quinta-feira, 30 de maio de 2013

Feriado

Quem sabe... talvez, feriado, a lua e o sol nascem no fundo do mar da alma de Guinga e Francis Hime e todas as palavras escritas, faladas, cantadas, esperam na ponta do longo trapiche, que é como uma seta a indicar o que interessa. Talvez segunda-feira. Talvez daqui a pouco. Talvez...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

João Gilberto Undiú


No buraco

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho

debruçado num buraco
vendo o vazio
                      ir e vir

Cafezinho com o Tinhoso

Ouviu a proposta e aquilo era como se Nossa Senhora de Fátima resolvesse aparecer de novo. Olhou para o café servido no balcão e quis mergulhar ali, no líquido quente, para sumir, fugir. Era a primeira vez. Não, não era aparição de santa. Era o Tinhoso saído de um desenho de catecismo infantil. Dinheiro. Dinheiro fácil. Era por ele existir, por exercer uma influência que ele sabia não haver, mas que talvez alguém pensasse assim, e estivesse disposto a lhe encher os bolsos para angariar simpatia. Corrupção. Lia e ouvia tanto a respeito, inclusive as piadas, mas nunca estivera ali, diante de alguém a lhe oferecer da forma mais direta. "Quer dinheiro?" Não, ele não queria porque, normal, assim, brasileiro, do batente, sempre trocou o que fazia por alguém que pagava. E pronto. Nada mais. "Você não gosta de dinheiro?", insistiu o outro lado. Não, só quando ele vem em troca do que produzo, mesmo sendo merda, respondeu. E assim acabou a conversa. Na calçada as pessoas passavam alheias a isso. Era uma tarde qualquer. O café desceu num gole. Agora estava na temperatura ideal. O Belzebu esfumaçou-se e deve ter espalhado que aquele idiota acreditava em honestidade. Nunca mais tentaram. Ele acha que vai para o inferno por outras causas.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Dentro do pão

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

quero a vitória
          do time de várzea

valente

covarde

          a derrota
          do campeão

5 x 0
           em seu próprio chão

                                  circo
                                  dentro
                                  do pão

Visita

A casa de pau-a-pique estava lá, na beira de um buraco que antes tinha sido um açude onde o tempo fez as traíras aumentarem de tamanho. Tudo seco e esturricado. Mas casa ficou lá, firme, com suas veias à mostra, seu barro de um marrom claro e cheio de rachaduras ali, se sustentando até que alguém viesse futucar e para  aquele pedaço desmoronar e se transformar num pó para ser levado pelo vento, mas só quando ele chegasse. Os dois caminharam algum tempo para chegar ali. Vi de longe. Vi do alto. Ela, baixinha, vestido estampado, pernas cambotas, segurava um guarda-chuva também estampado. Acho que gostava de flores e deveria cultivar um jardim. Ele, um bitelão, costas curvadas, óculos escuros de gente que parecia ser do Sul, por causa da calça, da camiseta com um desenho de banda de rock. Pararam na frente da porta principal do casebre abandonado. Ficaram ali um tempo e eu aqui de riba comecei a imaginar uma história sobre aquela presença no meio daquela imensidão onde o verde andava escasso. Ela deve ter sido criada ali e foi mostrar para o filho. Foi contar histórias do avô e da avó dele. De como ela brincava por aqueles campos e como era recomendada para não ir perto do açude sem companhia. Será que teve bonecas? Deve ter feito alguma de pano, porque, assim, de longe, parece que ela leva jeito de ser costureira. Arrodearam a casa e na certa ela contou que criavam galinhas e porcos naquele quintal imenso. Era uma vida boa. Não se sabe como é agora. Então retornaram e o caminho deles beirava uma linha de trem que não ficava muito distante. O trem não passava mais. Mas no tempo das traíras passavam muitos. Com gente dentro. E ele apitava. E o gado olhava. Depois continuava mastigando e a palma. Eles estão longe. Vejo só dois pontos se movimentando. E o guarda-chuva. O sol assiste a tudo. Desde aqueles outros tempos.

