segunda-feira, 30 de novembro de 2015

CANTARES DE SULAMITA

De Dalton Trevisan


Cantar 1

Se você não me agarrar todinha
aqui agora mesmo
só me resta morrer

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

estou certa perdidamente certa
se não me der uns bofetões estalados
não morder meus lábios
não me xingar de puta
já hei de morrer

bata morda xingue por favor
morrerei querido morrerei
se você não deslizar a mão direita
sob a minha calcinha
murmurando gentilmente palavras porcas

sem dúvida hei de morrer
também certa a minha morte
se você não acariciar o meu púbis de Vênus
com o terceiro quirodáctilo
já caio morta de costas
defuntinha
toda morta de morte matada

morrerei gemendo chorando se você titilar
a pérola na concha bivalve
morrerei na fogueira aos gritos
se não o fizer

amado meu escuta
se você não me ninar com cafuné
me fungar no cangote
mordiscar as bochechas da nalga
me lamber o mindinho do pé esquerdo
juro que hei de morrer
certo é o meu fim

te peço te suplico
meu macho meu rei meu cafetão
eu faço tudo o que você mandar
até o que a putinha de rua tem vergonha

eu fico toda nua
de joelho descabelada na tua cama
eu fico bem rampeira
ao gazeio da tua flauta de mel
eu fico toda louca
aos golpes certeiros do teu ferrão de fogo
ereto duro mortal
oh meu santinho meu puto meu bem-querido
se você não me estuprar
agora agorinha mesmo
sem falta hei de morrer

se não me currar
em todas as posições indecentes
desde o cabelo até a unha do pé
taradão como só você
é certo que faleci me finei
todinha morta

se não me crucificar
entre beijos orgasmos tabefes
só me cabe morrer
minha morte é fatal
de sete mortes morrida
morrinha de amor é Sulamita

Sivuca


Aposentadoria

Trabalhou mais de quarenta anos e, como era relaxado, em alguns empregos fez acordo de boca e não contribuiu para a chamada previdência. Pensava que teria saúde e emprego toda a vida. Coisa de louco. Um dia se tocou - e foi atrás dos seus direitos, como falam. Sempre ganhou bem, mas ao contratar um especialista para levantar o histórico de contribuições e fazer projeções, descobriu que teria de camelar mais alguns anos, pagar uma fortuna para ter direito a uma aposentadoria - e que ela seria de um salário mínimo, ou seja, o que poderia gastar numa pequena viagem até o litoral do estado onde morava. Mesmo assim, ficou feliz. Porque recebia tanta notícia ruim e também tanto desprezo no meio onde exercia a profissão, que projetou seu futuro negro para logo ali adiante, ou seja, bem antes de poder receber os caraminguás. Estava ferrado e mal pago. Por isso imaginou que o dinheiro que um dia entraria na conta vinda dos cofres do governo federal daria, sim, para comprar uma boa dose de veneno de rato. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

caricatura

De Paulo Leminski

Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

Gal Costa, Zeca Baleiro Flor da Pele


Dois patinhos na lagoa

Vamos espalhar lindas pétalas por meio de boas palavras. Olhei em cima da geladeira e, ao lado dos dois pinguins, um preto e o outro branco, o calendário marcava um dia do mês em números vermelhos - a frase, embaixo. Dois patinhos na lagoa, logo lembrei. Era a cantada da pedra da tômbola, como chamávamos naquele tempo - e isso fazia vibrar toda aquela vizinhança que se reunia no fundo de um quintal onde havia várias casas. Não, não era cortiço. Ali morava uma grande família. Pétalas na lembrança. Como é bom! Recordar feito em Amarcord, o grande filme. Cada um tem o seu script. Eu olhei o 22 e comecei a escrevê-lo. Vi até a cartela aqui na minha frente, com o verde e branco das casas. Coloquei o feijão em cima. Não ganhei nada. Ganhei tudo. Porque olhei para o calendário que parou no tempo. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Escrito a Sangue

De Ademir Assunção


ruas escuras 
atravessado 
eu atravesso 
reviro o avesso 
nele me meço 
olho de lince 
encaro a face da fera 
espelhos se estilhaçam 
rasgam minha cara 
cai a neblina do vazio 
frio na barriga 
pago o preço 
erva bola cogumelo 
volto ao começo 
escapo com vida 
desconverso 
verso escrito a sangue 
desapareço 
quanto mais 
menos 
me pareço 
eco de bicho homem 
ego sem endereço 

Gonzaguinha Sangrando


Na cabeça

Tá, foi um sonho, mas... e daí? De repente estava numa festa do político poderoso e que fala bonito. Era numa cobertura de dois mil metros quadrados e o povo que estava lá parecia ter sido treinado para falar baixinho. Eu não conhecia ninguém, só o anfitrião - e da televisão, jornais, campanhas, essas coisas. A coisa ali era estranha porque não havia música e como todo mundo falava baixinho, se colocassem um caixão com cadáver ali no meio da sala com piso de mármore, o velório ficaria perfeito. O dono da casa não se misturava. Dava para ver ele no terraço, olhando a cidade iluminada. De vez em quando se virava e dava um sorriso forçado. Não me serviram nada - nem água. De repente todos resolveram ir embora e eu fiquei sozinho. Quando tentei sair, apareceu o político. Agradeceu minha presença, esticou a mão, notei uma aliança de brilhantes e, ao voltar o olhar para o rosto dele, notei que ele estava de bobes na cabeça e um lenço amarrado em volta, como uma Maria da Vila. Parecia a coisa mais normal do mundo. E era. Um sonho. No outro dia dei de cara com ele na vida real, numa foto de jornal. Olhei bem para os cabelos.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

No chão úmido da rua deserta

Uma pasta que alguém (Deus?) espremeu numa rua deserta. Essa massa disforme espalhada no chão sempre úmido tem todos os sentidos dos que se consideram humanos, mas está ali, inerte, abandonada no tempo. Nem os bichos que raramente passam perto se interessam. Seria bom ser devorado por ratos, urubus, baratas - apenas para que tudo acabasse de vez. Mas... uma coisa assim, morre? E o que se sente é vida? Passos se aproximam. Vai esmagar!... O que aconteceu? Agora é mais um a aumentar o que não tem explicação.

