quase não conversava. Nunca fui lá atrás para verificar. Não queria atrapalhar. Mas sempre acreditei nisso, inclusive que as respostas da tal eram satisfatórias. Quando ela voltava para dentro de casa, o vestido invariavelmente estava molhado. Era estampado e eu imaginava as flores do jardim com o orvalho da manhã. Fiquei sonhador depois de velho, porque antes era o pesadelo que tomava conta de tudo. Aquela mulher não sorria muito. Hoje acho que era só da boca pra fora. Porque divertida ela era. Demais. Tirava sarro de qualquer coisa. Menos dele, a quem reverenciava como um rei. Talvez fosse assim que conseguia o domínio. Porque, se ele achava que era o manda-chuva, muitos anos depois, eu soube, da boca de um dos da equipe médica que trata minha cabeça, bem, soube que era ela quem dominava tudo. Provavelmente contava isso para a torneira do tanque - e esta respondia com a água fresca a abençoar aquelas mãos.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Piripiri
Eu não vim, eu fui a Piripri. Descobri apenas quando o ônibus parou na beira da estrada no meio do Piauí. O sol rachava o quengo e a cor da paisagem era aquela onde se estabelece há quantos meses não chove no lugar. Paulo Diniz continuou cantando na minha cabeça - e eu nem sei se a Piripiri dele era aquela minha. E o que importava? Será que o amor dali era como o amor da letra? Caminhante faz parada, a voz rascante sempre cantou. Eu parei. Se apaixona pelo ar. Eu respirei e as narinas foram os dutos para entrar um ar quente no meu peito. Os olhos arregalaram e então eu vi um menino com catarro escorrendo, a camisa abotoada errada, o bucho com o umbigo estufado e os pés descalços no chão me olhando. E os olhos dele eram o mar verde a inundar tudo, a transformar aquela aridez em poesia visual e confirmar que cada amigo ali é um irmão. Ele sorriu pra mim, mas antes limpou o catarro com a ponta da camisa. Aí virou as costas e saiu correndo, mas dando uns pinotes numa cena tão alegre, que eu pensei em ficar ali, mas pedindo licença pra chegar, como na música.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
dia do cachorro louco
De Marcos Prado
você morreu, cachorro louco
naquele mês de agosto
arreganhando os dentes
encarando um carro frente a frente
o carro, desgovernado,
explodiu no alambrado
você agora está contente
mas o carro estava cheio de gente
você morreu, cachorro louco
naquele mês de agosto
arreganhando os dentes
encarando um carro frente a frente
o carro, desgovernado,
explodiu no alambrado
você agora está contente
mas o carro estava cheio de gente
Refresco
Minha mãe sempre entrava com duas quentes e outra fervendo. Era baixinha, pernas cambaias, boca com os cantos caídos e parecia sempre triste. Parecia. Era mestre no de repente, ou seja, inventar frases, modas, tudo em cima do laço, na hora do acontecimento, como só quem nasce com talento e o desenvolve sabe fazer. Não se sabe onde aprendeu, mas ensinava. Conhecia todo o repertório de palavrões nordestinos - e febre do rato para ela era uma coisa suave. Fi da boba, por exemplo, era comum ela se referir a alguém que tinha feito algo errado. Fi da boba é o diminutivo de Filho da Peste Bubônica. Um dia aprontaram com ela. Foi meu pai. Coisa que nunca tinha acontecido. Não houve consequências, mas ela ficou bem triste de verdade. Uma irmã quis consolá-la, aquele consolo inútil de quem nunca tinha vivido aquela situação e que não sabe que a dor pode até se esconder, mas nunca vai passar. Quando acabou de falar a abobrinha, minha mãe só disse o seguinte para ela: "Fogo no rabo dos outros é refresco".
