segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Erros

De Paulo Leminski

Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

Elomar O Violêro


Marcas

Fiz a foto sem a câmera, como ensinou mestre Cartier Bresson. Coloquei as minhas mãos sobre as dela, que estavam entrelaçadas. As marcas eram idênticas - de vitiligo, principalmente nos dedos, brancos, como se estivessem descascados. Depois olhei o vestido preto e, acima da gola, o rosto tranquilo, da missão cumprida. Grande costureira, foi ela mesmo quem fez recentemente, quando sentiu que a hora da despedida final estava chegando. Também disse a alguém próximo que sentia muito não ter podido fazer tudo, que ainda faltavam coisas. Ah! Esse buraco na alma só existe aos que realizaram demais - e assim foi com ela. Então pensei que, além de tudo que me deu, estava ali a prova, que nunca tinha visto antes, mas que agora, no último instante, apareceu, como um legado passado para que nunca pare, nunca desista, ainda mais porque as uso assim, datilografando, como ela as usava com agulha e linha, por exemplo. Por isso, fotografei e guardei aqui comigo. Então, o caixão foi fechado e colocado dentro da terra. Para sempre.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Se

De Paulo Leminski

se 
nem 
for 
terra 

se 
trans 
for 
mar 

Esponja

Tem uma esponja tirando minhas forças, empalidecendo minhas cores, querendo sequestrar minha alma. Não sei onde está, talvez aqui dentro, parecida com aquela que incomodava Fernando Pessoa, mas ele sabia descrever e nunca usou esponja para descrever o desassossego. Já estive nas catacumbas, embaixo de cobertor sujo, com medo de olhar por qualquer fresta. Agora não é assim, mesmo porque consigo pensar um pouco, andar, falar, até me entusiasmar em períodos curtos. No mais, olha ela me drenando! O melhor de tudo é que sei que vai sumir, que é preciso ter paciência, mas a danada absorveu isso também. Me mandaram ao supermercado. Fui, obediente. Ainda bem que não pediram o produto, mas eu dei de cara com uma pilha enorme, em duas cores. Tive vontade de ir a outros corredores para trazer os infalíveis álcool e fósforo. Seria uma boa fogueira, mas acho que iria preso como piromaníaco - e a minha esponja particular continuaria firme, me definhando dentro da cela. Agora senti no meu peito a maldita. Vou ficar quietinho. Quem sabe ela se dê conta de que já tirou tudo o que eu tinha e me abandone?

Zeca Pagodinho Maneiras


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

No fundo da caverna

No fundo da caverna havia uma poça de água. Era luminosa, apesar da escuridão daquele canto. Eu ouvia o barulho do mar lá fora - e não sabia o quanto tinha andado até chegar ali. O paredão que ia até o teto era muito alto. Aquilo parecia uma catedral. Fiz das duas mãos uma concha e peguei a luz. Não vi mais nada. Imediatamente estava em outro lugar, como num livro do Stephen King onde uma escada dentro do trailer levava o curioso para uma outra dimensão. Vi um espelho. Um, não, vários. Minha imagem era em preto e branco, bem contrastada, como num filme fotografado pelos mestres que foram para Hollywood antes de meados do século passado. Os olhos permaneciam coloridos, verdes - e havia uma lágrima imobilizada abaixo do direito. Ela brilhava. Não tive medo. Uma paz tomou conta de tudo. Não tive vontade de voltar, nem de explorar o ambiente, mas toquei no espelho mais próximo. Minha mão atravessou. Aí segui em frente. Estava de novo na caverna, só que saindo e sentindo a brisa que vinha do oceano. Ele era verde. Como meus olhos. Chorei de emoção. Uma lágrima que saiu do olho esquerdo entrou pelo canto da boca. Me senti alimentado.

no apocalipse

De Sérgio Rubens Sossélla

a voz que disse
no princípio era o verbo
transferiu-se do gênesis
e me espera no apocalipse
(minhas mãos vazias que o digam)

Arnaldo Antunes, Titãs O Pulso


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

na mão

De Paulo Leminski


a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

Camisa de Vênus Eu não Matei Joana D'Arc


O angu e a água

Duas grandes frustrações que me deixaram em crise profunda, dessas de marcar consulta extra com a equipe de consertadores de cabeça. Uma foi recente, depois de ser fritado na calçada da Praça Mauá vendo aquele Museu do Amanhã que a Rede Globo vendeu colocando em toda programação um pano que flutuava por causa de um ventinho embaixo. O envólucro é bonito, mas vi um peixei engolindo gente pela frente e expelindo por trás, em forma de povo, direto para a Ilha Fiscal. Fui ali por causa do Angu do Gomes, que tem mais de meio século de tradição, desde o tempo que o Gomes o inventou e servia no tabuleiro para quem não tinha muito dinheiro para comer no Centro Velho quando a cidade era a capital federal. Não experimentei o tal angu porque angu maior estava o trânsito e tinha compromisso do outro lado do túnel, aquele que leva àquela parte onde os ricos não saem, apesar do noticiário diário de tiroteio, mortes, etc - uma sacada ótima da rede para que forasteiros não se entusiasmem em atrapalhar a vida deles, aquela, do esssscorrega pra dentro. Passei vários dias sem sair do quarto, mesmo porque lá fora o inferno não tinha controle remoto para ligar o ar condicionado. Aí lembrei da água e do bar só com 500 tipos deste produto que existe em Paris e que não me levaram quando passei por lá. Como só falo le pescoço, como Didi Mocó, não arrisquei ir sozinho. Mas o angu e o boteco estão lá, me esperando. O psiquiatra torce para mais uma frustração. Assim fatura mais uns trocos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

homenagem geral

De Roberto Prado



brindo

saúdo

louvo

aleluia

honra e glória

a todos os que ave

e dão vida e graça

a este meu

salve salve


mau hálito

a inveja é uma merda ou o mau hálito da alma como disse alguém que disse e entendia disso porque é assim mesmo por isso espalho e fico olhando a cara de quem ouve e às vezes noto que a pessoa sente o próprio cheiro que não é bom porque olha assim e gostaria de ter essa ideia ou a grana daquele bacana da cobertura do prédio que chamam de a pilha do gato ou então do apresentador que ganha milhão ou o jogador de futebol por causa do carro que é um monte de lata então esquece ou tem medo de olhar o próprio rabo porque sente dor por morar na vila no barraco ou então no condomínio de classe mérdia e aí olha para o vizinho que tem muié bonita e a dele se lorgou no mar de massas bombons e não fazer nada e embagulhou que vida hein e o que havia de mais bonito nunca mais porque ele nunca olhou só para os outros e assim caminha essa humanidade que exacerba tudo isso com o segundo e meio dos famosos olha lá o bigbrother que mostra a idiotice igual na fazenda do outro canal e o do mau hálito também quer aparecer para não sabe o que quem sabe ter dinheiro e fama e trocar de mulher e de homem e de casa e de carro e cadê meus filhos um dia pode pensar e não tem mais jeito porque são iguais salve-se quem puder.