Poetas velhos

De Paulo Leminski

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

João Donato Bananeira


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Ao dobrar a esquina

Na noite de garoa, ao dobrar uma esquina, os faróis do carro flagraram o senhor vestido todo de preto, carregando dois sacos de supermercado brancos pela calçada. No rápido instante em que eles chamaram atenção, junto vieram os questionamentos que parecem brotar do nada. Quem seria ele? O que tinha comprado para levar para casa? Família esperando ou mais um solitário na cidade grande? Os braços estavam completamente esticados. Parecia que as compras eram pesadas. Batatas? Uma garrafa de vinho barato? Material de limpeza? Alguém buzinou atrás e o pé comprimiu o acelerador. O homem ficou para trás, mas a imagem, não. Os sacos plásticos não tinham propaganda. Eram lisos e, naquele instante, luminosos, por causa da luz forte que os flagrou flanando ao lado da avenida e levados por mais um sem rosto. Quem colocou nos sacos as mercadorias depois de contabilizados os produtos pelo caixa? Idoso? A chuva apertou. O limpador do para-brisa, lento e barulhento. Ainda bem que logo estarei em casa. No porta-malas, as compras do dia. Dentro de sacos plásticos.

aranha

De Sérgio Rubens Sossélla

a aranha se fingiu
de presa
na teia


Oswaldinho do Acordeon Asa Branca Blues


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sintonia para pressa e presságio

De Paulo Leminski


Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Dick Farney Alguém como tu


Não vivo sem!

Foi numa curva da Transamazônica que me toquei. Estava viajando há algum tempo, sozinho, no jipão 4x4 - e nada da musiquinha tocar. Aquela que escolhi quando comprei o tal numa loja de shopping bacana. Encostei e revirei tudo. Nada. Comecei a ficar agoniado. O que seria de mim sem ele? Ouvi um rugido estranho ali perto. Vinha de dentro do paredão verde da floresta. Tô nem aí. E se aparecer um bicho? Como vou fazer? A fissura aumentou tanto que comecei a delirar. Eu quero! Eu quero! Gritei tão alto que juro ter visto uma arara se espantar. Entrei no carro e pisei fundo. Quatro dias depois, sem comer, cheguei a uma cidade grande e tratei de voar de volta para casa. Esbaforido, abri a porta como quem abre a do paraíso. Achei a maquininha em cima da mesa. Bateria cheia. Apertei os botões. Não havia nenhuma ligação para mim. Nem recado. Nada. Mas meu telefone celular estava juntinho do meu corpo. Como é bom!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A luz no fim do cais

Ele é como aquela luz que descreveu na noite escura do cais. Um foco apenas lá no fundo da escuridão e de sua solidão. Me apareceu pelas mãos de uma irmã, vizinha, grande artista também - mas da vida. A luz se apagou faz tempo, aos vinte e poucos anos - mas como iluminou! Aqui, no Rio de Janeiro, para onde foi jovem com a força de sua inventiva literatura. O Vampiro nunca o esqueceu. Ler também suas críticas, tanto literárias como à sociedade da cidade provinciana onde nasceu, é como receber a carga da indignação contra a boçalidade, a burrice travestida de sabedoria. Aquela luz no cais foi mostrada como se ele tivesse convocando os leitores a acompanhá-lo na jornada para dentro da alma. O mistério do oceano que começava ali, as outras terras, as pessoas que passeavam de dia sem perceber nada disso, os cheiros. Em tão poucas linhas a arte em seu momento sublime de colocar em nossa alma aquilo que nem ela sabia direito o que era. Newton Sampaio.

Tonico e Tinoco Cana Verde


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Piscina

Carregava barras de gelo e engradados com cervejas e refrigerantes para abastecer os barcos dos bacanas que viajavam no fim de semana. Aquilo era outro mundo - o iate clube e os frequentadores. Gente dona de avião, grandes indústrias, executivos de multinacionais. Nos intervalos, servir quem não saía, quem apenas ia para o litoral esquecer um pouco o sufoco da grande metrópole. Trabalho duro para um adolescente, mas com alguns prazeres. O filé à parmegiana, por exemplo, que o cozinheiro nordestino sempre preparava à noite - coisa que jamais tinha comido na casinha da vila nas fraldas de um subúrbio. Mas havia uma atração, que achava perigosa: a piscina que ficava bem diante do restaurante onde trabalhava. Muito tempo depois de ter iniciado sua jornada ali, tomou coragem. Levou um calção mequetrefe na pequena bolsa que carregava, acordou de madrugada, levantou do colchonete onde dormia no chão do estabelecimento, foi ao banheiro, saiu em traje de banho, pé ante pé, para não acordar ninguém, subiu os degraus que davam para a borda daquele piscinão e ficou olhando o brilho da água sob a luz de uma lua enorme. O coração na boca, colocou a ponta mediu a temperatura com o dedão do pé direito. Fria. Foi até a escadinha de metal, mas não teve coragem de entrar. Resolveu pelo pior: ao lado, havia um estrado com metro e meio acima do nível da piscina - e uma calçada larga separava-o da água. Ele subiu e decidiu que iria tomar distância, correr, voar por cima do espaço com piso de pedra para cair na água. Fez, mas demorou muito para tomar a decisão. O medo era grande. Mas não o impediu. Saltou, mergulhou, foi ao fundo, saiu ofegante, descobriu que não sabia nadar, mas saiu dali com uma das maiores experiências da vida. A lua acompanhou tudo. Ninguém mais soube. Ele guardou para sempre a sensação inédita. Era sua primeira piscina. Tinha 15 anos.

