quarta-feira, 29 de abril de 2015

mais velha

De Helena Kolody

a morte desgoverna a vida
hoje sou mais velha
que meu pai


Tonico e Tinoco Chico Mineiro


Um vulto que surge no fundo do olho do caranguejo amputado

Ele foi criado dentro do ralo ao lado das mesas do necrotério onde se faziam as autópsias. Se alimentava de pedaços de seres humanos que para lá escorriam. Quando estava grande e gordo, foi comido com todo gosto por um dos vigias do local que ali o colocou para isso mesmo. Ele leu essa história há anos numa reportagem da revista Realidade e ficou pensando no bicho. Imaginou até o que seria dele se um dia escapasse pelas ruas do Rio de Janeiro, onde o fato aconteceu. Anos depois, visitando um paraíso ecológico 400 quilômetros dentro do Atlântico, ficou paralisado ao ver aquele que via só na imaginação. Estava encimado em pedras vulcânicas negras, suas cores eram fortes e mexia apenas os dois olhos que pareciam saltar daquela carapaça. Notou que uma das pernas dele desaparecera, amputada. Foi então que se aproximou e viu: um vulto em pé no fundo de um dos olhos do caranguejo. Forçou a visão e ali estava o homem que tratou da criatura que depois o alimentou.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Elza Soares Mas que Nada


Canivete

Olhou a vitrine e finalmente encontrou o que procurava desde o filme Juventude Transviada. O canivete automático estava lá, mas este tinha lâmina muito maior do que aquele da briga em que James Dean conseguiu derrotar o portador da lâmina/morte. Mais: o cabo era de madrepérola e isso o destacava num espaço cercado por uma quantidade enorme de armas brancas - ali era mesmo a Casa das Facas. Comprou e guardou. Não sabia para quê. De vez em quando apertava o botão para acompanhar o movimento rápido do aço e tentava ver o brilho tão descrito nos romances policiais. Olhava com carinho a arma. Um dia saiu às pressas ao ser chamado por um dos filhos que estava em situação de perigo, ameaçado por um vizinho maluco. Levou a arma no bolso da jaqueta. Chegou e foi confrontado. Puxou, apertou o botão e a falha aconteceu. A lâmina imóvel. Apertou de novo. Nada. O inimigo olhou aquilo e começou a rir. Ele também. O filho não entendeu nada. O perigo sumiu no ar. A arma voltou para o bolso. Uma maçã apareceu na mão de uma vizinha. Ele apertou o botão. Funcionou! Ele cortou a fruta ao meio e ofereceu ao adversário.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

caminhos

De Paulo Leminski

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando


Mestre Ambrósio Fuá na Casa do Cabral


No bairro nobre

Um dia parou o carro naquela rua do bairro nobre para matar uma curiosidade de anos. Entrou na porta aberta da minúscula e velha mercearia. Pediu um quilo de café. A atendente era uma senhora de quase 80 anos, cabelos brancos desgrenhados, vestido colorido, poucos dentes na boca. Mesmo assim ela sorriu e ele fez o pedido. Ela disse que ia verificar se tinha ou não. Ele olhou as prateleiras quase vazias, o balcão do tempo em que Ney Braga era capitão do Exército, as várias garrafas de cachaça barata se destacando na paisagem. Ela disse que trabalhava ali há meio século, desde o tempo em que só existia mato só em volta - e o povo era pobre e comprava para pagar no final do mês o que foi anotado na caderneta. O marido morreu, ela ficou com o comércio e a casinha dos fundos, separada daquele espaço apenas por uma porta atrás de uma cortina surrada. Ele pagou o último pacote de café que ali existia e perguntou se ela abria a venda todos os dias. Ela respondeu que sim, porque era a única diversão da sua vida . Disse também que ficava sempre feliz quando os aposentados entravam ali para beber e jogar conversa fora. Revelou, porém, que um por um foram morrendo. Ele ficou triste por ela, mas feliz por finalmente conhecer um pouco da história daquele pedaço da cidade.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sintonia para pressa e presságio