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Envergano
Eu não sabia o que é vegano, nem o que é ser vegano. O som da palavra é interessante, pois lembra vergando - vergano, como se fala na vila dos cafundós. Me chamaram para ir ao restaurante deste tipo, que agora é moda. Perguntei se tinha chuleta. Quanta heresia! Quanta associação de nomes! Me explicaram a coisa e lembrei dos botecos pé-sujo lá na Baixa do Sapateiro, em Salvador, onde vi um amigo comer uma linguiça que boiava há anos em óleo sujo. Para não ficar feio, contei meu lado vergano. Em todos os restaurantes que já fui na vida, o chuchu é menosprezado. Fica ali com aquela carinha triste , implorando que alguém o recolha para o prato e o coma em seguida. Por um motivo humanitário, faço isso. Sempre. O chuchu merece toda consideração, seja de um envergano ou de um vampiro. Não adiantou contar essa história. Perdi a oportunidade de almoçar no tal. Só me restou ir ao bar de quase cem anos e pedir um pão com bife, queijo e,,, verde, para começar a me adaptar à nova moda.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Capítulo final
Não quero uma casa no campo. Quero o campo na minha casa. Que ele seja do tamanho do que resta da floresta amazônica e que meu vizinho mais próximo esteja a milhares de quilômetros. Não suporto mais seres humanos, a começar por mim mesmo, este poço de certezas das dúvidas. Me disseram que era uma aventura, mas qual? O resumo já foi dito e não se foge disso: nascer, foder, morrer. O menino dentro do ônibus abandonado no meio do nada, morrendo e olhando para o céu, naquela história real onde ele foi procurar o que não existe, esse também é um resumo. Filmaram - e aí já virou merda vendida por Hollywood. Tudo é engolido e expelido pelo grande ânus. Lembram-se da geração paz e amor? Até hoje se fatura em cima dos incautos. E quem ganha é o que? Ah, os ricos se divertem mais, enquanto os pobres não conseguem nem pensar e muito menos sair dando tiros e furando e massacrando porque é isso aí mesmo. Minha casa no campo... onde não vou compor nem escrever, nem fazer porra nenhuma. Espero a invasão dos bichos para servir de alimento. Pelo menos serei útil no capítulo final.
todo caminho
De Nelson Capucho
essa história
sei de cor
todo caminho
vai dar no bar
vôo
não existe
sorte azar
não existe
tudo é risco
arrisque
leão de zôo
tem os olhos tristes
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Pé de pau
Ele apontou o dedo para o outro lado da estrada de terra e disse que ia derrubar o pé de pau. O pé de pau era uma jaqueira que estava carregada. O filho, adulto, que estava ao lado, não entendeu direito aquilo, mas como nunca contestou o pai... Mas lembrou que, há muitos anos, quando esteve ali pela primeira vez, havia muita mata, muitos pássaros, muitos bichos. Então disse, incisivo, que não, que aquele pé de pau não iria ser cortado porque restavam poucos como ele na terra que um dia seria sua. O pai ficou quieto - e isso significava que dava razão. O pé de pau foi salvo e está lá até hoje. O que o salvador daquela árvore mais lembra, no entanto, é que a conversa toda foi feita na sombra de uma mangueira gigante, com mais de cem anos - e que ela foi cortada sem uma razão lógica pela tia, que cismou com isso e não teve ninguém para lhe dizer não.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Antes de ir embora
Tenho visto gente demais ir embora mais cedo do que deveria. Só acredito em alma, porque corpo é miragem. E estes que foram tinham a bondade expressa na aura, mesmo que alguns fizessem esforço ao contrário. Sim, meu radar não falha para essas coisas. Por isso sempre foi muito triste entrar em UTIs de vários desenhos, mas com a morte impregnada no ar. A morte do corpo ou, como sempre acho, o caminho para o que é a pessoa mesmo ir - não se sabe para onde; e aí está o mistério do antes de nascer e depois de partir. Olhei para eles no silêncio igual ao das cortinas de plástico que protegiam seus cubículos. Conversei com eles e pedi para que descansassem da passagem atribulada neste recorte de tempo. Depois fui embora para um lado, levando meu corpo, enquanto eles ficaram ali inertes de ossos e feixes de músculos, mas partindo. E eu queria tanto que ficassem para mais uma conversa, mesmo que de ano em ano... para uma boa risada ao se revelar ao outro a última "merda" deste mundão sem sentido. Tenho visto gente demais ir embora - e esqueci que também vou logo mais.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
A montanha e o rio
Como se fosse uma montanha que sobreviveu ao maior de todos os terremotos. Ficou ali firme, coberta de florestas e bichos que se abrigaram e se salvaram. Passou o tremor, as águas baixaram, o céu abriu, o sol brilhou. Não passou muito tempo e eles chegaram. Primeiro, em pouco número. Depois, como uma multidão faminta. Não de comida, porque traziam alimentos, eram saudáveis e fortes. Sedentos estavam de devastação. Motosserras, machados, armas de todos os calibres, herbicidas, napalm. A destruição era necessária, mesmo sem eles saberem o motivo. A devastação era acompanhada de um grito que vinha do interior da terra, mas eles não ouviam. Era preciso vencer aquela força que venceu a outra força da natureza. Quando tudo estava calcinado, chegaram os aviões para bombardear e deixar o terreno sem nenhuma protuberância. Fizeram isso e do que seria o centro interno da montanha surgiu uma nascente - que logo se transformou num rio. Todos os devastadores beberam daquela água para matar a sede causada por tanto trabalho. O rio era de lágrimas. Eles nunca souberam disso.