degelo

De Marcos Prado



todo durão é frio

com coração de gelo

mas basta uma vil

de sangue quente

coração ardente

para derretê-lo

Martinho da Vila O pequeno Burguês


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sampa

Olhei a plaquinha e vi o nome dos dois: Federico e Julieta. O apartamento numa rua sossegada e cheia de história em Roma. Um ano depois descobri que ele era brasileiro só porque teve um sonho do que eu vi em Sampa numa tarde/noite de sexta-feira no Centro Velho. Nada de caetanear e papagaiar a esquina da São João com Ipiranga. Desçam a ladeira Porto Geral, olhem o Parque Dom Pedro II de cima, entrem na 25 de Março e parem numa esquina para ver tudo. Não precisa andar, mas se quiser é só seguir e desviar de todos os tipos, todas as falas, todas as bugigangas, sons, cheiros, cores. Bundas, dentaduras, periguetes, vendedoras, madames disfarçadas, barrigas, olha aquele comendo o marmitex, olha o buraco na calçada entulhado de lixo, vai uma pamonha aí? Recordações, Galeria Pagé e a calça Lee americana sonhada depois de meses juntando dinheiro. Tem óculos de grau a dez paus, Neymar em tamanho gigante dentro de uma loja - e o bilau protuberante faz a cliente esquecer de comprar a cueca amarela da Lupo para o marido. Só se pudesse levar o recheio! Vamos subir de novo a ladeira. Churrasquinho de gato com fumaça, muita, e cheiro forte. Os bancários tomando tudo em bares antigos/modernosos no final de mais uma semana naquele que foi o centro financeiro da locomotiva. O prédio Martinelli se impondo, mesmo vestido para reforma. Muita polícia. Poucos craquelentos. Cinema puro. A câmera não desliga. Em homenagem ao italiano e sua musa. Que nos ensinaram a ver também o nosso povo.  

elo

De Paulo Leminski

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

Os Mutantes Panis et Circensis e Batmacumba


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

M. de memória

De Paulo Leminski
 
Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Rosa Passos, Ivete Sangalo Dunas


Não

Ele entrou naquela sala, sentou numa cadeira de plástico branca e ficou ouvindo aquilo que considerou ladainha sem sentido. Tinha tomado apenas uma dose, há algumas horas. Não queria se entregar pelo bafo. Na verdade obrigaram-no a ir até ali. Ele resistiu o quanto pode - e entre a sugestão e o comparecimento... quantos porres... Não lembrava porque estava na fase dos apagamentos. Naquele dia foi - para conferir e dizer que tinha ido, afinal, foi o filho mais velho o aconselhador. Estava quase levantando para se mandar para o bar mais próximo quando um sujeito de cavanhaque, óculos de grau, camisa quadriculada, calça jeans, foi até a frente para falar. Não lembra o resto da conversa, apenas de uma parte, poderosa demais. Disse o fulano que no milionésimo de segundo que antecedia virar o copo e engolir o veneno, naquele instante, um não poderia modificar todo o resto da vida. Porque depois, a vontade, a fissura, o costume, sabe-se lá o que, passaria. Aí, na sequência de se  tomar conhecimento do poder deste não, os outros viriam com mais facilidade, e sucessivamente, até... Agora ele estava pensando nisso, de novo, no mesmo local onde esteve 26 anos atrás - e seu coração se encheu de alegria. O não entrou na sua alma e ele só o pronunciava agora  para recusar quando lhe ofereciam o copo cheio em festas ou encontros onde as pessoas não sabiam de seu passado. Então ele riu por dentro, olhou em volta e rezou para que os outros presentes pudessem ter o mesmo destino, aquele que começou com um não e se transformou num sim à vida.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Redemoinho

Não abriu a boca. Sabia que havia alguma coisa ali dentro, mas ficou quieto. Pensou que estava ficando adulto, aos 70, porque um dia alguém lhe disse que o papo de ser menino era desculpa. Ele nunca se livrou dos medos de criança. Nem das alegrias, que carregava em caixas cheias de bolas de gude, piões, carrinhos sem rodas, aviões de lata. Adulto. O redemoinho que sentia bem abaixo do peito o fez lembrar fotos de furacões feitas de satélites e apresentadas nos horários nobres dos telejornais. Lá vem! Boca fechada. Não sabia o que estava lá dentro porque a mente não conseguia decifrar. Olhou pela janela e viu a luz amarela pendurada num poste. Um vento frio invadia o ambiente. Sozinho. Era melhor assim? Não, não sabia de nada, apenas que era aquilo, no momento - e que tinha de passar. Um cachorro latiu na rua. Outros responderam. Veio uma dor, ele abraçou a própria barriga e se curvou. Pai, mãe e filhos que olhavam de fotos penduradas na parede se preocuparam. Ele deitou no chão e a posição fetal foi inevitável. Veio um choro sentido, convulsivo, como se para pagar todos os pecados do mundo. Sozinho. Sete imagens do Espírito Santo dentro de capelinhas de madeira observavam em silêncio no canto de uma estante. Então conseguiu pensar em algo. Aquela era a dor do ser humano. O redemoinho sumiu. Ele se esticou e levantou. Estava salvo. Por enquanto.

máscara

De Sérgio Rubens Sossélla

no dia em que eu colocar u’a máscara
todos me reconhecerão, na hora

Eduardo Araújo O Bom


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Casa com cachorro brabo

De Paulo Leminski


Casa com cachorro brabo
meu anjo da guarda 
abana o rabo.