De Paulo Leminski

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Milionário, Zé Rico Último Julgamento


O retorno

Nasceu com dúvidas. Tanto que teve de ser tirado a fórceps porque não saía da barriga da mãe depois de 11 meses de gestação. O médico jurou que um dia ouviu o bebê dizer que não sabia se ficava ou ia para o mundo. As marcas do ferro ficaram na moleira. Isso aumentou sua timidez e o seu "não sei". Demorou 12 anos para decidir andar. Na verdade, tinha medo - e isso, muitos anos mais tarde, ele descobriu que era herança de uma parente que se encantou com os olhos de um holandês, mas na hora do "vamu vê", que não tem tradução para a língua dos invasores de Pernambuco, ela se assustou com o tamanho do que se lhe era apresentado. O fato é que o descendente desta conjunção carnal também tinha olhos claros, mas nada da audácia do invasor - e sim o pânico da invadida. Passou parte da vida assim - e isso agravou a indecisão. Perdeu a virgindade com 42 anos porque lhe deram um porre de jurubeba e o jogaram nas mãos de uma prostituta especializada em desvirginar adolescentes. Ele gostou, apesar de não lembrar de nada. Foi assim que se apaixonou por uma galega que um dia viu passar num ônibus lotado e a encontrou dias depois na banca da xepa do fim da feira. Marcaram casório rápido. Foi o erro. No dia do sim ele não disse nada. Saiu correndo do altar e foi até a casa da mãe, que estava muito doente. Deitou no colo dela. Enfiou o dedão na boca e pediu o paninho para cheirar. Deram. A mãe sorriu e morreu naquela hora. Tinha o filho de volta.

terça-feira, 14 de abril de 2015

nuvens

De Paulo Leminski


nuvens brancas
passam
em brancas nuvens

3 x 4

Guardou todas as cadernetas escolares dos tempo do ginásio e colegial. Eram assim que os cursos se chamavam nos anos 60 e 70. Estudou em escola pública porque era pobre. Muitos anos depois foi olhar as notas daquelas matérias todas. Havia apenas um dez nos vários anos de estudo. Lembrou muito bem porque a professora de Geografia, por algum motivo, errou na avaliação da prova. A nota deveria ser bem menor. Mas ele ficou quieto - e nunca comemorou aquela glória. Havia notas vermelhas, abaixo de cinco, mas isso não interessava muito. O que lhe aguçou a alma foi ver as fotos 3x4 de identificação - e as mudanças que revelavam ano a ano. Do cabelo, da roupa que usava, do formato do rosto. Nunca sorriu par ao clique. Por isso os lábios finos um dia o fizeram ganhar o apelido de "boca de carteira". Ele, velho, sorriu ao lembrar. Quarenta anos depois se considerou um menino bonito, não aquele monstro que se via no espelho e que não conseguia se declarar para a paixão do momento. Guardou tudo na pasta antiga. Deitou com ela apertada sobre o peito e dormiu. Tanto tempo...

Jerry Adriani Doce Doce Amor


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Farelo de pão

De Bernardo Pellegrini


Farelo de pão
resto de almoço
moeda perdida
em algum bolso


Baby Consuelo Barrados na Disneylândia


O olho

Achou a câmera para computador numa caixa de papelão jogada na esquina da rua onde mora. No meio de tralhas velhas, ela o olhou. Tinha mesmo o formato de um olho - e se mexia como tal. Levou para o escritório de casa. Instalou em cima da tela, conectou, ligou. Ficou esperando e nada aconteceu - até que viu um botão ali em cima do que, imaginava, era a lente. Uma raio de luz quase o cegou. Na tela começou a aparecer imagens desconectadas, mas numa velocidade alucinante. Eram rostos, cenas de ruas, mendigos sendo queimados, assaltos, casamentos, aniversários, bailes de debutantes, tudo, tudo misturado numa espécie de alucinação que o fez ficar paralisado. Ele conseguiu desligar o olho, mas aquilo tudo  ficou na mente - e continuou a passar na sua memória. Naquela noite ele não dormiu. No dia seguinte voltou ao computador e ligou a coisa. Fez isso de forma automática, atendendo a uma ordem que não ouvia. De novo o raio, só que agora as cenas eram em câmera lenta e de paisagens vistas de cima. Era como se estivesse vendo uma nova versão do filme Fernão Capelo Gaivota. Ele gostou tanto que passou o dia inteiro viajando por paisagens jamais presenciadas em filmes, documentários ou livros. Não dormiu de novo. Voltou ao olho. Dessa vez, ao apertar o botão, a bala saiu, entrou pela testa e abriu um rombo na nuca. Ao acordar estava cercado de familiares. Perguntou se estava vivo. Disseram que tinha desmaiado repentinamente. Ele levantou e foi direto ao computador. O olho estava lá. Não o ligou nem na hora nem nunca mais, principalmente porque o viu piscar marotamente.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Inimigo do futebol