Jorge Goulart A Cabeleira do Zezé

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

dito

De  Paulo Leminski

tudo dito,
nada feito,
fito e deito

Emilinha Borba Tomara que Chova


Na ponte

Saí no "Nóis Sofre Mas Nóis Goza" logo no primeiro dia. O sol era de derreter os miolos. A largada foi dada na frente de um boteco onde todo mundo esquentou as turbinas. Meio-dia. A banda, onde os metais se destacavam, atacou de frevo e fui atacado por alguma coisa inexplicável que me fez começar a pular - e só parar quatro dias depois. Incorporei Ariano Suassuna, Siba e, principalmente, Chico Science com toda a Nação Zumbi e a força do mangue. Ao passar na ponte entre Recife e Olinda, vi um Galaxie sem portas, sem teto, lotado de gente como uma carruagem do Apocalipse. Pensei que estavam indo, como eu, para o inferno. Errei. Era o céu daquele carnaval onde o povo apenas se diverte e coloca todos os bichos para fora e para longe - em nome da alegria pura e simples. Faz tempo. Quase quatro décadas. A idade de uma das filhas, gerada lá - por isso poeta e princesa da cor negra.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

sono e sonho

De Paulo Leminski

A vocês, eu deixo o sono. O sonho, não! Este eu mesmo carrego!

Zé Rodrix Soy Latino Americano


Com Bogart e Bacall

Estava em Assunção, mas imaginava Havana do tempo de Fulgêncio, com cassinos e infestada de americanos e mafiosos. Isso porque ao ver o hotel antigo, estilo casarão, se encantou, entrou com o carro e se hospedou. Na bagagem levava o uísque do Collor, Logan, a garrafa pela metade, tomada no bico, calor abafado de 35 graus. Um banho gelado e foi ao restaurante comer algo para tentar rebater o porre. O teto era um afresco só. Pensou em Michelangelo na Capela Sistina, mas isso depois de entornar a primeira garrafa de vinho. Depois, quem segurava o bicho? Foi incomodar uma mesa de gringos sem falar uma palavra em inglês. Voltou para o quarto e o telefone era do tempo do onça. Pediu ligação para o Brasil e o número que passou era da antiga casa. Chorou ao falar com um dos filhos. Desmaiou sentado numa cadeira antiga. Acordou com o sol iluminando o rosto. Olhou em volta e decidiu trocar de hotel. Foi para um moderno. Aquele outro era como um filme visto anos antes, com Bogart e Bacall. Agora ele era ninguém - e precisava trabalhar para justificar a viagem.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

monstros

De Sérgio Rubens Sossélla

os monstros aterradores saíram dos sonhos
porque também não agüentavam o esquecimento

Veneno

O envelope com veneno de rato era muito atraente. Cores fortes. Vermelho e azul. O ratinho que viram na cozinha se deliciou com as porções que colocaram para ele. Talvez o produto estivesse vencido, não se sabe. Toda noite uma quantidade era colocada num canto perto do móvel da pia da cozinha e, no dia seguinte, nada do veneno e muito menos do rato. Pararam de alimentar o bicho e e colocaram o pacotinho no parapeito da janela da garagem. Olhei aquilo e resolvi fazer um teste. Primeiro misturei no farelo colocado para os passarinhos. Fiquei olhando canários da terra e rolinhas se fartando - e nada deles caírem durinhos e de perninhas esticadas para cima. Depois fiz isso na ração do cachorro. Ele comeu tudo, lambeu os beiços e não apareceu imóvel com os dentes arreganhados pra fora. Tinha alguma coisa errada com aquilo. Resolvei colocar na vitamina matinal. Tomei sozinho um copo grande com o que restava do tal. Fui para cama esperar o resultado. Nada. Para não dizer que continuou tudo normal, juro que vi na tela da tv um político dizer que era, sim, um canalha e ladrão do dinheiro do povo. Mas não era delírio, mesmo porque não aconteceu no Brasil. O vídeo era antigo. Depois do que falou, ele tirou um revólver Colt Magnum 45 de um saco de papel pardo, enfiou o cano na boca e arrancou o tampo da cabeça com o balaço. Liguei para o fabricante e reclamei do veneno. Ficou acertado que mandariam uma caixa com vário envelopes. Vou aumentar a dose para todos.

Secos e Molhados Flores Astrais


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Dois andares e uma escada

A distância entre o andar de cima e o de baixo era de milhões de anos luz. Foi num lugar onde entrei para trabalhar e, macaco velho, tirava sarro de quem poderia ser meu patrão - porque ele só pensava em dinheiro. Boa praça. Bem embaixo da sala dele ficava outra, onde a turma que produzia o material para o produto da sua negociação ralava todo dia. Ali estava um guri com pouca noção do que se tratava tudo aquilo; Universitário, morador do subúrbio, vários irmãos de pais diferentes. Enquanto o de cima andava de jatinho, ele se apertava em dois ônibus para ir e voltar de casa para aquele templo de consumo. Não sabia direito o que queria da vida. O outro, de cima, sabia muito bem. E tinha todos os contatos para tal, além  de perseverança. O combustível do de baixo ainda não tinha aparecido, ou seja, a chama, o fogo da paixão pela profissão. Uma escada separava o patrão do talvez futuro empregado. O de baixo nunca subia os degraus. O de cima subia, descia, passava sem prestar muita atenção no garoto. Tímido, este olhava o poderoso desfilando no saguão de pé direito altíssimo e, depois que saía do prédio, se deparava com uma igreja pintada toda de azul. Fazia o sinal da cruz. Ninguém nunca soube para que. Nem ele.

