terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cascatinha e Inhana Índia


Encontro

Ele encontrou na menina loira os mesmos medos sem explicação. E compartilharam sem trocar uma palavra sobre isso. Ele tem a foto da primeira comunhão dela. Anjo dentro da nave, vela acesa e um rosto iluminado por ser assim mesmo. Inteligência faiscante e muito mais rápida do que o mais rápido dos computadores que ainda não inventaram. Se encontraram através de outro encontro. Ela ficou na dela e ele na dele, mas juntos pelo silêncio do entendimento. Quando trocavam palavras, eram definitivas, porque um sabia o que o outro sabia - e a isso se chama amor. Até pelo mesmo time eram apaixonados. E ele, cansado de tantos jogos na vida, ficava esperando a torcedora voltar dos estádios para lhe resumir em uma linha o que foi a partida. E como ela entendia deste mistério chamado futebol! Quando a arte do jogo jogado pelo time dos dois aparecia, de forma rara, ela não esperava ser procurada para contar. Procurava-o no entusiamo do coração pulsando de alegria pelo melhor do universo. Ele a olhava e tinha mais coragem de enfrentar demônios antigos e novos. Um dia chorou bem baixinho porque ela teria de ir até ali e voltar só um tempo depois. Um oceano de mar azul os separaria. Um infinito de situações e sentimentos os uniriam mais. Ele então abriu as asas do coração e seguiu antes, para aquele canto do outro lado do mundo. Continuou protegendo-a. E não precisou declarar. Porque sabia que ela sabia, pois foram feitos para o encontro no silêncio da vida.

teu riso

De Paulo Leminski

teu riso
diz sim
teu riso
satistaz

enquanto o sol
que imita teu riso
não sai

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Cabaço

Cabaço. Ouviu pela primeira vez enquanto carpia mato na roça. Cabaço. O que seria aquilo? O masculino da cabaça? Essa ele conhecia naquele fim de mundo. Bebia água nela. Tomava banho com ela. Metade dela, aliás. Um dia, com uma inteira, deu na cabeça de um desafeto que ficou falando mal da roupa que ele usava, só por causa dos buracos na calça e porque a camisa que um dia foi branca estava encardida. Pobre ele sabia que era. Só não sabia o que era cabaço. Não perguntou para o pai, que era fechado; nem para a mãe, pois podia ser que aquela palavra sonora fosse de porcaria, como se dizia ali. Cabaço ficou na cabeça. Nas noites estreladas ele ficava sentado no banquinho do lado de fora do casebre, encostado na parede de barro, olhando todo aquele universo, mas achava que o cabaço era muito mais misterioso. Até que um dia, muito tempo depois, soube. Porque a mulher que amava lhe contou. E ele entendeu que era apenas uma palavra com sonoridade suficiente para atravessar séculos fazendo estragos.

Leny Andrade O mundo é um Moinho


eremita

De Paulo Leminski

   Esta vida de eremita
é, às vezes, bem vazia.
   Às vezes, tem visita.
Às vezes, apenas esfria.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Camisa de Vênus Deus me dê Grana


dentro e fora

De Paulo Leminski

   lá dentro
o que é que tem
   que aqui fora
não tem ninguém?

A luz no fim da estrada

No divã ele ouviu a história atentamente. O viajante estava numa daquelas estradas retas como a Belém-Brasília. A noite se aproximava e, de repente, pneu furado. Ele foi trocar e... cadê o macaco? Não estava ali. Olhou para os lados, para frente, para trás e, até perder de vista, nada. Não passava carro e não havia nenhuma construção. Com a escuridão se aproximando, viu o que poderia ser uma luzinha lá na linha do horizonte, ao lado da rodovia. Trancou o carro e foi andando naquela direção. No caminho, porém, péssimos pensamentos tomaram conta. Uma casa no meio do nada? Poderia ser esconderijo de bandidos ou algo parecido. A cada passo, aumentava o pavor, enquanto a luz se definia - e era mesmo de uma casa perdida no nada. O medo não o fez parar. Mas os demônios se apoderaram totalmente da sua cabeça. Tanto que, ao bater na porta e se deparar com uma pessoa que não tinha nada que aparentasse ser do mal, ele desabafou: "E quer saber de uma coisa? Enfia esse macaco no cu!". Ao ouvir o fim da história, sabia do que se tratava, mas, depois de pensar um pouco, perguntou para a terapeuta: "E se a luz estivesse apagada naquela casa?"

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pelo telefone

Vinte anos depois abriu o baú. Ali guardava todos os cartões de visita que recebera durante a vida profissional. Pacientemente começou a tentar entrar em contato com aqueles nomes. Tinha um telefone antigo, preto, pesado, de discar. Mantinha o costume de fazer isso com um lápis ainda a ser apontado. Não lembrava quando começou a colecionar os tais. Mas sabia que nunca havia telefonado antes para seus portadores. Achava-os chatos de galocha. Pessoas que incomodavam e que tinham prazer em passar a coisa como se aquilo aumentasse a própria importância, o status, o poder. Agora ele queria falar algo, mas não sabia o quê. Demorou dias, meses nessa tarefa. Não conseguiu falar com ninguém. No último número, uma secretária eletrônica atendeu. Mas a gravação não dizia a quem pertencia aquele telefone. Ele rasgou o cartão, fechou o baú e chorou sozinho na sala da casa que ficava no alto de uma colina sem árvores.

espelho

De Paulo Leminski

   acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
   meu sonho virar pesadelo

Prezadíssimo Ouvintes Itamar Assumpção


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Chico Science Banditismo


elo e duelo

De Paulo Leminski

             veloz
como a própria voz
             elo e duelo
        entre eu e ela
virando e revirando nós

Rango

Com o macarrão ele forrou o prato. Bem forrado. Depois jogou o feijão preto em cima e a massa sumiu na escuridão. Aí a abobrinha compareceu dando o tom verde à instalação. O dono do prato segurava-o com a mão esquerda e ia colocando as camadas com a eficiência de um artista. A quirela ele espalhou. Com o arroz ele exagerou e alguns grãos foram ao chão. Ele pisou e esfregou. Nada de salada. Foi para a mesa e ficou esperando o bifão que pousou ali como uma nave, uma coroa de rei. Aí, aconteceu. Com uma técnica absurda, ele conseguiu revirar e misturar tudo sem deixar cair nada. Fez mais! A cada garfada engolida (ele não mastigava), revirava tudo de volta - sempre no mesmo sentido, partindo do lado mais próximo do seu peito e escorando a massaroca com o garfo. O bife aparecia e desaparecia, mas ia diminuindo porque, depois da garfada, ele cortava um pedação e comia. Não bebeu nada. Ao final, limpou a boca com barra da camiseta puída, prato limpinho à frente, e foi ao balcão pagar. Nove reais pelo rango.