De Paulo Leminski
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Mangas do destino
Sempre que podia comprava mangas. Muitas. Se fossem fibrosas, melhor. O prazer não era tirar os fiapos que ficavam entre os dentes. O prazer também não eram os nacos da fruta que comia. O prazer estava na casca. Tinha um ritual que seguia sempre. Uma faca de prata cortava os lados carnudos da fruta. Ele então tirava o principal com os dedos, que ficavam lambuzados. Então, metia a boca no que sobrava colado à casca. Era nesse momento que sempre sentia a mesma coisa. Nunca falou para ninguém, mas ao fechar os olhos para saborear ainda mais o gosto, se via a milhares de quilômetros dali, embaixo de uma mangueira frondosa, ela sozinha no meio de um imenso terreno onde se via aqui e ali plantações de mandioca. O céu azul e o sol inclemente. A árvore tinha centenas de frutas, verdes, combinando com a cor das folhas. E ele via com a alma a presença de todos os antepassados naquela paisagem. Era o início do caminho. Assim, ele jamais iria esquecer. Porque jamais iria deixar de comprar mangas.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
tibagi
De Paulo Leminski
presa no tempo
a lua
lá
como se para sempre
o verde
ali
cumprindo seu dever
ser verde
até não mais poder
presa no tempo
a lua
lá
como se para sempre
o verde
ali
cumprindo seu dever
ser verde
até não mais poder
Assovio
Com um ano e meio ele começou a assoviar. Nem andava direito, mas começou a assoviar - e bem! Alguns acharam que era por causa dos lábios, carnudos. O pessoal da vila dizia que era por causa dos beiços, mas ele não sabia dessas coisas. Gostou do que ouviu saindo dele mesmo. E não parou nunca mais. Com cinco anos já estava num programa de auditório porque "tocava" Tico-Tico no Fubá e o Brasileirinho com a maior naturalidade, sem errar nota e sem sair do ritmo. Um empresário da cidade grande viu, telefonou e matou a charada: o menino estava pronto para ser uma estrela nacional> Não existia ninguém no país que fazia aquilo profissionalmente. No telefone ele falou de um tal de Willian Furnô (a mãe entendeu assim) um que, no tempo das candongas, era o rei no Brasil. Depois dele, nada. O menino começou a fazer sucesso e era até convidado para festas de milionários. Assoviava tudo. Ganhou dinheiro, foi roubado pelo empresário, mas continuou sua vida de artista até que um dia, na adolescência, conheceu uma princesa. Sua carreira promissora terminou no primeiro beijo. Nunca mais ele quis saber de assoviar.
domingo, 13 de outubro de 2013
sábado, 12 de outubro de 2013
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Borboleta não voa
Borboleta não voa. Ele ouviu este trecho de uma conversa numa linha cruzada. Estava encomendando um bolo para o aniversário do filho e as palavras atravessaram tudo. Ele desligou o telefone e não sabia mais se haveria festa para o guri de quatro anos. Borboleta não voa. Claro, faltava alguma coisa - o complemento ou o início. Como saber? Então ele ficou caçando borboletas na memória. Entraram até aquelas pregadas no prato para enganar turistas no Pão de Açúcar ou Cristo Redentor. A cena que tomou conta, entretanto, foi aquela do terreno baldio, deitado no mato, na brincadeira de esconde com a turma da rua, dia de sol... de repente, várias delas, pequenas, passando perto do seu rosto. Respiração presa e a mente hipnotizada por imagem tão fantástica, onde os galhos finos e a folhas pequenas do mato eram perfeitas como paisagem para o desfile delas. Ao pensar mais uma vez ele chegou a ver em câmera lenta. Então, veio o estalo. A frase só poderia ser: borboleta não voa, desfila no ar. Ele então sorriu e viu o filho mais belo e iluminado naquela véspera de aniversário.