Parada cardíaca

De Paulo Leminski


Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Vanusa Manhãs de Setembro


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Zimbo Trio Samba de Uma Nota Só


Irmãos Metralhas

Conheci os Irmãos Metralha. Eles eram guardadores de carro perto do local onde eu trabalhava. Ficavam numa esquina de uma rua sem saída e se acomodavam embaixo de uma árvore frondosa. Ali puxavam um fuminho e, no fim da tarde, recolhiam a grana de quem estava a fim de uma "farinha" que eles pegavam com um tira numa praça do Centro. Quando chegava a encomenda, uma moçada se reunia numa casa abandonada que havia na mesma esquina para lançar o arpão na veia. Um dos Metralha era exímio no manejo da agulha. Foi o que morreu mais cedo, com uma saraivada de balas. O outro, encontrei anos mais tarde. Parecia um trapo humano. Não devia ter nem trinta anos, mas, contou, tinha Aids e não tratava. Continuava se arrastando atrás da droga e, quando estava um pouco melhor de saúde, puxava carros encomendados por uma quadrilha. Convidei-o para tomar um café ou suco. Entramos na lanchonete e quase não nos serviram por causa da aparência dele. O suco de laranja, contou, era algo que nem lembrava o gosto e quando tinha bebido pela última vez. Adorou. Tomou tudo num gole, depois limpou a boca com as costas da mão direita, deu tchau e foi embora. Nunca mais o vi. Deve ter ido se juntar ao irmão.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Vida desgovernada

Helena Kolody

A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.

Wanderley Cardoso Lua Branca


Meus mortos

Meus amigos mortos insistem em me visitar. Eu gosto. Não, não tem nada a ver com a palhaçada dos zumbis importados dos Estados Unidos que os colonizados incorporam e ficam esperando uma câmera de tv para se exibir. Meus mortos aparecem em pessoas que estão por aí - e que encontro nas ruas. Os traços dos rostos me lembram eles, meus queridos que partiram antes do tempo e com quem convivi, principalmente no trabalho. Não me assusto. Tenho até vontade de ir lá conversar com o desconhecido, mas acho que ele, sim, vai se apavorar. O contato do real com a lembrança para me recarrega a carga positiva que eles passaram quando estavam vivos. Eram do bem. Às vezes, horas depois, eu lembro do encontro e choro baixinho, escondido de tudo. Meus mortos são lindos e eles sabem que não adianta ficar procurando-os nas ruas. Eles aparecem quando tudo está na mais perfeita normalidade e quando minha alma está pronta para saudá-los do jeito que gostam - lembrando-os com saudade e para sempre.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Pizza bomba

Será que as pessoas estão mais loucas do que eu? Ou fiquei velho e decrépito antes de completar 70 e estou vendo chifre em cabeça de coelhinho da Páscoa? Um dia eu saí pela noite dirigindo o Bala com a certeza de que iria achar o apartamento de um casal amigo que não tinha me dado o endereço. Acabei parando e entrando num prédio em construção. Subi escadas, entrei em cômodos vazios e o máximo de coisa identificável que vi foi um vaso sanitário encostado numa parede. Eu bebia e os loucos de hoje fazem coisas bem sóbrios. O vício de ficar consultando 24 horas por dia o aparelho celular. O que é isso? E tirar selfie de tudo para mostrar para o mundo os mesmos sorrisos forçados de sempre? Ou a mania de atravessar a rua sem olhar para os lados, porque está ouvindo música com fones atochados nos ouvidos? Os outros que esperem. Quase atropelei um jovem outro dia porque achei que, naquela rua de trânsito intenso, ele iria esperar o momento certo chegar à outra calçada. Nada disso. Freei e ele nem tchuns. Continuou ouvindo o breganejo  com música de corno. Logo depois, um cachorro fez a mesma coisa. Mas estava sem fone de ouvido. A piada do pai da adolescente que olhou o quarto da filha e teve vontade de jogar uma moeda porque pensou que aquilo era um mocó de mendigo, explica muito do que está acontecendo hoje em dia e de noite. Ainda bem que, pelo menos, a medicina está avançada e vou viver até os 130 anos. Talvez nem velho fique, mas não imagino o que nos espera pela frente, do jeito que a velocidade tecnológica está acelerando a imbecilidade individual e coletiva. Melhor nem pensar. Bom mesmo será pedir a pizza que vem voando num drone. Mas tenho medo que um dia tudo saia errado e me entreguem uma bomba de nêutrons em vez de uma meia portuguesa e meia parmegiana.

Bem no fundo

De Paulo Leminski


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Pinguins

Meu pinguim morreu. Ele era branco, todo branco. Me acompanhava faz muito tempo. Ficava ali, sempre silencioso, como se observando e tomando conta de tudo. Primeiro na sala do apartamento. Depois, no escritório. Nunca reclamou de nada. Nem do barulho da geladeirinha velha. Acho que, quando notava que eu saía, começava a conversar com seu companheiro. Sim, tenho outro pinguim. Todo preto. Na semana passada, depois do almoço, o branco morreu estupidamente. Entrei e vi o bicho despedaçado no chão. Provavelmente foi atacado pela persiana incentivada pelo vento forte que entrou janela adentro. Recolhi-o numa pá de plástico e enterrei-o com honras de herói embaixo do pé de café que tenho no quintal. Agora o preto está ali, sozinho. Posso jurar que flagrei-o chorando hoje cedo. Fui lá e fiz um carinho nele. Baixinho, disse que estava procurando um outro companheiro/a. Não sei o sexo dele e do que morreu. Nunca pensei nisso. Pinguim de geladeira, pra mim, é como anjo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Não gosto

De Dalton Trevisan

- Não gosto de você, amor. Mas não fique triste: não gosto de ninguém. Nem de minha mãe eu gosto. 