Maria Alcina e o Calor na Bacurinha e Chama o Tadeu



segunda-feira, 27 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Palmas para ela

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

a palmeira estremece
palmas para ela
que ela merece

Africadeus Naná Vasconcelos


Candiru

Candiru. Dá no igarapé. Entra pelo cu. Eu pensando na grandeza dos rios amazônicos e o que ficou da conversa com alguém que conhecia toda a floresta foi isso. Candiru. Cuidado! Peixinho pequeno, mas entra no corpo e faz estrago. Tinha mais! Poderia entrar pelo pau também. E rasgava tudo no caminho em busca das entranhas. O matuto que alugou o barquinho na zorra do porto popular de Manaus também falou nele. E acelerou o motor para a divisa das águas barrentas e negras. Depois descambou naquele mundo líquido para as quebradas do mundaréu. Saudade do Plínio Marcos. Mas ele não conheceu o Candiru. Igarapé. Nome sonoro, bonito, mata adentro, olha lá o macaco, olha lá o pássaro, cadê a jibóia? cadê a sucuri? Difícil. A cor barrenta lembrou o povo de pouco tempo antes. Em Cuiabá, aquela cor marrom, bem escura, contrastando, às vezes, com os dentes tão brancos de doer os olhos. Índios. Parecendo coisa de cinema. Será? Mas, em volta, sujeira total. Mas aqui, não. Na veia separada do rio. Um calor de derreter caldeira. Vai pular? E o Candiru? Reze antes. O mergulho. Parecia água abençoada. Um deus Tupã. Ao entrar nela o medo dissipou-se. Esqueci o Candiru. Saí, voltei a Manaus, cheguei em Alcântara, Maranhão, uma semana depois. Fiz um gol de placa na frente de uma igreja em ruínas, mas maravilhosa - golzinho de duas pedras, um toque de trivela, saí para o abraço e caí na metrópole do Sul. Faz tempo. Se o Candiru entrou, até agora ele só fez bem.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A torre

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

tão
alta
a
torre

até
seu
tombo
virou
lenda

Logado

Logado estou, seja lá o que isso signifique. Um dia me falaram na blogosfera. Legal! No Facebook do Twitter acabei me perdendo. E isso diante de uma tela gigante onde a seta deslizava e saltavam pra cima de mim absorventes, comida para cachorro, o carro que sobe montanha e uma morenaça cujo biquini caberia no dedal da minha mãezinha, costureira que transformava qualquer figurino da Burda em realidade para as professoras do subúrbio. O que estou fazendo aqui se tenho de esfregar meu dedo numa tela de celular e a gordura do salaminho que tanto amo fica lá emplastrada? Vi duas gordinhas se chocando numa calçada porque estavam com um celular numa orelha e na outra um fone enterrado onde ouviam alguma coisa. As calças no pé da barriga fez as banhas saltarem ainda mais. Elas não desligaram. Levantaram da queda mútua e continuaram as respectivas conversas.  E ouvindo a música. Qual, meu Deus? Seria Fascinação, Carinhoso, Chega de Saudade? Joguei o meu aparelho de celular no bueiro. Ele tocou quando bateu lá no fundo. Enfiei a cara entre as grades e vi que a ligação era do banco. A conta estourada. Fiquei feliz. Deslogado. Deslocado. Tresloucado.

Baião de Lacan do Guinga e Lula Galvão

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Língua de Trapo Cagar é Bom Demais


no instante no entanto

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

   diga minha poesia
e esqueça-me se for capaz
   siga e depois me diga
quem ganhou aquela briga
   entre o quanto e o tanto faz

A vida é bela!

O cachorrinho passou e fez xixi na minha perna. Fiquei muito feliz. O cachorrinho tinha uma fita com laço vermelho no pescoço. Ele era branquinho e seus pelos faziam cachos como nuvens. Que lindo! Senti o o calor do xixi e o líquido entrando pelo tênis, molhando a meia e o pé. Eu perguntei para o dono do cachorrinho se ele fazia aquilo sempre. Ele disse que não, que o cachorro dele só mijava em quem ele queria morder. Olhei e o cachorrinho acabara de cravar os dentes finos na minha canela. A dor foi lancinante, mas ao olhar para o céu vi uma nuvem com desenho de gato e tentei mostrar para o cachorrinho. Ele não entendeu. Nem seu dono, que só olhava a cena e via a mancha de sangue começar a crescer na perna da minha calça. Eu perguntei o nome do cachorrinho. O dono respondeu que era T-Rex. Eu lembrei do guitarrista Marc Bolan, mas isso não fez o cachorrinho largar a carne e o osso. Eu disse então que precisava ir embora. O dono respondeu que era preciso esperar o cachorrinho se satisfazer com a mordida. Eu disse que não podia esperar. O dono do cachorrinho disse que se eu saísse dali ele iria me cobrir de porrada. Não tive outra alternativa: saquei a Colt 45 e dei um tiro. Fiquei livre e agora acabei de ver uma criança cheirando uma rosa num jardim. Que lindo! A vida é tão bela para quem consegue vivenciar momentos como estes...

