quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Bala

Ele tem saudade do Bala. Sempre foi o carrinho preferido. Branco, duas portas. Voava. Motor movido a gasolina. O motorista, a álcool. Já tinha computador de bordo naquela época. Só assim se explica como conseguia voltar para casa com o dono mamado e apagado. Fez isso até em estrada - e não havia nenhum santinho grudado no painel ou pendurado no espelho retrovisor interno. O Bala era sensível. Certa vez, porque o piloto insistia e furar seguidos sinais vermelhos de uma grande avenida, jogou para fora da estrutura a roda dianteira esquerda. As faíscas que saíam do contato do ferro com o asfalto iluminaram a madrugada fria da cidade. Em outra ocasião, resolveu estacionar encalacrado num canteiro central. Ele amava o Bala, mas o carro não aguentou tanta loucura. Morreu num poste depois de o dono ter feito uma via sacra por vários bares e encerrado o roteiro naquele que era frequentado apenas por tiras. O Bala não suportou. A pancada foi tão forte que o transformador de energia explodiu e meia cidade ficou sem luz. Mas ele salvou o dono. Sem cinto, o encosto do banco quebrou e o motorista se livrou de afundar o peito no volante, que ficou todo retorcido. O carro foi para a sucata. Mas a história de amor ficou.

o pão feito em casa

De Paulo Leminski

   ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
   aqueles que deixaram
que a mágoa nova
   virasse a chaga antiga

   ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é o pão feito em casa
   e que a pedra só não voa
porque não quer
   não porque não tem asa

Construção Chico Buarque de Holanda


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Todo dia jornal da tarde

O menino lhe trazia o jornal toda tarde. Tinha o cabelo liso e usava franjinha. Ganhava um café com leite que bebia como se fosse a maravilha do mundo. A banca do pai ficava a uns 200 metros do boteco. O que comprava o jornal era filho do dono do bar. Adolescente. Não sabia o que fazer da vida. Gostava daquele jornal porque tinha grandes fotos e algumas reportagens diferentes do que ele costumava ver nas primeiras páginas dos outros. Os dois conversavam pouco. Nem tinham muito assunto. De segunda a sexta o menino trazia o exemplar assim que ele chegava. Por causa daquele jornal, e de outros que começou a acompanhar naquele tempo em que os generais comandavam a ordem unida no país, o adolescente arriscou na profissão de repórter, já que não imaginava o que iria fazer. Vários anos depois chegou a escrever algumas reportagens para aquele jornal que lia entre servir uma cachaça e outra. Hoje ele ainda se pergunta o que aconteceu com o guri. Se pudesse encontrá-lo, iria agradecer por ter-lhe aberto as portas de um mundo que, ali, naquela esquina suburbana, eles não tinham ideia do que fosse.

Ouro Negro Moacir Santos


Já disse

De Paulo Leminski

Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe,
eu já disse muito.

Tenho a impressão
que já disse tudo
E tudo foi tão de repente.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

não discuto

de Paulo Leminski

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Depois da subida do morro

As casinhas penduradas no morro eram coloridas. Ele via favelas todo dia no trajeto para o trabalho. Morava no Rio de Janeiro, mas aquela foto entrou na sua retina como um aviso que vinha lá de longe, como se ouvisse um chamado que não sabia explicar. Foi atrás. A cidadezinha no Interior do Nordeste ficava no fim de uma longa reta que terminava no pé do tal morro. Ele subiu e os olhares daqueles moradores pobres eram de espanto. Ele era branco como leite e usava roupas muito coloridas. Foi vencendo a ladeira na esperança de que um sinal, qualquer um, surgisse para lhe indicar o que não sabia. O sol torrava seus miolos. As casas foram rareando. O caminho seguia até o topo. Lá em cima ele parou, limpou o suor da testa com as costas da mão direita e, então, viu a árvore com uma sombra convidativa. Foi lá, sentou, encostou-se no tronco. Aí ouviu um canto, um lamento. A voz emitia palavras numa língua que ele nunca tinha ouvido. Seguiu o som. Descobriu a aldeia dos índios. Não teve medo. Ao vê-lo, os que estavam ali pararam o que parecia ser uma cerimônia. Os Xucurus tinham conseguido!

