quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Surto

Me convenceram. Sou candidato. Não tenho um puto de tostão furado. Disseram que isso faz parte da estratégia. Para enganar os que estão em situação igual. Eles vão votar em mim, garantiram. Me convenceram porque acreditam que sou honesto. Caso raro. Precisam ter mais gente para que o partido a consiga o que quer. O que? Fazer o bem para o povo, me disseram. Mas quando ouvi isso, todos na minha frente estavam olhando para o chão. Teve gente que se virou. Acho que riam. Passaram uns dias e um jornalista veio me entrevistar. Foi a primeira vez na minha vida. Eu disse que não sabia o que faria caso fosse eleito. O mané deu uma risadinha, como se soubesse de tudo. Vi minha cara na tv durante a campanha. Uma vez só. Fui um dos mais votados. Eleito, foi aquela badalação dos donos do partido. Já falavam dos planos para mim, do que eu poderia ganhar falando em nome dos durangos. Renunciei antes de assumir o mandato. Ninguém entendeu. Expliquei - e não acreditaram. Quando aceitei o convite, estava em surto psicótico. Depois, passou.

a voz

De Sérgio Rubens Sossélla

a vozque disse
no princípio era o verbo
transferiu-se do gênesis
e me espera no apocalipse
(minhas mãos vazias que o digam)

Sergio Reis Coração de Papel


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

um bom poema

De Paulo Leminski

um bom poema leva anos 
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha, 
sete levando porrada, 
quatro andando sozinho, 
três mudando de cidade, 
dez trocando de assunto, 
uma eternidade, eu e você, 
caminhando junto

Telefone

Que doce ingenuidade era dele! Achava que era só entrar numa loja e comprar um aparelho de telefone e, pronto, podia falar com o mundo. Nunca fez isso, mesmo porque tinha medo das modernidades e, pelo que lhe falavam, o telefone custava os olhos da cara. Nunca teve um automóvel, apesar de ter passado um período de bonança nos negócios. Como dirigir uma geringonça daquela? Era do tempo do lampião a gás. Mais que isso: de onde veio, quando a noite caía, a lamparina era quem iluminava. Por isso, nunca esquecia as noites de lua cheia no sítio, pois tudo ficava como se dia fosse. Foi embora antes que a revolução dos computadores tomasse conta do mundo. Sim, ainda pegou a expansão da rede telefônica e, lá para onde voltou, nos grotões do fim do mundo, instalaram um aparelho onde podia falar com os filhos que estavam a léguas de distância. Não era de muito papo, e sempre meio desconfiado, mesmo porque quase não gastou nada para ter o aparelho falador que era da cor cinza. Um dia recebeu um telefonema de um parente da Europa. Não acreditou que aquilo era possível. No que fez bem. O outro queria uma grana emprestada.

Rita Lee Ovelha Negra


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ó, céus

De Roberto Prado



nenhum pio
nada de nuvens
não há azul

ó, céus!, que são tantos,
que cada um tem o seu
e ainda tem quem não veja
quando a gente cai do céu

Miau

Sou do tempo do seja o que deus quiser ou, num melhor tradução, foda-se o mundo porque não me chamo raimundo. Quando descobri que o mundo tinha um acelerador só pra mim, pisei até o fim – e dá-lhe postes pela frente para desviar ou se esborrachar. Podia sair da casa dos pais com mochila nas costas e cantando Sá, Rodrix e Guarabira. A outra opção era casando. Fiz a mais tresloucada. Com pouco mais de vinte anos já era pai, depois vieram mais dois filhos e nunca os avós receberam um pedido de socorro, mesmo porque não concordavam com a primeira patuscada e eram pobres. Vida que segue. Hoje todos as crianças são adultas e, como diziam antigamente, com orgulho, formados. Mas… cadê meus netos? Essa moçada parece encruada. Sabem tudo de internet e o caralho a quatro, agora caçam pokemons e eu pergunto se dá para fritar o bicho pra gente comer. Eles riem na minha cara, porque sou um velho dinossauro. A que teria mais chances de me dar o “filho com açúcar”, a mais nova, não sei porque cargas d’água é a mais equilibrada e ajuizada da tropa. E o que ela fez? Cria duas gatinhas que eu já chamo de netas. Miau!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Murrasco

Murrasco. A palavra veio no meio de uma conversa - mas só na minha cabeça. Não soube o motivo e não sabia o significado. Passei quase 24 horas encafifado. Claro que procurei no gugol e nos dicionários tradicionais. Nada. No meio da madrugada ouvi uma voz. Era da minha mãe: "Onde você esteve, peste, que está com esse cheiro de murrasco?" Seria o que o cheiro? Mais alguns dias com aquilo martelando e lá vem de novo minha mãe, que deus a tenha, falando em fogueira, em fumaça. Era isso! Aquele cheiro que fica impregnado até na alma se ficamos perto de uma fogueira ou mesmo churrasqueira fumacenta. Murrasco! Então pensei nas festas de fim de semana dos bacanas de Brasília, onde carnes nobres são servidas, etc. Os poderosos se entopem de comida - e os pobres empregados ficam com o murrasco. Assim é.

a sério?