entranha: descascando cebola
de Roberto Prado
dentro do dentro
no meio do miolo
nas profundas do centro
do núcleo de tudo
é ali, no fundo, no fundo,
que habita você
minha alma do outro mundo
dentro do dentro
no meio do miolo
nas profundas do centro
do núcleo de tudo
é ali, no fundo, no fundo,
que habita você
minha alma do outro mundo
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Bolinhas de papel
Acertei duas vezes. Fiz bolotas de papel, virei a cadeira e arremessei para o cesto de lixo que estava lá no fundo da sala. Entraram direto, sem bater no aro de plástico. Ninguém consegue isso! Eu sou foda! Quantas vezes li nos lábios do jogador que fez o gol decisivo esta expressão tão... tão... foda? Ninguém consegue colocar duas bolinhas de papel no meu cesto de lixo. Porque ninguém tentou - e nem vai tentar. Aqui ninguém entra. Sou protegido pelas espadas de São Jorge, o Espírito Santo e todo um time que fica vigiando a porta bem na frente da entrada. Alguém aí pode se perguntar por que duas bolinhas arremessadas por um maluco são tão importantes. Tem gente que ganha milhões numa tacada e dá o maior valor a isso, mesmo que esteja roubando honestamente e atropelando o próprio caráter. Tudo é uma questão da vista do meu ponto. Joguei outra bolinha. Não entrou. Não tem problema. As duas primeiras entraram direto e salvaram meu dia tedioso.
parecido com outro
De Marcos Prado
seja o que for que você veja
veja o que for que você seja
estarei mais perto do que você pensa
menos longe do que você nega
só não estarei só minha nega
se você for sem dizer que chega
seja o que for que você veja
veja o que for que você seja
estarei mais perto do que você pensa
menos longe do que você nega
só não estarei só minha nega
se você for sem dizer que chega
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Pântano traiçoeiro
Vi o menino brilhando. Ele tinha aquela energia natural de quem pode transmiti-la. Para o bem. E isso porque conhecia o outro lado, o do pântano, o da perdição, o inferno na carne e na mente viciada. Um dia, na periferia da cidade grande, num colégio cercado de grades, fiquei olhando ele falar sobre os caminhos perigosos, a tentação da salvação que acaba virando pelo avesso - e aqueles meninos e meninas olhavam o garoto bonito e de palavras arredondadas como se estivessem diante de um astro da televisão. Que bom! Depois segui meu caminho e ele o dele, mas sempre aparecendo uma notícia ou outra nos jornais, afinal, seu trabalho rendia isso. Até que soube: escorregou na própria trajetória, esqueceu que o pântano está dentro de quem esteve nele e que, se não se cuidar, é tragado de novo. Fiquei muito triste, mas sabendo que o sol pode brilhar novamente, mesmo porque também está dentro da gente.
sábado, 12 de setembro de 2015
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
no caderno
De Paulo Leminski
Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
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