Elis Regina Como Nossos Pais


O terçol do olho cego

Não enxergo. Nasci assim. Não fiquem com pena. Desenvolvi ao máximo todas as sensibilidades possíveis. Tateio. Cheiro. Ouço. Penso. Meu mundo não é escuro. Porque são sei o que é a luz. Mas eu a sinto. Muito mais do que quem enxerga. Não gosto quando comparam os imbecis com a cegueira. Imbecil é quem faz isso. A convivência social é complicada. Odeio quem tem compaixão babaca ou fica perguntando sobre minhas dificuldades. Saio pouco de casa. Gosto de ouvir música clássica. Estou com um grande problema agora. Ainda não contei a ninguém. Comecei a sentir uma dor embaixo do olho esquerdo. Nasceu uma bolota. Terçol. A dorzinha incomoda, mas o que mais está me encafifando é que a coisa começou a aumentar muito e a tomar conta de todo o olho. Pior: ontem, ao acordar, eu percebi algo diferente e, pelo que já li e me falaram, tenho quase certeza de que era luz. Do dia. Não consegui interromper isso. Fiquei com medo. E se eu começar a ver tudo o que nunca vi em mais de trinta anos de vida? Não quero acabar com o meu mundo. Ele não é de trevas. Não precisa ser iluminado.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Bula no bule

No final da tarde a luz quente e dourada do sol fez o efeito. Na parede de frente da casa, ao lado da porta de entrada, a sombra da luminária se esticou, o branco da lâmpada apagada ficou mais branco, e o reflexo do vidro dentro da sombra parecia coisa acesa. Ele ficou olhando aquilo como se um novo milagre de Fátima tivesse acontecido. Tão simples, tão belo, ao contrário de tudo o que tinha acontecido até ali naquele dia. Contas atrasadas, a máquina de lavar pifada, alguém que o xingou por telefone, o salário cortado, uma suspeita de doença grave, a visão diminuindo, assim com a audição, dores nas juntas. Os remédios do psiquiatra pareciam não fazer mais efeito, apesar de ele estar bem melhor do que quando odiava a luz do dia e se enterrava embaixo de camadas de cobertores. Foi aí que lhe deu o estalo. Correu para a cozinha, procurou no velho coador de pano, esquentou a água, pegou o bule de alumínio que herdou da mãe, colocou a dose certa do pó de café, coou e tomou um gole na caneca decorada com flores. Voltou para frente da casa. O sol tinha baixado. Não havia mais aquilo que considerou "visage" - mas estava feliz. Uma talagada a mais e foi à escrivaninha tentar registrar aquilo. Pensou, pensou e escreveu, com a Parker 51 que amava: Coe o café, bula no bule e tome um gole".

Banda Mantiqueira Segura Ele


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cauby Peixoto Bastidores


Coronhada

A cena descrita era muito violenta. Preso, acusado de estupro, bêbado, o personagem levou uma coronhada de fuzil na boca que quase o fez engolir os cacos dos dentes. Estava lá num conto que ele jamais esqueceu porque até o gosto do sangue sentiu ao ler. Pensou nisso quando viu metade de um dos dentes da frente cair, deixando um buraco que parecia a entrada de um túnel para o interior da sua alma. Sujo, olhava-se num pequeno espelho no quarto de uma pensão alugada só para drogados. O ar fedia a lixo podre e fezes. Pelo menos não houve violência, pensou, enquanto tentava achar o pedaço do dente que caíra no chão de cimento úmido. Fim de linha? Não, porque quem está assim só pensa na próxima dose. A dele era através do arpão que entrava até o cérebro para acelerar o coração perto da explosão. Voltou para o colchão de palha manchado de urina e vômito. Deitou, passou o dedo pelo buracão - que pareceu ainda maior, fechou os olhos e, dessa vez, a cena da coronhada parecia real. Lembrou então que a tinha lido quando morava numa casa simples quase todas branca. Fazia muito tempo.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

vento

De Paulo Leminski

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

Emicida Boa Esperança


A macarronada da Mariquinha

Ela subiu na laje, caiu, quebrou a cabeça. Mais de 80 anos. Pau de goiabeira só enverga. Foi para o hospital, saiu do coma, voltou para casa e agora me convida para comer a famosa macarronada. A comilança faz parte do meu inventário sentimental. A primeira vez que mandei aquele grude pra dentro foi como conhecer o nirvana que vinha numa forma retangular de alumínio. Enorme. Talvez tenha sido o queijo derretido em cima, ou a carne moída com molho picante. Ou mesmo a massa, que ela mesmo fazia. Ou toda aquela maratona para chegar à casa dela, de ônibus, num lugar que até hoje lembro ter uma grande praça no ponto final. Ou mesmo o fato de ela trabalhar com o marido na feira, vendendo meias, muitas, de todos os tamanhos, qualidades e cores. Quando me telefonou e disse que me esperava para a pratada, fiquei tão feliz que quase comprei passagem de avião na hora. Senti o gosto na boca, salivei. Estou muito longe da Mariquinha. Esse o nome dela, minha tia seca de corpo e de sorriso amplo. Os filhos dizem que a queda a fez perder o juízo que já não tinha. Como não tinha? Criou os cinco e mais alguns que pegou de gente que não podia segurar o tranco. Aposto que eles, espalhados por aí, com os netos dela, também jamais esquecerão a  tal macarronada. No telefonema me disse que vai esperar minha visita e que não morre enquanto isso não acontecer. Eu acredito. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dois amigos

