quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Terror e horror

Entrou pelos fundos na Casa dos Mil Mortos. Era mais aterrorizante do que no filme de Robb Zombie. Tinha mais de mil defuntos, mas por fora era um cemitério que a fotografia poderia até adornar a parede de um hall de hotel de luxo. Muros imaculadamente brancos, árvores frondosas, placas nos gramados. Entrou ali porque queria levar o metal onde estavam os nomes. Noite de breu. Algumas luzes ao longe denunciavam uma pequena cidade na beira do morro. No alto, ele sabia, havia um Cristo que poderia estar vendo a profanação, mas ele não via o Cristo - e isso era o que importava. Na primeira placa que tirou, dois olhos azuis o fitaram. Ele não conseguiu gritar, mas correu como se estivesse sendo perseguido pelo cão por dentro do mato. Sentiu terror. Sentiu horror. E convenceu-se que eles são de morte.

Tipinha

De Dalton Trevisan

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:

— Pô, você me salvou a vida, cara!

Miltinho Laranja Madura


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dois

De Sergio Rubens Sossélla

um passarinho
e uma borboleta
?o que eles são?
dois vôos.

Adriana Calcanhoto Mentiras


Óculos

O óculos era dobrável. Escuro. Achou-o por acaso num canteiro de avenida. Não viu ninguém por perto. Pegou-o, levou para casa, lavou, desinfetou e colocou no rosto na primeira manhã de sol. Nunca mais o tirou, nem para dormir. Se quisesse, como tentou, não conseguiria. Mas, para que tentar? Ao colocar aquela armação com lentes negras, ele passou a enxergar o que jamais tinha prestado atenção. Os olhos das pessoas, seja conhecidas ou não. Antes, tinha medo.
Agora, não precisava, porque ninguém via os seus. Mas ao olhar os outros ele via além, ele conseguia distinguir entre os bons e maus. Os maus, descobriu logo, não revelavam o interior da alma. Os outros, sim. Como? Pelo brilho. Os olhos destes pareciam sorrir, se é que é possível. Ele também começou a ver os detalhes de tudo quanto a natureza oferecia, mesmo numa cidade grande. Por isso deu de cantar feliz por onde andava. Até o dia que alguém achou que ele estava de gozação. Um taco de beisebol apareceu, a pancada foi forte o suficiente para quebrar o óculos. Quando acordou, estava num quarto de hospital. Via tudo cinza. Saiu dali do mesmo jeito. Perdeu a vontade de viver. Mas segurou o tranco. Passa o dia procurando outro óculos igual. Acham que pirou.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

pedra que voa

De Paulo Leminski

Ai daqueles

que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa

Araci de Almeida Seu Riso de Criança


Revolução animal

Foi tudo muito rápido. Um cavalo relinchou para o outro e começou a revolução nas baias. Ali estavam cerca de cem animais tratados com a melhor ração e atendimento veterinário de primeira categoria. O problema, segundo os cavalos, era o dono deles. Um ditador de república de bananas que chegara ao poder pelo voto dos miseráveis, a quem sempre enganou como se fosse o novo messias, e nunca mais saiu porque sua guarda pretoriana era uma das mais sanguinárias do planeta. Os Tonton Macoute do Haiti perto deles eram coroinhas com asas de anjo. Os cavalos traçaram os planos durante as madrugadas. De baia para baia a estratégia foi passada e repassada. Até o dia em que o ditador resolveu cavalgar bem cedinho. O animal escolhido sabia o que fazer, assim como qualquer um que tivesse a honra daquela escolha. Longe da vista de todos, derrubou o líder do povo e o pisoteou até que o corpo se transformasse numa pasta de sangue, ossos e músculos misturados. Então relinchou e empinou as patas da frente - em comemoração.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

no jardim

De Paulo Leminski

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga


Marisa Monte O que Me Importa


Barriga

Comia terra, tijolo, o que desse vontade. Era uma criança com cabeça grande, pernas finas e, obviamente, uma barriga que ia aumentando na medida em que o leque de alimentos não convencionais crescia. Um dia alguém fez uma foto dele. Pés descalços, caça curta, camisa de colarinho branca que só fechava no primeiro botão, perto do gogó. O resto abria espaço, feito uma cortina de teatro, para o espetáculo daquele bucho enorme ornamentado pelo umbigo que parecia pronto a explodir com o resto. Depositário de lombrigas, tomou remédio e melhorou. Então mostraram-lhe o retrato. Morreu de vergonha. Tirou-a da mão de quem fez a maldade e picotou-a ao máximo. Cinquenta anos depois, se arrependeu do gesto. Queria ver a imagem. Para comparar com o barrigão de hoje que se espalha feito uma ameba de banha.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O que quer dizer

De Paulo Leminski

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

Taiguara Universo no Teu Corpo


Crianças

O filho ligou e pediu o cartão de crédito do pai. Queria comprar algo no exterior - e estava a zero. O pai quis saber qual seria o tamanho do estrago. Cinquenta dólares. Autorizou e adiantou que era presente de aniversário, pois sabia que não seria reembolsado. O filho concordou e apareceu para entrar no site, clicar no carrinho e jogar o produto dentro. Pouco antes do processo, o pai perguntou o que ele iria comprar. Um pijama, respondeu o filho. O pai deu a dica: na Casa Edith o filho poderia encontrar uns bem bacanas, tradicionais, do tempo dos shows ao vivo na Rádio Clube que ficava ali perto. O filho disse era era um pijama da turma do Star Trek, vulgo Jornada nas Estrelas. O pai abriu um sorriso. Viu que ali estava um herdeiro nato. O filho tem quase quarenta anos. O pai caminha célere para os setenta. Este então mostrou o avião do Barão Vermelho que acabara de comprar escondido da mulher. Ao filho revelou que, quando ela descobrir, vai dizer que a janela do escritório estava aberta e a aeronave de três asas entrou e pousou - e que ele só viu depois. Pai e filho se abraçaram e sorriram como crianças que se amam.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

buraco

De Paulo Leminski

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir


A Cor do Som Beleza Pura


Candidato a que?

Candidato a que, mesmo? O outro não podia responder. A ponta do cano do Colt Python fazia cócegas na úvula da garganta, mai conhecida pelo povão como campainha. O dedo estava no gatilho e o cão puxado para trás. O candidato podia ver a ponta de algumas balas - tinham uma cruz, mas não eram de prata. Pensou nos filhos. Lembrou que há muito tempo não fazia isso. Sua vida era inteiramente dedicada à política parlamentar. Foi assim que ganhou fama como articulador de primeira, capaz de eleger prefeitos, governadores só com uma aceno de mão - enquanto a outra esperava para o pagamento gordo durante todo o mandato. Os filhos estavam fora do país, estudando para manter o patrimônio amealhado nos acordos que os que o elegiam nunca souberam. Era amigo de todos os empreiteiros e só conhecia a periferia porque obrigado até a comer sarapatel e quiabo gosmento na busca de votos. Candidato a que, mesmo? Ouviu de novo e jamais imaginou que, numa sociedade democrática iria passar por uma situação como aquela. Não conhecia o homem que empunhava aquela arma com uma segurança impressionante. Piscou uma, duas vezes. O cano saiu da boca e ele disse em meio a um suspiro longo: "A nada!". O outro guardou a arma e foi em busca do próximo. O que deixou para trás convocou entrevista coletiva para o dia seguinte. Anunciou que, por motivos particulares, estava desistindo da candidatura e da longa carreira política. Nada mais disse e não permitiu perguntas. Sumiu da vida pública. Hoje gosta de ficar o dia todo vestido com um pijama listrado. Com problema sério na próstata, a calça sempre está molhada/manchada.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Rita Lee Agora Só Falta Você


Cavalar

Os cavalos começaram a entrar na vida dele quando ainda era bebê. Olhava do berço a imagem do anjo protetor e fazia associação com o trotar do cavalo da carroça que distribuía leite em garrafa no bairro. Essas associações malucas continuaram durante toda a vida dele. Ninguém se importava, pois era era um gênio para o resto das coisas, inclusive o ensino. Foi a Harvard e voltou um mês depois dizendo que aquilo parecia colégio de subúrbio. Sim, tinha espírito de grandeza. O anjo não o acompanhava mais, porque ele disse um dia que tinha matado Deus – e ficava puto quando alguém dava este crédito a Nietzsche. Resolveu se isolar. Comprou uma fazenda no interior do Paraná com o dinheiro que ganhou em jogos de azar. Azar dos que ele limpou, porque descobriu uma fórmulas de burlar qualquer parada no carteado, porrinha ou jogo de dados. Os cavalos estavam lá, no pasto. Resolveu comer junto. Alfafa e grama. No segundo dia já estava acostumado ao gosto. Sozinho, com vizinhos a quilômetros de distância, queimou as roupas e passou a andar nu e de quatro. Um dia tentou seduzir uma égua. Levou um coice. Morreu com uma marca de ferradura no meio do peito. Antes de apagar definitivamente, ouviu um relincho – e viu novamente o anjo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mentira

De Paulo Leminski

Essa idéia ninguém me tira 
matéria é mentira.

Clementina de Jesus Marinheiro Só


Estrela

A oportunidade chegou! Ele pensou assim ao receber a notícia da viúva de um ex-delegado de polícia que tinha morrido velhinho. Havia uma arma na casa - e ela queria se desfazer daquilo porque morria de medo. Era um revólver, foi informado. Ele pensou num Smith&Wesson ou Colt calibre 45. Se fosse trezoitão serviria também. Foi até a casa, enorme, vazia, só com a velhinha ali dentro e perguntou onde estava o trabuco. Ela o levou até o quarto, pediu que abrisse o maleiro e informou que ele estava ali escondido. Ele, coração batendo, enfiou a mão e tateou. Encontrou um pacote plástico, mas pelo tamanho... Tirou e viu uma cartucheira e abrigando um trequinho de cano tão fino e cabo tão pequeno que teve  vontade de chorar. Duas balinhas estavam acomodadas na cartucheira. Chegavam a ser ridículas para alguém que, no passado, até de metralhadora ponto cinquenta atirou. Ele devolveu para ela e disse que preferia que fosse um revólver de cabo vermelho da brinquedos Estrela. Foi embora e adiou o projeto de limpeza eleitoral. Com aquele 22 velho ele iria é causar risos para quem o apontasse. E ele estava cansado de ser palhaço de poderosos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Mosca

De Dalton Trevisan

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

Jerry Adriani Querida


Em miúdos

Viu pela primeira vez quando era criança. Matadouro. O bicho entrava no corredor como se do outro lado estivesse o pasto mais verde e tenro do Planeta. De repente a marreta descia bem no meio da testa e tudo estava acabado. Mais um pouco ele estava esquartejado e pendurado em ganchos nos açougues da cidade de porte médio. A cena foi tão forte que produziu o seguinte: alguns anos depois ele empunhava aquela mesma marreta - e o som da pancada na testa soava como música para ele. Era um especialista renomado, porque não errava uma. Mas não comia carne. Ninguém perguntava. Num dia de folga encontrou a amada num parque de diversões. Ficaram encantados um pelo outro. Na primeira oportunidade ele levou-a para conhecer a sua profissão. Ela desmaiou antes de a marreta atingir o meio dos olhos do bicho. Quando acordou, ele perguntou o que tinha acontecido. Ela: "Trocando em miúdos, coração, por favor".

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A laço

Não me esforcei, está certo. O laçador também não. Agora estou aqui preso com meus companheiros de rua. Alguns choram. Eu, não. Não aguentava mais aquela vida vadia, sem casa, tendo de procurar comida todo dia e sem lugar definido para dormir. Não há mais seres humanos na Terra! Soube de histórias passadas onde os da minha raça sem raça recebiam comida boa das almas caridosas. Agora só vejo esse povo falando no celular ou digitando no aparelhinho sem se importar com mais nada. Cansei. Quero conferir se o final é aquele mesmo, o tradicional. Não tive coragem de me suicidar no trânsito. Um dia fiquei no meio fio observando o tráfego. Buscava coragem para fechar os olhos e atravessar a via rápida. Aí veio um mané e me deu um bico nas costelas. Perdi o fôlego. Senão ia arrancar um pedaço da panturrilha dele. Agora estou aqui, trafegando na carrocinha. Se eu virar sabão, pelo menos que seja vendido em supermercado onde as empregadas compram para as casas de madame. O veículo não é confortável, mas penso que, se forçar a imaginação, ela se transforma numa carruagem. A da última viagem. 

Raimundos A Mais Pedida


Balada do Inquilino

De Miguel Sanche Neto

Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.

Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.

Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.

Um dia nos livraremos do aluguel.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

oração a são nunca

De Roberto Prado

dei duro e eros me abriu seu coração
não preciso nem de boca pra baco me estender o garrafão
marte me deu uma mão
mamom perguntou quanto era e puxou o talão
um belo dia tive de dizer não
mas ainda amo essa humanidade marrom
fiel a eros, baco, marte e mamom

Angela Maria Cinderela


Noite no rio da floresta

A viagem foi longa. De São Paulo a Cuiabá em ônibus toco duro. De lá, carona em caminhão que atolou na estrada para Porto Velho. Uma semana de lama. Depois, barquinhos pelo Rio Madeira para chegar a Manaus, com paradas em vilarejos onde padre só era visto uma vez por ano - e todos pareciam liberados para pecar enquanto aguardavam o homem de batina. Aí ele entrou no barco com a mochila nas costas e um saco de dormir e ficou oito dias ali dentro, na imensidão do rio no meio da floresta. Esperava algo, que não sabia o que era. Apenas tinha uma certeza: sua alma estava nas trevas e ele carregava o peso do mundo. Nem o transatlântico com luzes de Felini no meio da noite conseguiu levar para longe aquilo que o oprimia. Até que, de repente, numa virada de rosto, ele viu a lua clara na noite escura. Era o que procurava sua alma obscura.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Atrás das portas

De Dalton Trevisan

O que não me contam eu escuto atrás das portas.

Maria Alcina Fio Maravilha


Pilhado

Não lembra quando foi a primeira, mas depois de um mês estava engolindo pilhas como se fossem pastilhas Valda. Pode ter sido uma coincidência, mas quando a primeira caiu no estômago ele achou que sentiu uma melhora significativa na vida - que era medíocre até então. Começou a ler os clássicos e bula de remédio. Passou a correr todo dia e chegou a fazer cinco quilômetros sem colocar os bofes pra fora. Banho, tomava três. Apareceu uma mulher que dizia estar doidinha para fazer sexo com ele, coisa que não acontecia desde que foi levado pelo pai para perder a virgindade num puteiro. E a transa dos dois parecia coisa de cinema. A pilha! Ele passou a engolir duas por dia. Certo, era do tamanho palito, mas os resultados começaram a fazê-lo sonhar em mandar para dentro uma do tamanho grande - e de longuíssima duração. Foi o que fez depois de passar um final de semana como se estivesse no paraíso. Os socorristas chegaram o mais rápido possível. Ele não morreu. Mas a pilha do gato ficou entalada no meio da garganta.A vida dele ficou pior do que era antes de engolir a primeira.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Rogério Skylab Tem Cigarro Aí?


Cassetete

Não foi como no filme. Ele estava de bem com a vida sob o céu azul e sol ameno. Mas ao olhar o cassetete que comprara numa feira de antiguidades... teve um troço. Pela primeira vez olhou a etiqueta colada e lá estava escrito que era inglês e do início do século passado. A primeira imagem que veio foi a dos policiais que perseguiam Carlitos. Sim, ele era cinéfilo e tinha um arquivo impressionante de cenas na memória. Aí vieram cenas de pancadaria pura em cima de grevistas, trabalhadores de minas de carvão, estudantes querendo mudar o mundo, etc. Ele empunhou aquele pedaço de madeira e as primeiras vítimas foram os santos e anjos que mantinha num pequeno altar. Depois espatifou a tela do computador que estava ligado, quebrou todos os televisores e espelhos da casa e saiu para rua com olhar esbugalhado - em busca do que não sabia. Não atacou ninguém, mesmo porque as pessoas ficavam bem distantes dele. Foi então que viu um casal de canários da terra ciscando num jardim. Parou e ficou olhando por um longo tempo. Depois sentou no meio-fio e começou a chorar e soluçar feito menino perdido no oco do mundo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Moacir Santos Nanã


Antes da curva

Não foi uma briga qualquer. Era definitiva. Ele bateu a porta com tanta força que a maçaneta voou. Mais um casamento no ralo. Teve vontade de socar a parede, mas se contentou em espatifar o aquário no chão. Depois pegou o peixinho de rabo vermelho e colocou num copo com água filtrada. Estava melhorando. No primeiro casamento deu um tiro na mulher e acertou um filtro. Ainda bem. Foi o primeiro. O que acabara agora era o quinto. Pegou a ruazinha e cismou de andar até não dar mais. Embaixo no viaduto na saída da cidadezinha entrou no bar. Pediu a “poca-ôio”, uma mistura de álcool com metanol. Tomou tudo de um gole. Sentiu tudo queimar. Do céu da boca às paredes do estrômbo, como falava. Andou um pouco e começou a incorporar o inferno na mente. Mirou a estrada e viu uma curva. Parou, sentou, se encostou numa cerca e disse: "O certo, na curva, se perde. O torto, se deita. Nem certo, nem torto, sigo reto em linhas tortas". Não sabia de onde vinha aquilo. Nem ficou sabendo. Caiu para o lado e só foi acordar porque levaram-no de camburão para casa. Ele olhou a porta. A maçaneta estava lá. Quando entrou na sala, viu o peixinho no copo. No outro dia comprou um aquário maior que o antigo

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Bateu, tem

De Paulo Leminski

bateu na patente
batata
tem gente


Silvio Caldas Chão de Estrelas


O grito

Dobrou a esquina e viu na praça da vila o ônibus parado. Leu de longe que ali dentro encontraria bichos ferozes da Amazônia. Pelo estado do veículo, deduziu que já devia ter rodado o Brasil inteiro. Perto da entrada, uma bilheteria improvisada. Dentro, uma mulher com rosto vincado pelo tempo, maquiagem pesada e uma pinta perto do canto esquerdo da boca. Ele pagou e entrou. No lugar dos bancos, aquários e pequenas jaulas. Bicho preguiça não é fera, mas estava lá com aquela cara de coitado. Um peixe elétrico nadava em água turva. Um macaquinho olhava triste num cubículo fedido. Então ele viu a gigantesca e monumental jiboia toda enrolada e sem se mexer no último compartimento daquele cenário nada agradável. Chegou perto e daquele monte enrolado apareceu uma cabeça que abriu a boca. Ele ouviu um grito, teve certeza. Saiu correndo e só parou em casa, ofegante. Nunca mais aquilo lhe saiu da cabeça. Era um grito de socorro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Lacrado

De Miguel Sanches Neto

O que fui em menino
é hoje um baú lacrado
que, alheio à minha história,
tenho como inquilino.

Em vão tentam arrombá-lo
as raízes da memória.

Ronnie Von A Praça


Na cabeça

No plantão o enfermeiro vê o senhor de olhos esbugalhados entrar com uma criança no colo. Ele diz que ela precisa de socorro. Ela não precisa de socorro. Está morta. Uma parte do couro cabeludo caiu para a testa e lhe cobre os olhos. O tampo do crânio sumiu, deixando o que restou do cérebro à mostra. O homem entrega a criança e sai em disparada. Um carro da polícia freia na frente do pronto socorro. Prendem o velho, que não oferece resistência. Era o avô do bebê. Os policiais depois contaram o que várias testemunhas viram. O velho segurou a criança com uma mão, ergueu-a para o alto e deu-lhe um tiro na cabeça com o revólver. Não estava bêbado, não estava alucinado, não estava nada. Fez, como se fosse a coisa mais normal. O enfermeiro começou a chorar quando ouviu isso. Já tinha visto de tudo naqueles plantões, mas ainda não tinha conhecido o lado escuro e perverso da alma humana.