segunda-feira, 12 de maio de 2014
domingo, 11 de maio de 2014
sábado, 10 de maio de 2014
sexta-feira, 9 de maio de 2014
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Reclamação
No balcão de atendimento, nem esperou a funcionária perguntar o motivo da presença - foi logo despejando tudo. Não aguentava mais o tormento diário. Todo santo dia precisava chamar um guincho para levantar da cama. Era assim desde que se entende por gente. Nunca se divertiu quando criança, foi obrigado a frequentar a igreja e odiava as rezas, cânticos e achava que um dia a hóstia seria consagrada e servida com arsênico. A escola sempre foi uma câmara de tortura - e ler Rosinha Minha Canoa quase deflagra um surto psicótico. Obrigado a trabalhar num banco, achou que queriam que se suicidasse ao ser escalado para o caixa. Um dia foi mandado embora porque tentou esganar um cliente que insistia em receber um centavo a mais de troco. Nunca namorou, não se definiu sexualmente, ou melhor, se achava uma ameba sem tesão. Teve de trabalhar para não morrer de fome, apesar de achar qualquer tipo de comida um entrave para a vida, uma perda de tempo - ainda mais porque depois tinha que defecar a parte ruim, apesar de achar que não existia uma boa. A atendente ficou atônita. Ele disse que estava ali para reclamar dele mesmo. Chamaram os seguranças. Foi arrastado para fora. Voltou para casa e dormiu. No dia seguinte tinha um guincho a chamar.
Supremacia da fórmula
De Roberto Prado
com a ajuda do meu céu
de nuvens esparsas fiz uma você
agora que eu passei para o papel
não está mais aqui quem te vê
de nuvens esparsas fiz uma você
agora que eu passei para o papel
não está mais aqui quem te vê
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Se o corpo abandonar minha alma
De Marcos Prado
se o corpo abandonar minha alma
não tenha de mim uma idéia falsa
não chore,mantenha a calma
estou morto por minha causa
não tenha de mim uma idéia falsa
não chore,mantenha a calma
estou morto por minha causa
cuidado:assim
como sua mala
o meu caixão não terá alça
o meu caixão não terá alça
Nascido para voltar
Cinquenta anos depois ele voltou para a encruzilhada onde nasceu. Asfaltaram tudo, não havia mais terrenos baldios e desapareceu o morrote onde, com sua turma da rua, várias guerras foram deflagradas, lancinantes cavalgados, bólidos de papelão pilotados. Algumas casas teimavam em se manter como velhos retratos num álbum guardado no fundo de uma gaveta esquecida. No lugar onde morava, o casarãoda frente deu lugar a um caixote horrível de três andares. Ele chegou mais perto e viu que havia um corredor numa das laterais. Lembrou dele, agora bem mais estreito, onde certa vez quase perde o saco num carrinho de rolimã. Então notou que lá no fundo ainda estava em pé a meia-água onde passou os primeiros anos de vida. Caminhou até lá. Um cachorro latiu. Só parou diante de uma grade que separava os fundos do prédio do quintal da casinha. O telhado tradicional tinha sido substituído por amianto. Não havia mais o poço onde um dia pensaram que ele tinha caído. Nem o minúsculo banheiro onde tomava banho de água gelada saída de um cano sem chuveiro. Era tudo muito pequeno. Ele chorou e teve certeza do quanto tinha crescido por ter começado a aventura ali.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Linchamento
Por que será que começaram a me linchar neste terreno baldio? Entrei aqui para descansar um pouco nesta longa caminhada sem rumo. Me perdi porque perdi o gosto de viver e nunca tive coragem de me matar. Nasci de uma mãe e um pai que nunca conheci. A primeira lembrança que tenho é o cheiro do lixão onde um dia acordei. Sobrevivi comendo restos. Tomei poucos banhos na vida. Os trapos que me cobrem achei por aí. Nunca roubei, nunca matei, nunca feri, nunca entrei numa igreja, mas já segui de longe uma procissão. Cristo não salva. Não entendo o ser humano. Me olham com dó, me olham com raiva. A primeira pancada que levei foi na boca. Quase engoli os restos dos meus dentes podres. Vi quando chegou o primeiro gritando que eu era o tarado do bairro. Não sei o que é sexo. Nunca tive vontade. Depois vieram os outros. Me furaram, cortaram o meu pinto e um cachorro vira-lata saiu com ele na boca, o sangue deixando um rastro. Agora tem um garoto com cara de anjo erguendo uma barra de ferro. Ele e outros me chutaram e me arrastaram antes. Vai acertar minha cabeça. Que bom. Finalmente vou descansar. E nem pedi este favor. Obrigado.