johnny b. good
De Paulo Leminski
tem vezes que tenho vontade
de que nada mude
vou ver
mudar é tudo que pude
tem vezes que tenho vontade
de que nada mude
vou ver
mudar é tudo que pude
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Cimento
Dom Tomaso não era Dom Tomaso, apenas um cabra com cara amarrotada que vivia numa praia sossegada sem dar bandeira que era da Máfia e, pior que isso, dedo-duro, como veio a se comprovar anos mais tarde. O vizinho um dia recebeu a visita de um homenzinho discreto que lhe mostrou uma foto e disse-lhe o nome real daquele que todo dia saía para caminhar na areia antes de o sol nascer. Ele riu, riu, rolou de rir. Não acreditou na história e foi cuidar da vida, que era catar marisco e subir em coqueiro para ter o que comer e beber durante o dia e a noite. Um dia ele não resistiu ao ver Dom Tomaso, que para ele e todo mundo do vilarejo era o Giusepe, e erguntou então se ele tinha vagina no nome. Giusepe riu também e se recolheu à casa simples. De noite, quatro brutamontes entraram no quarto daquele vizinho, que tinha vergonha de falar Buscetta, e o levaram amarrado para um buraco que era a fundação de um prédio em construção muito distante dali. Um caminhão de concreto encostou e cobriu-o. Dom Tomaso apareceu e fez questão de misturar muito cimento em pouca areia para fazer o acabamento da obra.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Com fome nos olhos
Albino e de olhos azuis. Não usava óculos porque era impossível para um roedor das caatingas. O encontro parecia marcado pelo delírio imposto por um sol de derreter tudo. O outro, da espécie humana, tinha saído do Sul do país para realizar o sonho de percorrer os caminhos conhecidos de Lampião e o bando. Vestia roupa parecida, só não portava arma nem aquele chapéu enfeitado porque corria o risco de levar bala sem saber. No quinto dia da caminhada estava tão estropiado e morto de fome que amaldiçoou o dia em que encasquetou de realizar aquela loucura. Perdeu-se no tempo e no espaço. Teve sorte de não espetar o olho num espinho de mandacaru, como seu herói, mas furou a palma da mão direita e aquilo estava latejando por causa da inflamação. Jogou gibão de couro longe, as alpercatas cortaram a pele de seus pés e bolhas pipocaram na sola. Desmaiou e quando acordou viu o albino de olhos azuis. Ficaram se olhando por um tempo - e o calango não fugiu. O ronco da fome fez soar a cuíca no cérebro do aventureiro. Ele lembrou de uma famosa reportagem que mostrava um nordestino segurando aquele rato do mato como o motivo da sobrevivência. Pegou o bicho e já foi apertando o pescoço. Fez isso com tanta força que os olhos azuis saltaram das órbitas. A primeira dentada que deu foi só para arrancar a pele na parte onde ele achou que tinha mais carne. O sangue escorreu pela boca. Ainda estava quente. Ele gostou.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Sem jogo com a morte
Ninguém viu, mas ele estava lá fora do enquadramento da cena de O Sétimo Selo, do Bergman. Olhou o jogo de xadrez onde a morte tomava conta de tudo e saiu se arrastando para lavar o rosto no banheiro do cinema. Estava dentro ou fora? Ela, a morte, se apossou dele como uma obsessão tão profunda que nem ouviu o cineasta sueco gritar "corta" para guardar a cena na memória de todos que viram o filme. Se pudesse ele cortaria a árvore, aquela, mas preferiu sair pela avenida respirando o ar poluído da cidade grande. Foi para casa se arrastando e sentindo o fio da foice no gogó. Entregou os pontos para a vida, mas não tinha jogado o jogo - e aquela situação durou muito tempo. Um dia ele achou que tudo estava estranho demais por causa da participação dentro e fora de um filme. Ele não sabia mais o que fazer e resolveu tomar banho. Água muito quente. Ficou mais molenga. Lembrou então da história contada sobre um ator que mergulhava todo dia numa banheira com água e centenas de cubos de gelo. Não tinha banheira. Fechou a torneira de água quente, abriu a da fria. Viu então a morte sair de cena e se afogar num lago ali próximo do set de filmagem. Ganhou o jogo sem mexer uma única peça do tabuleiro.
a metro
De Paulo Leminski
das coisas
que eu fiz a mero
todos saberão
quantos quilômetros
são
aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não
das coisas
que eu fiz a mero
todos saberão
quantos quilômetros
são
aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não
domingo, 6 de outubro de 2013
Cinza azul brilhante
Depois tem o amanhã que pode não acontecer mas se acontecer será carregado de lembranças boas deste domingo cinza azul brilhante.
