segunda-feira, 15 de junho de 2015

Meu tio

Eu tenho um tio que poderia ter sido campeão mundial de boxe. Ele continua sendo um bloco monolítico de ossos e músculos com uma cabeça grande, pescoço curto, e uma força que derrubaria Rocky Marciano e aguentaria todo tipo de pancada. Ele não sabe disso. Trabalhou no batente pesado como quem vende algodão doce para crianças. Fez isso a vida toda, nunca reclamou, nunca foi visto triste, adorava caminhões e se sentia um felizardo ao ser escalado para carregá-los de mercadorias pesadas e perigosas. Tomava uma cachaça por dia, depois do expediente. A cara que ele fazia, quando a mardita descia goela abaixo, era digna de um quadro do Lucien Freud. Meu tio se aposentou e disse que ia passar uns dias na casa de uma irmã que morava nos cafundós do país. Saiu de casa, filhos criados, e quase não voltou mais. Achou que deveria curtir a vida adoidado depois dos sessenta. Tomava marafa o dia todo, andava pelas ruas da pequena cidade feito um desvalido, ria à toa e dizem que andava com algumas raparigas. Um dia os filhos lhe imploraram para voltar. Ele retornou para a antiga casa. Sua cama continuava no quarto separado, porque durante muitos anos foi assim, desde que as crianças eram crianças e ninguém sabe porque aconteceu a separação sob aquele teto. Agora ele tem quase cem anos e cuida das plantas do jardim, de um cachorrinho que parece um chaveiro para ele. Não pode beber mais, mas continua uma fortaleza. Toda vez que lhe perguntam como está, diz que com a cabeça entre as orelhas e em cima do pescoço. Meu tio é um campeão.

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