Tristes homens azuis
- de Marcos Prado
a tristeza não faz um homem azul
o branco é branco,o negro é negro
ninguém é triste,não há blues
só existem,tristes,os tristes homens azuis eles se vestem de branco e de negro
e os outros vêem azul
porque não são brancos nem negros
os tristes homens azuis
ninguém nasce azul
não se põe no mundo
alguém azul
mas quando a noite baixa
se levantam
os tristes homens azuis
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Passarinhos
- de Marcos Prado
piem na minha janela
façam uma serenata para mim esta noite
eu preparo as pipocas
e a mesa com frutas
vocês cantam e comem
eu bebo e dançose a canção for triste
choramos todos juntos
se for alegre,barulho!
os vizinhos que se fodam
caso eles dindon
eu abro a porta:”entrem”
se não quiserem
cagamos na cabeça deles
e recomeçamos
na mesma nota
quando amanhecer,eu sei,
vocês tem trabalho
podem ir,mas já estão convidados
para a noite que vem
e podem trazer o resto da turma
Em Paquetá, sem Fidel
Decidiu que iria passar o resto da vida em Paquetá. Este destino começou a tomar forma quando leu a famosa frase de Nelson Rodrigues sobre os guerrilheiros malucos dos anos 60 que queriam acabar com a ditadura militar e implantar um regime parecido com o de Fidel Castro no Brasil: "Mas Cuba é do tamanho de Paquetá!", disse o gênio, para dimensionar a sandice no país-continente. Mas também havia Luz del Fuego ali nas imediações e o fato de carros serem praticamente proibidos naquele pedaço de terra e pedra nas águas do mar do Rio de Janeiro. Atravessou dois estados, chegou à estação das barcas, entrou numa delas, desceu na ilha e viu que entre o sonho e a realidade um oceano os separava. Encontrou todos as pessoas com os olhos colados nos respectivos celulares, passando e recebendo mensagens. Veio um charreteiro oferecer o passeio para turistas. Aceitou, mas logo resolveu voltar quando foi deixado numa praia de águas poluídas e lhe sugeriram uma navegada no pedalinho em forma de cisne cor de rosa. "Pô! Se pelo menos fosse um boto!", ele pensou enquanto retornava para o continente e admirava a ponte Rio-Niterói.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
quinta-feira, 1 de maio de 2014
O sol
- de Marcos Prado
- o sol
do outro lado
da cidade parecia
iluminar
a china
simples:
abri
a cortina
Na praia, do lado de dentro
Viu a foto antiga e agora sabe porque tinha tanto medo. Na frente do ônibus que levou os amigos do bairro suburbano para a praia, todos fazendo pose. Ele, menino de cinco, seis anos, não estava lá. Mas ao observar a imagem com atenção, se viu olhando para a câmera por dentro do veículo, exatamente no canto onde o vidro do para-brisa faz uma curva. Cabeça grande, cabelo cortado no modelo "topete de bode". Ali se sentiu protegido, se sentiu em mais um útero - mas continuava só. Não lembrou se o chamaram para se expor. O fato é que só apareceu na sombra, em pleno dia de sol brilhante. Ficou ali até o dia em que tomou coragem de olhar para si mesmo - não para os fantasmas que via na areia, no mar, no mundo. Não pensou que o clique da câmera poderia mudar tudo isso. Machucou-se todo, mas sobreviveu. Aí saiu do ônibus e foi dirigir a própria vida.
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