Afogados. Perdi dois amigos assim. Nas férias escolares. Não voltaram para a classe. Recebemos os avisos como se fossem bilhetes frios e mal escritos. Afogados. Evitamos falar a respeito, mas a morte trágica fica dentro, como uma sensação ruim. Mil afogados tem a letra de uma música. A conversa no terreiro com os santos que descem para tentar proteger o menino do tiro de misericórdia. Os afogados falam com a gente. Um dos meus quase enlouqueceu uma colega. Fomos à igreja que ficava perto de onde ele morava. Mandamos rezar missa. Ele queria ficar em paz. Ficou. Ela também. Afogados. Tenho esses. Não tenho queimados. Outro tipo de grito que fica no ar. É o desespero da hora sem saída. É a entrega da alma diante da impotência diante da morte. Ficam os recados. Da fragilidade humana. Do pode acontecer. Do aconteceu. Meus amigos. Para sempre.

entradas & bandeiras

De Roberto Prado


velhos amigos

debaixo do asfalto

os passos antigos

Tom Jobim Insensatez


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sentinela

São três da madrugada. O calor é infernal. O ar tão pesado que daria para cortar com a faca que tenho aqui na cintura. Minha arma principal, porém, é outra. Tenho um fuzil automático que pode cortar o corpo de uma pessoa com uma rajada. Nunca atirei em ninguém. Nem sei porque me deu a louca de vir para essa fronteira. Estou cercado de florestas. Minha guarita é minúscula. Não vejo nada, apenas ouço. Os bichos, os fantasmas, o som do tropel das amazonas que saem em busca de carne humana. Minha farda pesa duzentos quilos. Não posso dormir. Espero um inimigo que nunca apareceu. Defendo minha pátria. Lá embaixo do barranco tem um rio. Ele tem águas barrentas e muito, muito peixe. Às vezes tenho pesadelo acordado quando estou de sentinela no meu turno da madrugada. A água sobe e inunda todo o quartel. Um jacaré enorme entra na guarita e minha cabeça fica presa dentro da boca dele. São três da madrugada. Uma estrela cadente risca o céu lá para os lados de não sei onde. Alguém deve ter visto a mesma coisa neste mundão escuro.

LIÇÃO

De Helena Kolody


A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.
Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.
De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.

Roberto Carlos, Carlos Galhardo Fascinação


terça-feira, 27 de outubro de 2015

No banco da sogra

No banco da sogra viajei num Karman Ghia. Eu não era nem sogra, nem sogro do dono do carro. Apenas uma criança que, encantada com aquele carrinho vermelho, foi do Rio de Janeiro e a Vassouras. O motorista era um desconhecido, mas a namorada dele morava com uma tia querida que me dava o colo que nunca tive em casa. Nunca mais esqueci o possante e a praça antiga da cidadezinha. Anos depois, num dia de sol em que fui à janela do prédio público para olhar as árvores, tive uma visão - e alucinei. No pátio coalhado de carros novos, mas em cores sóbrias, estava lá o esportivo tão vermelho quanto aquele onde sonhei acordado nas retas e curvas de uma estrada sem trânsito. Desci correndo e, ao segurança, perguntei sobre o dono. Fui lá falar com ele. O carro era do pai e estava guardado há tanto tempo que os pneus ressecaram. Foi a única reposição que fez depois de tirar da cabeça do velho a ideia de vender a joia. No final de semana seguinte acabei com minha inveja boa que senti. Fui à feira e comprei vários, cada um com uma cor diferente. Entraram na coleção de um sonho de verão. 

gaveta

De Alice Ruiz

A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia

Roberto Carlos Nossa Senhora


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O banquete do Macau

Estava tudo cinza. A cidade, o ônibus que sacolejou do subúrbio até o Centro. As pessoas também. Aqui dentro tinha uma luz. Eu ia ao show. O teatro ficava embaixo de um viaduto - desses que invadem salas e, de repente, um carro entra pela janela e pela goela de alguém vendo televisão. Entrei. Quase ninguém naquela sala gigantesca. Cinza escuro. As luzes se apagaram e o artista apareceu. Ele e o violão. O microfone solitário sorriu com a companhia. Não houve aplausos. Ele sentiu o silêncio e começou a cantar. O som do violão cortava o coração. A voz envolvia a alma. Os óculos redondos ressaltavam não os olhos, mas os dentes proeminentes. Ele atacava a vida que, naquela tarde de domingo... era cinza. Viu a luz aqui dentro. Gritou "cuidado!",  há um morcego na porta principal. Depois disse que estava cansado, mas que não ia ficar parado lamentando o eterno movimento dos barcos. Então se foi, em silêncio, mas feliz por ter feito. Ficou aqui dentro. Anos depois, em outra cidade, num palco redondo de teatro pequeno, cantou aquele que, disse, considerava o verdadeiro hino nacional brasileiro: Carinhoso. Explicou: todo brasileiro sabe cantar. Apoteótico Macau. Herdeiro de Morengueira. Ele, Jards Macalé - o do Banquete dos Mendigos e do brilho no cinza de sempre.

