segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

o fundo

De Paulo Leminski

viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície

Marco Pereira Estrela da Manhã


No camburão

Acordou com a luz do sol repartida em dezenas de furinhos. Não sabia onde estava. Lembrava apenas de um caubói que virou no bar metido a intelectual besta. Tinha perdido a conta de quantos velhos jacks tinha tomado. O local onde estava parecia uma caixa de metal. Meteu o pé numa lateral e começou a gritar. Abriram uma porta. Era a traseira de um camburão da Polícia Civil estacionado no pátio da delegacia. Ele estava todo mijado e vomitado. O tira o encaminhou ao plantonista. Ele foi cambaleando. Ouviu um sermão com o pastor policial olhando a documentação que revelava profissão de respeito. Ele perguntou como tinha ido parar na gaiola. Soube então que pegou um táxi, não deu o endereço para onde queria ir e ficou pentelhando o motorista - até que este o entregou na delegacia. Ele foi embora sem ter sentido um mínimo de vergonha. Tomou um banho, colocou roupa nova, trabalhou o resto do dia e, à noite, pediu uma dose dupla de Jack Daniels para rebater.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Metro na cabeça

Era parente, brimo, mas como já tinha tentado lhe passar a perna uma vez, de forma escrachada, situação que o fez sair atrás do outro com um metro daqueles de madeira, pronto para abrir-lhe a cabeça, achou melhor recomendar toda a família para o perigo. O outro tinha olhar hipnotizador. Tanto que, contava, ele era capaz de roubar a carteira, tirar todo o dinheiro e e ainda receber agradecimentos da vítima pelo que fez.Enquanto falava isso, durante tempos, o que hipnotizava foi aumentando a fortuna - e o dinheiro dele, minguando, já que, para muitos, a sua honestidade tinha um componente fatal: as patas dos cavalos e o pano verde do jogo de carteado. Ambos passaram dos noventa anos e partiram. O desonesto deixou fortuna material. O honesto uma muito maior, tão grande que quem ouve a história através da recordação emocionada de um dos seus seis filhos, fica na torcida para que o tempo regrida - querendo que o metro de madeira rache a cabeça do sacana.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Familiar

De Domingos Pellegrini

A felicidade familiar é como uma planta que cresce todo dia, todo ano, com novos ramos mas também folhas que caem, ramos que quebram, galhos que apodrecem, frutos sadios e frutos bichados, sendo os frutos os dias ou momentos, as folhas sendo as horas, cada uma diferente da outra como são diferentes os minutos.

Zeca Baleiro Lenha


Yes

A professora era a cópia piorada daquele atriz do filme "Quero jogar minha mãe do trem". Do tipo que não precisava abrir a boca para rosnar - e ela rosnava em inglês. Toda os alunos do terceiro ano ginasial morriam de medo dela, principalmente quando chamava o coitado lá na frente, ao seu lado, para fazer perguntas numa língua que ninguém entendia, apesar de amar os Beatles, Rolling Stones, Elvis, Sinatra e Doris Day. Ele resolveu matar a aula naquele dia, algo que nunca tinha feito na vida. Depois do recreio, ficou no pátio assoviando e conversando com a sombra. Só depois descobriu que era o único menino entre as alunas das salas que não tinham aula naquele horário.Foi parar na diretoria, levou um sabão e entrou com o rabo entre as pernas na sala onde ela, the monster, apenas o olhou e fulminou para sempre seu caminho para desvendar a língua dos que inventaram o futebol. Uma muralha então se ergueu e ele nunca se atreveu a ultrapassá-la. Sabe o que é yes e no. Se arriscou a desvendar um but. E ficou por aí, se arrependendo de não ter jogado um trem naquele trem.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Orgia do nexo

De Nelson Capucho

orgia do nexo:
no dicionário
as palavras fazem sexo
        



Irmãs Galvão Pedacinhos


Ateu sem convicção

Ele não acreditava em Deus até o dia em que a coisa apertou. Doença terminal. Tinha pouco tempo de vida. Ao saber, imediatamente tirou do repertório a piada em que o paciente fica sabendo pelo médico que tinha apenas três minutos antes de morrer; ao perguntar o que podia fazer, ouviu do especialista: “Um Miojo”. Resoluto, resolveu não se entregar ao pessimismo, como se isso fosse possível. Sua determinação durou trinta segundos. Foi para casa, jogou-se na poltrona, cochilou e, ao acordar, viu que fachos da luz do sol vazavam a persiana da sala e iluminavam pontos do tapete velho. Passou a acreditar em Deus imediatamente. De joelhos pediu um milagre e perdão por nunca ter acreditado na existência Dele. Sentiu um alívio no peito e dormiu tranquilo. Os meses se passaram. Ele morreu sem sentir muita dor. O corpo foi velado numa capela ao lado do cemitério. Apareceu um padre. Durante a reza uma mulher com maquiagem pesada perguntou à outra o que o da batina estava fazendo ali. Isso porque o morto, todo mundo sabia, era ateu convicto. A que ouviu o relato resolveu especulara. Achou que aquilo era um milagre porque ninguém da família teria pedido a presença do sacerdote por saber do ateísmo do que estava ali com algodão nas narinas. O da batina orou e, ao sair, foi chamado por um senhor que estava na porta do velório ao lado. Só aí descobriu que tinha errado de defunto.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Aviso aos náufragos

De Paulo Leminski

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Tom Zé São São Paulo


Mistura e manda

Acordou com o poste na sua cara. A pancada do carro que dirigia abriu avenidas. Era madrugada. Desmaiou e ao “voltar” estava na maca de um pronto-socorro cercado de estudantes de medicina. Xingou a todos. Foi liberado com vários pontos no rosto e cabeça. À noite bateu cartão no boteco sórdido de sempre. Lembrou disso anos depois que o milagre aconteceu. Agora adora as centenas de garrafas com líquidos de várias cores e dosagens de álcool das prateleiras que percorre no supermercado. Sai do corredor, entra em outro e escolhe a garrafa de vidro de água com gás, com preferência para marcas europeias. Bebe em copo ou taça de cristal. Diz que fica mais louco – e muitos amigos dos tempos de bebedeira concordam. Só lamenta o desaparecimento do refrigerante Grapette, o único que se disporia a tomar, por conta de lembranças do tempo de criança em praias cariocas. Brinca dizendo que, se um dia tomar Fanta Uva, vão ter de chamar o serviço de remoções – e se misturar com gasosa de framboesa…