quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Mandacaru

O pai lhe entregou uma caixinha de madrepérola no leito de morte. Disse para ele só abrir passados dois anos do enterro. Obedeceu. Até imaginou ser alguma pedra preciosa, ou um bilhete com declaração de amor nunca foi feita. Não era nada daquilo. Um espinho grande estava acomodado sobre um veludo preto. Embaixo do pano, duas palavras: cegou Lampião. Lembrou da história que o velho sempre contava. O bandido/herói perdeu a visão de um olho por causa de um mandacaru na caatinga. Durante um tempo ele abria a caixa e olhava o espinho. Até que um dia teve uma ideia que não sabe de onde veio. Engoliu o tal acomodado dentro de um bombom Sonho de Valsa. Logo depois sentiu uma pontada. Imaginou que o espinho tenha se instalado em alguma parte do seu aparelho digestivo. Na primeira crise de raiva que teve, a dor naquele local foi imensa, parecia que estava sendo furado de dentro para fora por um punhal. E ele saiu quebrando o que lhe parecia ser inútil - de objetos a pessoas. Ficou assim durante anos, até que a dorzinha e a dorzona passaram. O espinho tinha ido embora. Pouco tempo depois a fossa da casa explodiu. 

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