Cego Oliveira Minha Rabequinha


Pipoca moderna

Atravessou a avenida sob o sol de 42 graus. Meio-dia. Estava descalço porque estava descalço. Correu. Pulou na areia. Mais quente. Correu. Foi para a sombra do guarda-sol colorido, mas com propaganda, que guardaram para ele. Sentou, tirou a camiseta e correu para esfriar tudo na água do mar. Ela estava verde. De poluição. Ele mergulhou assim mesmo. Aliviou. Voltou, sentou na cadeira espreguiçadeira e não sabe se dormiu. Um carrinho todo em aço inox e com rodas de bicicleta parou quase na dis frente. Vendia milho. Uma multidão foi chegando, escolhendo, comprando e comendo. O dono do negócio, de chapéu de palha, sorria. A maioria dos compradores era formada por crianças lindas. As espigas, amarelas, mordidas com cuidado. Tinha acabado de sair da água fervendo. Deitado, ele via os dentes delas. Uma menina negra, de tranças, parou ali perto. Fez pose de ginasta enquanto mastigava. Ele viu e então a coisa começou. No mar começaram a brotar pés de milho, que tomou conta de tudo e envolveu até as ilhas de pedra da linha do horizonte. Depois, as espigas apareceram inteiras, despidas da roupa verde. O sol esquentou mais. A pipocação foi imediata. O mar se transformou novamente, agora branco. Ele não tinha bebido nada, apenas o líquido de um coco. Mas este estava quente. Foi isso? Não sabe. A água salgada avançou sobre os pés dele. Ele levou um susto. Descobriu que não havia mais nada, apenas aquele mar do oceano e ele cercado por um de gente e barracas. Sorriu. Foi aí que sentiu um gosto na boca. Não sabia se era de milho ou pipoca - ou dos dois.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Verde a amarelo

De Paulo Leminski

verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida

João Gilberto Ave Maria no Morro


A escada e o cão

Tão bonitinho... Cinza. Pequeno. Tem umas manchas que podem significar velhice. Está ali há muitas décadas. No pé da escada de pedra da entrada principal da casa. Já teve a companhia de muitos outros animas. Gatos, principalmente - mas também cachorros, como ele. Muitos. Aquilo era uma festa espalhada no terreno enorme e por dentro de todos os cômodos. Coisas da dona do pedaço que, agora, velhinha, mas ainda agitada, dorme num quarto em local especial de repouso a muitos quilômetros dali. Não soube o nome. Apenas olhei, gostei e fiz foto - ele sempre posudo. Depois, quando mostrei a imagem para alguém que frequenta o local há muito tempo, a surpresa. Ele, o cachorro cinza, de focinho comprido, é um limpador de sola de sapato desde sempre. Corpo de metal resistente - uma chapa mais ou menos fina, aguentou e aguenta anos ali, no tempo. De vez em quando alguém o pinta. Da mesma cor, sempre. Os olhos, negros, alertas, apontados na direção do muro em frente, onde, num canteiro, há uma centena de antúrios. Vai ver que é por isso que resiste - e assim ganhou um eterno admirador.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

homenagem geral

De Roberto Prado


brindo

saúdo

louvo

aleluia

honra e glória

a todos os que ave

e dão vida e graça

a este meu

salve salve

Angela Maria Babalu


Chispa daqui!

Tá olhando o que, mané? Moro na rua, sim - algum problema? Está incomodado com o que? Meu corpo e minha roupa sujos e fedendo? Eu não ligo. Estou vendo que você é dos babacas perfumados que usam roupa de grife, da moda, feito exército de idiotas. Estou aqui sem fazer nada há muito tempo. Não incomodo ninguém. Não vou falar em sofrimento porque disso você não entende. Se alimenta do cheiro da grana - e se tiver oportunidade, rouba até a mãe, não é mesmo? Faz parte. Não vou te explicar porra nenhuma. Você não sabe o que é ser humano. É um monte de ossos cobertos de carnes. Saradão, hein? Pra que? Ah, sim, para se exibir. Barriga tanquinho feito os sem camisa das novelas que você assiste para adquirir cultura, né? Não tenho pai, não tenho mãe, não deixei meu legado para filhos - como disse um inteligente desses aí que li e respeito. Você, não! Você me olha com nojo, como se fosse diferente, como se não tivesse sete buracos na cabeça e um lá embaixo, atrás, que faz funcionar em banheiro de mármore e perfumado, como se o que saísse não fosse igual ao meu por causa da comida que sai do seu espaço gourmet. Vai continuar olhando? Larguei tudo por causa de gente como você, babaca! O ser humano é inviável, é falso, é traíra, é filho da puta. Sim, há exceções, mas sempre fiquei com um pé atrás - e quando acreditei, me fudi de véu e grinalda, como diziam lá no cantinho onde nasci e zarpei faz tempo. Quer me tirar daqui? Tente. Conheço gargantas de longe. No sentido figurado e a própria. Posso apagar você definitivamente com essas mãos calejadas aqui. Nunca fiz isso, mas é bom chispar daqui logo, senão inauguro a série. Me deixe quieto no meu canto, na minha calçada, na minha escada, no meu mocó, na minha marquise. Sou um trapo, mas não me troco. Sou mais gente que você, que se engana e ri quando é enganado pelos da sua laia. Vai tomar uma ali no boteco da moda. Eu nunca bebi, nunca cheirei, nunca fumei, nunca me droguei. Tentei viver, mas isso é outra história. Você não entende, mané!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Luiz Gonzaga e Carmélia Alves


De Deus

O Dedo de Deus sumiu. Juro que procurei. Aquele mesmo da Capela Sistina, ou o imaginário que nos aponta o caminho, mesmo sendo o do precipício dos infernos. Perguntei para o jornaleiro, um engraxate, o policial, a empregada, a madame, a dona de casa... Todos apontavam o mesmo dedo, indicador, dizendo é ali, caminhe mais um pouquinho que vai ver. Eu caminhava, corria, me esfalfava e... nada do Dedo. Será que ele não aparece para quem quer vê-lo de qualquer forma? Será que colocaram uma luva na mão inteira, um dedal de prata. E se o Dedo caiu? E se pegou uma doença ou então desapareceu no oceano lá embaixo ao indicar para uma caravana de deuses onde fica o Cristo Redentor? Subi mil metros de uma serra carregando uma mochila para me encontrar com um Dedo que não quis aparecer. Vi em algumas fotos mais tarde - mas assim não vale. Dedo é dedo e a falta de dedo serve até para propaganda de um ex-presidente que ilude a todos como se fosse trabalhador. Resolvi sair dali num amanhecer radiante. Na estrada olhava só para o asfalto. Então vi a sombra. Do dedo. Parei e olhei. Exuberante, majestoso, espetacular. Aí, aconteceu. O dedo balançou. Para esquerda e para direita, repetidamente. Depois, parou, e uma nuvem em forma de boca ficou atrás dele.O sinal de segredo foi feito. Não obedeci.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

MARINHEIRO QUE PARTE

De Nelson Capucho

pauto o que posso:
é quase nada

componho navios
de meus destroços

inútil partitura
meus ossos

dos sonhos
restarão rastros?