terça-feira, 21 de maio de 2013

Em nada

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

   Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
   fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense
   A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
   transformar amor em nada

Meu Mundo Caiu Maysa


Eu não pedi para nascer

Na grande cidade, a tragicomédia. Alguém disse que a vida se resume em nascer, foder e morrer. O problema é o resto do tempo. E ele é muito longo e pesado. O drama do convívio, uma farsa aprendida desde cedo. Depois, mais farsas gritantes. Alguns corajosos metem bala na cabeça, mas isso só depois de sofrerem até o esgarçamento total. A maioria se conforma, mesmo porque não sofrem, pois a dose da droga ingerida é forte. Entra religião, bens materiais, sucesso profissional, procriação para preservação da espécie, lazer, etc. Cidades são cancros na natureza. Casas, apartamentos, caixotes de todos os tamanhos onde o prazer maior é o de defecar enquanto se lê os crimes de sucesso. Em sete dias o tal deus criou o mundo. Depois colocou o bicho homem para destruir tudo sem trégua. Eu não pedi para nascer. Frase clássica dos filhos revoltados. Frase perfeita para ser adotada quando a barra está pesada demais para suportar. Mas... passa. A comédia e a tragédia continuam. Em equilíbrio.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O encontro

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

    no centro
o encontro
   entre meu silêncio
e o estrondo

Ao vivo

Por que os senhores parlamentares fizeram questão de mostrar a todo Brasil, ao vivo, através das tvs Senado, Câmara e dos Legislativos Estaduais e Municipais, o que fazem, o que são? O mais provável é que para provar a si mesmos que pairam sobre o bem o mal, que pintam e bordam da maneira que bem entenderem, que podem negociar e gastar o dinheiro do povo sem a menor dor na consciência. Isso por que, foram colocados lá por quem paga a conta - e o que os alimenta é a ideia de que enganaram a todos e continuarão enganando.

Estrado do Sol de Agostinho dos Santos


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Varia

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

a vida varia
o que valia menos
passa a valer mais
quando desvaria

Vapor Barato de Jards Macalé


Os cabelos da palavra

Num dia cinza como hoje é possível se gostar do cinza porque também é uma cor. Num dia de sol radiante num céu de anil, é possível se sentir no mais profundo e imundo dos poços sem enxergar saídas e sem forças  para tal. Isso não é início de conversa para auto-ajuda. Precisa-se muito de ajuda para se ficar num meio termo entre o céu e o inferno, mas sem ser o purgatório. A palavra é a chave. O verbo, aquele, do início. Necessitamos da palavra dita por nós mesmos, na eterna solidão, ou a de alguém que escreva, que cante, que grite, que cochiche, que atropele com verborragia, que diga sem dizer, mas que olhe, precisamos da palavra que escrevemos em qualquer espaço, com lápis, giz, carvão, caneta, máquina de escrever, computador. A que vem não se sabe de onde, soprada por algum deus que não conhecemos, mas acreditamos. Um sim é perfeito. Um não também pode ser. Então nos agarramos nos cabelos dela, a palavra, e o puxão pode arrancar a carapaça, o cofre que protege a alma e o coração, o medo. E então voamos para andar e olhar com a alma serena e descansada.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Além das telhas

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

luxo saber

além das telhas
um céu de estrelas

Sem Maracanaço

Em 1950 aconteceu no Maracanã a maior tragédia do futebol brasileiro, quando perdemos a Copa para o Uruguai. Agora não vai acontecer isso porque o Brasil caminha célere para ser eliminado antes das quartas-de-final. Será um baque, sim, para as empresas que investiram milhões na ilusão de um time que não joga bola e só por um milagre vai fazer isso daqui a pouco mais de um ano. A Globo, os empreiteiros e os ladrões também ficarão satisfeitos com a montanha de dinheiro arrecadada. Em 50 o Brasil era um timaço, com Zizinho à frente, o grande craque comparado a Pelé. Agora temos Neymar, que até hoje só jogou com a camisa do Santos. Nem Maracanaço teremos, porque a seleção não chega à final.

