quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Angela Ro Ro Amor Meu Grande Amor


Musas

De Roberto Prado

anos a fio dando ouvidos
a deuses muito discretos

amigos, amigas, amiguinhos
se sou mero objeto de meus afetos
quem é aquilo sozinho que vai
tropeçando em meus versinhos

A hora certa

Uma vez um amigo lhe disse que, às vezes, é melhor não fazer a fotografia daquilo que a alma pede, mesmo com a câmera na mão. Alguns momentos são para guardar na memória, na alma, no coração. Pensou nisso antes e durante a viagem por lugares que só via em filmes, em fotos, ou descritos nos livros que consumia vorazmente. Mas eram tantos, no curto espaço de tempo permitido pelo dinheiro, que, ao final de cada dia, anotava numa pequena caderneta o que tinha a ver com ele, o que lhe abria as portas da emoção. Voltou para casa e colocou o caderno em cima de uma estante. Nunca mais abriu. Sabia que ali estavam grafadas as palavras que iriam reabrir lugares, coisas, gentes, mas numa outra dimensão - que nem imaginava. Deixou ali, porque também tinha suas teorias, como a do amigo. Para ele, a hora certa chegaria. Ou não. Mas isso era outra história.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Luiz Melodia Pérola Negra


espelho

De Paulo Leminski

acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

Divorciado da realidade

Andava meio perdido na calçada e se deu conta de que a porta da igreja estava aberta. Parou. Viu então o padre de barbas longas e corcunda acentuada. Pensou que era uma benção divina. Perguntou se poderia se confessar. Não fazia isso há décadas. O velhinho olhou para ele e quis saber seu estado civil. Ele tinha perdido a conta de casamentos desfeitos, mas lembrou que, oficialmente, havia um papel que o carimbava oficialmente como divorciado. Era assim que preenchia aquelas papeladas que pedem este tipo de informação. O padre disse que ele não poderia contar os pecados, muito menos comungar no dia seguinte. Lei da igreja. Ele perguntou se, por causa disso, iria queimar eternamente no inferno, já que vivia em outro aqui na Terra. O padre não gostou da pergunta - virou as costas e sumiu na escuridão da nave. Ele ficou parado ali, sob o sol, e imaginou outra cena. Nela dizia ao sacerdote que, sim, era casado no Civil e na igreja; entraria para contar os pecados e o primeiro seria o da mentira. Tinha mentido para poder confessar. Começou a rir da situação e descobriu que o cinza sumira da alma. Sorrindo, entrou numa padaria e comprou um sorvete. Chicabom.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mosca

De Dalton Trevisan

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

Sá, Rodrix e Guarabira Sobradinho


Cinto muito

Cinto muito. Cinto tudo. Cinto. Ele ganhou de um amigo. Há muitos e muitos anos. Nunca mais quis saber de outro. Pensou nisso recentemente, quando foi tirar a bermuda junto com a cueca, de uma vez, sem desafivelá-lo. Não foi muito difícil. Barrigudo, a vestimenta estava no pé da barriga, como falam os nordestinos. Ele então olhou para o cinto, de uma marca de skatistas, coisa que nunca foi e nunca será, mesmo porque chegou aos 70 anos e dá graças a Deus estar vivo. A tira de couro que era preta, perdeu a cor, ficou meio fora do prumo, pedaços das linhas do pesponto penduradas. O cinto da preferência aguentou tudo - e nunca foi tirado para bater em inimigos, apesar de ele ter vontade de fazer isso. No guarda-roupa, pendurados, vários que ele comprou neste tempo. Nunca foram usados. Achava que seria uma traição para com aquele velho companheiro. Então ele desafivelou e o tirou das garras dos passadores da bermuda. Fi com ele entre as mãos, olhando enternecido o companheiro. Saiu dali e mandou mensagens para os filhos. A ordem era para que o cinto estivesse junto na hora da cremação.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Desgoverno

De Helena Kolody

A morte desgoverna a vida.
Hoje sou mais velha
que meu pai.

Garlos Galhardo Mais uma Valsa, mais uma Saudade


Na paisagem

A mulher gritou, a filha nasceu, um pássaro voou, ele chorou. Lavou o rosto na água fria do balde. O coração estava aos pulos porque era a primeira herdeira. Ele olhou o pé de manga centenário ao lado da casa. Cachos da fruta ainda verde faziam ele sentir o gosto da fruta. Um bezerro mamava na vaca no cercado. Mais adiante os pés de mandioca denunciavam a hora próxima da colheita. Fim de tarde. A parteira apareceu na porta e perguntou se ele não ia ver a filha. Gritou que ela era saudável e a mãe estava bem. Os olhos marejaram. Ele tomou coragem e foi ver a menina. Mas antes um pé de vento fez um lençol branco quase alçar voo no varal atrás da casa humilde. Foi lá tirá-lo. Viu então o bichinho verde. Gafanhoto lindo parecendo folha estilizada. Estava grudado no pano branco. O vento passou. Ele deixou tudo lá. Entrou com o nome da menina na boca. Olhou para a mulher, para a menina, pegou-a no colo e disse: "Esperança".

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

de colchão

De Paulo Leminski

De colchão em colchão
Chego à conclusão
Meu lar é no chão

Camisa de Vênus Deus me dê Grana


De dentro da jaula

Tá olhando o que? Nunca viu um macaco? Você é eu ontem, coisa feia. Pensa que é inteligente. Pois sim! O que está fazendo com o nosso Planeta? Não o do filme, aquela besteira que só os idiotas dos americanos poderiam inventar. Planeta Terra, onde ainda existem algumas regiões que não foram destruídas pela voracidade de vocês, bichos pelados e vestidos. Idolatram carros, vê se pode? Se matam em acidentes, ficam horas parados em engarrafamentos adorando as tranqueiras que os outros palermas vendem como "tecnologia embarcada", poluem tudo - e ainda olham felizes o monte de lata com um motor dentro quando vêem a propaganda na tv. Aí, pensam: "Eu tenho um desses!" E riem! Imbecis! Meu transporte era o cipó. Era. Um dia fui preso por vocês e me jogaram aqui para eu ser apreciado como se fosse um palhaço ou, quem sabe, uma aberração da natureza. Por isso, quando me enche o saco, jogo merda em quem estiver na frente da jaula. E não me olhem com pena! Quem tem que ter pena aqui sou eu. Cambada!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

o sol

De Marcos Prado
      o sol  
      do outro lado 
      da cidade parecia 
      iluminar 
      a china
      simples: 
      abri 
      a cortina

Nonsense

Nonsense. Ele não sabia direito que diabo era aquilo, mas gostou do som. De súbito, lhe veio o complemento que poderia ser... Ah, dane-se. Tascou no caderno espiral onde anotava essas coisas vindas não se sabe de onde: Nonsense. Não Pense. Faça. Virou a página, deixou ali em cima da cama, olhou um poster de Hendrix, colocou Alberta Hunter em vinil na vitrola, saiu para tomar um gole de água do filtro de barro na caneca de alumínio, abriu a porta de trás, viu o quintal com o mato tomando conta de tudo, sorriu por dentro, de felicidade, voltou, olhou o caderno de novo. Nonsense. Foi a um dicionário: Expressão, linguagem ou situação ilógica, absurda, desprovida de sentido ou de coerência. Riu de novo. Agora sabia. Então, fez: apagou tudo.

Baden Powell Tristeza