Renato e seus Blue Caps Menina Linda


Música dos anjos

Os pingos da chuva descem perpendicularmente como estilhaços negros na direção das costas das duas crianças. Parecem ser um casal de irmãos. Entre eles, um grande guarda-chuva negro protege os corpos. Os dois seguram um gato e um cachorro. Ambos olham para quem os está olhando. A pintura é pequena como a caixa onde ela está na tampa. A sala tem uma janela aberta de onde se vê uma montanha. A luz que entra ilumina algumas mesas, as poltronas e cadeiras antigas, uma parte da lareira e um quadro em cima onde um alce velho solta um bafo que toma conta de tudo. Ali faz frio. Aqui não. As crianças continuam com o olhar de quem não pedem proteção, mas sim que se atenda a curiosidade para abrir aquela pequena caixa colocada em cima de uma mesinha entre poltronas de couro marrom escuro, antigas. Ordem atendida. Então a música que sai dali toma conta de tudo, com a suavidade que se imagina brotando das pequenas arpas dos anjos que flutuam nas nuvens. Há quanto tempo... Caixinha de música... A palavra encantamento é pouco escrita, lida e muito menos utilizada para descrever momentos como esse. Um senhor sentado sozinho numa sala imensa, um raio de luz entrando pela janela do mundo exterior, um desassossego que deixou serra abaixo, no trânsito das grandes cidades. Ele recosta a cabeça na poltrona e deixa a caixinha o levar. Para dentro. Para a paz que existe e ele pensava ter perdido. Ao olhar de novo as crianças notou que o menino calçava uma sandália bem maior que o pé. Era criança e adulto. Éramos nós. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Trator de alma

O trator pilotado pelos filhos passou e abriu sulcos no terreno da alma. Sementes foram plantadas e eu não sei de que tipo. Há uma indiferença superficial. Ou não? As pontas que machucam me levam ao passado. Eu era assim com os meus. Paga-se o preço. Espera-se a redenção. Sementes de ódio só sobrevivem com sementes de amor. Somos sempre como nossos pais, apesar de, durante um tempo, odiar aquilo e jurar por tudo quanto é sagrado que não seríamos assim com os nossos filhos. Somos. Por isso o sofrimento é maior – não há como mudar. Há como esperar que brote o afeto que não demos, mas sabemos existir. Então nos tornamos filhos dos nossos filhos. E eles pais dos nossos pais. Reza-se para que a foice não corte o roteiro. Por isso aguentamos o arado a nos dilacerar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

porque não tem asa

De Paulo Leminski

Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa 
porque não quer
não porque não tem asa

Olhos na calçada

Apertei a tela e ele abriu os olhos. Deitado sob a vitrine de um shopping de bacanas. Papelão no chão. Fones brancos como se fosse um jogador de futebol. Corpo todo magro. Poucos dentes na boca. "Está fotografando por que?", perguntou. Eu não soube responder. Fui flagrado num dia de sol 40 graus, asfalto ali do lado fervendo, cidade fervilhando, de passagem para algum lugar com ar condicionado a toda, carteira protegendo o cartão de crédito para sacar e comprar algo. Respondi invocado, depois de um tempo: "Porque quis". Ele estava de boné e a composição com o fone e os fios brancos me atraíram. Mas foi só isso. Fiquei sem jeito, saindo, ouvindo xingamentos, xingando de volta, talvez imaginando o fiapo de gente vindo atrás, faca na mão, furo no fígado, vai saber... Os olhos. Ficaram os olhos que olhei mais tarde, à noite, deitado na cama, correndo o dedo na tela, procurando a imagem. Captei que alma ali?, me perguntei. A dele, sem nome, ou a minha, sem identidade?Depois daquele momento de decisão, a de clicar, a de responder, a de ir embora, pensei em voltar, em apagar a foto, em pedir desculpas, em perguntar por que ele deu aquele pulo e quase se levantou da cama. Não fui. Fiquei carregando a imagem para sempre, eu sei, porque mesmo que tivesse deletado, ela estaria presente. Não, não com pena porque era pobre, largado, deserdado, talvez alcoólatra como eu, mas porque houve o encontro. O que pensou de mim, um galalau de olhos verdes, careca, cem quilos, bem nutrido... Jamais imaginaria que estive perto de onde ele está, abandonando tudo por desesperança, por nada fazer sentido. Se fosse eu ali, na hora, e alguém a apontar o celular para o clique, o que faria? Talvez mandasse um beijo, se acordasse na hora. Talvez um murro na cara, uma cusparada, uma cabeçada no nariz. Nos incomodamos do nada. Acho que é isso. Por existir. Por não saber. A proteção. Queremos, sem ter. Não, não nos fotografem, não nos joguem na cara os erros, principalmente o de estar aí, na calçada, no Rio de Janeiro, no meio do tumulto, querendo sair para algum lugar que não existe. E o Cristo lá em cima, de braços abertos, pedindo paciência. 

Luiz Gonzaga Pagode Russo


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Bem no fundo

De Paulo Leminski


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim Barracão de Zinco


Matei Papai Noel

Matei Papai Noel antes de ele nascer. Na verdade, quem matou foi meu pai, porque lá em casa não tinha disso não. Eu confundia tudo porque algumas crianças do cortiço me falavam que iam colocar meias nas janelas, que o velhinho descia pela chaminé com os presentes, etc. Não havia meias e muito menos chaminé naquele muquifo que fedia a repolho azedo e onde o esgoto atravessava o quintal num corguinho. Só soube o que era ceia muito tempo depois. A figura eu via de vez em quando. Aquele calor do cão e ele lá com a barba enorme, a roupa vermelha de feltro, um saco pendurado nas costas. Inocente, pensava com as duas mãos nos bolsos da calça curta: mas que porra é essa? Sim, falava palavrão porque assim era e assim sempre foi lá em casa. Quando revelaram a jogada, fiquei puto: o mundo está perdido porque começam a mentir logo cedo para as criancinhas ainda puras. Agradeci meu pai por ele não ter se inventado Papai Noel. Nunca me deu um presente, mas me deu a vida, junto com minha mãe - e segurou a barra enquanto pode. Um dia, já adulto, perguntei de que forma ele tinha matado o velhinho. Ele arregalou os olhos azuis e não respondeu nada, porque aquilo era língua estranha. Acho que foram os antepassados dele que fizeram o serviço. Muito bem feito, aliás. Coisa que recomendo aos que estão aí vendo o barbudo como garoto propaganda alucinado do consumismo ensandecido de agora. Sobre as renas que puxavam o trenó desde a casa do cacete, até hoje tenho dúvidas se elas dariam um bom churrasco ou não. Lá no cortiço, se aparecessem, todo mundo ia esquecer a enganação dos presentes. Não ia sobrar nem os olhos - só as galhas, para enfeite.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Geladas

