quarta-feira, 31 de julho de 2013

Cascatinha e Inhana Meu Primeiro Amor


se

De Paulo Leminski

se
nem
for
terra

se
trans
for
mar

O Rei na Vila

Ele está aí! Ele era o Rei. O Rei Roberto. Roberto Carlos. A notícia surgiu do nada e, como dizem, foi como rastilho de pólvora acesa em episódio do Rin Tin Tin. Fomos todos para a praça da matriz. Ali ia ser inaugurada uma loja de sapatos e era o carro de som que informava a surpresa. Só que o alto-falante não dizia quem seria o grande astro da Jovem Guarda. Nós, crianças, é que deduzimos. Nós, crianças, do bairro inteiro. O ajuntamento de meninos e meninas era quase uma multidão. Então alguém resolveu aumentar a comoção. Disse na orelha de um da nossa turma que o Rei já tinha chegado e estava escondido no colégio das freiras que ficava separad0 da igreja por uma rua, a principal do bairro. Fomos investigar, como se isso fosse possível, pois o muro tinha cinco metros de altura e o máximo que se podia enxergar lá dentro era através das frestas mínimas do portão de madeira. Nada! Fogos no céu da praça. A loja foi inaugurada. Não havia cantor, não havia nada. Todos começamos a conhecer ali o que é propaganda.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Moreira da Silva Na Subida do Morro


milagre

De Paulo Leminski

   pediram um milagre
nem pisco
   transformo água em água
e risco em risco

Poesia, futebol e crime

No tempo em que o inverno durava três meses, ele viu a menina nascer feito índia no meio da floresta de pedra, o Brasil ganhou jogo de Copa do Mundo e tudo isso o fez escrever e sair com amigos para comemorar. De madrugada estava lá num dos poucos bares abertos. Perto das putas, travestis, tiras, poetas, últimos românticos, desiludidos, iludidos, enfim, gente. De repente alguém abre a porta do boteco, que tinha música ao vivo com som do trompete sobressaindo, e oferece o jornal do dia. Manchetes de  futebol e crimes, onde o vermelho era o sangue da vida e da morte. Lá no meio, leu a própria poesia saudando o nascimento da terceira parte a perpetuar sua existência. Saiu dali tão feliz que não sentia mais o corpo. Parou na frente da catedral e então fez o sinal da cruz, como no tempo de criança.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

No escuro

Acordou e estava no escuro total. Ouvia apenas o barulho do mar e lembrou que tinha ido para a praia na garupa de uma moto. Depois disso... nada. No breu total ele se levantou e buscou alguma fresta de luz. Em vão. Pensou estar cego e o grito lancinante deve ter atravessado as paredes e o o oceano, assustando bichos na África. Enroscou os pés numa sandália e caiu de cara no piso frio. Não sentiu dor. A dor maior era não enxergar nada. Gritou por socorro. Ouviu passos. A porta abriu e a luz foi acesa. Viu então o amigo como se fosse um gigante. Chorou de emoção e ouviu: "Que porre, hem, mormão?"

Coruja de Deny e Dino


abaixo do além

De Paulo Leminski


   de dia
céu com nuvens
   ou céu sem

   de noite
não tendo nuvens
   estrela
sempre tem

   quem me dera
um céu vazio
   azul isento
de sentimento
   e de cio

sábado, 27 de julho de 2013

coração

De Paulo Leminski

coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL

Dinheiro

Trinta dinheiros nunca aceitou. Mas queria ver. Isso! Olhar uma quantidade que nunca ganhou na escravidão que era sua vida. Trabalhava e recebia, trabalhava e recebia. Cartão de ponto picotava. Um dia conheceu alguém que era do time dos bacanas. Fizeram amizade pela amizade. E ele pediu. Queria ver ao vivo aquilo que só aparecia na tv quando mostravam a Casa da Moeda imprimindo e estocando. Fez uma exigência, contudo. O monte tinha que ser do mesmo tamanho daquele que apareceu na foto com Emerson Fittipaldi sentado em cima, quando este ganhou as 500 Milhas de Indianápolis. O outro pediu um tempo. Passou o tempo e veio o encontro. Era uma pilha encostada numa parede de um bunker particular. Os maços com notas de cem pareciam empilhados como os tijolos que via nos terrenos das casas da vila, comprados aos  poucos pelos donos que queriam aumentar o casebre. Olhou, colocou a mão, cheirou e confirmou que aquilo era muito podre.