De Dalton Trevisan

O inimigo de futebol:

— O meu amor pela Fifi é maior que o amor pelo Brasil.

A doce pequinesa que sofre dos nervos com a guerra da buzina, corneta, bombinha, foguete.

A carta

O envelope estava no fundo da casinha de metal. Bordas com as cores da bandeira, como nos velhos tempos. Ele o tirou de lá porque há muito tempo que não recebia correspondência alguma, afinal, era uma espécie de fugitivo de familiares e amigos. Resolveu se isolar - e pronto. Seu nome estava lá, escrito com esferográfica azul. Do outro lado, nada - apenas aquele retângulo em branco. Ele carregou a carta com a mão direita e sentiu que dentro havia apenas uma folha de papel. Colocou a correspondência em cima da mesa e ficou olhando-a por um tempo. Deixou-a ali, na mesa rústica de madeira, e sempre que passava perto, olhava. Só isso, mais nada. Quando fazia as refeições, também, mas, por algum motivo, nunca a tocava. Foi assim durante uns dez anos. O papel amareleceu e o envelope nunca saiu do lugar. Até o dia em que ele se sentiu mal, com falta de ar e muita tontura. Ao se recuperar, foi lá e abriu a carta. No papel apenas uma palavra estava escrita: parabéns.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

CAÇADOR E VÍTIMA

De Miguel Sanches Neto



Escrever é caçar caranguejos
à maneira do guaximim.
Enfiando o rabo no buraco
onde se aloja  o crustáceo,
ele espera que este o morda
como suas impiedosas tesouras
para sacar logo em seguida
a presa cravada em sua cauda.
O próximo passo é saboreá-la
— a memória da dor em carne viva.

Enquanto espera, o guaximim chora,
sofrendo de antemão a investida.
Caçador e vítima, é sua própria isca.
Contorcendo-se nesta emboscada,
o sabor e a cicatriz ele preliba
— a água na boca é a mesma das lágrimas.

Joel Nascimento, Cesar Faria e Doce de Coco


Na telinha

A mensagem ninguém viu, mas ele leu e ficou daquele jeito, paralisado, com a telinha do aparelho celular perto do rosto. Parecia uma dessas estátuas humanas das ruas de qualquer grande cidade. No começo achavam que era uma brincadeira, mas a mulher e os filhos começaram a desconfiar que não pois ele ficou bem diante da outra tela, a da tv digital de 60 polegadas  - que ninguém podia ver direito por causa daquele estorvo. Aconteceu quando ele estava saindo cedinho para o trabalho e sua companheira de 30 anos só foi pedir ajuda depois do Jornal Nacional, ou seja, quando começou a telenovela em seus capítulos decisivos. Petrificado estava, de olhos abertos, respiração e pulsos normais. Tentaram tirá-lo dali, a mulher com um olho nele e outro no galã recuperando a mocinha - mas não teve bombeiro, médico, ninguém que conseguisse. Pensaram em chamar um guindaste, mas não havia como entrar na sala do sobrado. Na madrugada, quando todos, cansados, foram dormir, a telinha do aparelho acendeu novamente e uma nova mensagem o fez voltar ao normal. Lá estava escrito: ninguém te ama.

terça-feira, 7 de abril de 2015

mentira

De Paulo Leminski

Essa idéia 
ninguém me tira 
matéria é mentira.

