segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Pântano traiçoeiro

Vi o menino brilhando. Ele tinha aquela energia natural de quem pode transmiti-la. Para o bem. E isso porque conhecia o outro lado, o do pântano, o da perdição, o inferno na carne e na mente viciada. Um dia, na periferia da cidade grande, num colégio cercado de grades, fiquei olhando ele falar sobre os caminhos perigosos, a tentação da salvação que acaba virando pelo avesso - e aqueles meninos e meninas olhavam o garoto bonito e de palavras arredondadas como se estivessem diante de um astro da televisão. Que bom! Depois segui meu caminho e ele o dele, mas sempre aparecendo uma notícia ou outra nos jornais, afinal, seu trabalho rendia isso. Até que soube: escorregou na própria trajetória, esqueceu que o pântano está dentro de quem esteve nele e que, se não se cuidar, é tragado de novo. Fiquei muito triste, mas sabendo que o sol pode brilhar novamente, mesmo porque também está dentro da gente.

lá embaixo

De Paulo Leminski

lá embaixo
vai ter
o que eu acho

Chico Science, Nação Zumbi Maracatu Atômico


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

no caderno

De Paulo Leminski

Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.

Roberto Carlos Quero Que Vá Tudo Pro Inferno


O lado escuro da vaca

Alguém me falou da vaca. Não entendi direito. Ouvir o disco da vaca? Não sabia que vaca cantava ou tocava algum instrumento. Fui lá na casa do amigo. Era rico. Enrolou uma erva e começou a fumar. Me passou. Fumei. Engasguei. Ele mostrou a vaca. Tirou a bolacha preta de dentro. O som era de primeira qualidade. A vaca era viajante. Peguei a capa. Nas manchas do animal eu vi a lua. Fiquei ali parado ouvindo a música e olhando. Ela era tão nítida que o dragão de São Jorge derreteu a lança do cavaleiro. Meu amigo riu quando lhe contei isso. Ele perguntou então o que tinha no lado escuro. Eu olhei a contracapa e só vi letrinhas num idioma alienígena. Aí falei que tinha o Pink Floyd. Ele disse: "Falou!"

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

nuvens

De Paulo Leminski


nuvens brancas
passam
em brancas nuvens

Jackson do Pandeiro Sebastiana


O outro

Não era o dia que estava diferente. Tudo estava igual, nada que alterasse a rotina, nenhum acontecimento bom ou ruim. Ele é que estava diferente. Não sabia o que era aquilo. Não, não estava deprimido ou angustiado ou em mania, alucinado, como já tinha acontecido. Era como se não fosse ele - e esse outro não se encaixava em nada. O problema é que tinha de trabalhar, levar as crianças à escola, pagar contas, beijar a mulher no portão, fazer um cafuné no cachorro, essas coisas. Mas... se ele não era ele... Que sensação estranha a lhe apertar o coração e quase lhe tirar a respiração. Tentou meditar. A cabeça pensava como um outro, desassossegadamente - e o tempo, este mistério que envolve a tudo, ah, o tempo! parecia derretido e parado como no quadro de Dali. A noite caiu sobre seus olhos de repente. Ele se escondeu embaixo do cobertor, apesar do calor infernal. Foi então que viu ele mesmo ali dentro. Fez um esforço e se agarrou. O outro dia foi como todos os outros dias normais.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

sono

De Paulo Leminski

A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!

Nelson Gonçalves Boneca de Trapo


No canavial

Coloquei o menino no meio do canavial e fiz a foto. Ela está comigo guardada como um segredo que só tem revelações para mim. Nunca mais a olhei, mas sempre a vejo. Os braços dele estão caídos ao lado do corpo. O olhar parece perdido e não há nenhum tipo de energia captada pela lente. Ele não ri, não chora, apenas está ali, no meio do canavial cujas plantas são bem maiores que ele. Tudo é verde, assim como a cor do mar a poucos quilômetros. A imagem é um marco do limite entre um voo sem rumo e o retorno à realidade muito mais fantástica. Dali em diante ele retomou o brilho da vida e sua mente ordenou-se num caminho seguro, mas imensamente criativo. Antes, o delírio. Depois, a reinvenção diária em forma de humor, textos, desenhos, alma a captar tudo. Renasceu porque, quando nasceu de fato, quem estava longe era quem fez a foto. Assim foi. Assim é. Por isso, belo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A tipinha

De Dalton Trevisan

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:

— Pô, você me salvou a vida, cara!

Erasmo Carlos e Marisa Monte Mais um na Multidão


Atrás da foto

Descobri porque sempre tive medo. O motivo estava ali, naquela foto amarelecida. Apontaram a lente e fizeram o clique no corredor ao lado da casa grande. Eu devia ter entre dois e três anos. A mãe me arrumou bonitinho, de sapatinho e tudo. A fotografia confirmou que a cabeça sempre destoou do corpo. Grande, achatada atrás. Mas na imagem ali estava o buraco com uma grade. Devia ser o respiradouro do porão. Mas não havia outras entradas e não dava para ver nada lá. Mas eu via dentro da minha cabeçorra. Eram os monstros sem formas, a violência latente, o descontrole da natureza, o desastre em várias formas pensadas. Um dia gritei para tudo aquilo ir embora. Agora lembro. Não foram. Parece que se entranharam ainda mais em mim. Carrego-os até hoje. Foi ali. Estava ali. Está ali na foto que, agora, digitalizada, abro de vez em quando. Não para me ver, mas sim para tentar decifrar o que há por trás da imagem.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Bem no fundo

De Paulo Leminski


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Elza Soares, Miltinho e Samba do Ziriguidum


Seriados

Jim das Selvas era Tarzan e campeão olímpico de natação. Chita aplaudia e Jane perguntava que bicho ia dar. Havia um grito que, no futuro, Johnny Weissmuller deu no Fantástico e quase enterrou o próprio mito. Quem mandou? O menino viu tudo aquilo e muito mais. Era o tempo dos seriados como foi o tempo da Jovem Guarda para a música. Ingenuamente lindos. Os tempos de agora são de sangue e putaria, no pior sentido. Greta Garbo nem em Irajá acabou. Ela acabou porque ninguém a conhece, assim como Orlando Silva, aquele que compareceu à despedida de Belini no campo do Atlético Parananense. Cante o Carinhoso na voz de um breganejo aí! A moda agora é a da impressora que faz tudo. Fabricarão bilaus e xerecas para a brincadeira virtual. Jesus Cristo, eu estou aqui.!Glória a Deus e copo com água benzida para todos.