sábado, 5 de outubro de 2013
Pedido
Meus olhos cansados de sorrir pedem ao coração que não datilografe neste dia dedicado a esperar o domingo.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
feijão e arroz no céu
De Paulo Leminski
lá fora e no alto
o céu fazia
todas as estrelas que podia
na cozinha
debaixo da lâmpada
minha mãe escolhia
feijão e arroz
andrômeda para cá
altair para lá
sirius para cá
estrela dalva para lá
lá fora e no alto
o céu fazia
todas as estrelas que podia
na cozinha
debaixo da lâmpada
minha mãe escolhia
feijão e arroz
andrômeda para cá
altair para lá
sirius para cá
estrela dalva para lá
Cola
Cola ou não cola? Ouviu a interrogação no meio do caminho - e não sabia do que se tratava. Cola ou não cola? O carro tinha parado ao lado de outro no semáforo. Ele estava meio que caído no banco de trás. Vidro aberto. Olhava para o nada. Quando ouviu, o verde apareceu, o carro saiu cantando pneus, ele até se aprumou no banco, mas não conseguiu saber de que boca saíra a pergunta. Cola ou não cola? Poderia ser uma mentira a ser jogada no ouvido de alguém. Poderia ser a dúvida existencial sobre o método a ser usado para passar naquela prova infernal de fórmulas químicas. Poderia até ser alguém com a imagem sem cabeça de um santo na mão, pois ele caiu e ela voou longe. Cola ou não cola? Ele escorregou no banco e voltou para seus problemas. Pensou na vida que, naquele momento, não estava colando.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Na cadeira do dentista
Fechou os olhos, abriu o bocão e ficou esperando. Não, não era o barulho e o contato da broca. Ficou esperando o que o dentista iria falar. Sim, porque ele tinha esse costume de entabular um monólogo a partir do momento em que o paciente não podia mais fechar a boca. E fazia perguntas, jamais respondidas, obviamente. O que sempre abria a boca e deixava as calças para pagar a conta, porque o profissional ali é caro, resolveu adotar uma tática na consulta seguinte. Assim que entrou na sala, antes de sentar naquela cadeira que tem o desenho próprio para tortura, começou a falar sem parar, sem deixar o doutor responder, emendando assuntos, perguntando e respondendo ao mesmo tempo, enfim, uma metralhadora falatória que deixou o outro mudo. Depois, sentou,fechou os olhos, abriu o bocão, ouviu o som da broca, sentiu-a trabalhar e... não ouviu um "a" do dentista. Feliz da vida, foi para casa descansar. À noite, acordou com o dente latejando e com uma dor que jamais sentira em mais de 20 anos aos cuidados do doutor.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Na cara
De Paulo Leminski
Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
Só existe um segredo.
Tudo está na cara.
Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
Só existe um segredo.
Tudo está na cara.
Oxítonas
Nó
Dó
Jiló
Fiofó
Queria ser poeta, mas era viciado na oxítona por causa do nome da figura gramatical. Nos últimos tempos começou a lembrar das aulas do ginásio e do professor de português. Porque era um negão muito parecido com o Joaquim Barbosa. O nome, contudo, era mais pomposo: Herculano. Ele tirou a paranoia da língua, mas esqueceu de incentivar a leitura. Era um técnico muito bom, mas não tinha o dom de levar o povo a sambar no texto - e isso só seria possível com a leitura dos mestres da bateria da literatura universal. Herculano, sem querer, matou os poetas, estes que fazem parte de um outro mundo, pois exprimem os sentidos. Ele, o aluno, foi comer letras nos jornais, nas revistas e depois nos livros, cuja paixão veio de mansinho como a maré na madrugada. Gostou, mas nunca conseguiu escrever o poema que espantaria todos os demônios. Ó, que dó!
Dó
Jiló
Fiofó
Queria ser poeta, mas era viciado na oxítona por causa do nome da figura gramatical. Nos últimos tempos começou a lembrar das aulas do ginásio e do professor de português. Porque era um negão muito parecido com o Joaquim Barbosa. O nome, contudo, era mais pomposo: Herculano. Ele tirou a paranoia da língua, mas esqueceu de incentivar a leitura. Era um técnico muito bom, mas não tinha o dom de levar o povo a sambar no texto - e isso só seria possível com a leitura dos mestres da bateria da literatura universal. Herculano, sem querer, matou os poetas, estes que fazem parte de um outro mundo, pois exprimem os sentidos. Ele, o aluno, foi comer letras nos jornais, nas revistas e depois nos livros, cuja paixão veio de mansinho como a maré na madrugada. Gostou, mas nunca conseguiu escrever o poema que espantaria todos os demônios. Ó, que dó!