Dalva de Oliveira Neste mesmo Lugar


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dívidas

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

entre a dívida externa
e a dúvida interna
meu coração
comercial
               alterna

O filósofo Nelson Ned

Existe a eterna vontade do mais, do querer mais, do ser mais. O que pode transformar a vida num inferno maior do que já é. O que seria o mais? Qual o parâmetro? Onde estamos nisso, tirando a quantificação material, que é uma das doenças da humanidade? Nesse jogo é que se equilibra a existência - fio de navalha, para usar um clichê. Contentar-se com o que se tem não é ficar passivo. Porque o que se tem, se luta para conseguir, desde que tudo começou com a batalha para sair da barriga da mãe. O mais pode ser a ilusão que uma droga dá - e ela mesmo prova que era uma fantasia perigosa. O mais é idealizar encontros, romance, sexo, profissão, capacidade de pensar, de fazer. Esquece-se que a maior loucura da vida é ela própria, tão inexplicável e frágil. Consegue-se tudo o que é possível não parando. Simples. Acompanhar e cantar músicas bregas ou não pode ser um bom começo. De Lulu Santos como uma onda no mar a Nelson Ned tudo passará. Pode ser em disco vinil, cd, mp3 ou qualquer outra traquitana dessas. Elas serão a mesma coisa. E cantar espanta os demônios.

Mulher Rendeira de Carlos Malta, Marcos Suzano e Pife Muderno


domingo, 12 de maio de 2013

Depois do portão

Sem pai, nem mãe. Descobriu o verdadeiro sentido disso quando eles saíram pelo portão, subiram a montanha, passaram pelo Cristo Redentor e continuaram a caminhada para o mistério. Mas sempre viveu um pouco distante, tanto fisicamente como de alma. Não lembra o motivo, mas quando estavam juntos havia um silêncio que ele bebeu e carregou pela vida até o dia em que despirocou sem motivo aparente. Nestes dias dedicados a eles, hoje é para a mãe, ele olha uma foto que fez no cemitério apoiado no túmulo onde um está ao lado do outro. Chorava. Chora. Esquece a idiotice das propagandas que incentivam as vendas do comércio na exploração do sentimento. De repente lembra que um dia foi à igreja da vila e, criança, comprou uma enorme Bíblia com fios dourados na capa e deu para ela como presente. A palavra. Hoje acha que estava lhe passando o que tentaria um dia compreender na vida. Adiantava, então, a declaração de amor ao humanismo, mesmo sem saber de nada. Sem mãe, nem pai. Deu tanta cabeçada, envolveu tantas pessoas, rasgou a alma, costurou, mergulhou no inferno, voltou, e conservou aquilo que recebeu como se tivesse captado pela proximidade, mas sem o contato, sem o carinho, sem o colo, sem o peito e a seiva da vida, mesmo porque ela não tinha para dar ao filho - e deve ter sofrido com isso. Em silêncio ele olhou e, anos depois, começou a ouvi-la. O rosto era triste, mas o que saía da boca, paradoxalmente, era alegre, forte, irônico, de alguém que também ficara todo tempo olhando e aprendera. Pelo menos a se defender dos demônios internos, da tentativa de aniquilação pelas contingências da vida. Com pai e com mãe. Ele depois descobriu. Exatamente quando eles foram, um atrás do outro, caminhando do portão para fora - e nunca mais voltaram.

sábado, 11 de maio de 2013

Inverno

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

   inverno
é tudo que sinto
   viver
é sucinto

Chão de Estrelas de Silvio Caldas


Máquinas

Na era digital, da exacerbação da individualidade e do endeusamento das ações de marketing, não é demais imaginar que em breve seremos governados por máquinas. A vantagem é que elas não roubam. A desvantagem é que sempre vai ter um dedo humano sujo comandando-as. Mas também é bem provável que vai surgi  a nova geração do HAL, aquele computador que se rebela no filme 2001 - Um Odisseia no Espaço. E aí, só deus sabe!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Raul de Souza e o Improviso Brasileiro