A água saía do poço, gelada, passava de um balde para o outro - e eu carregava com dificuldade para o banheiro minúsculo, duas mãos agarradas na alça, corpo retesado para não arrastar no chão. No cubículo, pés no cimento queimado e frio, privada que ocupava quase todo o espaço, porta de tábuas entre as quais as frestas permitiam ver se alguém queria me espiar pelado. Não pensava nisso. Pegava uma caneca feita com sobras de lata de óleo, enfiava dentro do balde e ficava ali parado com ela na mão direita sem coragem despejar o conteúdo cabeça abaixo. Até que vinha o momento da decisão e... O sabonete era esfregado rapidinho, em todas as partes do corpo. Olhos fechados e novas canecadas com muitos arrepios. No frio era assim também. E na vila fazia frio! Depois vinha a sensação boa, tudo enxugado, corpo limpo, sangue pulsando. Até hoje o banho continua assim, frio, apesar do conforto das duchas e do aquecimento a gás. Me faz sentir vivo - e disposto para enfrentar as geladas da vida.

Aprendizado

De Paulo Leminski

Nesta vida,
pode-se aprender três coisas de uma criança:
estar sempre alegre,
nunca ficar inativo
e chorar com força por tudo o que se quer.

Nelson Cavaquinho Folhas Secas


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sofredor

De Dalton Trevisan


Muito sofredor ver moça bonita - e são tantas.

Mensagem da brisa

A tristeza veio com o cansaço e uma brisa no início da noite. Ele estacionou o carro, saiu, apertou o controle, ouviu o barulho dos vidros fechando automaticamente, subiu a rampa que o levou ao supermercado e, ao olhar aquele mundo de produtos, estancou. O que fazia ali, se não tinha nada para comprar? Começou a andar pelos corredores, olhando produtos e pessoas, pessoas e produtos. Qual o sentido de um carrinho abarrotado de garrafas de vinagre e um senhor de rosto acabado pelo tempo empurrando-o? Passou pelo longo corredor das bebidas e lembrou de pessoas que morreram por ter a doença e não conseguir controlá-la. Droga lícita é uma rótulo. Droga ilícita outro. As duas matam quem entra no universo paralelo. Foi ao caixa. Uma senhora discute sobre centavos. A menina que a atende pacientemente é jovem, negra, cabelos esticados e batom vermelho nos lábios. Os olhos são grandes. Ele não tem nada nas mãos. Para diante do caixa, tira do bolso do casaco um maço de notas de cem enroladas e presas por um elástico - e entrega para ela. Presente de Natal, diz. Não espera resposta. Sai, entra no carro, liga o rádio, e enquanto ouve uma música qualquer, começa a chorar.

Alceu Valença Morena Tropicana


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Lá embaixo

Paulo Leminski

lá embaixo
vai ter
o que eu acho

Germano Matias Lua Nova


O barco

O calor infernal naquele muquifo na praia estranha me fez sair para dar uma volta. Os urubus tinham se alimentado bem das sobras de peixe jogadas pelos pescadores. Era fim de tarde. Eu não tinha me drogado. A última vez que tinha fumado um fazia trinta anos. Virei careta radical no dia em que vi um anjo fazendo sexo com o cramulhão. Início da noite. Numa janela, a luz de uma televisão e a voz de um ator paspalho gritando e atravessando o vidro. Todos gritam na tv, como se ela não tivesse um de um controle para aumentar o som. A rua era de terra e ficava paralela à areia da praia. Entre elas, algumas casas pobres. De repente, um corredor, uma luz verde iluminando-o, um barco emborcado encostado num muro, e lá na frente o mar e a faixa violeta com nuvens negras. Era um delírio - e não era. Pensei em algo que, mais tarde, escrevi. E veio tudo como se eu tivesse registrado num computador de bordo. Não tenho memória. Ela foi prejudicada pelo fedido e por muitas outras drogas, principalmente o assassino de neurônios, o álcool. Fiquei parado ali um tempo indeterminado. Voltei, registrei no papel e carrego comigo o que veio, mesmo sem saber por que. É isso:

o barco não chega ao mar pela força dos pescadores
eles são os outros
o barco só chega lá pelas próprias forças
e é ele que tem de descobrir isso
veja que está cercado por duas paredes, mas não encaixotado
ele não sabe o que o espera
mas está parado porque cria o que está por vir
se deslizar, vai entrar neste mundo maravilhoso e emocionante
aqui pintado por deus
e vai navegar como na música
porque quem vai navegá-lo é o mar

assim é a vida

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Parada cardíaca

De Paulo Leminski


Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Tralha

Malandro forgô pra cima de mim. Fiquei na minha porque nunca fui de treta - mas isso incentivou o nóia. Enquanto ele falava merda, fiquei quieto, parado, ali. Conhecia o gajo, mas nunca dei chance dele chegar perto, seja para uma parada arriscada, uma rodada de cerveja ou uns tiros de farinha no prato aquecido. Aí ele cometeu o erro de encostar a mão no meu peito. O relê colou na hora, o bisturi saiu de dentro da manga e o corte na carótida foi rápido e cirúrgico. Saí tranquilo enquanto ouvia a gritaria do acode, como se isso adiantasse. Ninguém veio atrás de mim, porque sabem onde mora o perigo. Os amigos dele talvez um dia arrisquem algo, mas só se me pegarem desprevenido - o que é muito raro. Restava o mocó, o meu. Mais difícil de achar do que a caverna do Batman. Nem os ratos chegaram lá. Ali guardo tudo, inclusive um diário onde escrevo desde o dia em que apaguei o primeiro, aos 10 anos de idade. A casa que me protege é de família tradicional e sossegada. Não estou no porão ou sótão, apesar de ser louquinho. Sou o lado de lá de uma estante abarrotada de livros. Entro por uma outra casa, do lado oposto da rua. Chego ao meu muquifo por um túnel que tem as marcas de uma fuga antiga de delegacia. Comigo, só tralha, tralhafernalha. Eu gosto. Me basta.