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Missão cumprida
Para ele não importava o que ia dentro. Mas sim o que ia fora. A bolsa, por exemplo. Tinha uma estrutura rígida e na imitação de couro não havia mancha alguma, por menor que fosse. Era enorme, como se servisse apenas para levar aquele objeto luminoso e retangular. Sim, luminoso, porque de alumínio tão areado, como se falava, que, se bobeasse, serviria de espelho. Os elásticos que mantinham o conteúdo protegido eram branquinhos e formavam uma figura geométrica. Não, ele não se importava com o que ia dentro. Ok, sempre tinha feijão, arroz e um bife pousado em cima. Em camadas. Na hora do almoço ele colocava no banho-maria e comia ali mesmo, olhando só para o que o garfo conseguia retirar de dentro. Não lavava o recipiente. Era serviço da mulher que cuidava do objeto como se ele fosse entrar no testamento para os filhos do casal. Ele não precisava falar que era preciso todo o cuidado. Ela sabia. Eles se falavam por silêncio e gestos. Um dia ele saiu da fábrica, depois de 20 anos de trabalho. Era operário. Guardou a bolsa no guarda-roupa. Lá dentro, quietinha, ficou a marmita - feliz por ter cumprido a missão.
não tem cura
De Paulo Leminski
leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Por dentro
O doutor apertou um botão do aparelho celular super-turbo-intercooler e na tela apareceu a coisa. Olhei, olhei - e não identifiquei. Ele contou que era um dedão do pé decepado e preso ao corpo só por uma parte da pele. A vítima tinha sido atingida por uma barra de ferro. O doutor mostrava aquilo com a impassibilidade dos médicos. Na foto seguinte o dedão estava reimplantado, costurado e roxo. Pedi para ver de novo a foto anterior. Lembrei de que o mesmo médico tinha feito uma minha. Quem caiu fui eu. Rompi o tendão acima do joelho direito. Ele mesmo operou e quando abriu a avenida da rótula ao meio da coxa e escancarou tudo para fazer o serviço de religação, clicou. De vez em quando olho aquela imagem para me ver por dentro. Chego à conclusão que tem relação com todas as neuras e dúvidas da existência. Olho sangue, carne, nervos e ossos agredindo o que resta de bom senso em mim, tal a complicação daquele emaranhado. Sou eu por dentro.
domingo, 29 de setembro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
meu eu brasileiro
De Paulo Leminski
quisera poder pensar
como se faz no velho mundo
eles me querem espelho
como se não tivesse mistério
essa minha falta de assunto
quisera poder pensar
como se faz no velho mundo
eles me querem espelho
como se não tivesse mistério
essa minha falta de assunto
Tiros certeiros
Cuspi porque não havia outro jeito. Venci todos os medos e o fato de nunca ter brigado na vida. Cuspi com força e acertei bem entre os pés do fulano. No meio. Vi até uma poeirinha levantar, como se fosse numa cena em câmera lenta do Sam Peckinpah. Ohei nos olhos dele. Impassível. A frase todo mundo conhece, mas... vamos lá: quando este cuspe secar, eu vou te matar. Ele riu com a segurança que eu jamais tive. Ficamos ali parados. O sol estava forte. Começo da tarde. Ele deu um passo para trás. Não queria fazer sombra para aquela poça de cuspe. Então me preparei para o desfecho. Ou eu ou ele ia para a casa do chapéu, como a gente dizia. O mundo em volta não existia. Ouvi um latido de cachorro, mas era tão distante que parecia vindo de outro planeta. Secou! Ele puxou a arma. Eu puxei a minha, prateada, cabo vermelho. O gatilho mais rápido foi o meu. E a espoleta funcionou. A dele, não. Logo depois do estampido ele levou a mão ao peito e caiu. Andei devagar. Cheguei perto e disse: ganhei. Ele tirou o cinturão e me deu com a cartucheira vazia. Peguei o revolver preto de cabo branco da mão dele. Era da marca Estrela, como o meu. Olhei o lugar onde tinha cuspido. Tinha uma marca. Tiros certeiros, pensei.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
vivo ou morto
De Paulo Leminski
pedaço de prazer
perdido
num canto do quarto escuro
inferno paraíso
vivo ou morto
te procuro
pedaço de prazer
perdido
num canto do quarto escuro
inferno paraíso
vivo ou morto
te procuro
Coelho
Sou um coelho. Gigante. Mas coelho. Meu nariz é frio e tem antenas. Ando pelas ruas de uma cidade grande qualquer. Não, não é Páscoa. Sou um coelho cujo calendário não é de chocolate e nem bolinho. Foi o que restou na minha vida. Me acostumei. Faço propaganda. Os meus pelos estão encardidos. Minha alma também. Outros entraram aqui dentro, mas desistiram. Estou fazendo isso há mais de ano. Sou um coelho velho e sem coelhinhas. Impotente. De tudo. Olho a paisagem por um pequeno buraco. Algumas crianças me adoram. Outras têm medo. Por causa do tamanho. Não sei se sou macho ou fêmea. Vai ver sou um coelho anjo. Hoje aconteceu uma coisa estranha. Vi outro coelho no calçadão. Eu indo, ele vindo. Paramos. Olhamo-nos. Buraco no buraco. Lá dentro tinha uma mulher. Eu fiquei com vontade de conhecê-la. Marcamos encontro. Fui lá no endereço que ela me deu. Nas quebradas. Casa simples. Limpinha. Ela sozinha. Eu sozinho. Rostos sofridos. De coelhos sobreviventes. Ela disse que tinha uma surpresa. Era um bolo. Comi um pedação. Delicioso. Bolo de cenoura.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
na lonjura
De Paulo Leminski
que pode ser aquilo
lonjura, no azul, tranquila?