Verdade

A Comissão da Verdade vai encerrar os trabalhos sem conseguir revelar a verdade. O Exército Brasileiro vai continuar carregando e tentando esconder uma mancha que não condiz com sua história. Os desaparecidos continuarão desaparecidos. As famílias destes e dos militares que morreram num confronto sem sentido, continuarão chorando. Estamos no Brasil.

sete dias na vida de uma luz

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

   durante sete noites
uma luz transformou
   a dor em dia
uma luz que eu não sabi
   se vinha comigo
ou nascia sozinha

   durante sete dias
uma luz brilhou
   na ala dos queimados
queimou a dor
   queimou a falta
queimou tudo
   que precisava ser cauterizado

   milagre além do pecado
que sentido pode ter
   mais significado?

Hospital S.Vicente
Ala dos Queimados
Curitiba, outubro de 1987

Odair José Pare de Tomar a Pílula


É de manhã

Há um gosto de sangue e de hóstia. Há espuma e o fundo do mar no travesseiro. A luz entra em bigornas pelas frestas da janela. O quarto navega pelo pântano. Mãos e pés amarrados na cama. O pensamento sempre para trás. Culpas. Um cachorro late ao longe. Abre-se um buraco no chão e uma enxada desce sobre a testa dele. O sangue não jorra. Ele estava doente. Ele ainda se mexe. Alguém grita para aquele pesadelo acabar. Agora é o bandido chegando do outro lado da porta. Uma Colt 45 brilha na mão. Era um filme? Vozes de crianças. Um beijo, vários beijos, todos me abraçam. Vamos para o jardim. Uma brisa. Penso demais quando estou dormindo.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Minhocas

Uma das necessidades dos intelectuais é escrever para demonstrar isso - que são intelectuais. Com as raras exceções, se cobrem de letras, comem letras, respiram letras e esquecem de viver. Podem morrer de susto ao descobrir a existência das minhocas.

Elis e Tom nas Águas de Março


Civilizada

A civilização só chega a Curitiba quando o céu está totalmente azul e a temperatura em torno de 10 graus.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Epitáfios

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

lápide 1
epitáfio para o corpo

    Aqui jaz um grande poeta,
Nada deixou escrito.
    Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.


lápide 2
epitáfio para a alma

    aqui jaz um artista
mestre em desastres

    viver
com a intensidade da arte
    levou-o ao infarte

     deus tenha pena
dos seus disfarces

Tim Maia Azul da Cor do Mar


Contemplação

E agora? Falei em preguiça, mas parei no tempo. Contemplando. Não o umbigo, porque ele, antes estufado, está lá para dentro da pança. Será que está sujo? Passei cotonete, mas a sensação foi muito ruim. Parecia que o cordão umbilical estava sendo cortado de novo. Então, contemplo o céu. Hoje azul, recortado de fios bem na minha frente. Há uma rolinha ali, e não posso chamá-la de rola porque a empregada é evangélica. Rolinha e pombas. Pomba pode, apesar de em algumas regiões do Brasil a rola entra na pomba e se forem flagrados chamam a polícia. Parei no tempo, eu disse. Mais que Caymmi, que demorou dez anos para compor uma daquelas músicas onde a gente fica ouvindo, sentindo, cheirando o mar. Venta forte. Nem chamar é preciso.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Engaje-se

Por que deveria me engajar se não consigo isso nem no simples ato de viver? Sempre haverá dúvidas. Desde que o micróbio do pensamento se fez revelar para alguma coisa que chamamos de alma, ou este ser com quem conversamos, porque sempre somos dois, às vezes, três, meia dúzia, um milhão, ou nada, desde este primeiro contato com todo o resto, a dúvida veio junto. O que estamos fazendo aqui? O antes de nascer é o mesmo que depois de morrer. Pensamento perfeito, porque é essência da dúvida. O durante a existência é uma guerra tão feroz por dentro e por fora, que o melhor é... é o que mesmo? Ser Dorival Caymmi é uma saída, pelo menos no que entendemos o que é ser este baiano, como se ele não penasse, não sofresse, não tivesse dúvidas sobre o próprio talento, não traísse a si mesmo e aos outros, não pensasse em matar alguém e como seria depois. Engaje-se, me cospe na cara umas letras num papel que jogaram no quintal de casa - papel este que eu pago para que joguem, mesmo sabendo que ele só me traz notícias sobre crápulas de todas as espécies. Mas... seriam crápulas? Eles podem estar certos, mesmo porque os que se parecem anjos são os piores. Não, não quero me engajar seja lá no que for, porque estou enganchado numa coisa chamada vida e ela está furando o meu pescoço.