Benedito Lacerda e Pixinguinha Vou Vivendo


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

De Paulo Leminski

   bar das putas
os dias são poucos
   as noites são muitas

Oliveira das Panelas


Dois dentes

Era tão magro que um dia o convidaram para entrar numa escola de faquir. Levava jeito. Mas ele não gostava da ideia de ficar deitado ou sentado em cima de pregos. Pior eram as cobras. Tinha visto uma vez o famoso Silk - e não gostou nada. Vivia a vidinha de subúrbio indo ao colégio público e ajudando o pai num pequeno comércio. O velho um dia deu a ordem: queria o filho oficial da Polícia Militar. Ele lia jornal. Tremeu na base. Naquele pedaço do país ser meganha era como pintar um alvo na cara. O pai mandou ele para uma dessas academias de ginástica de antigamente, sempre chamadas de Hércules ou coisa parecida. Precisava pegar peso e ter músculos. Ele foi. O dono era ex-mister qualquer coisa. Recebeu-o com um olhar de desaprovação. Mas o garoto era determinado. Malhou. Foi para o exame. Passou no intelectual e no físico. Mas bailou no médico. Tinha músculos, mas a falta de dois dentes lá no fundo da boca era um pecado mortal. Tinham sido arrancados por um protético metido a dentista na vila dos pobres. Ele gostou da reprovação. Saiu da vila, virou profissional da saliva, foi morar em bairro de bacana. Tinha dinheiro até para ficar com a boca rica feito político em campanha, mas nunca colocou aqueles dentes, apenas conservou bem os outros. Para lembrar do que tinha se livrado.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

clima

De Paulo Leminski

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
            clima

Esperanças Perdidas Originais do Samba


Andaime do amor

Amou daquela vez como se fosse a primeira. O problema era a saída. Estava no quarto da princesa e o pai era uma fera, como só acontece em título que rima com donzela. Seus olhares tinham se encontrado na quadra do colégio, competição de voleibol, ele jogador, ela torcedora, classes diferentes. O cupido foi uma bolada que ele levou no peito porque simplesmente parou quando foi flechado pelo olhar dela. A menina riu. Ele ficou alisando a marca vermelha na pele durante toda a noite. Se encontraram, começaram a namorar, ela não podia sair de casa, ele viu o andaime da reforma no prédio, marcou hora na madrugada, subiu, entrou, aconteceu tudo como num filme mudo, ele saiu. Para descer foi mais difícil. Quando estava no segundo andar, tudo começou a balançar. A menina soltou um grito lá de cima. O pai acordou. O menino estava pendurado, se agarrando com toda força para não despencar. De repente a estrutura sossegou. O paizão ajudou o menino a descer. Se apresentou. Perguntou o que estava fazendo ali àquela hora. O menino contou. O pai gostou da ousadia. Convidou-o para um café. Tomaram. Apresentou a mulher dele. O menino agradeceu a tudo e prometeu voltar sempre. Quando saiu, com beijo de despedida e tudo na sua amada, o casal foi para a cama. O pai virou-se para a mulher e suspirou: "E eu que pensava que ela ia ficar para a titia".

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Riachão Cada Macaco no Seu Galho


com quantos paulos

De Paulo Leminski

   paulos paulos paulos
quantos paulos são preciso
   para fazer um são paulo?

   idades idades idades
quanto dá uma alma
   dividida por duas cidades?

Bolachas

Só lembra que aquela mão enorme, de dedos finos e longos, desceu do céu e estralou na sua bochecha esquerda. O rosto virou, tudo escureceu, mas as lágrimas ele conseguiu conter, não sabe como. O pai então virou as costas e foi embora. Ele ficou com aquela marca durante dias, semanas, meses. Não saía. O vermelhão desapareceu logo, mas a dor na alma, não. Foi assim durante anos e anos, mesmo porque aquele tinha sido único tapa que levou na vida. Tapa, não, bolacha. Gostava da denominação, sonora, mas não entendia o motivo de ela ter acontecido. Anos mais tarde, foi visitar a família que se mudara para outro estado. Lembrou daquele episódio e queria saber da mãe, já que o pai tinha partido, o que deflagrou o episódio. Ela lembrou até a idade dele, seis anos, e se espantou da memória do guri. Então, falou: "Foi por causa da bolacha".

