segunda-feira, 2 de junho de 2014

Olho aberto

Não tenho mais tempo. O que é o tempo? Me sufoca pensar que daqui a pouco já foi ontem. Alguém já escreveu isso? Mais uma dúvida no mar de interrogações que me afogam desde que vi a imagem da santa. Sim, era minha mãe e ninguém precisou dizer que era ela porque eu senti. Aí começou! Se fosse permitido não sentir... Me deram uma cartilha que, ironia, se chamava Caminho Suave. Tudo piorou. Todo o universo de informações inúteis caiu em cima e aí eu raciocinava e sentia com palavras, o código de deixar ainda mais louco. Se ao menos houvesse uma uniformidade, um sentido no sem sentido, mas não! As cobranças internas eram maiores do que as externas, mesmo porque papai fechado e não falava, só olhava. Descobri tarde demais que o segredo estava ali naquele olhar. Mas aí ele estava morto e eu não pude perguntar. Apenas olhar para seu olho aberto no corpo inerte. Não chorei. Não sorri. Apenas olhei e fiquei a esperar o meu dia.

subtrações

De Roberto Prado


que tal pegar tudo que temos
e deste todo fazer a grande falta
um salto que cai, uma queda que salta
essa soma assim sem mais nem menos?
por que não juntar o nosso nada
o eterno que move, o nunca que repousa
e fazer destas perdas somadas
o achado de alguma coisa?

Maria Bethania e Gilberto Gil Lamento Sertanejo


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Psicológica

O texto mais lido do Luis Fernando Veríssimo, que não é do Luis Fernando Veríssimo, é o da caganeira. O grande escritor jamais escreveria isso, mas a merda se espalhou. Muita gente riu - e muita gente chorou  porque passou por situação semelhante. Como aquele menino que, entusiasmado, foi conhecer uma chácara de ricos onde trabalhava como caseiro o irmão do vizinho. Viajou de trem na ida. Voltou de ônibus. Viveu aventura na ida por problema simples: perderam a conexão e os dois acabaram pegando carona no meio da madrugada num trem de carga. No retorno, o horror. Entrou, sentou na poltrona lá no fundo e assim que o motorista embicou na estrada, atacou-lhe aquela dor de barriga que o Veríssimo falso descreveu. Não havia banheiro no veículo. O menino era tímido demais para pedir que o motorista parasse e ele fosse... no mato ou em qualquer boteco de beira de estrada. Não falou nada para o amigo. Suou frio, rezou para que a viagem fosse curta. Com aquela idade, pra que se preocupar com distância? Conseguiu segurar tudo até que o ônibus encostou na plataforma da grande rodoviária. Saiu em disparada sem saber onde ficava o banheiro. Lhe disseram que era no andar de cima. Subiu correndo e, ao chegar na porta... havia uma roleta. Descobriu que era preciso pagar para cagar. Ele não tinha um puto de tostão no bolso. Ofereceu os óculos como garantia. O senhor que tomava conta do banheiro percebeu que o garoto estava apurado pois estava pálido e suava frio. Deixou ele entrar. Uma privada estava livre. Ele baixou as calças - e nada. Imaginou que iria entupir a fossa em várias etapas, mas... nada. A dor foi passando enquanto alguns flatos, puns, peidos, foram saindo timidamente. Ele ergueu as calças, e já ia saindo e, aí, aconteceu. Quando acordou, estava sentado no trono e várias pessoas o olhavam.  O menino criou coragem e perguntou o que se passara desde que perdera os sentidos. Ninguém respondeu. Ele levantou e percebeu que estava com a cueca e as calça no lugar. Examinou e viu que não tinha se sujado. Saiu e encontrou o companheiro de viagem, que, preocupado com o sumiço, perguntou o que tinha acontecido. Ele respondeu: "Caganeira psicológica".

é muito

De Roberto Prado

Tempo ruim não foi
e o agora não quer ir.

Tudo precisa de dois.
Isso, no momento,
é muita gente.
Fica pra depois

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Fardas e fardados

Ela sempre teve atração por fardas. Desde criança. Olhava os escoteiros como se estes tivessem vencido uma Guerra Mundial. Depois foram os guarda-mirins e, mais tarde, na adolescência, os soldados do quartel do Tiro de Guerra que ficava próximo à sua casa. Não, não assistia ao desfile de 7 de Setembro na cidade onde morava porque tinha medo de ter um treco, um ataque do coração, trombose cerebral ou algo assim. Nunca namorou homem algum - com farda ou paisano. Aquilo era um mistério na família, mas ninguém questionava. Estudou, fez curso de datilografia, trabalhou um tempo como secretária de um escritório de advocacia, mas um dia resolveu largar tudo e ficou em casa curtindo um gato, um cachorro, um papagaio e as blusinhas de crochê que fazia para doar a entidades beneficentes. Envelheceu. Até que um dia, quando ainda estava lúcida, ouviu alguém perguntar sobre a paixão antiga. Ela começou a chorar e, quando se refez, disse que era a maior frustração da vida dela. Qual? Queria ser alfaiate só de uniformes militares.