Anjo Exterminado por Jards Macalé


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vingança

Ele amava Isaurinha Garcia, mas não foi por isso que se tornou vingativo. Achava que era herança genética, apesar de não ter conhecimento de algo no sentido ter sido feito pelo pai. A mãe era um anjo que perdoava. Um dia lhe atravessaram a alma com a acusação de desonestidade. Ele teve vontade de escalpelar, mas segurou a onda para esperar a melhor oportunidade. Foram quase dez anos de vigília. Até que um dia surgiu a chance e ele não precisou pensar muito para o ataque avassalador, desmoralizante. Deixou registrado para sempre que o outro não merecia nem um tapa, apesar de gostar de apanhar. Mais cruel foi gritar para todos que o time do inimigo (e ele sabia que a paixão era doentia) não merecia um torcedor como ele.

faço

De Paulo Leminski

   aqui
faço
   o que todo mundo
faz
   o que faço
tanto faz

O Professor Apaixonado Nilton Cesar


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Aula de pecado

O comportamento das espécies mamíferas pode ser avaliado pela tábua de logarítimos através do acelerador das partículas que desembocam na foz do rio São Francisco. Ela poderia ter dito isso, mas dava uma aula de religião como professora substituta do noivo, que estava doente. Alguém deveria proibi-la de transitar pelos corredores entre as carteiras dos meninos. Usava um vestido que certamente foi costurado no corpo dela, de tão justo. E tinha uma bunda que era um monumento à todos os pensamentos eróticos daqueles meninos que ainda estudavam o primeiro grau. Um mais ousado colocou espelhinho no sapato para ver a calcinha da mestra enquanto ela falava sobre orações e a Bíblia. Nunca contou que cor era. O delírio não terminava com a campainha do fim da aula. Todos tinham que procurar a sala da matéria seguinte. Ela saía primeiro, com toda a garotada hipnotizada naquela dança infernal de nádegas. Não, aqueles cinquenta minutos não eram uma aula de religião. Eram de pecado mais que consentido. Um dia, sumiu, para ficar para sempre.

S.O.S.

De Paulo Leminski

   não houve sim que eu dissesse
que não fosse o começo
   de um esse o esse

Urubu Malandro Altamiro Carrilho


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Flora Purin, Airto Moreira e Nanã de Moacir Santos


3x4

De repente ele olhou para a foto 3x4 que estava ali na mesa há anos (décadas?) e notou que a imagem estava quase que totalmente apagada. Quem seria aquele vulto? Quando descobriu o pequeno pedaço de papel fotográfico com uma tênue figura impressa, não teve muito interesse. Trabalhava com os olhos grudados em palavras de livros ou naquelas que produzia. Não era escritor. Nem jornalista. Nem doutor em alguma coisa. Era alguém que, imaginava se interessar pela alma humana e seus mistérios. Com o passar dos dias, entretanto, ele começou a olhar mais, a manusear a foto, colocar uma lupa em cima e a forçar a memória. Não lembrava nem de como ela tinha ido parar ali e o motivo do desprezo. Um dia recebeu uma visita e revelou o que se passava. Nem dormir direito conseguia. A outra pessoa pediu para ver a pequena foto, que ele já guardava numa gaveta da escrivaninha com medo de que a luz acabasse por apagar a imagem totalmente. Foi então que ouviu: "Sou eu, pai!"

piedras e poemas

De Paulo Leminski

en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas

terça-feira, 23 de julho de 2013

Djavan Pétala


na chuva

De Paulo Leminski

beija
flor
na chuva

gota
alguma
derruba

Olho aberto

Olhou para o olho sem vida, mas o azul cristalino continuava o mesmo. Então começou a falar com o dono do olho, o esquerdo, que estava aberto. Era uma conversa guardada durante toda uma vida, só que agora havia uma morte. Falou com todo o carinho que poderia dar ao dono daquele olho, daquele corpo estendido no granito frio de uma sala no fundo do hospital. O corpo deitado estava nu. O corpo em pé estava com a alma desnudada. Conversou como uma criança sentada no colo do pai. Livre. E ele sabia que o dono do olho estava ouvindo, porque aquela era uma declaração guardada desde o nascimento do que estava em pé. Uma declaração que o que estava deitado também queria fazer e nunca conseguiu. Os dois eram iguais. A diferença era a cor dos olhos. A do que estava em pé era verde. Tinha outra pessoa naquele espaço. Não falou nada. Olhava de vez em quando o filho fazendo um carinho na cabeça do pai e falando com a doçura dos anjos. Ele ouviu a declaração de amor, assim como aquele que tinha um olho aberto e que depois foi fechado e beijado.