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

no varal

De Paulo Leminski

   roupas no varal

deus seja louvado
entre as coisas lavadas

Lucio Maia Maquinado Zumbi


Paçocas

A coincidência foi que os dois frequentavam a mesma banca de jornal. Mas um deles, o escritor, mudou-se daquele bairro e foi ser famoso na vida. O outro continuou batendo ponto ali porque gostava do atendimento, tinha conta em caderneta, enfim, se sentia bem. O que foi embora deixou saudades no jornaleiro, apesar de torcerem por times rivais. Um dia o dono da banca soube, através do que continuou passando por ali, que o escritor iria receber uma homenagem. Perguntou então ao que passava ali toda semana se ele iria na festa. Ao saber que sim, tirou duas paçocas de um vidro, colocou num saquinho branco e escreveu uma dedicatória. Por um acaso do destino o que ia entregar a encomenda não pode ir à cerimônia. Deixou o pacotinho no porta-luvas do carro. Mas avisou, dias depois, o homenageado. E prometeu levar a encomenda num dia qualquer. Não foi, mesmo porque o agraciado trabalhava num lugar cheio de formalidades. Ele esperou a oportunidade, mas antes teve de vender o carro, mas tirou as paçocas dali. Porque acha que este vai ser um dos mais significativos presentes da vida do escritor. O jornaleiro também acha.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

magnólia

De Paulo Leminski

   Nem tudo envelhece.
O brilho púrpura,
   sob a água pura,
ah, seu eu pudesse.

   Nem tudo,
sentir fica.
   Fica como a magnólia,
magnífica.

Retrato em Branco e Preto João Gilberto


Tem um bicho

Tem um bicho dentro de mim que é incontrolável e eu vivo ao sabor de suas vontades. Tem um bicho dentro de mim que é assassino e gosta do gosto de sangue e gosta de ver o sangue jorrar como nos filmes de samurai. Tem um bicho dentro de mim que é medroso ao extremo e se borra de medo se o vento sopra e uiva lá fora. Tem um bicho dentro de mim que dança bolero e casaria com Nana Caymmi se ela só cantasse para ele. Tem um bicho dentro de mim que é anjo e consegue enxergar bondade no mais abominável dos seres humanos. Tem um bicho dentro de mim que renega pai, filho e espírito santo. Tem um bicho dentro de mim que ama a todos perdidamente. Tem um bicho dentro de mim que sobe de joelhos as escadas da penha orando e pedindo o milagre da purificação da alma. Tem um bicho devorador. Tem um bicho bêbado. Tem um bicho abstêmio. Tem um bicho tarado. Tem um bicho assexuado. Tem um bicho hetero. Tem um bicho homo. Tem um bicho burro. Tem um bicho gênio. Tem um bicho sem identidade. Tem um bicho com - e nela está escrito o meu nome.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A voz de Tambaú

Ouvia todo dia a benção do Padre Donizetti. Pelo rádio. Era uma gravação e voz saía do alto-falante do aparelho como se viesse do outro lado do mundo. Tambaú, para ele, era mesmo do outro lado daquele mundo onde as fronteiras nunca ultrapassadas distavam no máximo quatro quadras. Era um menino que trazia o medo como companheiro inseparável. Ele não sabia o que era isso, apenas reagia àquela coisa que o paralisava e trancava a garganta. Seis horas, Ave Maria. O locutor abria o programa assim e, mais tarde, ganhou votos para ser deputado. O menino não estava interessado nisso. Queria ouvir a voz do padre, a benção do padre - e todo dia aquelas mesmas palavras o faziam imaginar a figura de batina preta, cabelos brancos, olhar de santo dedicado aos desamparados, como ele. Era um momento em que não temia a nada, nem ao Belzebu, se este se materializasse ali ao lado do rádio. Estava protegido pelo padre. Assim tem sido, mesmo depois que a gravação sumiu no tempo junto com o programa religioso. Ele sempre escuta a voz que vem lá de Tambaú. É o que lhe segura a vida, apesar de os medos jamais terem desaparecido.

Nelson Freire Bachianas Brasileira nº4


sucede

De Paulo Leminski

  tudo
sucede
súbito

eu não faço
 expludo

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ademir Galeno Kalifa do Brega Carro