Vanusa Manhãs de Setembro


Urubus

Era apaixonado por urubus. Para ele, os mais belos pássaros do céu. Silhuetas imponentes a planar como reis. Misteriosos por não se saber nem ver como morrem. A capa do disco Urubu, de Tom Jobim, virou um painel do tamanho de uma parede na sala da casa dele. Aprendeu a voar de planador só para ser guiado por eles na descoberta das correntes quentes de sustentação. Fotografava-os no ar e na terra -  e a carapaça que têm ele comparava a elmos medievais. Também via o trabalho que faziam na limpeza da terra. Não gostava do termo carniça que muita gente usava para dizer do que seus amigos se alimentavam. Rebatia afirmando que os humanos também comiam animais mortos - e de todos os tipos. Foi por isso que resolveu atrair seus pássaros para casa. Fez uma caixa em cima do telhado onde jogava bichos e ficava ali, no jardim, esperando a chegada. A vizinhança começou a se incomodar. Com os urubus e o mau cheiro. Depois descobriram que ele matava animais da rua mesmo. Foi preso. Ficou feliz. Da sua cela podia ver um lixão próximo. E eles, às centenas.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Na esquina marcada

Parecia invisível, apesar de ficar o dia inteiro sentado no peitoril de uma vidraça enorme de um banco na esquina principal da cidade grande. Talvez o olhar perdido fizesse isso. Talvez as marcas de lobotomia. Ninguém olhava, ninguém reparava a presença. Ele olhava, ele reparava. Ninguém sabia onde dormia, mas não era na rua. Suas roupas sempre eram impecavelmente limpas e ele vestia sempre terno cinza e camisa branca sem gravata. Os sapatos brilhavam muito sob a luz do sol. As meias eram finas e pretas. Da multidão que passava perto, ele marcava algumas. Com a mente. Era o início da sua missão. Nos finais de semana, quando o movimento naquela esquina diminuía drasticamente, ele rodava a cidade e sempre ia na direção certa dos "marcados". O ritual, então, se repetia. Não havia agressão, violência, nada. Ao encontrar essas pessoas ele apenas se postava à frente e elas eram obrigadas a olhar para os olhos dele. Aí, acontecia: elas se tornavam honestas.

ameixas

De Paulo Leminski

ameixas
ame-as
ou deixe-as

Wanderley Cardoso O Bom Rapaz


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Musas

De Roberto Prado

anos a fio dando ouvidos
a deuses muito discretos

amigas, amigos, amiguinhos
se sou mero objeto de meus afetos
quem é aquilo sozinho que vai
tropeçando em meus versinhos?

Jamelão Ela disse-me Assim


Carregador de livros

Os livros estavam empilhados numa estante dentro da garagem que virou depósito de tranqueiras. Eram muitos. Além destes, havia caixas e caixas de papelão cheias que foram parar ali quando ele se mudou para aquela casa já ocupada. Deixou-os quietos, mas foi comprando mais e lendo os novos no seu velho estilo de quatro, cinco, seis simultaneamente, com a exceção dos grandes ídolos. Sim, ele era macaco de auditório de alguns escritores, como o Fonseca, o Chandler, o Roth, o King, o Capote, o Wolfe, o Talese, o Castro, por aí. Esses ele pegava e devorava sem dar atenção a nenhum outro. E fazia isso na cama, no banheiro, na sala, no escritório, etc. Com o tempo foi esquecendo os da garagem, até que conseguiu um espaço para acomodar todos com o carinho devido. Abriu o espaço sombrio e passou a transportar seu tesouro antigo. À medida que ia empilhando os exemplares junto ao corpo, começou a sentir algo diferente, só identificado na terceira viagem. O contato deles o fazia recordar em ritmo acelerado tudo o que já tinha lido. Recebeu uma overdose de literatura com ingredientes de vários gêneros. Quando terminou tudo, descansou com a certeza de que sua vida e seu vocabulário tinham ficado muito mais enriquecidos.