Minha vida Meu amor

De Dalton Trevisan

Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula

Os Mutantes Ando Meio Desligado


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A casa

Já encomendei o projeto. Mandei uma foto da paisagem que quero ver do janelão. Ali de cima dá para enxergar onde termina o pedacinho de terra e começam outros e mais outros e mais outros até chegar no pé daquele morro lá na linha do horizonte. Às vezes tudo fica verde, quando cai água do céu do sertão. Às vezes fica seco, mas os pés de manga, de jaca, ah! esses são como troféus eternos da natureza. E tem também aquele pé de não sei o quê que fica bem na quina de uma divisa e fica parecendo um grande buquê de flores exatamente quando os galhos secam. A gente olha e se deslumbra e se alumia como o sol que é forte desde que surge lá atrás da casa que um dia terei. Ela vai ser fresquinha, toda de concreto aparente, linhas retas, pé direito bem alto, um espação como se fosse um oásis dentro do oásis dentro do deserto. É ali que vou partir para os outros mundos dos livros, viajar nas músicas, escrever as histórias que, aleluia, tenho muitas pra contar. O projeto está encomendado. Quem vai fazer conhece muito bem o dono, porque sangue do meu sangue. Pode ser que nunca a casa brote naquele chão. Mas... precisa? Ela já existe.

Elis Regina O Bêbado e o Equilibrista


o xerife

De Sérgio Rubens Sossélla

hoje, voltei a mesentir
o xerife da cidade fantasma da minha infância

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

espelho

De Paulo Leminski

acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

Carlos Gonzaga Diana


Ócio e ossos

Ficou viúvo, sem filhos, na casa do sítio. Trabalhava feito um condenado desde que os pais lhe deixaram aquela terrinha. Quando casou, para acabar com a solidão, se ferrou mais. A mulher era um o cão vestindo calcinha. Ele passou a se esfalfar mais no cabo da enxada. Sexo tinha data e hora marcada por ela - e ai se ele não funcionasse! Agora não queria mais lembrar disso. Depois do enterro se jogou na cama e ficou ali lembrando uma conversa que teve com parente da cidade grande. Era sobre um filme parecido com sua vida. O personagem ficou sozinho e nunca mais saiu da cama, do descanso. Um cachorro ia buscar as compras. A um amigo que o visitou, fez encomenda de alimentos para ser levado toda semana. Tinha dinheiro guardado para pagar. Assim ficou, como o do filme, durante meses. Só que o cachorro dele era um vira-lata vagabundo. O bicho ficava ali olhando, comendo uns restos que caíam ao lado da cama, etc. Até que um dia, sem mais nem menos, arrancou dois dedos dos pés do dono com uma só dentada. Gostou. Aí comeu todo o pé esquerdo. Depois, o direito - e continuou se alimentando do resto porque o homem desmaiou no primeiro ataque. O dono do animal não sabia que o ócio deixava os ossos molinhos.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Armas

A gorda encostou as carnes e perguntou que negócio duro era aquele. Eu disse que era uma arma. Ela achou engraçado. Eu disse que era verdade e levantei a camisa. O cabo do 32 apareceu. Ela fez os dentes desaparecerem imediatamente sob os lábios pintados de vermelho cheguei. Estávamos encostados no balcão de uma padaria de bairro. Ela queria comer um doce. Eu queria fugir dali porque era muito tímido. Sabia que ela era puta, muito simpática, mas puta falada. Ela queria me levar e eu não saberia o que fazer. Era o nó que travava tudo. Paguei o doce e fui embora. O revólver era dessas loucuras que jovens fazem quando têm dão chance. Aquele era um Rossi. Do meu pai. Ele me emprestou porque eu tinha andado mais de ano fardado e, achava o velho, seu filho podia andar com o berro que guardava com carinho em cima do guarda-roupa do quarto. Se algum ladrão entrasse naquela padaria, adeus doce, adeus puta, adeus vida. Eu não saberia o que fazer, apesar de ter a sensação de segurança. Nunca mais quis saber da arma. Nunca mais vi a puta. A padaria continua no mesmo lugar depois de anos. Ninguém encosta mais carnes em mim. Nem gordas, nem magras. Sou um velho. Estou num asilo. Conto histórias que os outros não ouvem, mas riem. 

Senti

De Oberlan Rossetim

Senti contigo.
Sem ti comigo.

Jamelão, Guilherme Vergueiro Castigo


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

No mar

É como jogar bilhetes ao mar e não esperar nada. Dentro do navio à deriva. Há uma chance de a coisa ser lida se você colocá-la dentro de uma das garrafas que, há muito tempo, estavam cheias de um líquido que rasgava a garganta. Mas ela tem de ser engolida pela versão moderna da Moby Dick - e algum Mestre Jonas entre dentro dela para ler. Como as garrafas não existem mais e você fica naquela interminável sucessão de  anoitecer, amanhecer, sozinho no seu barco, porque sempre foi  assim, vá se conformando no fato de ainda ter alguma ideia e, melhor, papel e caneta. Quando isso terminar, terminou. O tigre dentro do barco naquele filme chato foi uma boa ideia de imagem, mas tem que puxar muito pela imaginação para fazer a a analogia ou algo parecido. Um dia vi um no convés, mas foi na fase do delirium tremens por causa da abstinência forçada. Depois descobri que era apenas um quadro chinês na parede e, outra vez filme, lembrei de Derzu Uzala e seu medo com o espírito que encarnava o animal. Alguma coisa bateu no casco. Vou ver. Voltei. A guarda-costeira de algum país. Vão me levar. Perguntei se na prisão poderia escrever. Disseram que sim.