trans

De Paulo Leminski

se
nem
for
terra

se
trans
for
mar

Mangas do destino

Sempre que podia comprava mangas. Muitas. Se fossem fibrosas, melhor. O prazer não era tirar os fiapos que ficavam entre os dentes. O prazer também não eram os nacos da fruta que comia. O prazer estava na casca. Tinha um ritual que seguia sempre. Uma faca de prata cortava os lados carnudos da fruta. Ele então tirava o principal com os dedos, que ficavam lambuzados. Então, metia a boca no que sobrava colado à casca. Era nesse momento que sempre sentia a mesma coisa. Nunca falou para ninguém, mas ao fechar os olhos para saborear ainda mais o gosto, se via a milhares de quilômetros dali, embaixo de uma mangueira frondosa, ela sozinha no meio de um imenso terreno onde se via aqui e ali plantações de mandioca. O céu azul e o sol inclemente. A árvore tinha centenas de frutas, verdes, combinando com a cor das folhas. E ele via com a alma a presença de todos os antepassados naquela paisagem. Era o início do caminho. Assim, ele jamais iria esquecer. Porque jamais iria deixar de comprar mangas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

tibagi

De Paulo Leminski

   presa no tempo
a lua
        lá
    como se para sempre

o verde
            ali
cumprindo seu dever

   ser verde
até não mais poder

Jorginho do Pandeiro, Marcos Suzano e Celsinho Silva


Assovio

Com um ano e meio ele começou a assoviar. Nem andava direito, mas começou a assoviar - e bem! Alguns acharam que era por causa dos lábios, carnudos. O pessoal da vila dizia que era por causa dos beiços, mas ele não sabia dessas coisas. Gostou do que ouviu saindo dele mesmo. E não parou nunca mais. Com cinco anos já estava num programa de auditório porque "tocava" Tico-Tico no Fubá e o Brasileirinho com a maior naturalidade, sem errar nota e sem sair do ritmo. Um empresário da cidade grande viu, telefonou e matou a charada: o menino estava pronto para ser uma estrela nacional> Não existia ninguém no país que fazia aquilo profissionalmente. No telefone ele falou de um tal de Willian Furnô (a mãe entendeu assim) um que, no tempo das candongas, era o rei no Brasil. Depois dele, nada. O menino começou a fazer sucesso e era até convidado para festas de milionários. Assoviava tudo. Ganhou dinheiro, foi roubado pelo empresário, mas continuou sua vida de artista até que um dia, na adolescência, conheceu uma princesa. Sua carreira promissora terminou no primeiro beijo. Nunca mais ele quis saber de assoviar.

domingo, 13 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Borboleta não voa

Borboleta não voa. Ele ouviu este trecho de uma conversa numa linha cruzada. Estava encomendando um bolo para o aniversário do filho e as palavras atravessaram tudo. Ele desligou o telefone e não sabia mais se haveria festa para o guri de quatro anos. Borboleta não voa. Claro, faltava alguma coisa - o complemento ou o início. Como saber? Então ele ficou caçando borboletas na memória. Entraram até aquelas pregadas no prato para enganar turistas no Pão de Açúcar ou Cristo Redentor. A cena que tomou conta, entretanto, foi aquela do terreno baldio, deitado no mato, na brincadeira de esconde com a turma da rua, dia de sol... de repente, várias delas, pequenas, passando perto do seu rosto. Respiração presa e a mente hipnotizada por imagem tão fantástica, onde os galhos finos e a folhas pequenas do mato eram perfeitas como paisagem para o desfile delas. Ao pensar mais uma vez ele chegou a ver em câmera lenta. Então, veio o estalo. A frase só poderia ser: borboleta não voa, desfila no ar. Ele então sorriu e viu o filho mais belo e iluminado naquela véspera de aniversário.


johnny b. good

De Paulo Leminski

   tem vezes que tenho vontade
de que nada mude
   vou ver
mudar é tudo que pude

Waldick Soriano Tortura de Amor


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Mario Zan Chalana


rita lee

De Paulo Leminski

tudo
que
li
me
irrita
quando
ouço
rita
lee

Cimento

Dom Tomaso não era Dom Tomaso, apenas um cabra com cara amarrotada que vivia numa praia sossegada sem dar bandeira que era da Máfia e, pior que isso, dedo-duro, como veio a se comprovar anos mais tarde. O vizinho um dia recebeu a visita de um homenzinho discreto que lhe mostrou uma foto e disse-lhe o nome real daquele que todo dia saía para caminhar na areia antes de o sol nascer. Ele riu, riu, rolou de rir. Não acreditou na história e foi cuidar da vida, que era catar marisco e subir em coqueiro para ter o que comer e beber durante o dia e a noite. Um dia ele não resistiu ao ver Dom Tomaso, que para ele e todo mundo do vilarejo era o Giusepe, e erguntou então se ele tinha vagina no nome. Giusepe riu  também e se recolheu à casa simples. De noite, quatro brutamontes entraram no quarto daquele vizinho, que tinha vergonha de falar Buscetta, e o levaram amarrado para um buraco que era a fundação de um prédio em construção muito distante dali. Um caminhão de concreto encostou e cobriu-o. Dom Tomaso apareceu e fez questão de misturar muito cimento em  pouca areia para fazer o acabamento da obra.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Com fome nos olhos

