domingo, 30 de junho de 2013

sábado, 29 de junho de 2013

Teorema

Fui atrás do Teorema e ele me arrancou do gueto da pobreza cultural de uma forma que nem Pasolini imaginou. Foi de tamanha violência a sequência daqueles fotogramas quanto, numa outra dimensão, a própria morte do diretor. Os sinais vitais do sexo apenas sentidos, mas contidos por tábuas de mandamentos, aulas de religião, hóstias, água benta, dízimos colocados na sacolinha de veludo encarnado. Fellini havia apresentado a vizinha de imensas carnes, tetas e bunda. Mas o italiano veio depois e  marcou mais pelo que até hoje ilumina a alma, Amarcord, passado editado e venerado na vida de qualquer um que tenha um coração. Terence Stamp passando na cara todos da família, a boca de Silvana Mangano inclusive. O cachorro se salvou porque que não existia, ou fugiu. Terence Stamp de todos os sexos, na beleza que continua marcante até hoje na velhice digna de um grande ser humano e ator. As luzes se acenderam e me iluminaram para a dúvida sobre tudo. É o que precisava. Para andar, voar, sair de onde estava, preso em mim mesmo - e no escuro.

tanto faz

De Paulo Leminski

   aqui
faço
   o que todo mundo
faz
   o que faço
tanto faz

Cuitelinho de Monica Salmaso

S

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sem meia

De Paulo Leminski

PARA QUE CARA FEIA?
NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA

Órfão

Embriagado sem álcool desço a rua e a guitarra vai comandando meus passos, meus olhares, a batida do coração, a velocidade do sangue nas veias. Enxergo auras, cruzo com santos, demônios, sinto o perfume dos lírios, o fedor dos esgotos. De repente é um avião que passa rasante e a bomba explode. Tiros saem dos bacamartes dos bandeirantes e das metralhadoras dos helicópteros do Apocalipse Now. Pedaços de um hino. Estou no Brasil. A música é do Império. Fuligem. Napalm. Carne humana queimada. Urubu. Carcará. E eu continuo nesta rua que pode ser qualquer uma de qualquer cidade grande do país. Então, os acordes se transformam. São suaves como o bater das asas dos anjos. Um silêncio toma conta do mundo. Um rosto negro com bandana na testa aparece. Ele parece chorar porque está se despedindo. E deixa a mensagem que gostaria de embalar o resto da existência dos seres humanos. Jimi Hendrix.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Era uma casa

A casa e a árvore estavam ali desde o tempo da primeira foto que ele viu a cinco mil quilômetros de distância. Parecia ideal para anões, mas isso acontecia porque a centenária mangueira ao lado era tão grande como o pé de feijão da história fantástica. Um dia ele foi lá ver, mesmo porque sua avó morava sozinha, pito na boca, milho na mão a espalhar para as galinhas e pintinhos do terreiro. Chegou de madrugada e lembrou da voz de Luiz Gonzaga. Ô de casa! Louvado seja o senhor Jesus Cristo! Fez outras fotos, dormiu em rede, acendeu e apagou o lampião, subiu até onde pode por dentro da árvore gigante. Foi e voltou várias vezes para aquele local de origem, mesmo depois que a casa ficou sem a vida da avó. Até que um dia soube que tinha sido derrubada, sem consulta, por uma parente. A árvore também tombou a machadadas. Por causa de sexo. Uma menina esquizofrênica, também parente, ali entrou e fez do local o abrigo para todos os homens da redondeza. Quando ele voltou lá, anos depois, não havia nem vestígio daquele seu monumento particular. Ele tem as fotos. Ele tem a história. Mas a casa e a mangueira se tornaram invisíveis até no papel. Ele olha e vê apenas uma plantação de mandioca, o céu azul de doer os olhos e uma desolação que lhe marca a alma.

Nem vem!

