terça-feira, 14 de julho de 2015

A Cor do Som Beleza Pura


Leila na madrugada

Ela olhou do alto da banca de revista e soltou um palavrão. Gamei! Comprei o jornal onde aparecia com uma toalha enrolada na cabeça e um roupão cobrindo o corpão. Nunca mais nos separamos. Mesmo depois da explosão do avião em que estava junto com Agostinho dos Santos. Será que ele cantou só para ela, com aquela voz doce que entra e não sai mais da alma? Musa é musa – e por isso nunca tive inveja dos seus incontáveis homens. Porque Leila Diniz era todas as mulheres do mundo. Ela que foi professora de profissão e da escola da vida. Quando abri os olhos no meio da madrugada e apertei o botão para a tela acender, estava lá um filme com o nome dela – não com ela. Quase chorei de raiva, porque não se faz um lixo como aquele, supostamente para contar a história dela, onde, para começar, o corpo da atriz protagonista era uma tábua de passar roupa – e os coadjuvantes imbecis com roupas imbecis e falando imbecilidades. Desliguei, mas antes vi o final que era mais patético e retumbante do que o resto. Então, no escuro, ela apareceu com aquele sorriso, a voz acariciante e os olhos cujo brilho dizia: “Eles não sabem o que fazem”.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Na lua

De Helena Kolody

Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
falando às estrelas

Nelson Gonçalves Caminhemos


Dentro d''água

Ouviu dizer que, ao contrair uma gripe muito forte, a pessoa entra num estado como se estivesse por muito tempo com a cabeça dentro d'água. Tirou o termômetro do sovaco, olhou o mercúrio nos 40 graus, tossiu - e uma bola de catarro amarelo saiu do seu peito, atravessou a boca e foi parar num guardanapo de papel que tinha no criado mudo. Duas marretas batiam nas têmporas. A nuca espetada por uma adaga. Arrastou os pés e levou o corpo até o banheiro. Encheu a banheira com água morna. Entrou de roupa e tudo. Olhou o teto, fechou as narinas com o indicador e o dedão da mão direita. Afundou. Ficou até o pulmão arder. Quase explodiu. Tirou os dedos, a água entrou pelos dois buracos e depois pelo túnel da boca. Não sufocou. Achou estranho. Os olhos confirmaram que estava mesmo coberto pela água. Então apareceram pessoas conhecidas sorrindo. Ele sorriu também. Depois o céu em frente a uma casa que conheceu nos arredores de Londres. Aí vieram as montanhas em Palm Springs, o K2, o Kilimanjaro, o Fuji. Uma casinha em Arembepe, o mar de cana no interior do Brasil, uma passista de escola de samba, o Zé Trindade pulando de lado, Dick Farney e João Gilberto cantando, o salto do Morato visto de baixo... Tossiu. Sentiu-se afogado. Pulou para fora da água. Tirou a roupa. Se enxugou. Não sentia mais nenhuma dor.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Na batida do pandeiro

A prima batia no pandeiro, o pai dela girava o afoxé, um amigo dedilhava o violão de doze cordas e o líder empunhava o cavaquinho com um sorriso que iluminava o quintal. Chorinho. Era assim, todo sábado, no final da tarde. Eles se reuniam ali e descia tudo lá não se sabe de onde, porque ali Valdir Azevedo e Jacob do Bandolim não eram inimigos. Vai ver que era a presença de São Pixinguinha. Vai ver. O menino ficava encostado numa parede, dedo na boca, e lembrava de algumas músicas que escutava na rádio-vitrola de olho mágico. Ao vivo era outra coisa. Ele sentia o som até no umbigo estufado, principalmente o arrancado do pandeiro. Foi o primeiro instrumento que gostou. Queria saber tocar. Compraram um pequeno para ele. Era uma bateção só. Um dia, num casamento bem longe dali, estava lá o conjunto, e ele queria tocar junto - com o seu pandeiro. Tanto fez que foram buscar em casa. Ele acha que tocou junto. Ninguém reclamou. Depois disso guardou-o e ficou o resto da vida ouvindo o som que tirou do couro naquela noite.

terça-feira, 7 de julho de 2015

gato e janela

De Alice Ruiz

janela que se abre
o gato não sabe
se vai ou voa

Antes e no tempo certo

Matei, sim. Foi consciente. Não foi violento, mas poderia ter sido. Num olhar, depois de um encontro sem querer na rua, me pediu. Pediu, não, implorou. Nunca vi olhos tão tristes. Sentamos para tomar um café no boteco sórdido. Só ouvi coisas maravilhosas de uma vida de realizações, de aprendizado constante, de viagens para lugares paradisíacos, de encontros com pessoas do bem. Mas o olhar do primeiro contato era um pedido. Havia dose suficiente em casa para dizimar uma manada de elefantes. Convidei para continuar a conversa. Fiz um chá decente, servi em porcelana chinesa. Aqueceu a alma e me olhou de novo como no primeiro contato. Fui até o armário, preparei a dose e quando voltei já tinha erguido a camisa do braço direito. Achei fácil a veia. Sou profissional. Injetei. Foi apagando com um sorriso beatificado. Tudo terminou rápido. Levei-o para uma praça bem arborizada. Ficou sentado num banco como se a admirar uma árvore centenária à sua frente. Ao retornar, chorei um pouco. Quando enxuguei as lágrimas, dei de cara com a fotografia que sempre amei. Dois olhos - e dentro deles o meu reflexo. Dois olhos que foram embora bem antes do tempo. E sem pedido.