De Paulo Leminski

rio do mistério
que seria de mim
se me levassem a sério?

Milton Nascimento Maria Maria


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Hora da cobrança

A fatura do corpo um dia aparece. É a cobrança. Ela veio com a idade, exatamente quando ele achava que estava numa fase esplendorosa. Tinha passado por tudo na época em que se achava imortal. E não é que era mesmo! Experimentou todas as drogas lícitas e ilícitas e o máximo que ficou marcado no corpo foi uma cicatriz no meio da testa - porque acertou um poste durante uma apagamento de bebedeira. Sobrevivente, espantou a todos por virar um careta que só tomava água. Até que um dia... Acordou estranho, corpo ardendo em febre. O primeiro espirro foi tão forte que quase uma ponte-móvel voou boca afora. No segundo, escorreu aquela nata do nariz. Ele chamou a mulher e pediu um papel para escrever o testamento. Ela disse para se acalmar, afinal, aquilo era apenas uma gripe. Ele não ouviu. Pediu que telefonasse para um amigo dono de hospital. Queria reservar uma UTI.

Por um lindésimo de segundo

De Paulo Leminski


tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se todas as coisas
fossem todas
afinal das contas

Agnaldo Rayol Onde Estará Meu Amor

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

No paraíso

Uma pequena enseada com areia fina e branquinha, uma montanha protegendo-a - e esta coberta por um manto de mata explodindo de verde. Olhei e pensei no quanto tinha esperado pelo momento. Viajei anos, comi o pão que o diabo amassou, sobrevivi a tudo, inclusive tentativa de assassinato. Fui atrás porque a cidade grande caiu sobre minha alma num dia em que acordei e vi que não havia cor no céu. Sem família, sobrevivendo de um trabalho escravo que me esgotava os nervos e rendia apenas para a comida mínima e o aluguel da pensão, o que poderia me impedir? Família eu não conhecia desde que nasci. Fui e, agora, estou aqui, num canto desconhecido do Brasil. Sentei e depois deixei meu corpo cair na areia. Ouvia só o barulho do mar e o canto de alguns pássaros. De repente me cutucam. Era um sujeito estranho, de óculos escuros e chapéu de abas largas. Ele pediu para que eu me retirasse dali. Isso mesmo! Nem perguntei por quê. Ele avisou que a praia tinha sido alugada para que gravassem um comercial de cerveja. Saí correndo. Agora não sei mais para onde ir.

VÔO

de Nelson Capucho

não existe sorte
azar não existe

tudo é risco
arrisque

leão de zôo
tem os olhos tristes

                  

Tim Maia Gostava Tanto de Você


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Estrela no olho

De Paulo Leminski

A noite me pinga
uma estrela no olho
e passa.

João Gilberto Desafinado


Colonoscopia

Seria o fim? O médico examinou e balançou a cabeça negativamente. Não mentiu. Disse que estava preocupado com aquela barriga grande e dura. Pediu todos os exames possíveis, mas o que encafifou o paciente foi a tal de colonoscopia. Ok, ele tinha relatado o aparecimento de sangramento, mas nunca tinha feito tal prospecção, apesar de já ter quase 70 anos. Fez os outros, mas ficou preocupado com aquele, apesar de muita gente que já tinha se submetido ao tal ter tentado lhe acalmar. Ele sabia que seria anestesiado e só voltaria depois de tudo terminado. O medo dele eram as fotos do seu interior. A preparação para tal exame foi um martírio. Ele acha que colocou a alma para fora na véspera. Fez a coisa, o resultado saiu na hora. Olhou as fotos, horríveis, mas leu que estava tudo dentro da normalidade. Ao voltar para casa, com uma médica da família que o acompanhou no dia de céu azul e sol forte, de repente falou, do nada, enquanto esperavam o sinal abrir para seguir caminho: “No fim de tudo o fim prevalece”.