De Paulo Leminski

   nem vem que não tem
nenhum navio ou trem
   me leva a outrem

terça-feira, 25 de junho de 2013

Tião Carreiro e Pardinho



Que passe

De Paulo Leminski

que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem

No supermercado

Um supermercado tira todas as energias de qualquer ser humano normal. Menos das mulheres. Mas elas são especiais. Aqueles milhares de produtos expostos nos corredores têm a capacidade de sugar até o osso do mais tranquilo dos visitantes. É um massacre de apelos visuais, sentimentais, sensuais. Um dia parei na seção de detergentes e resolvei experimentar. Aquelas cores, sinceramente, não eram para ser desperdiçadas na limpeza de pratos, talheres e panelas. Um gole de cada marca. Estava tão magnetizado que não senti gosto, apenas prazer em apertar o tubo acima do meu rosto e encher a boca para depois engolir. Comecei com o neutro e só cheguei ao laranja porque me arrastaram dali para a ambulância do Samu. Ainda no corredor, enquanto me levavam, peguei um Bombril e comi como se fosse algodão doce. Agora estou aqui. Amarrado. Acham que enlouqueci. Que coisa! Piração é ir ao supermercado e achar que encher carrinhos com comida é diversão. Eu, hein!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Queima

De Paulo Leminski

   A quem me queima
e, queimando, reina
valha esta teima.
   Um dia, melhor me queira.

Banho frio

No frio toma-se banho gelado. O melhor é encher uma banheira com água fria, colocar muitas pedras de gelo, entrar, fechar os olhos e sentir. Fiz isso uma vez e depois fui dar uma volta nas ruas do bairro. Estava chovendo, como hoje. Ninguém entendia meu traje bermuda/camiseta regata/sandália de dedo. Cantei Erasmo pode vir quente. Estava fervendo e tão ligado quanto no tempo do festival de Águas Claras, quando conheci a cannabis e o brilho, não necessariamente nessa ordem, mas os dois juntos. Um tapa e um tiro. Um tiro e um tapa. Andei muito de lá pra cá. Ando agora como se os cubos de gelo estivessem circulando no meu sangue e isso me fizesse correr para derretê-los. As cores não são mais cinzas. São vivas como as pessoas cuja aura enxergo. E elas devem estar vendo alguma coisa em mim, porque sorriem - ou riem quando colocam os olhos sobre o meu corpo. Olho para baixo. O passarinho está pra fora. Ou melhor, o que restou dele. Um bico murcho. Preciso de um banho quente.

sábado, 22 de junho de 2013

Advertência

De Paulo Leminski

a grave advertência dos portões de bronze
das mansões senhoriais
a advertência dos portões das mansões
a advertência dos portões
a advertência
a ânsia

Tonico e Tinoco e a Tristeza do Jeca


Jeca

O Jeca sempre foi. O máximo. Amacio o nome. Mazaroppi  o sobrenome. Sem patrocínio. Só com talento. E o andar inimitável. Deveria ser espelho. É ignorado. E amado. Saudade.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Dentro

De Paulo Leminski

entro e saio

dentro
é só ensaio

De olho na testa

Cavalguei na nuvem. Era cinza. Rarefeita. Caí pra cima. O sol queimou minha testa. Um olho surgiu no meio. Pude ver deus. Ele era disforme. Falou como se fosse gente. Disse que viver é sofrer. Alegria é para imbecis. Mandou voltar. O travesseiro aparou minha queda. Alguém cutucou a sola do pé. Hora do trabalho.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

página caverna

De Paulo Leminski

página ó página casa materna
onde encontro sempre espanto
o mesmo sempre manso branco
quando penetro numa caverna

Nana e Dori Caymmi Se Queres Saber


Jóias no jardim

Era uma cerca que estava ali desde antes. Dividia quintais e as casas onde moravam várias famílias. Não eram cortiços porque não os chamávamos assim. Lares também não. Essas palavras não faziam parte do dicionário da vila. Embaixo das camas havia penicos. Ninguém tinha coragem de sair para os banheiros minúsculos no meio do tempo. Quarto e cozinha. Casais com vários filhos. Amontoados, mas felizes. Promiscuidade também não fazia parte do vocabulário conhecido. Inocência também não, mas existia. Tinha um portão na cerca, porque éramos amigos. Lá na frente, perto da rua de terra, as ripas carcomidas pelo tempo separavam dois jardins que, para nós, eram muito mais lindos dos que  apareciam nos filmes de castelos. As flores explodiam como bombas perfumadas no nosso lado. No outro, o encantamento era o de um arbusto onde pequenas pétalas amarelas ficavam penduradas como joias. Eram preciosas - e perpetuaram-se na memória de uma criança eterna.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Luiz Gonzaga e o Xote das Meninas


