sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Louco, eu?

Toda sexta-feira era santa, mas só por causa do meu santo. Ele já tomou muita cachaça na vida, aprontou muitas, mas como tinha sido batizado, protegido ficou das maldades maiores - feitas ou recebidas. Entortou postes, andou pela faixa contínua no meio de rodovias de tráfego pesado, dormiu sobre túmulos, vomitou em pratos, procurou conhecidos em prédios ainda em construção. Um dia acordou em casa com a cama cercada de policiais. Reclamação dos vizinhos e porta aberta para o que der e vier. Não deu nada, mas a mania de presentear em meio a porres satisfez a guarnição. Nunca chamou Jesus de Genésio. Fazia sempre o contrário. De vez em quando lembrava da noite em que viu, do alto da estrada velha de Santos, as luzes da refinaria de Cubatão em meio à neblina e à poluição que faz criancinhas nascerem sem cérebro. Achou que era uma catedral. Anos depois, quando entrou numa, numa ruela de Paris, encontrou um bar, um dj e rock comendo solto para a mudez de santos e anjos pendurados nas paredes. Pediu água e disse para si mesmo: "E eu é quem era louco..."

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O beijo

Sempre, no início da noite, eu vou até a janela do quarto para fechá-la e baixar a cortina. Do lado de fora há um corredor estreito, com móveis velhos encostados, um pé de café gigante, uma horta anêmica, trepadeiras, etc. Quando chove, o cheiro daquela nesga de espaço, que tem uma boa quantidade de terra entre a parede da casa e o paredão do vizinho, faz lembrar um espaço tão grande que seria possível ver a Serra do Mar a quilômetros de distância. De dia, o lugar era bonito, mas estranho. À noite, quando ia puxar as duas lâminas da veneziana, o horror se instalava. Havia uma grade protetora entre o vidro e folhas de madeira. Era preciso enfiar o braço, esticá-lo e, sem ver, só no tato, libertá-las das garras dos homenzinhos de ferro que usam chapéu. Nessa hora, invariavelmente, imaginava algum bicho atacando mão, braço, tudo que podia. Que bichos? Os piores. Talvez algum outro monstro sem identificação. Não importa, era sempre assim. Como não acontecia nada, era um alívio terminar a operação . Mas outro dia aconteceu. Pegaram meu braço, puxaram, e minha mão foi envolvida por algo estranho. Não havia garras, dentes ou qualquer outra coisa dilacerando pele, carne, ossos. Quis gritar, mas não deu. Estava paralisado. Foi aí que senti os lábios beijando minha mão. Olhei e não vi nada, mas sentia tudo. Então, apareceu. Era apenas uma boca flutuando no espaço- e eu a conhecia. Scarlett Johansson então disse bye e nunca mais surgiu no tempo enorme que, depois disso, passei a deixar meu braço esticado dentro do escuro daquele corredor. 

um bom poema

De Paulo Leminski

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Wilma Bentivegna Hino ao Amor