domingo, 21 de julho de 2013

Domingo

Hoje é domingo,
pé de cachimbo...
o cachimbo é de ouro...
bate no touro...
o touro é valente...
bate na gente
...a gente é fraco...
e cai no buraco...
o buraco é fundo...
acabou-se o mundo!

sábado, 20 de julho de 2013

A Marvada Pinga de Inezita Barroso


ovo de novo

De Paulo Leminski

o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo

Calibre 12

Não tenho nada com isso. Uma arma está apontada para meus olhos. De dentro pra fora. Me obriga a escrever qualquer coisa. Um sílaba basta. Ela então é desengatilhada. Mas as balas estão lá, esperando o vacilo, para que haja a detonação se as palavras, ou melhor, as letras não forem impressas em qualquer superfície. Não sei como surgiram a necessidade e a escopeta imaginária. Mas existem e não há como me livrar delas. Ainda bem!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Edu Lobo e Hermeto Pascoal no Trenzinho Caipira


enxuga e examina

De Paulo Leminski

enxuga aí

vê se enxerga

essa lágrima
eu deixei cair

examina

examina bem

vê se não é
água da pedra
ouro da mina
essa gotadágua

minha
obra-prima

Neve e sonho

Guardou a neve no congelador para mostrar aos netos. Morreu de frio na rua e numa noite qualquer em Curitiba. Tinha perdido tudo depois que a mulher foi embora com o homem do carro do sonho.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sabor hortelã

Um não sempre foi facada a cortar o fio do equilíbrio. E a queda abrupta nunca foi suave. Chutes, socos, palavrões e a certeza de que todos conhecem a brecha onde é fácil furar e sangrar a alma. Melhor o sim? Pois sim! Melhor o nada alimentado pelas próprias neuroses e incertezas. Mas o não interno é mais difícil, porque simplesmente não se sabe a origem. Depois dessa tontura causada pela cara amassada no chão de cimento, um chicle de bola mascado e a tentativa de lacrar a fenda na armadura. Sabor hortelã, por favor.

Bananeira de João Donato


vão

De Paulo Leminski

vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer
entre parceiros

vãs
todas as coisas que vão

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Nostradamus Eduardo Dusek


eu mesmo

De Paulo Leminski

mesmo
na idade
de virar
eu mesmo

ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo

Viagem à cidade dos mocorongos

Recebeu a bolsa. Pesada. Colocou no bagageiro do ônibus. Destino: Santarém. Terra dos mocorongos. Um senhor que não abriu a boca durante os dias de viagem sentou ao lado. Com uma mala. Colocada entre os dois. Não reclamou. Não sabia o que o fizera aceitar aquela aventura. Um desconhecido. Uma proposta. E ele foi, mesmo porque precisava sair dali, daquela cidade, daquelas pessoas, daquilo tudo que o esmagava. Quase não comeu. Quase não dormiu. Olhava a paisagem, as casas, os animais, as pessoas, tudo como se fossem imagens projetadas em névoa. Desembarcou na rodoviária no meio de uma madrugada quente. Desceu, pegou a mala e foi a pé ao endereço que mandaram decorar. Nada de papel escrito. Era um hotel cuja escada, de madeira, estava torta, com partes podres, ameaçando despencar. Subiu ouvindo o ranger das tábuas. Foi ao quarto indicado. Bateu à porta. Quando abriu notou que a pessoa que o esperava era a mesma que lhe tinha feito a encomenda. Entregou a bolsa. O outro disse que não precisava mais. Pediu que abrisse. Ele abriu. Havia muito dinheiro. Ele podia ficar com tudo, disse o estranho. Perguntou se era dinheiro sujo. Não, respondeu o outro. Dusse que só queria saber se ainda havia gente de confiança no mundo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ultraje a Rigor Filha da Puta


Uirapuru

Então eu assobiava o canto do uirapuru que ouvia sempre na abertura de um programa de rádio. Não. Ela dizia que não era daquele jeito e assobiava do jeito dela. E isso ficou bonito porque, embora um não concordasse com o outro, no meio da vida, no meio do nada, em qualquer lugar, na rua, na chuva, na fazenda, um começava e o outro emendava, ou remendava. O disco do ornitólogo famoso estava à distância de um braço. Mas... para que ouvir e terminar com aquele dueto incompreensível e compreensível? Foi assim que, numa manhã de inverno, ao raiar do dia, ouviu-se o canto do pássaro. Não as sabiás ou bem-te-vis ou quero-quero ou canários da terra que sempre faziam espetáculo. Era aquele! Os dois então ficaram em silêncio ouvindo um canto mágico e bem diferente do que tentavam imitar.

dai-me

De Paulo Leminski

dia
dai-me
a sabedoria de caetano
nunca ler jornais
a loucura de glauber
ter sempre uma cabeça cortada a mais
a fúria do décio
nunca fazer versinhos normais

sexta-feira, 12 de julho de 2013

são não

De Paulo Leminski

são não

   não são
são não
   rogai por nós
para que não
   sejamos senão

A longa jornada

Qual o sentido? Nascer, foder, morrer. A essência da vida, segundo não sei quem. Mas, e o resto? A longa jornada em busca do nada. Mais uma boleta, por favor! Quero descer do trem, mas tenho medo do atropelamento. Medo, medo, medo. Saído da proteção da barriga materna direto para o precipício com lâminas nas pedras. Dói. Às vezes um pássaro canta, mas é só um canto. Ilusão. Dentes quebrados. E o corpo aguentando tudo, assim como a alma. Pra que? Qual o sentido?

Nubia Lafayette em Devolvi


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Geraldo Vandré Pra não dizer que não falei de flores


vento

De Paulo Leminski


meiodia       três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores

Margarida

Os olhos dele irradiavam pavor. O cano da arma estava apontada para o meu peito. Ele, fardado e espremido entre centenas de colegas da tropa. Eu, de camiseta branca, a velha calça Lee, tênis surrado e uma vontade imensa de gritar contra. O que? Importava? A flor estava na mão porque os mais ousados carregavam flores para oferecer ao inimigo da hora. Era uma margarida que roubei no caminho até o ponto de encontro. Tinha um caule grande - e eu queria colocar naquele cano de fuzil. O dedo dele estava no gatilho. Eu não tinha medo de nada naqueles anos loucos. Então fiz o gesto de enfiar aquela flor naquela arma de fogo. Fogo! Ele disparou e eu não vi mais nada. Fui jogado para trás com o impacto do tiro à queima-roupa. Isso me contaram depois que descobri que a bala só varou um músculo. Também soube que o menino que apertou o gatilho foi promovido e que a nossa passeata em defesa de ser contra acabou naquela hora. Foi pouco depois de eu descobrir que ele estava apavorado. E ninguém soube dizer onde foi parar a margarida.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Turíbio Santos e o Prelúdio nº1 de Heitor Villa Lobos


Poema da redenção

Escreveu, escreveu e escreveu até os dedos sangrarem. Esgotou a alma e o pensamento em busca do poema. Mas não era poeta. Escrevia, lia, rasgava o papel e jogava-o no chão ao lado da mesa no porão úmido e sombrio. Quase não comia. Quase não via a luz do dia. Perdeu a noção do tempo. Não falava com mais ninguém. Obcecado pela busca interna, imaginava que algo aconteceria para guiar seus dedos e os traços a desenhar letras. Era a salvação que procurava. Queria sair do inferno ainda em vida. Mas nada acontecia. Só sangue, tormento e uma montanha de papeis amassados. Se um dia escrevesse aquele poema, faria três cópias e enviaria aos três filhos que teve na vida. Mas o texto teria de ter a força capaz dele receber o perdão. O perdão pelo que não foi.

Lendas

De Paulo Leminski

lendas vindas
das terras lindas
de orientes findos


me façam feliz
feito esta vida não faz

terça-feira, 9 de julho de 2013

Zé de Velha, Silvério Pontes e Oito Batutas


nuvens

De Paulo Leminski

nuvens brancas
passam
            em brancas nuves

Caporal Amarelinho

A fórmula estava escrita dentro da embalagem antiga do maço de cigarro. Caporal Amarelinho. O nome como sinfonia. Ele guardava centenas de marcas. Lembrança do tempo em que saía em excursões procurando os tesouros pelas ruas. Às vezes um muito amassado não era possível salvar para a coleção. Mas hoje, velhinho, ele abriu o baú e foi rever suas relíquias. E esse ele fez questão de desdobrar. Estava lá o caminho, a passagem. Indicava que bastaria um só movimento, que ele fez imediatamente. Aí tudo se inverteu. E o passado se transformou em futuro. E ele começou a vivenciá-lo. A partir do momento em que achou aquele Caporal. Descobriu então que não era a mesma coisa. Não era mais criança. Não existia o encanto. Quis  desvirar tudo. Não pode. Ficou mais triste e sozinho. Fechou os olhos para não morrer.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Cascabulho na Rua do Hospício


olinda wischral

De Paulo Leminski

   pessoas deviam pode evaporar
quando quisessem
   não deixar por aí
lembranças pedaços carcaças
   gotas de sangue caveiras esqueletos
e esses apertos no coração
   que não me deixam dormir