Veronica Sabino Demais


segunda-feira, 6 de julho de 2015

Teu nome

De Paulo Leminski

A noite - enorme
Tudo dorme
Menos teu nome


Zezé Gonzaga Falando de Amor


Ilusão e guerra no céu

Foi a coisa mais linda surgida no céu da vila e também a mais destruidora. No tempo certo de soltar papagaio (lá a gente chamava de quadrado), a brincadeira era a mais ingênua e infantil possível, pois a graça era confeccionar os tais com papel de seda e varinhas de bambu, fazer um rabo de pano, comprar carretel de linha e colocá-los no ar. Ficavam lá sustentados pelo vento e colorindo tudo - cada criança encantada com o que tinha ao comando. Então, surgiu. Obra dos adolescentes baianos, filhos do único dentista da redondeza. O deles parecia com o nosso "lata de óleo", mas a construção era diferente. Na folha recortada em forma de retângulo, colavam duas cascas de bambu verde e a rabiola era feita de pedaços de algodão que iam decrescendo de tamanho e, ali, no final, amarravam lâminas de gilette - e toda nossa turma descobriu isso tarde demais. Obrinquedinho deles parecia uma serpente no ar, que ia para a esquerda, direita ou "desbicava" rebolando em mergulho ao comando da linha sobre o dedo indicador. Eles cortaram a linha de todos, durante vários dias - e lá ia o sonho dos ingênuos flanando sem amarras e sem destino até cair em lugares desconhecidos. Ninguém fez mais "quadrados" durante um tempo. Até um foi passar férias no Rio de Janeiro e de lá trouxe várias pipas e o segredo do cerol cortante, a mistura de cola e vidro moído que se passava na linha para as batalhas. A moda pegou, os baianos não levantaram mais vôos e o que era doce ilusão se transformou em guerra constante nos ares.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Choro e fortuna

Olhou algo e começou a choramingar. A mãe não entendeu. Ele não parou. E apontou o dedo. Para a tv. Era um pudim. A mãe não sabia como reverter a situação. Tentou de tudo. Colocou-o no colo, fez cafuné, andou pela casa. Nada. Ele não berrava. Choramingava. Por algum motivo ela lhe deu dinheiro. Cédula dourada. Ele parou com o choro na hora. Pegou o papel e ficou olhando. Só largou quando dormiu de braços e mãos abertas no berço. Sem querer descobriu a fórmula. Tanto que a mãe guardava as notas mais novas para ele. E guardava depois numa caixinha que deixou perto do berço, depois no criado mudo ao lado da cabeceira da cama. Quando cresceu, antes de dormir, ele olhava a quantidade de dinheiro que tinha acumulado. Não gastava nada. Aperfeiçoou o choramingo. Desenvolveu uma técnica. Às vezes bastava fazer um olhar desconsolado para ganhar algo. Expandiu o universo de doadores. Adolescente já tinha mais dinheiro que o pai. Virou empresário. Arrancava tudo dos donos do poder. Milionário, não se divertia, não comprava nada que não revertesse em mais dinheiro. Não casou para não ter herdeiros. Tratava os empregados a pontapés. Achava que todos choravam pitangas para conseguir mais salário e benefícios. Morreu assim. Ninguém derramou uma única lágrima em sua lápide, de mármore cinza, cor que ele mais gostava - a cor de seu cofre.

samambaia

De Alice Ruiz

som alto
vento na varanda
a samambaia samba

Sergio Murilo Broto Legal


quarta-feira, 1 de julho de 2015

no buraco

De Paulo Leminski

debruçado num buraco
vendo o vazio
ir e vir




Cartola Peito Vazio O Sol Nascerá


No escuro

Perdeu o show da Tina Turner e a visão - tudo ao mesmo tempo agora. Tinha comprado ingresso, viajou mais de mil quilômetros, mas antes de ver a energia negra de pernas luminosas, e bem antes de ver o marido que a espancava depois de cheirar cordas de coca, antes ele foi visitar um amigo na casa do litoral. E foi aí que se perdeu. Talvez tenha sido a carga de adrenalina recebida num passeio de moto - e sem capacete, mas a verdade é que saiu da garupa e entrou numa garrafa de cachaça que o tirou do compasso do tempo. Depois derrubou outra e mais outra... quando acordou, sabe-se lá quanto tempo depois, não estava enxergando nada. Gritou que estava cego, mas ninguém o ouviu. Sozinho, não tinha noção do espaço onde estava. A canela bateu em algo e a dor foi lancinante. Foi tateando tudo e descobriu um quarto. Achou a porta e, ao girar a maçaneta, tomou um banho de estrelas no céu, ao mesmo tempo que sentia a brisa do mar. O coração disparou e a lembrança voltou, como a visão. Tina Turner, àquela altura, cantava Acid Queem num estádio de futebol muito distante. Ele sentou na areia da praia e chorou. De alegria e tristeza.