se nuvem, por que perdura?
montanha,
como vacila?
que pode ser aquilo
lonjura, no azul, tranquila?
se nuvem, por que perdura?
montanha,
como vacila?
terça-feira, 24 de setembro de 2013
cinco bares, dez conhaques
De Paulo Leminski
cinco bares, dez conhaques
atravesso são paulo
dormindo dentro do taxi
cinco bares, dez conhaques
atravesso são paulo
dormindo dentro do taxi
Tosse
Ouviu alguém tossir e acordou. Morava numa cabana no meio do nada. Sozinho. Tinha decidido assim. Assim estava decidido. Foi há anos. Conseguia sobreviver com o mínimo. O máximo eram os livros empilhados na estante. Lia, relia. Aprendia cada vez mais. Para que, não sabia. Importava o prazer de adentrar aos mundos abertos pelos escritores da preferência. Por ali não passava ninguém. O lugar ficava na margem de um pântano. Mas ele sabia os caminhos dos paraísos locais. Não contava para ninguém. A tosse. Levantou. Saiu com a lamparina na mão. Seguiu o som. Viu o vulto vestido de branco. Parecia uma mulher. Era. Chegou perto. Perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim. Ele quis saber o que estava fazendo tão longe de tudo. Ela mostrou um cigarro aceso. Tinha saído de uma festa. Nervosa por ter brigado com o marido. Se perdeu. Saiu de carro, pegou estrada, parou longe no breu da noite e andou até cansar. Chegou ali. Ficou a pensar. E a fumar. Então, deu mais uma tragada e disse que voltaria para o lugar de onde saíra. Estava mais calma. Enquanto falava, não tossiu. Só fez isso quando ele se virou e voltou para a cama e seus pensamentos.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Canalhas
Todo canalha é magro. Discordo. No Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. Concordo. Nelson Rodrigues atirava bem. Reacionário, com muito orgulho. Brasileiro a despir o espírito vira-latas do brasileiro. Adorava a palavra canalha, por ser mais forte que o barulho do tapa dado na cara no meio do povo. Conheci um canalha sem conhecer. Deduzi. Pelas informações. Agora é canalha no mau sentido - e não quero nem saber. Canalha no bom sentido há vários. Um, por exemplo, colocou uma placa enorme no escritório em que trabalhava. Acima da cabeça dele estava escrito: "Todo homem é canalha". Esse era um bom canalha, pois já avisava sobre o defeito de caráter generalizado do ser masculino. As mulheres gostam deste tipo de canalha. Outras gostam do outro tipo, os maus canalhas, os que exploram a ingenuidade, os enganadores de plantão. O canalha que não conheci é assim. Por ser amado e não amar, não corta, estica a novela para ter o domínio da presa. Que canalhice!! Um dia, contudo, encontrará a canalha que fará a mesma coisa com ele. Isso se, em vez da canalha, não lhe aparecer uma navalha - só para rimar e lembrar Plinio Marcos.