Elis Regina Atrás da Porta


terça-feira, 27 de maio de 2014

A procura

Não aguentou e resolveu procurar. Nem que, para isso, tivesse de fazer o pacto de Robert Johnson na encruzilhada. Desde "batatinha quando nasce" se apaixonou por poesia e, ao longo da vida, percorreu milhares de quilômetros de rimas rimadas e não rimadas dos grandes, dos pequenos, dos médios, dos nem tanto poetas. Guardava tudo e, quando achava que estava passando por algum momento similar ao que imaginava ter lido em algumas linhas, ou entrelinhas, procurava e sempre dizia: "Não é que o filho da puta tinha razão?" Claro que nas dores, nas alegrias, nos momentos nada, nos tormentos, tentou escrever, mas nunca conseguia colocar na folha de papel ou na tela do computador uma única sílaba, quanto mais uma linha ou um verso inteiro. Por isso resolveu procurar de onde os poetas conseguiam tirar ou receber aquilo que passavam adiante e que faziam algum sentido, mesmo sem sentido, aos leitores. Acabou sendo preso com olhar no nada. Segurava um coração sangrando de um corpo jamais encontrado.

portão aberto

De Sérgio Rubens Sossélla

abri o portão da fazenda
as estrelas passaram
a noite permaneceu


Alvarenga e Ranchinho e o Drama da Angélica


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Próstata

Descobriu muito tempo depois que histórias sobre bêbados eram engraçadas somente muito tempo depois e se contadas por quem as viveu e conseguiu sobreviver.Aquele senhor alto e sábio, por exemplo, dizia que, mesmo milionário, nunca tinha viajado para o exterior porque sabia que não encontraria um bar como aquele em que entornava na esquina perto de casa. A história mais louca era das viagens que fazia com a mulher no carrão, sempre importado e do ano. O trajeto poderia ser o mais curto possível, mas o motor invariavelmente pifava de tempos em tempos. Ele descia, abria o capô e, sem que a santa companheira visse, tirava um canudo do bolso para sugar o líquido que tinha colocado no lugar destinado à água. Alma de vodka, seguia em frente até dar vontade de novo. Lembrou disso enquanto tomava mais um copo de água para fazer exame na bexiga. Então riu - e quase fez xixi na calça, porque seu problema atual era a próstat,  inchada além da conta.

é muito

De Roberto Prado


Tempo ruim não foi
e o agora não quer ir.

Tudo precisa de dois.
Isso, no momento,
é muita gente.
Fica pra depois

Itamar Assumpção Prezadíssimos Ouvintes


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Na rosca

 "Preciso achar um macho para fazer uma rosca". Ele passava distraído, se desviando dos cocôs de cachorros na calçada, quando ouviu a frase que saía do fundo de uma oficina. Ficou tão atrapalhado com aquilo que pisou num monte. Teve de raspar o solado do tênis numa guia e depois esfregar o pisante na grama mais próxima. Quem viu a cena achou que ele era um gato tentando cobrir o que tinha feito. Macho e rosca. O som das duas palavras era forte, mas ele limou o macho e ficou com a rosca porque ela entrava mais de leve, apesar do ruído. Na lembrança mastigou uma, a da avó querida lá de Minas Gerais. Também machucou o dedo com a chave de fenda ao tentar encaixar o parafuso num lugar em que só os profissionais mantêm a paciência para arrochar depois. Rosca de enroscar, pensou. E aí pisou de novo. Que bosta!

cuidado, período fértil

De Roberto Prado

Você lança qualquer coisa
sem saber que qualquer coisa pega.

Nem precisa ser semente
e já uma raiz me agarra
ergue-se um tronco
uma folha me escreve.

Não chego a dizer:
- coma, já que matou.
Tampouco digo:
- toma que o filho é teu.

Mas já que nasceu
sinta este perfume
coisa de Deus
que você plantou.

Vicente Celestino e a Porta Aberta