Subir além

De Paulo Leminski

Subir além
Além de toda a treva
De toda a dor
Além de toda a treva
De toda a dor
Deste mundo

Sob o trator

O trator pilotado pelos filhos passou e abriu sulcos no terreno da alma. Sementes foram plantadas e eu não sei de que tipo. Há uma indiferença superficial. Ou não. As lâminas que machucam me levam ao passado. Eu era assim com os meus. Paga-se o preço. Espera-se a redenção. Sementes de ódio só sobrevivem ao lado de sementes de amor. Somos sempre como nossos pais, apesar de, durante um tempo, execrar aquilo e jurar por tudo quanto é sagrado que não seríamos assim com os nossos filhos. Somos. Por isso o sofrimento é maior - porque não há como mudar. Há como esperar que brote o afeto que não demos, mas que, sabemos, existem. Então nos tornamos filhos dos nossos filhos. E eles pais dos pais. Reza-se para que a foice não corte o roteiro. Por isso aguentamos o arado a nos dilacerar.

Vai?

Fedeu? Vai feder? Ou vai passar feito brisa sem consequência?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Ao bonde

De Paulo Leminski

   vou?
onde?
   perguntem
ao bonde

Parido

Aquela terra seca me pariu e brotei feito mandioca, manga, goiaba, caju, pinha, mandacaru, umbu, jaca mole e jaca dura, punhal de prata, papo amarelo, parabelo, poeira, açude, mar verde, cabeça chata, pele trincada, olho duro, testa larga, mãos calejadas, cavalo xucro, bezerro desmamado, caatinga, gibão de couro, chapéu de cangaceiro, fala cantada, nome melódico, protegido de padim ciço romão batista, pau de arara, xexéu de bananeira, carcará, cassaco, buchada, forró, a benção meu pai e minha mãe.

Semem do Mestre Ambrósio


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Homemcavalo

De Paulo Leminski

você
com quem falo
e não falo

centauro

homemcavalo

você
não existe

preciso criá-lo

Sivuca na Feira de Mangaio


Um osso e uma odisseia

Oito mil horas depois em viagens no divã no analista e a constatação de que se pode ir ao inferno, ao céu, ao nirvana, às catacumbas, ao pântano - e sempre volta-se ao ponto, melhor, dois pontos: pai e mãe. Mata-se deus com facilidade. Jamais se mata pai e mãe, mesmo que se faça isso fisicamente. Até quando o filho da puta é ausente total, ou seja, não se conhece, não se sabe quem é, ele está lá dentro a nos cortar. Os meus foram fáceis de carregar, mesmo porque as tentativas de suicídio foram resultados de um olhar completamente deturpado que tive. Escapei. Me abençoei. Agradeci. Mas fiquei pensando no que eles pensavam dos pais deles, meus avós - e estes dos pais deles, meus bisavós, e assim sucessivamente. Aí revi "2001 Uma Odisseia no Espaço" e acho que aquele osso a esmigalhar tudo e depois lançado para o futuro, que é nave espacial, estava firme na mão daquele de quem herdei o mistério.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