deito

De Paulo Leminski

tudo dito,
nada feito
fito e deito

Boca Livre Quem Tem a Viola


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O filósofo

O filósofo tinha quase dois metros de altura e, quando o conheci, perto dos oitenta anos. Andava meio adernado, curvado, mas falava de uma forma que iluminava qualquer alma atormentada. A coisa que eu mais gostava de ouvir era sobre o equilíbrio emocional. Coisa simples. Uma balança daquelas com dois pratos. No mínimo, dizia, era preciso que a gente desse valor às coisas boas, normais, para que um prato ficasse no mesmo nível do outro, aquele onde estão os tormentos que inventamos ou existem, mas que ganham um peso acima do que de fato têm. Ele bebeu pesado até os 60 anos. Contava sobre seu vício de uma forma exemplar. Tinha dinheiro, muito - sempre teve, coisa de herança. Poderia conhecer as melhores cidades do mundo, se instalar nos hotéis mais luxuosos, mas não saía da sua cidade. Por que? Ah, lá não tinha o bar onde bebia todo dia, explicava. Também se enganava ao enganar a mulher nas raras viagens curtas que fazia de carro. Um importado que, invariavelmente, tinha problemas na estrada e ele precisava verificar. Parava no acostamento, abria o capô, pegava um canudo que levava no bolso, abria o compartimento reservado para água e sorvia a vodka que colocava sempre lá. Ele foi embora há um tempo. Feliz. Sua balança sempre estava desequilibrada. Para o lado das coisas boas.

encouraçado na geladeira

De Sérgio Rubens Sossélla
ao abrir a geladeira naquele dia
depois de alguns anos eu veria a cena
no encouraçado potemkin

Amelinha Foi Deus Que Fez Você


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um doce presente

Meu irmão bebia feito um gambá. Irmão de gambá, filho de gambá, gambá é. Um dia ele me contou que parou de entornar. Duvidei. Foi há quase trinta anos. Ele parou mesmo! Como estava muito distante, quis saber como aconteceu o milagre. Não, ele não foi ao AA e muito menos fez terapia. Gastava todo o dinheiro do salário pagando os tragos diários para ele e todos os amigos da birita. Andava armado. Não matou ninguém. Amém. Mas um dia, contou, que estava quase totalmente durango kid, e como também tinha o vício do cigarro, comprou um maço. Logo depois que pagou, viu um doce de padaria que mexeu com seus hormônios. Não pode satisfazer a fissura - estava completamente liso e quase louco. Aí resolveu parar com tudo. Foi o doce que tornou sua vida doce.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O rei e eu

Ninguém me contou. Vi. Ouvi. Estava lá. Presencial, como nos leilões com cartas marcadas. Levei uma revista embaixo do braço. Dentro uma foto de mil novecentos e pedrinhas. Nela, ele estava ao lado do outro. O rei e o príncipe. Anos depois, agora, o soberano estava ali, na minha frente. Entrei de sola dizendo que o time dele, o considerado melhor de todos os tempos, não era. Eu disse que tinha outro, muito melhor. Ele perguntou qual, sabendo que vinha alguma coisa que o faria rir. Eu disse o nome do meu. Ele riu. Depois assinou aquela foto. Eu pedi dedicatória para o meu pai, que já estava no céu, ao lado do príncipe. Ele chamegou. Ao sair dali, cercado de seguranças, entrou numa van e, ao ver uma criança ao lado da mãe, segurada pela mão, ali perto, na calçada, chamou-a. Abraçou-a, fez um agrado, algumas perguntas não respondidas. A criança era tímida, não respondeu nada, sorriu e depois voltou para a proteção maternal. Eu saí e, por coincidência, ouvi a senhora dizer para outra, uma amiga, enquanto caminhava como se tivesse recebido uma benção divina, que ele tinha pego sua criança no colo - como é que podia aquilo? Então a outra respondeu que era por isso que ele era o rei. Pelé.

bosta

De Antonio Thadeu Wojciechowski

poema proposta
todo regime
é uma bosta



Eduardo Araújo O Bom


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A princesa etíope

A princesa etíope flutua como Didi em campo aos olhos de Nelson Rodrigues. Ela é tão nobre que esqueceu a nobreza que tem. Ela sabe decifrar os mistérios da alma. Transforma tudo numa sequência de palavras que leva, a um mundo desconhecido, mas sentido, quem as lê. É sentimento, que pode ser encantamento e tormento. A princesa etíope tem dificuldade de decifrar o que chamam de real. É como se estivesse atravessando uma ponte, segura, mas que dá medo. Ela olha para os lados, para o alto - e se ilumina. Mas a ponte está ali, um vento a balança um pouco e ela não sabe se segue em frente, mesmo tendo os passos firmes e a altivez de uma princesa. Suas mãos com dedos compridos seguram onde há de se segurar. Mas por alguns momentos ela acha que aquilo também não é seguro. E o instante do próximo passo, isso é o que fica dentro dela, inquietando, num jogo que às vezes a dilacera, mas ao mesmo tempo a reforça. Porque ela é a princesa etíope, escolhida para isso, para comandar o seu próprio ser. Essa a descoberta que está fazendo. Para o passo. Que será apenas um passo, antes do outro e do outro e do outro. Então ela caminhará sem a ponte. Flutuando, feito Didi em campo.