Albino e de olhos azuis. Não usava óculos porque era impossível para um roedor das caatingas. O encontro parecia marcado pelo delírio imposto por um sol de derreter tudo. O outro, da espécie humana, tinha saído do Sul do país para realizar o sonho de percorrer os caminhos conhecidos de Lampião e o bando. Vestia roupa parecida, só não portava arma nem aquele chapéu enfeitado porque corria o risco de levar bala sem saber. No quinto dia da caminhada estava tão estropiado e morto de fome que amaldiçoou o dia em que encasquetou de realizar aquela loucura. Perdeu-se no tempo e no espaço. Teve sorte de não espetar o olho num espinho de mandacaru, como seu herói, mas furou a palma da mão direita e aquilo estava latejando por causa da inflamação. Jogou gibão de couro longe, as alpercatas cortaram a pele de seus pés e bolhas pipocaram na sola. Desmaiou e quando acordou viu o albino de olhos azuis. Ficaram se olhando por um tempo - e o calango não fugiu. O ronco da fome fez soar a cuíca no cérebro do aventureiro. Ele lembrou de uma famosa reportagem que mostrava um nordestino segurando aquele rato do mato como o motivo da sobrevivência. Pegou o bicho e já foi apertando o pescoço. Fez isso com tanta força que os olhos azuis saltaram das órbitas. A primeira dentada que deu foi só para arrancar a pele na parte onde ele achou que tinha mais carne. O sangue escorreu pela boca. Ainda estava quente. Ele gostou.

água do coco

De Paulo Leminski

   saber é pouco

como é que a água do mar
   entra dentro do coco?

Mutantes Panis et Circenses


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sem jogo com a morte

Ninguém viu, mas ele estava lá fora do enquadramento da cena de O Sétimo Selo, do Bergman. Olhou o jogo de xadrez onde a morte tomava conta de tudo e saiu se arrastando para lavar o rosto no banheiro do cinema. Estava dentro ou fora? Ela, a morte, se apossou dele como uma obsessão tão profunda que nem ouviu o cineasta sueco gritar "corta" para guardar a cena na memória de todos que viram o filme. Se pudesse ele cortaria a árvore, aquela, mas preferiu sair pela avenida respirando o ar poluído da cidade grande. Foi para casa se arrastando e sentindo o fio da foice no gogó. Entregou os pontos para a vida, mas não tinha jogado o jogo - e aquela situação durou muito tempo. Um dia ele achou que tudo estava estranho demais por causa da participação dentro e fora de um filme. Ele não sabia mais o que fazer e resolveu tomar banho. Água muito quente. Ficou mais molenga. Lembrou então da história contada sobre um ator que mergulhava todo dia numa banheira com água e centenas de cubos de gelo. Não tinha banheira. Fechou a torneira de água quente, abriu a da fria. Viu então a morte sair de cena e se afogar num lago ali próximo do set de filmagem. Ganhou o jogo sem mexer uma única peça do tabuleiro.
  

Gaúcho da Fronteira


a metro

De Paulo Leminski

das coisas
que eu fiz a mero
todos saberão
quantos quilômetros
são

aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não

domingo, 6 de outubro de 2013

Cinza azul brilhante

Depois tem o amanhã que pode não acontecer mas se acontecer será carregado de lembranças boas deste domingo cinza azul brilhante.

sábado, 5 de outubro de 2013

Pedido

Meus olhos cansados de sorrir pedem ao coração que não datilografe neste dia dedicado a esperar o domingo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

feijão e arroz no céu

De Paulo Leminski

   lá fora e no alto
o céu fazia
   todas as estrelas que podia

   na cozinha
debaixo da lâmpada
   minha mãe escolhia
feijão e arroz
   andrômeda para cá
altair para lá
   sirius para cá
estrela dalva para lá

