quarta-feira, 21 de maio de 2014

Chama e lama

Estava lá. Era o que importava. O primeiro festival de rock da vida. Fugiu de casa com a mochila velha nas costas e sem um puto no bolso. De carona em carona chegou à fazenda um dia antes de o som das guitarras começarem a cortar aquele céu, aquela mata e o coração dos ouvintes. Havia muita segurança protegendo a propriedade. Ele esperou a noite cair. Uma chuva despencou junto com a escuridão. Lama. Lembrou de Woodstock, a inspiração para toda uma geração. Procurou um rio. Achou um córrego, entrou nele, passou por debaixo de uma cerca de arame farpado. Rasgou a camiseta e um corte fez o sangue escorrer. Não ligou. Estava ligado. Foi se ajeitando bem em frente ao palco. Estava cansado, molhado e sujo, mas feliz. No dia seguinte, mais chuva e aquele mundo de gente de todos os cantos. Alegres, olhos brilhantes ou injetados. Na paz. Até que o primeiro acorde explodiu. Ele fechou os olhos, levantou e começou a dançar como um alucinado. Na coreografia dos passos, que só parariam na madrugada do dia seguinte, uma frase entrava entre as berradas das letras das músicas. Criação própria: "Rock na lama também sai chama". A dele era a da vida que decolaria a partir dali.

agora depois

De Roberto Prado


o poeta
quando morre
pra onde vai?

irá para a lua
onde não há ninguém
para olhá-lo?

ou para a China
chorar cantando
entre seus iguais?

sumir ou sofrer?
ninguém ou bilhões?
melhor não morrer

Renato e seus Blue Caps


terça-feira, 20 de maio de 2014

No penhasco

Disseram que ela estava lelé da cuca, fora da casinha, maluca, louca de pedra. Ele pegou um avião e se mandou para o lugar que ela foi muitos anos anos antes. Até chegar lá viajou mais um tanto de ônibus, barco e mula. A casa ficava no alto de um penhasco e só tinha uma porta. Ele bateu. Ela abriu. Os olhos continuavam luminosos, mar azul no rosto agora enrugado. Ele olhou lá no fundo e ela abriu um sorriso. Abraçou-o e disse que naquela manhã tinha pensado nele quando comeu uma esperança que apareceu no canto da mesa. Ele entrou. Só havia a mesa ali. Ela contou que também dormia em cima dela desde que teve uma visão. Ele perguntou qual. Um anjo entrou pela porta e abençoou-a dizendo que era enviado dos céus. Ele fez de conta que acreditou. Ela contou que o anjo tinha deixado uma espada para que ninguém duvidasse dela. Ele pediu para ver. Ela mostrou. Ele então fechou a porta e nunca mais saiu do lado da mãe.

na captura

De Roberto Prado

falei
até a letra
ficar grande

fiz de tudo
até figura

já me entende agora
ou ainda falta
mulher nua?

Saudosa Maloca dos Demonios da Garoa


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Mais uma dose... de lactose

Foi a empregada quem lhe deu a triste notícia. O neto dela não dormia mais, a barriga crescia como a de menino nordestino que come barro com calango - e a criança não parava de peidar. Foram ao médico. Ele matou a charada na hora: lactose. A receita: um mês sem tomar leite e, principalmente, sem comer queijo. Essa era a perdição do guri. Se pudesse, comeria uma barra inteira de queijo prato de uma só vez. Sete dias depois, cadê os peidos, cadê o barrigão? Desapareceram. Ele ouviu a história e olhou a pança. Também era viciado no produto. Leite? Só duas gotas no balde de café da tarde. Teria de fazer a experiência, afinal, mesmo que diminuísse de peso a custa de exercícios, nada de o bucho murchar. Também peidava feito doido, mas conseguia se controlar em locais públicos. Resolveu fazer a saideira. Comprou todos os tipos possíveis. Começou a comer na sexta à noite e só parou no domingo. Depois, não saiu mais dali. Os vizinhos desconfiaram. Chamaram a polícia. Foi encontrado em estado de decomposição, caído no meio daquela montanha de produtos de origem francesa. Os ratos de assustaram com os intrusos. Tiveram de chispar do banquete.

descascando cebola

De Roberto Prado

dentro do dentro
no meio do miolo
nas profundas do centro
do núcleo de tudo
é ali, no fundo, no fundo,
que habita você
minhalma doutro mundo

Wilson Simonal Meu limão, Meu limoeiro


quinta-feira, 15 de maio de 2014

O último pastelão

De Roberto Prado

você perdeu meu antigo prazer simples
a diversão tola dos troços aéreos que falava
de ver a graça pura das velhas boas trapalhadas
de sentar pra rir daqueles meus bobos tropeços
pensando bem/ninguém perdeu nada