Os Paralamas do Sucesso Lanterna dos Afogados


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Tibungou!

Tibungou! Antes já tinha visto os olhos de Peter O'toole pregado na cruz e percorrido todo o deserto filmado por David Lean - mas sem achar Lawrence para perguntar como era mesmo aquele negócio de ele ter gostado de matar depois do primeiro teco que deu num figurante. Tibungou! Meu cenário era o descampado do Nordeste brasileiro de miolo mole, onde o mato virou gado, que comeu o pasto, e que secou o céu cantado pelo Cego Aderaldo na poesia de Zé Limeira. Pensei então naquela de transformar bosta em dinheiro para pobre enricar. Tibungou! Há dias confundia tudo porque antes uns cabras contratados chegaram para me furar o bucho, cortar as orelhas e levar para quem encomendou. Resolveram não se sujar de sangue. Me amarraram no meio do nada para morrer de sede e ser comido pelos bichos. Urubu peneirou no ar e desceu antes do fedor da carniça. Bicou no pulso, tirou a corda, agradeci e saí com a a boca seca, quase cego e rezando para qualquer santo, porque não lembrava nem mais de Padre Cícero. Tibungou! Os olhos azuis me guiaram. Até chegar a um delírio que não era oásis, porque naquelas bandas nem conhecem a palavra e significado. Era uma poça de água barrenta, mas ao encostar a ponta do dedo indicador na superfície, ressuscitei, porque fria. Havia o fundo de um pote de barro ali perto. Peguei, enchi cautelosamente até quanto podia. Bebi. Fui ao céu para beijar O'toole e dizer que ele na cruz, em um outro filme, sem farda, piradão, tinha feito o milagre. Depois tibunguei, tibunguei, tibunguei - e de areia virei barro e a mão do divino me transformou em sobrevivente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Caetano Veloso Reconvexo


Reconstrução

Só notou a passagem do tempo quando voltou aos lugares onde morou. Nunca tinha saído daquela cidade, mas teve casas em alguns cantos. Uma delas de madeira, com pomar nos fundos e um imenso quintal gramado na frente e apenas uma árvore reinando sobre o espaço; teve um porão, um sobrado, um barraco de fundos, uma que construiu do projeto de um estudante de arquitetura. Quando saía, ele não voltava mais para os locais onde elas estavam. Era instintivo, não fazia nada pensado. Passadas algumas décadas, de uma hora para outra, por compromissos profissionais ou sociais, foi passando naqueles lugares da trajetória da vida. A casa de madeira tinha desaparecido embaixo de uma outra, tipo caixote feio; o porão sumiu assim como todo o prédio acima; o sobrado e o barraco continuavam lá, mas pintados com cores berrantes, assim como a casa do arquiteto, que perdeu as formas, as chaminés, foi emendada a uma outra coisa que a deformou - e ficou azul de ferir os olhos. No entorno destes lugares, a cidade era outra, barulhenta, com comércio e tudo que foi se acumulando nos anos de invasão. Ele então lembrou outro abrigo, no campo, nos arredores da metrópole. Foi lá. Encontrou apenas algumas paredes e ela praticamente toda destruída. Iam construir uma nova no local, aproveitando alguma coisa da antiga Ele não lamentou. Comparou com a própria vida, reconstruída a cada mudança.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Esquizonauta

De Ademir Assunção

Dias e dias. Brancos 
Navalhosos 
Essa loucura. Você 
não aparece 
Você 
não desaparece 
Corpo gasoso 
emoldurado 
sob a luz da luminária 
Vai e vem 
Esse rosto. Esse sorriso 
Bárbaro 
Essa loucura 


Falcão Você é a Letra X da Palavra Love


Primeira comunhão

O diploma da primeira comunhão ele tinha guardado.  anjo da guarda estava lá, cabelos compridos, bonito feito galã de cinema americano. Asas enormes, protegendo o casal de crianças num caminho dos sonhos. Muitos anos depois, adulto, descobriu o complemento. A mãe tinha guardado a vela comprida que ele segurou acesa na igreja da vila. Ela tinha quebrado, mas valia. O quê, ele não sabia. A foto feita depois num pequeno estúdio também estava guardada. Ajoelhado, olhar fixo naquela imagem em tamanho natural do senhor que lhe estendia a hóstia consagrada, paletó fornecido pelo japonês do clique, imagem retocada. Jesus Cristo lhe dando o passaporte para caminhar direto para o céu dali a um tempo que ninguém sabia. Só Deus. Não mastigue a hóstia de jeito nenhum! A recomendação era essa. Pode sair sangue. Ela grudou no céu da boca e demorou a dissolver. Pensava nisso tudo enquanto montava a Walter PPK que lhe permitia exercer há muito tempo a profissão. Matador profissional. Dali algumas horas tinha mais um serviço encomendado a cumprir. Fez tudo como sempre. Se aproximou há um bom tempo da vítima, ganhou confiança e, na hora, o tiro seria dado no meio da testa. Antes, cumpria o ritual de perguntar se o futuro defunto tinha feito primeira comunhão. Quando recebia um sim como resposta, não ficava com remorso. Quando era um não, continuava impassível - e dizia: "Azar o seu".

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Estrelas, luz e escuridão

Tinha visto o céu mais estrelado do seu mundo em Porto Seguro, no tempo em que logo depois da cidade, até chegar ao Arraial, não havia uma casa sequer – e a noite era um breu só. Estava embriagado de tudo, principalmente pela vida que, de vez em quando, lhe parecia algo bom demais para ser verdade. Anos depois começou a pensar sobre aquele mar de estrelas no teto negro sem lua, com o barulho do mar a compor a epifania, e logo tudo foi apagado pela luz de uma janela que ficava esperando acender lá longe, toda vez que voltava do colégio à noite, na vila de um subúrbio da megalópole amontoada. Ali, imaginava, era o quarto da grande paixão do menino tímido. Ela também estava voltando das aulas, sabia. Quando aquele retângulo se iluminava, o coração era um só descompasso, a poesia doida dos pensamentos brotando em avalanches – e ele só se acalmava quando a escuridão voltava a tomar conta de tudo. Ela nunca soube disso. Ele nunca falou e também não soube se era mesmo ela quem o eletrificava ao iluminar aquele cômodo. Mas tinha certeza que sim – e isso se tornou uma verdade linda.