Cola

Cola ou não cola? Ouviu a interrogação no meio do caminho - e não sabia do que se tratava. Cola ou não cola? O carro tinha parado ao lado de outro no semáforo. Ele estava meio que caído no banco de trás. Vidro aberto. Olhava para o nada. Quando ouviu, o verde apareceu, o carro saiu cantando pneus, ele até se aprumou no banco, mas não conseguiu saber de que boca saíra a pergunta. Cola ou não cola? Poderia ser uma mentira a ser jogada no ouvido de alguém. Poderia ser a dúvida existencial sobre o método a ser usado para passar naquela prova infernal de fórmulas químicas. Poderia até ser alguém com a imagem sem cabeça de um santo na mão, pois ele caiu e ela voou longe. Cola ou não cola? Ele escorregou no banco e voltou para seus problemas. Pensou na vida que, naquele momento, não estava colando.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Paciência Lenine


mordida

De Paulo Leminski

poema na página
mordida de criança
na fruta madura

Na cadeira do dentista

Fechou os olhos, abriu o bocão e ficou esperando. Não, não era o barulho e o contato da broca. Ficou esperando o que o dentista iria falar. Sim, porque ele tinha esse costume de entabular um monólogo a partir do momento em que o paciente não podia mais fechar a boca. E fazia perguntas, jamais respondidas, obviamente. O que sempre abria a boca e deixava as calças para pagar a conta, porque o profissional ali é caro, resolveu adotar uma tática na consulta seguinte. Assim que entrou na sala, antes de sentar naquela cadeira que tem o desenho próprio para tortura, começou a falar sem parar, sem deixar o doutor responder, emendando assuntos, perguntando e respondendo ao mesmo tempo, enfim, uma metralhadora falatória que deixou o outro mudo. Depois, sentou,fechou os olhos, abriu o bocão, ouviu o som da broca, sentiu-a trabalhar e... não ouviu um "a" do dentista. Feliz da vida, foi para casa descansar. À noite, acordou com o dente latejando e com uma dor que jamais sentira em mais de 20 anos aos cuidados do doutor.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Na cara

De Paulo Leminski

   Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
   Só existe um segredo.
Tudo está na cara.

Tito Madi Sonho e Saudade


Oxítonas



Jiló
Fiofó
Queria ser poeta, mas era viciado na oxítona por causa do nome da figura gramatical. Nos últimos tempos começou a lembrar das aulas do ginásio e do professor de português. Porque era um negão muito parecido com o Joaquim Barbosa. O nome, contudo, era mais pomposo: Herculano. Ele tirou a paranoia da língua, mas esqueceu de incentivar a leitura. Era um técnico muito bom, mas não tinha o dom de levar o povo a sambar no texto - e isso só seria possível com a leitura dos mestres da bateria da literatura universal. Herculano, sem querer, matou os poetas, estes que fazem parte de um outro mundo, pois exprimem os sentidos. Ele, o aluno, foi comer letras nos jornais, nas revistas e depois nos livros, cuja paixão veio de mansinho como a maré na madrugada. Gostou, mas nunca conseguiu escrever o poema que espantaria todos os demônios. Ó, que dó!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Missão cumprida

Para ele não importava o que ia dentro. Mas sim o que ia fora. A bolsa, por exemplo. Tinha uma estrutura rígida e na imitação de couro não havia mancha alguma, por menor que fosse. Era enorme, como se servisse apenas para levar aquele objeto luminoso e retangular. Sim, luminoso, porque de alumínio tão areado, como se falava, que, se bobeasse, serviria de espelho. Os elásticos que mantinham o conteúdo protegido eram branquinhos e formavam uma figura geométrica. Não, ele não se importava com o que ia dentro. Ok, sempre tinha feijão, arroz e um bife pousado em cima. Em camadas. Na hora do almoço ele colocava no banho-maria e comia ali mesmo, olhando só para o que o garfo conseguia retirar de dentro. Não lavava o recipiente. Era serviço da mulher que cuidava do objeto como se ele fosse entrar no testamento para os filhos do casal. Ele não precisava falar que era preciso todo o cuidado. Ela sabia. Eles se falavam por silêncio e gestos. Um dia ele saiu da fábrica, depois de 20 anos de trabalho. Era operário. Guardou a bolsa no guarda-roupa. Lá dentro, quietinha, ficou a marmita - feliz por ter cumprido a missão.

Ná Ozetti Disseram que Voltei Americanizada


não tem cura

De Paulo Leminski

   leite, leitura,
letras, literatura,
   tudo o que passa,
tudo o que dura
   tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
   tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
   de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura