quinta-feira, 27 de março de 2014

Livre

Uma despedida sem palavras. Era o que queria. Mas, de repente, eles foram se juntando naquele pátio e ficaram em silêncio esperando as palavras. Porque durante todo o tempo em que ficou ali - e foram anos, conversou, acalmou, orientou, enfim, levou a palavra, sem ser pastor, padre ou monge. Quando entrou ali era um jovem que sabia ter perdido o futuro imediato. Iria pagar seu pecado por um bom tempo. Trancado, começou a pensar em si mesmo. Tirar todas os entulhos foi penoso. Até o dia em que se sentiu ele mesmo. Assim começou a falar com os outros. Não contava dias, horas, nada. Até quando lhe falaram que podia ir embora. Ele olhou-os nos olhos e começou a chorar. Não falou nada - e todos entenderam. Saiu da prisão com a certeza de que ali dentro finalmente tinha alcançado a liberdade.

bambu

De Paulo Leminski

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

Siba e a Fuloresta Pisando em Praça de Guerra


quarta-feira, 26 de março de 2014

Longe da vaca preta

Era pobre. Mas limpinho, como dizem por aí. Lembra que um dia conheceu os carrinhos do autorama da Estrela na casa de um amigo classe média. Ele achou demais o brinquedo e o lugar onde estava. O polaco tinha um quarto só para ele. Depois foi este mesmo amigo que o apresentou ao hambúrguer e à vaca preta. . Ele não ficou pensando se um dia teria dinheiro suficiente para essas coisas. Não pensava. Tocava o barco, ou melhor, a bicicleta que um dia comprou. Mas ele queria uma moto e um Puma amarelo-canário. Amor à primeira vista. Anos mais tarde, profissional mediano, comprou a moto, que não sabe dirigir, um autorama, que fica dentro da caixa. Mas viciou em comer hambúrguer, tanto nas lanchonetes como os que ele mesmo fazia. Hoje lamenta a pança - que poderia ser maior se entrasse na vaca preta, mas ele não gosta do nome.

Pena Branca e Xavantinho Calix Bento


Capacidade

De Paulo Leminski

Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense
A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.

terça-feira, 25 de março de 2014

No terceiro andar do outro lado do mundo

Do outro lado da linha, do outro lado do oceano, do outro lado do mundo, a menina dizia que a mãe estava brigando com ela. E estava mesmo! Ele ouvia a voz da mulher ao fundo - e o som que recebia era o de uma dupla em dissonância. As duas, pelo jeito, se amavam - e se odiavam muito em momentos como aquele. Quem estava ao telefone disse que a mãe tinha ameaçado se jogar pela janela. Ele perguntou em que andar estavam. Terceiro. Ele, tranquilo, bem humorado, contou que, se a que tentava despencar não morresse, ia dar um trabalho danado na sequência - porque iria se quebrar toda. "Você não conhece minha mãe?", disse a voz bonita e aparentando segurança, querendo insinuar que pai e mãe tinham ficado juntos o tempo suficiente para conhecerem os defeitos do outro.Ele então respondeu que não conhecia mesmo, até porque nunca tinha casado - e não tinha filhos. O telefone foi desligado abruptamente. Ele nunca soube nem o nome de quem estava falando lá do desconhecido.

indicação

De Paulo Leminski

ao que tudo indica
só ver como tudo fica

Mania de Você Rita Lee


segunda-feira, 24 de março de 2014

Prezadíssimos Ouvintes Itamar Assumpção


queima

De Paulo Leminski

   A quem me queima
e, queimando, reina,
   valha esta teima.
Um dia, melhor me queira.

Patinete Rosebud

Quando viu o trenó do Cidadão Kane ele entendeu tudo. Rosebud para ele não tinha nada a ver com genitália da amante do poderoso Hearst. Era o patinete que construiu no tempo em que morava no quarto e cozinha da rua de terra que era o caminho para a longa descida de asfalto. Pirambeira. Lembrou do nome que todos os meninos da rua davam para aquela ladeira. Só então se deu conta da quantidade de crianças que havia naquele canto pobre da cidade grande. Todos eram criativos para as brincadeiras. Que, sim, tinham sua temporada marcada no calendário. A dos patinetes ele não recordava quando era, mas fazer o veículo exigia talento e uma boa dose de sorte para achar a madeira - aquela que ladeia qualquer cama normal. Uma sola de sapato velho fazia a junção entre as duas partes - e rolimãs azeitadas eram as rodas. A velocidade da máquina era incrível e a descidona interminável. Duro era subir tudo de volta para chegar de novo ao topo... e descer. Não faltava energia. Rosebud. Ninguém dava nome aos patinetes, mas eles acompanharam para sempre todos aqueles meninos que se dispersaram por aí.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Cavalo na chuva

Uma hora e meia depois daquele sacrifício de pesos, esteira, etc, ele saiu trôpego da academia sonhando com o banho quente para curtir o melhor momento dessas coisas: o depois. Foi aí que viu o asfalto molhado e a chuva forte caindo do céu escuro. Reflexos das luzes dos carros bailavam na língua escura da rua e só então se deu conta que nunca tinha pilotado assim. Olhou a moto azul e lembrou do cavalo de aço de um tempo qualquer. As drogas naturais do corpo circulavam no cérebro como se bailassem numa sinfonia que só dava prazer. Ele montou, apertou o botão de partida, primeira engatada e entrou na experiência inédita. De calção, camiseta, um tênis velho de cadarço esgarçado e capacete com viseira aberta. Os pingos pareciam setas endereçadas do nada a entrar na alma com a suavidade dos deuses. Frias, sim, mas quentes o suficiente para fazer o coração descompassar. Ele então soltou um grito tão forte que logo um relâmpago cortou o céu no horizonte e o trovão veio depois para responder que, sim, era isso mesmo.

Na cara

De Paulo Leminski

   Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
   Só existe um segredo,
Tudo está na cara.

Toninho Ferragutti Na Sombra da Asa Branca


terça-feira, 18 de março de 2014

Para matar

Alguém um dia falou que levar um tiro é como se fosse um soco. Isso no primeiro momento e, claro, dependendo de onde a bala entra. Ser for na cabeça ou direto no coração, não dá para pensar se é soco ou sopro. Já era. Apaga para sempre e não vai encontrar São Pedro na porta de entrada como nas piadas. Ele pensava nisso enquanto limpava a Walter P38 que herdou de um soldado que lutou na Segunda Guerra Mundial. Nove milímetros, perfeita no seu encaixe, coisa de alemão. Colocou o pente cheio de balas e saiu na noite querendo uma encrenca para ver se a na prática a teoria é essa mesmo - ou outra. Lembrou do personagem de Feliz Ano Velho tentando pregar alguém na parede com tiro de calibre 12. Não era o caso. Um bêbado esbarrou no carro. Ele saiu de arma em punho fazendo mira num ponto abaixo da clavícula direita da vítima. O dedo no gatilho parecia pegar fogo, a respiração se alterou, mas ele não atirou. Aquele rosto ele conhecia, mas não sabia de onde. Talvez do seu tempo de bebedeiras monumentais. Talvez do seu tempo de morador de rua, largado da vida. Guardou o canhão, deu uma nota de cem para o amigo, foi para casa. Ligou a tv. Charles Bronson atirava. Desligou. Sonhou com um campo de girassóis.

sossegue coração

De Paulo Leminski

   sossegue coração
ainda não é agora
   a confusão prossegue
sonhos a fora

   calma calma
logo mais a gente goza
   perto do osso
a carne é mais gostosa

Cada Macaco no seu galho Riachão


segunda-feira, 17 de março de 2014

De Paulo Leminski

A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego.

Uma camisa vermelha, 45 anos depois

Abriram um álbum antigo, pesado, daqueles em que as fotos ficam presas por cantoneiras. Era festa de turma, turma que se reuniu há quarenta e cinco anos num colégio público. Ele estava lá numa das imagens que aquela senhora guardara com devoção durante todo tempo. No colorido desbotado, ele ainda tinha cabelo no alto da cabeça, repartido ao meio e de onde saíam pequenas ondas para os lados. A camisa era vermelha e a calça de tergal marrom, onde se destacava o passador largo. Magro. Tinha uns quarenta quilos a menos. Olhou e enxergou o filho, hoje com 35 anos. Na retrato era adolescente de 15 anos - e não sabia o que fazer da vida. Hoje continua sem saber, mas se conformou com o que a vida lhe deu na procura. Seus amigos estavam todos naquele salão de festas de prédio classe média. Um bandeja com espetinhos vários circulava e um enorme bolo de chocolate esperava a hora do parabéns nesta data querida de 60 anos de um dos amigos. Descobriu que todos eram os mesmos de quase meio século atrás. Guris que se divertiam e ainda se divertem na gozação mútua. Um deles brincou a sério dizendo que o bom mesmo era que estavam todos vivos - e que não vai ser legal quando os encontros começarem a ser realizados em velórios. Será? Ele olhou de novo a foto e pensou neste desfecho natural. E ficou feliz porque até aquele momento todos tinham cumprido a trajetória normalmente, ou seja, acima da média - e sem saber ou pensar muito no por quê.

Carmem Miranda O que é que a baiana tem


quinta-feira, 13 de março de 2014

Cobre

Cobre o cobre. Ele não entendeu. Cobre o cobre repetiu o sujeito que que tinha barriga grande e se abanava com um leque comprado no Paraguai. O calor no ambiente era infernal. Teto de zinco, baixo, pouca ventilação naquele mocó na favela horizontal. Jogaram uma Colt 45 na sua mão, ele sentiu pelo peso que estava carregada e, sem querer perguntar mais, pediu o endereço. Foi. Era uma casa com varanda, plantinhas, florzinhas, um cachorro amarrado num fio. Bateu palma. O senhor que saiu forçou a vista para enxergar a visita. Perguntou o que queria. Ele disse que veio cobrar o cobre. O velhinho só disse que tinha pouco, estava fraco para o roubo. Ao ver o outro levantar a camisa para mostrar o cabo da arma, disse que iria lá dentro e voltaria. Foi. Logo em seguida ouviu-se um tiro. Foi na cabeça. A visita entrou e viu o crânio estourado do velho vertendo um sangue escuro que formava uma poça no piso de cimento queimado. Ao lado, um rolo de fio grosso. O cobre. Ele pegou e foi embora antes de a polícia chegar. Entregou para o barrigudo e contou o que aconteceu. O chefe cuspiu de lado e disse que o cobrado não rendia mais como no passado - e que tinham economizado uma bala.

Camisa de Vênus Deus me dê Grana


mao

De Paulo Leminski

um pouco de mao
em todo poema que ensina

quanto menor
mais do tamanho da china

quarta-feira, 12 de março de 2014

Pedras

Pintava pedras. Era escolhido por elas, dizia, sempre que andava pelas ruas do bairro. Tinha uma teoria para isso: contava que elas eram muito desprezadas e que o máximo de atenção que recebiam era um bico de algum moleque ou adulto nervoso. Levava as pedras para casa, dava um banho no tanque, deixava secar e depois pintava em várias cores. Guardava. Quando achava que alguém merecia, presenteava e pedia para guardá-la com carinho por toda vida. Numa festa do final de ano da empresa em que trabalhava, levou algumas delas para dar a seus colegas. Porque gostava muito deles e do ambiente formado. Fez discurso, apesar da timidez. Todo mundo gostou. Anos depois, encontrou por acaso um daqueles ex-companheiros. Lembrava até qual pedra tinha dado a ele.Perguntou por ela. O outro fez cara de espanto e disse que tinha jogado na cabeça do Paolo Rossi quando o Brasil perdeu para a Itália no estádio Sarriá na Copa de 82.

ave vento

De Paulo Leminski

   ave vento
   cheio de graça
   ave
tudo o que passa

Águas de Março Tom Jobim e Elis Regina


terça-feira, 11 de março de 2014

TV verdade

A primeira televisão ele nunca esqueceu. Era um caixotão quase do tamanho de uma cômoda, importada, usada durante muito tempo por alguma família de bacanas e que foi parar naquela sala da casinha nos fundos do quintal como uma maravilha do mundo. A imagem era de uma tela enfraquecida pelo uso, mas para o menino de oito anos a magia era até maior do que os vôos de Peter Pan e Sininho no álbum colorido que uma freguesa da mãe costureira lhe deu. Até o dia em que, sozinho na sala, viu primeiro uma fumacinha sair da parte de trás do aparelho, a imagem desaparecer em seguida e o fogo tomar conta. Saiu gritando desesperado pelo quintal e os vizinhos socorreram. A TV foi levada para fora da casa. Alguém queria jogar água. Disseram que, assim, iria explodir o tubo. Usaram então areia de uma obra vizinha. O menino chorou como nunca. Achava que o pai, quando chegasse do trabalho, iria brigar, pensar que ele era o culpado. O velho chegou e acalmou o filho. Prometeu que logo compraria outra televisão. Foi o que fez tempos depois. Essa, menor, mas também usada, tinha a vantagem de ser colorida. Um plástico com faixas em várias cores estava fixado na frente da tela. Era o progresso chegando à vila.

palavra minha

De Paulo Leminski

   Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
   a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
   mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
   palavra, palavra minha.

Roberto Menescal O Barquinho


segunda-feira, 10 de março de 2014

tudo nada

De Paulo Leminski

tudo dito,
nada feito,
fito e deito

A dos sensatos

Não queria mais a estranheza, o olhar pelo avesso, a dificuldade. Estava cansado porque tudo era muito pesado. Ao tomar água, por exemplo, ouvia o som de cacos de vidros sendo moídos e o grito interno dos órgãos sendo cortados. Ele sabia que não acontecia, mas sabia tanbém que acontecia - porque sentia. Uma benção com água benta aspergida lhe queimava a pele como chuva ácida. Ele pedia paz e o Cristo lhe dava uma piscadela sacana. Até o dia em que viu o filme do diretor doidão que resolveu fazer a coisa mais simples e linear possível, ou seja, a loucura em sua forma plena. Aquele pequeno trator cortador de grama o arrastou para uma realidade plena e plana, como um extenso campo de golfe. Ele caminhou assim por muito tempo até o dia em que ouviu uma voz saindo de um dos buracos. Resolveu olhar e então foi tragado para dentro da embarcação imóvel dos sensatos.

Hermeto Pascoal e Sivuca

quinta-feira, 6 de março de 2014

Merda

De Paulo Leminski

Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da mulher amada.

Jackson do Pandeiro e João do Vale Canto da Ema


Um pires com romeu e julieta

Ainda não dá, porque peguei uma ressaca de vida e estou com o gosto amargo a me achatar na cama. Ligo a televisão e procuro filmes - o resto é comédia horripilante da vida real. Tristeza tem fim, felicidade não pois sempre se busca a fim de evitar o desgosto do caminho da morte em vida. Era para não escrever, mas me ordenam como se isso fosse a penitência em moto-perpétuo. Claro que lembro de Edu da Gaita, mas ele era tão magro... e esses meus quilos a mais não querem sair, sempre estão convocando outros mais através de doces e massas e carnes e lactose, que é bom de comer e beber até o nome. Beijo e queijo. Poderia ser o prêmio pelo esforço neste dia onde as lâminas da persiana ficam parecidas com grades contra a luz do fim de tarde. Será que pirei ou quero apenas um pires para não comer romeu e julieta? A caixa da goiabada cascão cai na memória. Tenho que me cuidar.