domingo, 22 de setembro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
epitáfio para a alma
De Paulo Leminski
aqui jazz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao enfarte
eu tenha pena
dos seus disfarces
aqui jazz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao enfarte
eu tenha pena
dos seus disfarces
Careca na neve
O trauma provavelmente era hereditário. Desde que prestou serviço militar, as entradas na cabeça começaram a aparecer. Ele morria de medo de ficar careca. Talvez por ter sido um dos maiores gozadores dos "pouca-telha" durante a infância e adolescência. Talvez por ter visto seu pai sofrer com a calvície e tê-lo visto pintar a cocuruto de preto porque não tinha dinheiro para comprar uma peruca. Então fez de tudo para, pelo menos, parar a progressão daqueles caminhos. Todos os remédios e unguentos foram passados. Até xixi de porco e merda de galinha passou - tentativas que faziam sua mulher ficar cada vez mais nervosa. Ela achava que o marido deveria, sim, é ir para ao divã de um psicólogo ou psiquiatra. Ficaria mais barato fazer a cabeça de uma outra forma, dizia ela. Nada. Peruca, implante, ele jamais usaria. Não gostava de ver outras pessoas que adotavam essas medidas paliativas. Ficou careca. Sobrou o rodapé. Ele usava um boné que não tirava nem para tomar banho. No emprego novo pouca gente sabia do problema. Até que um dia um moça muito bonita e delicada, que ele admirava, fez a pergunta fatal: "Nevou lá no seu bairro?" Ele não entendeu até que se olhou no espelho e viu a quantidade de caspa que tomava conta dos ombros de seu paletó.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
voláteis
De Paulo Leminski
Anos andando no mato,
nunca vi um passarinho morto,
como vi um passarinho nato.
Onde acabam esses voos?
Dissolvem-se no ar, na brisa, no ato?
São solúveis em água ou em vinho?
Quem sabe, uma doença dos olhos
Ou serão eternos os passarinhos?
Anos andando no mato,
nunca vi um passarinho morto,
como vi um passarinho nato.
Onde acabam esses voos?
Dissolvem-se no ar, na brisa, no ato?
São solúveis em água ou em vinho?
Quem sabe, uma doença dos olhos
Ou serão eternos os passarinhos?
Eu só quero chocolate
Ele tinha visto o filme do Woody Allen e sabia que não poderia tentar fazer uma arma da barra de sabão. Não era um Assaltante bem Trapalhão. Mas pensou em algo parecido quando recebeu aquela barra enorme de chocolate ao leite. Era um artista com a ponta da estilete. Fez uma Luger que só faltava cuspir balas toffee. Planejou a fuga nos mínimos detalhes. Combinou até que carro queria para esperá-lo do lado de fora da prisão. Deu tudo certo até pouco depois de ele render o último guarda. Estava respirando o ar da liberdade quando aconteceu o imprevisto. Não, não choveu como no filme do grande comediante. Nem estava calor de derreter tudo. Apareceu uma cadela. Pequena. Branca com manchas pretas. De longe já vinha farejando o ar. Estava acompanhada de um senhor de cabelos brancos. Ao chegar perto do fugitivo, nhac, só deixou o cabo da 9 mm na mão do bandido. Os guardas chegaram. Ele estava sem saber o que fazer, parado, com aquele resto de chocolate na mão. A cadela queria mais. Ele deu. E voltou para a cela. O velhinho riu. Foi ele quem viciou o animal.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
por um lindésimo de segundo
De Paulo Leminski
tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio]
tudo pisando macio
tudo psiu
tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas
tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio]
tudo pisando macio
tudo psiu
tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas
Boca do estômago
Na boca do estômago o soco é como receber a visita indesejada de um furador de gelo. Pensei nisso quando entrei no consultório do pronto-socorro do hospital. Só que a dor não vinha de fora. Estava dentro, me corroendo tanto que eu andava curvado feito um velho de 200 anos para tentar aliviá-la. Gastrite. O médico então perguntou se eu bebia. Eu disse que comia. Perguntou se eu usava drogas. Perguntei se ele tinha alguma novidade. Perguntou se eu cheirava cocaína. Eu disse que colocava pasta base no pão para fazer sanduíche. Como todo médico, o doutor não ergueu nem uma sobrancelha de preocupação. Me aplicou uma injeção que fez sumir a maldita queimação nas entranhas. Pedi algumas ampolas para levar para casa. Ele riu. Aí fez a recomendação: antes de usar qualquer coisa, coma gelatina. Perguntei se ele tinha alguma pronta ali. O do jaleco branco deu risada. Passei no supermercado e enchi um carrinho. A moça do caixa perguntou se ia ter festa de criança na minha casa. Eu disse que sim.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Um barco na noite
Todos fomos acordados no meio da madrugada. Amarrotados que estávamos da viagem de Belém a São Luis. Era preciso atravessar o rio num barco fechado. A luz era mínima. Entramos e nos sentamos em dois bancos que nos deixavam uns de frente para os outros. Ninguém se olhava. Quando o motor a diesel acelerou e começamos a navegar, parecia que a escuridão do infinito tinha tomado conta de tudo. A quilha cortava a água e a maioria fechava os olhos. A margem que deixamos se elevou até o céu - e a que nos esperava estava abaixo da linha da água. Era como um daqueles precipícios de pesadelo, onde caímos até acordar. Um solavanco tirou todo mundo daquele pavor. Saímos. Esperamos mais um pouco o ônibus que continuaria a viagem. Entramos. O dia começou a clarear e a floresta que ladeava a estrada era de um silêncio que remetia aos deuses. Mas o barco e aqueles longos minutos sobre a correnteza do rio ficaram marcados a ferro e fogo em todos aqueles corações.