brilho da lâmpada

De Helena Kolody


O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Renato Borghetti Milonga para Missões


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

erro

De Paulo Leminski

Nunca cometo o mesmo erro 
duas vezes 
já cometo duas três 
quatro cinco seis 
até esse erro aprender 
que só o erro tem vez

Caco Velho Meu Fraco é Mulher


Pardal

Matei muito pardal lá no tempo do Cantinflas. Nem precisa ouvir aquela história de que este passarinho é praga, rato com asas. A turma de calça curta saía em safari pelas ruas de terra da vila. Estilingues armados, balas de barro redondinhas, confeccionadas na véspera, secadas no sol. Raros tinham boa pontaria, mas os ruins de vez em quando acertavam o peito do bichinho - e faziam a festa. Depois, a gente comia os ratos, sem as penas. Espetados e assados em fogueira feita à noite no fundo do quintal de um dos caçadores. Um dia fui escolher uma forquilha nova. Na vizinha tinha um arbusto onde elas apareciam aos montes. Desta vez, contudo, prestei atenção nas flores amarelas que ali estavam. Um encantamento. Fiquei ali um tempo indeterminado. O mundo parou. De repente um passarinho pousou. Era pardal. Ficou parado me fitando com os olhinhos minúsculos. Nunca mais atirei num semelhante dele.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Música

Ela foi à feira de artesanato na praça principal da cidade. Lá ouviu o som da flauta e se encantou. Procurou a origem. O músico era belo, cabelos longos e encaracolados. Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Se apaixonaram na hora. Ele parou de tocar e pediu para ela acompanhá-lo. Ela não exitou. O percurso era curto. Ele abriu um portão de ferro, os dois atravessaram um corredor estreito e tudo se abriu para um casarão sombrio. Subiram para o quarto. Ele disse que precisava mostrar algo para ela - e apontou para um armário onde uma cortina substituía a porta. Ela chegou mais perto. Ele puxou o pano de uma vez. Havia dezenas, talvez centenas de imagens do Demônio. Os olhos dela brilharam. Ele voltou a tocar, agora uma música tétrica. Ela se virou com os olhos vermelhos e disse que também tinha uma surpresa. Pediu para ele abrir a porta do quarto. Ele abriu. Foi atacado por milhares de ratos esfomeados. Estavam também hipnotizados pela música.

de pano

De Sérgio Rubens Sossélla

a bonequinha de pano.
o quanto envelheceu.

Sergio Reis Panela Velha


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

ameixas

De Paulo Leminski


ameixas
ame-as
ou deixe-as


Nelson Gonçalves Meu Vício é Você


Embrulho

Deve ser meio-dia. Estou aqui deitado numa calçada pertinho da esquina mais movimentada da cidade. O sol está forte, mas sinto frio. Um cobertor fedendo a mijo e a cachorro molhado cobre todo o meu corpo. Acordei há pouco com a tagarelice de duas mulheres que estavam perto dos meus pés descalços. Não tomo banho há muitos dias. Na noite passada fui a um mocó num casarão abandonado. Tenho amigos e amigas lá. Tomamos álcool puro e fumamos algumas pedrinhas. O tuimmmmmmmmmmm me alucinou. Sei que houve uma briga por causa de mulher. Igual no tempo em que eu era ser humano normal. Saí de lá correndo porque achei que vi uma faca com lâmina brilhando. Não quero morrer. Ou quero? Não sei mais. Vim aqui para minha esquina, peguei o cobertor que estava escondido, deitei sobre as pedras que não me machucam mais - e dormi. Acordei agora. Uma das mulheres disse que eu parecia um embrulho de pobre. Me ofendi. Sou apenas um embrulho.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Animais demais

Os gorilas mataram o jornalista. Enforcado. Inventaram um suicídio e divulgaram a foto. O menino não entendeu como alguém pode se enforcar sem estar pendurado numa árvore, como nos filmes de faroeste que via. A imagem era de alguém quase sentado no chão e o pescoço amarrado por um pano preso a uma grade de janela. Ele não entendia bem o que estava acontecendo, mas atravessou um bloqueio que fizeram no Centro da cidade grande para evitar que muita gente fosse à missa pela morte daquele que foi trucidado. Dias depois, sem querer, o menino entrou numa passeata desfeita a bombas, patas de cavalos e cassetetes. Aquilo o despertou. Lia as notícias e começou a entender que havia uma força enorme achando que uma força pequena fosse alterar o destino de um país continental, como diziam nas aulas de geografia. Mais tarde compreendeu que os dois lados estavam loucos - e que nenhum país acaba por isso. Os gorilas ficaram por muito tempo tomando conta do zoológico. Depois foram embora e outros bichos se apoderaram do comando. O menino já estava com cabelos grisalhos quando muitos daqueles que eram da força pequena chegaram onde os gorilas e os outros loucos chegaram - e também enlouqueceram. Ele então desistiu. Fez sua trouxa e foi para o mato, sem cachorro - porque de cachorrada já estava farto.

de repentes

De Roberto Prado


voos repentinos

poemas

tristes pétalas

desfaça as malas

belezas doem

se você quer

levá-las

Criolo Me dê Motivo


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

noite

De Sérgio Rubens Sossélla


a noite
essa janela fechada

Martinha Cilada


Pernas no bar

Me veio assim com sonoridade, com imagem, algo muito forte, como só poderia ter saído da boca dele, aquele moleque das quebradas do mundaréu que João Antonio tão bem desenhou em nosso imaginário. Mas eu peguei pelas beiradas, frase enviada lá de longe, do meio do sertão - e aí misturou tudo, como é neste país desde sempre. Veio voando, veio de trem, veio de Fenemê, veio de canoa de tronco, veio a nado, veio no vento, veio sendo passada por todos os brasileiros que estão nas janelas nas beiras de estrada, veio. Quem falou primeiro já se foi e deixou a marca saída lá do Bexiga, bairro paulistano. Perdido numa noite suja, deve ter se inspirado quando tomando umas e outras num boteco daqueles, rabo de galo na mão, um olho embaixo de outra mesa. Aí ele pensou e, quem sabe, falou: "Destrancou meu coração ao descruzar as pernas". E isso foi por aí, até chegar aqui e, de novo, ir por aí. Plínio Marcos.