olhares

De Alice Ruiz

trânsito parado
os mesmos olhares
e ninguém se olha

Paralamas do Sucesso Vital e Sua Moto


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Na calçada

A planta nasceu numa rachadura na calçada de cimento rústico. E a linha onde ela brotou, terminava/começava na base de um cano de torneira. Dali saía a água para regar as plantas daquele quintal com um pequeno retângulo de terra. Me encantei com aquilo. Visto de cima, era uma combinação de linhas, texturas, enfim, imagem. Ficou para sempre na minha mente, mas também numa fotografia feita em filme 35mm e ampliada no laboratório amador de um amigo. Sempre olho e, confesso, não sei que força ela me transmite. Há flores na pequena planta. A foto é preto e branco, ou seja, colorida, porque preto e branco são cores, apesar de pouca gente pensar nisso. Seria a força da natureza? Seria a proteção que aquela torneira parece dar à companheira de solidão? Será? Pra que saber.? Vou levar comigo para sempre, porque é assim - e não precisa de explicação.

na geladeira

De Sergio Sossélla

ao abrir a geladeira naquele dia
depois de alguns anos eu veria a cena
no encouraçado potemkin

Tito Madi Balanço Zona Sul Mais


terça-feira, 6 de outubro de 2015

A vida

Olhei pra trás e não me vi. Abri o álbum de retratos da família. Pregado entre quatro cantoneiras está lá um adolescente cabeludo, magricela, sunga diminuta, pose diante de um mar calmo em praia deserta. Eu era razoavelmente bonito e me achava o mais horrível dos homens. Numa outra foto parecia o homem das cavernas, barba enorme e desgrenhada, cabelo batendo no meio das costas, comendo caranguejo, um fio que parece de baba escorrendo e pedaços de carne branca penduradas no cavanhaque como se aquilo fosse árvore de natal de trogloditas. Numa outra, ao lado de uma bomba de posto de gasolina, cabelo curto, barba aparada, jaqueta de couro preta, o rosto seco, mas macilento indicando o drogado disfarçado. Agora estou aqui, muitos e muitos anos depois. Gordo, careca, surdo, dificuldade em dar mais de dez passos, sozinho num barraco de fundos depois do final da periferia, pensão por invalidez mental, filhos em outros planetas, mulheres nem em pensamento. Uma cadela me acompanha. Achei na rua. Entrou no cio outro dia. Tranquei a porta. Uma matilha tenta derrubar a porta. Ela fica esganiçando alucinadamente o tempo todo. Só há uma coisa a fazer: ligar a televisão e colocar no volume mais alto. Olha lá o Luciano Huk oferecendo baile de debutantes para meninas pobres que dançam com o galã da telenovela na versão atual de rainha por um dia do seu Silvio Santos. Será isso a vida?

o xerife

De Sérgio Rubens Sossélla



hoje, voltei a mesentir
o xerife da cidade fantasma da minha infância

Oswaldinho Asa Branca Blues


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Qual?


De Helena Kolody

Damos nomes aos astros...
Qual será nosso nome
nas estrelas distantes?

Henrique Cazes, Marcello Gonçalves Um a Zero


Na paisagem

Quando vejo alguém falando em pragas que assolam o Planeta, fico puto. A praga maior, a que originou todo desequilíbrio e fez desencadear todas as outras, não é citada. Ele escreveu isso sob a luz de uma lamparina, com caneta Bic escrita fina, tinta quase no fim, em papel de embrulho amassado. Foi dormir pensando nisso. Morava num deserto onde, de dia, esquentava a mais de quarenta graus. Na primeira vez que esteve ali, vindo do Sul, onde nasceu, havia muita mata, muitos pássaros, muitos bichos. Depois de anos teve de se entocar na casinha que os pais deixaram, pois uma confusão terminada em sangue o obrigara a fugir, a se esconder. Aí já não encontrou mais nada - nem o pasto, a primeira praga.  O açude secou, os bichos sumiram de morte morrida ou matada, os povos se arretirou, como falavam por lá. Ele ficou porque já não tinha forças nem ânimo. Andou ,muito por aqueles lados e viu o uso de herbicidas, viu o assassinato da terra, viu a morte em várias versões, e viu a maior praga, que era como no sul, onde morava em favela: o homem, a espalhar a doença e transformar tudo em amebas pestilentas. No dia seguinte guardou o papel com carinho. Pensou em pedir para alguém o colocar em seu caixão. Talvez pudesse apresentar sua descoberta lá do outro lado, para o todo poderoso. Quem sabe... Mas aí achou que a fome estava fazendo-o delirar demais. Rasgou o que escreveu e ficou olhando a paisagem esturricada.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Zé Tom

Toquei a campainha. O Zé abriu e eu vi o Tom. Todos. Porque ele sempre foi assim. Pega tudo, desde o sotaque do Cabral até o zunido do computador. Passa pelo batuque do saravá, índios marcando o compasso no terreiro da taba, samba, rock, smetack, jackson, aquele. O gravador ligado e uma torrente de informações impregnando a fita cassete. Existe rock brasileiro era o mote. Naquela sala de um apartamento simples saiu toda uma enciclopédia de vida musical como o próprio. O Zé do Tom. Quarenta anos depois ói ele mais Zé do que Tom, porque alucinadamente brasileiro. E manda tomar no toba quem renega o forró em Limoeiro, o som das máquinas e o olhar brasileiro de quem mostra as costelas, com olhar esbugalhado na frente do mar e recebendo nas costas toda a energia. Aquela. Que tomou conta quando ele abriu a porta, deixou entrar e sair. Tom Zé.