Do lado de cá estarei lá

Tem certeza que ouviu a voz no meio da madrugada. Acendeu o candeeiro e a primeira coisa que viu foi a Winchester 44, cano sextavado, encostada ao lado da cama daquele barraco no meio do nada. "Do lado de cá estarei lá". Enrolou o fumo de corda na paia, como dizia, tragou e começou a pensar naquelas palavras. Muito sábias, concordou consigo mesmo. Ele mesmo, ali, naquele chão pisado só por Antonio das Mortes num passado que ficou apenas na lembrança dos moradores mais distantes. Ele mesmo era temido em toda a região - e não via motivos para tanto. Tá certo que não deixava ninguém chegar perto da sua choupana e quem fizesse isso teria um dos joelhos estraçalhados por um tiro certeiro. Não lembra quantas vezes isso tinha acontecido, mas com pena mesmo ele ficava do susto que tomavam o bode e as cabras que criava ali ao lado, no cercado de terra batida. Concordou então que, de fato, do lado de cá com certeza estaria do lado de lá, no medo do que pensavam nele. Então apagou o cigarro num copo com água e o candeeiro com um soprão - e foi dormir sossegado.

Erasmo Carlos Sentado à Beira do Caminho


quarta-feira, 14 de maio de 2014

radical livre

De Roberto Prado

morri de vivo
porque menos mal assim

mas antes de luto
meu estúpido estudo
sobre o valor nutritivo
da raiz do capim


Profissional

Primeiro queria ser motorista da Viação Cometa por causa do boné que os motoristas usavam quando ele, criança, viajava no Flecha Azul. Depois sonhou ser astronauta porque queria saber como eles faziam cocô e xixi dentro daquelas roupas e daquelas cápsulas espaciais do tempo do Yuri Gagarin. Aí começou a perceber que um salto como esse seria alto demais partindo do subúrbio da grande cidades. Fez testes para entrar em bancos, mas não foi aproado porque era um cata-milho juramentado na datilografia. O pai olhava torto e o obrigou tirar a carteira de trabalho ainda na adolescência. Foi vender fundos de investimento, mas era tão tímido que engasgava na hora da enganação. Polícia Federal e Polícia Militar foram as tentativas seguintes. Reprovado por inanição. Aí fez um vestibular para o curso de letras numa faculdade caça-níquel. Passou, mas o pai teve de pagar as mensalidades achando que poderia ser reembolsado no futuro. O canudo ele deu de presente para a mãe antes de meter o pé na estrada com uma mochila nas costas. Hoje é borracheiro ao lado de um posto de gasolina na entrada de Santarém, no Pará. Está feliz porque acorda e vê da sua janela o rio Amazonas.

Palhaço Nelson Cavaquinho


terça-feira, 13 de maio de 2014

mentira

De Marcos Prado

a mentira é a melhor é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo

mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
bethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?

Ouro Verde F.C.

A Copa do Mundo era disputada todo domingo no campinho descaído do terreno baldio da vila, perto da encruzilhada. O adversário era sempre o mesmo, a turma da rua Central, que ficava a duas quadras dali. O horário do jogo também não mudava, para aproveitar o fim da missa das 10h na igreja da praça. O povo que voltava livre dos pecados parava atrás do gol para assistir a disputa. O time tinha nome e técnico. Era o Ouro Verde Futebol Clube, dirigido pelo Foguinho, um ruivo que não podia fazer parte do escrete porque era perna-de-pau e mais velho que todos os jogadores. O vestiário ficava nos fundos da casa do Lupe, ao lado do campo de terra batida. Ele era baixinho e canhoteiro, ou seja, nosso craque. A gente se trocava ali, num barracão onde o pai dele guardava ferramentas e outras tranqueiras. Um dia resolveram construir uma casa no nosso templo de jogo. O campo se foi e não dava para fazer outro- os terrenos que sobraram eram pequenos demais para para traçar as quatro linhas. Tentou-se passar para o futebol de salão, mas não deu certo porque a turma da Central não quis mudar para este esporte. Ele lembrou disso tudo quando voltou lá quarenta anos depois. Jogava de lateral direito, era um jogador regular, mas gostava tanto daquilo que guardou para sempre a camisa do Ouro Verde e pediu aos filhos para que a colocassem no caixão quando partisse para sempre.

Orquestra Tabajara


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Revolta divina

Zumbis estavam reunidos na porta lateral da igreja em reforma. Ele viu isso depois de ter jantado numa mesa ao ar livre numa viela ali perto. Voltava para casa, um estúdio na cobertura de um prédio velho. Parou e entrou no meio deles. O templo estava aberto. Ninguém barrou sua entrada - e ele viu. Mais zumbis à meia luz naquela imensidão de espaço. Cristo olhava lá do altar. Se pudesse, taparia os olhos com uma ou as duas mãos. Um palco tinha sido improvisado embaixo da cruz. Música experimental, disseram, foi tocada ali. Muitos dos seres presentes sob aquele teto altíssimo estavam bêbados e drogados. Numa das laterais, um bar improvisado, com propaganda de cerveja e tudo mais. Vários barris de chopp se amontoavam sob duas telas grandes da Via Sacra. Ele fez o sinal de cruz credo e foi dormir. Sonhou com uma revoada de anjos armados atacando os zumbis. Era a revolta do Céu.