domingo, 15 de setembro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
sacro lavoro
De Paulo Leminski
as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo
hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto
as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
transformando o pão e o vinho forte
na carne e sangue de cristo
hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto
Bife a cavalo
A primeira coisa que chamou atenção quando ele desembarcou feito um trapo de gente na cidade grande foi o cartaz de um restaurante meia-boca que anunciava o prato do dia: bife a cavalo. Nunca tinha ouvido falar lá no seu canto do mundo, que ficava bem distante e perdido na poeira do mapa de um estado tão pobre quanto ele. Saiu meio brigado com pai e mãe, porque não aguentava mais aquilo de levantar e ficar cavocando terra seca o dia inteiro, para depois rezar pela chuva que nunca vinha. Como podem servir bife a cavalo? matutava. Ficou com aquilo na cabeça durante muito tempo e não perguntava pra ninguém porque era bicho bruto e tímido. Tinha medo de passar vergonha. Arrumou trabalho pesado, mas isso ele estava acostumado. Comprou uma muda de roupa, guardou um dinheirinho, criou coragem e foi lá descobrir o que era aquilo. Serviram o bife com o ovo em cima e perguntaram se queria arroz ou fritas. Arroz ele conhecia. Veio a batata. Ele ficou olhando a composição, linda - e quase deixou esfriar tudo. Comeu e se apaixonou. Voltava ali uma vez por mês. Nem precisava pedir, pois o garçom já sabia o que queria. De repente, depois de muito tempo, sumiu dali. Estava indo em outro endereço. Tinha descoberto o filé a cavalo. Com fritas. Sempre.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Lâmpada
A mochila era dessas vagabundas, cor do exército - qualquer exército. Um gorro na cabeça segurava um pouco os cabelos, caídos até o meio das costas. Barbudo, magro, alto, ele não aguentava mais aquele calor insuportável da cidade do Norte brasileiro. Tinha viajado três dias de ônibus com o propósito de chegar a Manaus via Rio Madeira. Dali, iria para Belém num daqueles barquinhos que volta e meia se transformam em notícia porque afundam. Estava a algumas centenas de quilômetros do primeiro barco. Procurou um abrigo barato. Indicaram um quarto num posto de gasolina de beira de estrada. Foi. Pagou. Entrou. Fechou a porta. Acendeu a luz. O espaço era todo pintado de marrom - e não tinha janela. Muito menos um ventilador. Ele tirou a roupa, tomou um banho e logo depois de se enxugar estava suando em bicas. Deitou. Olhou para o teto. A lâmpada era amarela. Ele ficou olhando e o calor foi aumentando. Achou que estava delirando pois sentiu uma brisa, viu o sorriso branco como pérola de uma menina da cor das paredes e do teto, sentiu água do rio nos pés, viu a floresta de cima, a lua fazer um facho de luz na água do rio durante a madrugada. No dia seguinte foi em busca do que procurou. Levou a lâmpada e a luz com ele.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Balão
Veio balão como um disco voador. Pequeno, multicolorido, proibido. O céu estava azul sem nuvem, fim de tarde, névoa no horizonte. Descontrolado, caindo, se enroscou nos fios perto de um poste com luz. E ardeu nas chamas da tocha. Um pedaço ainda voou e caiu no gramado bem cuidado de uma casa. A bucha ardeu mais um pouco,enroscada num fio. Depois apagou. Um filete de fumaça subiu. A luz da rua se acendeu e iluminou uma fita amarela que veio pendurada e ali ficou. Fita amarela. Lembrou a canção. Lembrou choro. Lembrou vela. Lembrou Noel. E ela balançando ao sabor do vento, formando figuras, letras. Atravessou a noite e, no outro dia, escorreu no fio e ficou mais distante do poste. Um rajada mais forte e ela se partiu. Mas um pedaço ficou, a balançar feito bandeira fincada para comemorar um fato. O do balão caindo na tarde de domingo.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Encontro