Cipó

É do psiquiatra Paulo Gaudêncio uma das melhores definições sobre a "coragem" masculina ao terminar um relacionamento. Disse ele que homem é como macado: só larga um cipó quando está agarrado no outro.

Saudosa Maloca dos Demônios da Garoa


O podre atrai

Inventaram um Movimento Paraná Sem Corrupção, como se isso fosse mudar o DNA que está entranhado na alma de boa parte dos seres humanos. Se fizessem o Movimento Paraná Com Corrupção, para que os ladrões do dinheiro público e os que gostam de levar vantagem atropelando até a mãe ensinem como é que se faz, aí, com certeza, seria um sucesso. Porque é o podre que atrai, infelizmente.

Encontros

O prefeito Gustavo Fruet tem sido visto com frequência no bairro Cabral. Por coincidência, na rua onde o ex-governador e ex-prefeito Jaime Lerner tem escritório e apartamento. As conversas são sempre didáticas e técnicas, mesmo porque, no campo da política, Lerner é um grande urbanista.

Nem pisco

De Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

    pediram um milagre
nem pisco
    transformo água em água
e risco em risco

Nação Zumbi Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Profissional

Era preciso no trabalho. Sempre a postos para cumprir as missões. Mantinha as ferramentas em ordem. Um profissional de alto nível. Nunca falhou. Sempre matou.

Ednardo e o Pavão Misterioso


Pela cabeça do Marcelo e pelo enganchamento em Brasília

Os cicloativistas de Curitiba deveriam pedir a cabeça do articulista Marcelo Coelho por ele externar pensamentos que só atrapalham o trânsito das bicicletas em São Paulo e no resto do país. O artigo republicado abaixo deveria ser o início de uma movimentação em escala nacional. Um encontro em Brasília deveria ser marcado, com a condição de que todos se dirigissem à capital federal pilotando as respectivas bikes, seja o povo do sul do Brasil, como do extremo Norte e Leste. O único risco, além da estafa natural dos pedalantes, seria de um engarrafamento de bicicletas diante do Congresso, se é que o nome é esse mesmo. Talvez ocorra um enganchamento, mas isso não é coisa de se pensar agora.

Loucuras por um motivo nobre


O colunista Marcelo Coelho, da Folha de São Paulo, escreve hoje sobre os ciclistas da cidade grande. Dá pedal ler o artigo "Perigo ao volante". Segue trecho e texto na íntegra. 

"....o ciclista não está ali a trabalho. Está fazendo loucuras por um motivo nobre. Ele se manifesta politicamente. Afirma que você, o motorista, é um imoral, um cretino, um reacionário, um destruidor do planeta.
O fato de ele ter razão não aumenta, naturalmente, minha simpatia pela causa. Não gostaria, entretanto, de atropelá-lo. Sinto quase como se ele me forçasse a isso.
O motoqueiro, ao menos, faz barulho. O ciclista é insidioso, frágil, secreto. Conspira contra o carro: confia no poder das massas –às dezenas, e logo às centenas, conquista a faixa do ônibus, entre os quais se esconde, e conquistará as outras."

Um pastor e um escroque

No blog do Zé Beto (www.jornalenoticias.com.br) a notícia de que querem dar título de cidadão honorário ao pastor Silas Malafaia, aquele que defende o Feliciano, e também a lembrança de que há dois anos quem ganhou a honraria foi Ricardo Teixeira, o escroque, em proposta do atual secretário estadual para a Copa do Mundo, Mario Celso Cunha. Precisa comentar?

Queima

Do Paulo Leminski para o jornal Rascunho:

    A quem me queima
e, queimando, reina,
    valha esta teima.
Um dia, melhor me queira

Sem ópio

Antes os trabalhadores brasileiros eram esbulhados de todas as formas, mas ainda havia futebol para se ver e aliviar a alma. Agora até isso foi limado da vida.

Quatro Ases e um Coringa na Terra Seca


Dia da vagabundagem

No Dia do Trabalho os patrões concedem o direito da vagabundagem aos escravos.