Fogo alaranjado

Nunca realizaram o grande projeto. Eram três. Bebiam juntos todo dia, mas só depois do expediente. Um dia encontraram "o" bar. Antigo, provavelmente passagem para o infinito de muitos bebuns. Tinha um balcão enorme e a prateleira atrás dele era maior ainda. Ia até o teto e abrigava garrafas empoeiradas de tudo quanto é tipo de bebida. Menos água e leite. Foi numa noite que, lá pelas tantas, os três olharam ao mesmo tempo aquela quantidade imensa de garrafas que pareciam intocadas durante muito, mas muitos anos, e decidiram que, a partir daquele momento, se preparariam para derrubar todas, literalmente todas aquelas garrafas. Sim, era um projeto para muito tempo, mas, uma, duas de cada vez, eles achavam que conseguiriam. Dois dias depois, voltaram. Ninguém sabe que tipo de preparação fizeram. Talvez passaram as 48 horas sem colocar uma gota para dentro da caveira. Escolheram a mais empoeirada e colorida das garrafas. Mandaram descer. Era uma imitação barata de Fogo Paulista, só que na cor alaranjada e com um nome poético: Fogo Totus. Pediram três copos americanos. Colocaram dentro aquele líquido grosso, como um xarope antigo. Viraram a coisa. A garrafa voltou para a prateleira. Os três foram levados para um pronto-socorro. Coma alcoólico. O projeto foi adiado para sempre. Mesmo porque um morreu de falência múltipla, outro ficou entrevado numa cama e o terceiro continua respirando, o que é um grande milagre.

Dick Farney Trio e Marina Morena


por dentro do texto

de Paulo Leminski

uma carta   uma brasa   através
por dentro   do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba   um soluço
um sim   um não   um ai
sinais dizendo nós
quando   não   estamos   mais

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Viva o Gordo é o cacete!

Os peitos incham a cada pão francês comido. A barriga tem vários compartimentos. Não há mais camisetas que sirvam. São perfeitas apenas para o incômodo de se deitar com ela normal e acordar com o pano enrolado perto do pescoço. Olha-se no espelho e parece tudo bem. Espelho, espelho meu! Sim, dá para comer mais dois pasteis com caldo de cana. Mas na primeira foto feita na praia por um xereta de xereta, aquela pequena manta cobrindo a sunga preta parece anunciar o fim dos tempos. Mil abdominais por dia vou fazer. Quando chega no vigésimo dá vontade de chamar a ambulância. Depressão se cura com comida. Dois pratos de feijoada com um litro de Coca-Cola para dissolver e muito pudim de leite, cocada e quindim são perfeitos para  encurtar o tempo de se pensar em encurtar o tempo. Correr. Sempre. À geladeira, para engolir rapidamente o que sobrou da pizza do dia anterior. Viva o Gordo é o cacete! Mas como todo magro é mau-caráter, vou me esconder num calzone.

Evinha Casco Marrom Luciana


Ca

sábado, 8 de junho de 2013

Romaria de Renato Teixeira


ao pé da letra

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

todo sujo de tinta
o escriba volta para casa
cabeça cheia de frases alheias
frases feitas
linhas lindas
a pele queima
as palavras esquecidas
formas formigas
todas as palavras da tribo

por eles
trocou a vida
dias luzes madrugadas
hoje
quando volta pra casa
página em branco e em brasa
asa lá se vai
dá de cara com nada
com tudo dentro
                               sai

Uma porta dentro da noite

Uma porta aberta na noite. Todo dia eu passava e aquele retângulo de luz amarela me atraía. O ônibus sacudia na ladeira onde ficava a casa, barraco, cujos contornos não apareciam, ou eu não queria ver. Naquele ponto da subida o motorista engatava uma reduzida e o solavanco parecia me acordar daquela rotina de ir para aula, diariamente, prancheta na mão (era moda), avental branco amassado (era obrigatório no ensino público), nada na cabeça. A porta nunca estava fechada. A parede atravessada por aquela porta se ligava à calçada daquela pirambeira por uma escada de cimento toda torta. Não havia muro. Aquilo parecia um convite para que eu ali entrasse a e descobrir quem lá morava. Porque nunca via uma alma ali dentro. De vez em quando um cachorro estava no batente. Ele me olhava sempre. Ou eu já estava pirando depois de tanto tempo de obsessão. Era o trajeto só de ida do tal ônibus. A volta era por outro caminho. Nunca tive vontade, ou melhor, sempre tive medo de passar ali numa outra hora, puxar aquele fio da campainha para parar, descer e entrar naquele mundo. Acho que não fiz para não a fantasia não desaparecer. Daquela porta dentro da noite.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