Olhos de assassino

Na beira do rio, no meio da floresta, o estranho deu a senha. Olhos de assassino. E eu ali me arrastando nas trevas da doença da alma, tentando ver beleza no que era belo e de força absurda. Aquilo ficou gravado como se fosse um código, que poderia ser acessado a qualquer hora, para deflagar o desconhecido. Os contos de Rubem Fonseca vieram apenas completar. Ele sabia! Ele sabia! A necessidade de ceifar vidas desconhecidas para não ter remorso. Apenas ceifar, como um deus ou um diabo vestido de ser humano. Os olhos do assassino tomaram conta numa noite qualquer, de tédio, de televisão jogando lixo na cara, de comida gelada, de café requentado, de ninguém para conversar, de saco cheio de tudo. Quando voltei para casa, o coração aos pulos, tinha feito, mas não sabia direito o quê. Lembrava do barulho do tiro e do movimento de me virar rápido e sair correndo na rua escura e deserta. Quem foi? Quem seria? Nada. Lawrence da Arábia na cena em que diz ter gostado de matar. Os olhos de assassino voltaram no dia seguinte para ver a cena. Não havia marcas. Ninguém tinha ouvido nada. Os jornais e rádios também não noticiaram. Comecei a desconfiar que tinha entrada em delírio. Ou talvez que tenha disparado contra minha própria cabeça.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sol e trevas

De Paulo Leminski

   Sete e dez.
Aqui jaz o sol.
   sombra a meus pés.

   Trevas.
Que mais pode ler
   um poeta que se preza?

Acalanto de Rildo Hora


Arsenal e Ave Maria

Nos fundos da igreja, desativada para se transformar em museu, há uma escada que leva ao arsenal. Armas brancas e armas de fogo expostas em vitrines fáceis de serem estouradas. Os olhos brilharam com tudo aquilo. O punhal enorme de um cangaceiro. Papo amarelo pronta para cuspir repetidamente balas calibre 45. Parabelo, Luger, fuzis, metralhadoras. Uma ponto cinquenta é capaz de cortar um corpo humano pelo meio. A revolução delirante poderia sair de dentro da nave abençoada pelos santos e Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas... quem há de? De volta à realidade, a via sacra nas paredes acompanha a saída. O sol na cabeça. Um óculos escuro. Mãos nos bolsos. Ao longe bate o sino de outra igreja. Ave Maria.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Universo no Teu Corpo de Taiguara


Sufoco

De Paulo Leminski

   o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
   agora, apenas um sopro

   ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
   e socos

Identidade

Identidade. A maioria fala que tem uma. Não tenho nem o documento, aquele do RG. Esqueci embaixo de um balcão de boteco na avenida São João, longe da esquina com a Ipiranga. A madrugada merecia sempre um trago, depois outro, depois outro, para enfrentar a distância até o navio negreiro, ônibus a transportar os farrapos humanos para as quebradas do mundaréu. Identidade como, se o DNA é mais misturado que  a gororoba que vai na marmita amassada? Brasileiro, sim, porque a mistura é das boas, começando pela marginália importada de Portugal no começo de tudo. O estupro, portanto, era inevitável,  e daí tudo e todos fomos saindo no grande parto. Então se criaram as grandes ratazanas, os anjos, os idiotas, os gênios, a nação. E eu, sempre pronto para a abordagem policial e as algemas para algemar as algemas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

passam

De Paulo Leminski

nuvens brancas
passam
          em brancas nuvens

Conteúdo

A luta para ficar longe da máquina, para não se entregar às redes, é injusta. Tanto que um desses moleques que vendem produtos, sabem tudo, veio perguntar se eu não queria que muita gente conhecesse o conteúdo que produzo. Tive que apelar. O único conteúdo que produzo muito bem e não quero que ninguém compartilhe é bosta.

Silvio Cesar Moço Velho