quinta-feira, 28 de julho de 2016
quarta-feira, 27 de julho de 2016
O primeiro
Tinha um caderninho fechado com um elástico. Pequeno. Guardava longe da vista dos familiares. Mas alguns tinham notado e, com o tempo, foi crescendo o mistério sobre o que estava escrito naquelas páginas - que não eram muitas. De vez em quando ele olhava para o objeto. Mas não abria. Deixava da mesma maneira que trouxe de uma longa viagem além oceano. Era um observador, uma espécie de retratista de cenas, situações, locais. Talvez ali tivesse anotado o que mais lhe falou à alma na longa travessia que fez sozinho pela primeira vez por aqueles países distantes - e que ele só conhecia por flashes em filmes. Ficou velho, doente - e ninguém se atrevia a perguntar o que estava escrito nas pequenas páginas e o que queria fazer com ele. Perto da morte, pediu a um dos filhos que o caderno fosse cremado junto. Determinou até o bolso em que fosse colocado. O herdeiro então se atreveu a questionar o que havia naquelas páginas. O velho respondeu que era seu primeiro livro.
CAÇADOR E VÍTIMA
De Miguel Sanches Neto
Escrever é caçar caranguejos
à maneira do guaximim.
Enfiando o rabo no buraco
onde se aloja o crustáceo,
ele espera que este o morda
como suas impiedosas tesouras
para sacar logo em seguida
a presa cravada em sua cauda.
O próximo passo é saboreá-la
— a memória da dor em carne viva.
Enquanto espera, o guaximim chora,
sofrendo de antemão a investida.
Caçador e vítima, é sua própria isca.
Contorcendo-se nesta emboscada,
o sabor e a cicatriz ele preliba
— a água na boca é a mesma das lágrimas.
Escrever é caçar caranguejos
à maneira do guaximim.
Enfiando o rabo no buraco
onde se aloja o crustáceo,
ele espera que este o morda
como suas impiedosas tesouras
para sacar logo em seguida
a presa cravada em sua cauda.
O próximo passo é saboreá-la
— a memória da dor em carne viva.
Enquanto espera, o guaximim chora,
sofrendo de antemão a investida.
Caçador e vítima, é sua própria isca.
Contorcendo-se nesta emboscada,
o sabor e a cicatriz ele preliba
— a água na boca é a mesma das lágrimas.
terça-feira, 26 de julho de 2016
No açougue
Um dia fizeram a pergunta tradicional: o que você quer ser quando crescer? O menino não pestanejou e respondeu na bucha: açougueiro. De onde tinha tirado aquilo, os pais nem imaginavam. Mas ele, sim, porque ficava encantado com tudo o que acontecia no açougue onde a mãe comprava o bife nosso de cada dia. Via alguns parrudos descarregando dos caminhões frigoríficos peças enormes nas costas, camisetas manchadas de sangue e o pedaço do bicho com uma pata só apontando para o céu. E quando o açougueiro cortava a peça de coxão mole com a destreza de um cirurgião... Ele entrava em êxtase acompanhando o fio da faca partindo a carne - e os bifes descansando uns sobre os outros antes da hora inesquecível de o profissional pegá-los com a mão para pesar e embrulhar. Ele relembrava tudo na hora de comer - e, claro, sempre pedia o seu pedaço de carne mal passado. Outra lembrança era a carne sendo moída e saindo dilacerada pelos orifícios da máquina trituradora. Assim cresceu. Bem que tentou transformar em realidade o sonho. Não deu. Trabalha numa floricultura. Cuida das orquídeas. As mais lindas da cidade.
Aviso aos náufragos
De Paulo Leminski
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Acaba?
De Paulo Leminski
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
No pântano
O pântano fétido. Nada perto. Atolado até a cintura ele tentava caminhar. Bichos comiam o que de pele estava exposto. O olhar duro mirava algo adiante – e ele seguia adiante, com uma determinação pouco comum para alguém mimado e criado em cidade grande. Lá estava ela, agora mais perto. Uma única flor branca naquele pedaço feio, fantasmagórico. Chegou lá depois de muitos e muitos dias. Nem lembrava mais porque entrou ali, sozinho. Lhe veio a expressão “sozinho e Deus”. Sentiu o perfume, inebriante. Foi tocar uma pétala – estancou. Embaixo havia uma caixa de madeira bem trabalhada. Pegou e abriu. Um pergaminho bem conservado lhe fez a revelação. Ele começou a chorar ao mesmo tempo que uma chuva forte começou a cair. Todo o esforço para aquilo? Como voltar para a cidade? Tentou rasgar o documento. Não conseguiu. Então, leu de novo: “O homem criou os deuses para ser filho deles e esconder a verdadeira imagem destrutiva e maligna”. Ficou por lá mesmo. Ninguém foi procurá-lo.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
quinta-feira, 21 de julho de 2016
arrepio lancinante
De Dalton Trevisan
Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu da boca.
Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu da boca.
Aurora
Fui ao planetário, fiquei olhando para o teto e mostraram lá a aurora boreal. Explicaram o fenômeno, mas nem liguei. Fiquei encantado e com vontade de ver ao vivo, lá nos confins, onde a Terra faz a curva. Saí dali crente que conseguiria realizar o sonho de menino, 12 anos, a vida sendo ainda um mistério de fantasia. Esqueci, fui sendo atropelado pela realidade, trabalho em caixa de banco, dinheiro contado, nada - nem de viagem até a praia dos farofeiros. Até que um dia a Aurora veio até meu guichê. Alta, tranquila, vestido estampado mostrando cintura de pilão. Ela abriu um sorriso tão esplendoroso ao dizer que queria depositar dez reais na conta, que eu perdi o rebolado. Fiquei pasmo. Só então perguntei o nome e ela disse Aurora, não Orora, como na música. Era mais que boreal, era o próprio universo concentrado naqueles olhos, no tom da voz. Perguntei o sobrenome e veio um Silva como se fosse da mais nobre das famílias europeias. Gamei. Ela deu o número de telefone e nunca mais nos desgrudamos. Aurora. Não preciso ir atrás. Durmo com uma toda noite.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Cansei
Pisquei e descobri que estava trabalhando há 45 anos. Sem parar. Feito um autômato que se alimentava do prazer do próprio ato do trabalho. Não vou dizer o que faço, apenas que é extenuante física e mentalmente. Pisquei de novo e me perguntei o que foi feito de minha vida durante todo esse tempo. Sim, tenho família, os filhos criados, casa de alto padrão, um apartamento na praia, um sítio, boa reserva financeira, essas coisas. Nunca curti. Quase não fui a estes lugares - e muito menos viajei. O trabalho. Pra que tudo isso? Meu corpo está em frangalhos. Outro dia que tive um piripaque no coracebo. Desmaiei. Bati com a cabeça na quina da mesa de trabalho. Sangue escorreu e melou o tapete. Quando acordei, a visão estava vermelha. Foi aí que pensei em tudo, assim, num piscar de olhos. Parei. Fui pra casa, tomei um banho bem quente, coloquei pijama limpinho e não o tirei mais. Cansei de cansar. Eu não tinha noção disso. Vou viver mais. Flanando.
Cruel
De Marcos Prado
Curitiba é uma cidade tão cruel com as pessoas que criam que não basta você ir para São Paulo e pro Rio e as pessoas te reconhecerem não...Você precisa morrer para as pessoas te reconhecerem!
terça-feira, 19 de julho de 2016
Templo
Guardei aquela folhinha. Faz muitos e muitos anos. Eu tinha acabado de pedir um bolinho de carne no boteco que era boteco, não essas imitações que só enganam os trouxas que pagam pela decoração retrô. Depois da primeira mordida, o molho de pimenta penetrando no interior do salgado, um gole de cerveja e... Estava ali, entre algumas garrafas empoeiradas. O templo, sem identificação, parecia todo feito em ouro. Pelo horário em que a foto foi feita, no final de uma tarde luminosa, só poderia mesmo hipnotizar. Chamei o dono do bar, pedi mais um bolinho, outra cerveja - e aquela imagem. Era antiga e, imaginei, não tinha ido para o lixo por causa da beleza. Guardei em casa no baú onde estão as coisas que marcaram minha retina. Outro dia tirei de lá. A parte de cima da foto estava rasgada, mas nada que comprometesse o templo. Olhei tudo com carinho, verifiquei se havia uma identificação. Não havia mesmo. Agora procuro na internet todos os monumentos indianos para ver se encontro este local de adoração. Se achar, assim que puder, vou pra lá. Porque assim é.
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