sacro lavoro

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

   as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
   transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo

   hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto

Pela janela

O bar tinha uma janela ao lado da porta de entrada. Os dois chegaram ali prontos para o crime. Mamados. Um sentou na cadeira da primeira mesa. O outro foi conversar com outros bêbados na curva que o balcão fazia. O da entrada encafifou de passar a mão na bunda dos homens que ali entravam. Fez isso várias vezes e ninguém reclamou. Eram outros bêbados que chegavam e até riam. O da curva resolveu sair do bar pela janela. E entrar novamente. Espatifou-se tanto dentro quanto fora, mas continuou até que uma chuva começou a cair forte. Ele gostou. Tirou a roupa e desembestou correndo pela rua de paralelepípedos. O da mão na bunda ria e ria e ria. Depois foi atrás, mas só de cueca. Fazia um frio de rachar. Eles voltaram tremendo muito. Pediram conhaque. Beberam. Ninguém reclamou. Saíram. Entraram no carro de um deles. Chegaram vivos em suas respectivas casas. No dia seguinte voltaram para pegar as roupas. Perguntaram o que tinham feito. Ninguém respondeu. Eles beberam de novo.

Insensatez de Tom Jobim


Não é geleia!

Eu quero mocotó! Isso não é geleia.

terça-feira, 4 de junho de 2013

A vida e as piranhas

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

a vida é as vacas
que você põe no rio
para atrair as piranhas
enquanto a boiada  passa

O tapa que não levei

Existiu ou não aquele tapa no rosto? Não. Porque ele nunca me bateu, ele nunca gritou. Nem precisava. Os olhos eram mais que Clint Eastwood. Furavam como balas de prata e atingiam lá, naquele ponto onde se deflagra o medo do indizível, do que não se sabe, medo que é muito maior do que os monstros que vemos em Godzila ou na esquina de casa. Passaram-se anos e eu fiquei na dúvida, como tinha também aquela de não ser seu filho; nem dele nem dela, porque vi a foto do casamento e havia um gurizote lá. Alguém me disse que é difícil saber que feridas carregamos. Podem ser invenções de nós mesmos. Talvez a minha tenha se aberto naquele tapa que não levei.

Cartola, o pai e O mundo é um Moinho


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Gererê da Vaca

O Fusca passou com o que estava no banco do carona puxando fumo. Meu amigo fez um cavalo-de-pau e saiu na perseguição. O 32 que eu trazia na cintura foi tirado. Cheio de balas. Vamos dar um susto nestes vagabundos. Gritamos e rimos ao mesmo tempo. Quase chegamos perto, mas o carro sumiu por uma quebrada. Desistimos. Nos perguntamos o que faríamos se a gente os encontrasse. Mão na cabeça! Pernas abertas! Geral. O bagulho a gente ia levar. E fumar para ouvir Pink Floyd. Prisma e Vaca. Tempo dos 19. Ouvimos sim, os discos. Fumamos, sim, o gererê. Dias mais tarde uma barca nos cercou na saída de um boteco. Iam olhar tudo. Não olharam. Uma carteirinha militar pulou de uma bolsa colorida. Eles foram embora e pediram desculpa pelo transtorno. Uma pacoteira colocada dentro da cueca manteve-se em silêncio. Depois, também foi fumada. Naquele tempo era assim. Hoje é recordação enfumaçada.

domingo, 2 de junho de 2013

Cão sem Dono de Suely Costa

cd

Assombroso

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:  


   isso sim me assombra
como é que o som penetra na sombra
   e a pena sai da penumbra?

Foi e ficou no meio

Não sabe se foi e voltou. A procura do mar inundou e ele viu apenas gaivotas gralhando e um peixe sendo aberto. Uma cruz no alto de um morro chamou a atenção. Fez o sinal e então viu o barco de milhões de dólares estacionado. Alguém falou em caroço. Não entendeu. Os prédios antigos, as ilhas da baía... a fantasia toda passava porque nas duas margens havia portos e guindastes gigantescos e cheiro de óleo. Voltou, sim. Mas ficou. No meio. Sem saber. Mas sabendo.