Ele encontrou na menina loira os mesmos medos sem explicação. E compartilharam sem trocar uma palavra sobre isso. Ele tem a foto da primeira comunhão dela. Anjo dentro da nave, vela acesa e um rosto iluminado por ser assim mesmo. Inteligência faiscante e muito mais rápida do que o mais rápido dos computadores que ainda não inventaram. Se encontraram através de outro encontro. Ela ficou na dela e ele na dele, mas juntos pelo silêncio do entendimento. Quando trocavam palavras, eram definitivas, porque um sabia o que o outro sabia - e a isso se chama amor. Até pelo mesmo time eram apaixonados. E ele, cansado de tantos jogos na vida, ficava esperando a torcedora voltar dos estádios para lhe resumir em uma linha o que foi a partida. E como ela entendia deste mistério chamado futebol! Quando a arte do jogo jogado pelo time dos dois aparecia, de forma rara, ela não esperava ser procurada para contar. Procurava-o no entusiamo do coração pulsando de alegria pelo melhor do universo. Ele a olhava e tinha mais coragem de enfrentar demônios antigos e novos. Um dia chorou bem baixinho porque ela teria de ir até ali e voltar só um tempo depois. Um oceano de mar azul os separaria. Um infinito de situações e sentimentos os uniriam mais. Ele então abriu as asas do coração e seguiu antes, para aquele canto do outro lado do mundo. Continuou protegendo-a. E não precisou declarar. Porque sabia que ela sabia, pois foram feitos para o encontro no silêncio da vida.
teu riso
De Paulo Leminski
teu riso
diz sim
teu riso
satistaz
enquanto o sol
que imita teu riso
não sai
teu riso
diz sim
teu riso
satistaz
enquanto o sol
que imita teu riso
não sai
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
domingo, 8 de setembro de 2013
sábado, 7 de setembro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Cabaço
Cabaço. Ouviu pela primeira vez enquanto carpia mato na roça. Cabaço. O que seria aquilo? O masculino da cabaça? Essa ele conhecia naquele fim de mundo. Bebia água nela. Tomava banho com ela. Metade dela, aliás. Um dia, com uma inteira, deu na cabeça de um desafeto que ficou falando mal da roupa que ele usava, só por causa dos buracos na calça e porque a camisa que um dia foi branca estava encardida. Pobre ele sabia que era. Só não sabia o que era cabaço. Não perguntou para o pai, que era fechado; nem para a mãe, pois podia ser que aquela palavra sonora fosse de porcaria, como se dizia ali. Cabaço ficou na cabeça. Nas noites estreladas ele ficava sentado no banquinho do lado de fora do casebre, encostado na parede de barro, olhando todo aquele universo, mas achava que o cabaço era muito mais misterioso. Até que um dia, muito tempo depois, soube. Porque a mulher que amava lhe contou. E ele entendeu que era apenas uma palavra com sonoridade suficiente para atravessar séculos fazendo estragos.
eremita
De Paulo Leminski
Esta vida de eremita
é, às vezes, bem vazia.
Às vezes, tem visita.
Às vezes, apenas esfria.
Esta vida de eremita
é, às vezes, bem vazia.
Às vezes, tem visita.
Às vezes, apenas esfria.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
A luz no fim da estrada
No divã ele ouviu a história atentamente. O viajante estava numa daquelas estradas retas como a Belém-Brasília. A noite se aproximava e, de repente, pneu furado. Ele foi trocar e... cadê o macaco? Não estava ali. Olhou para os lados, para frente, para trás e, até perder de vista, nada. Não passava carro e não havia nenhuma construção. Com a escuridão se aproximando, viu o que poderia ser uma luzinha lá na linha do horizonte, ao lado da rodovia. Trancou o carro e foi andando naquela direção. No caminho, porém, péssimos pensamentos tomaram conta. Uma casa no meio do nada? Poderia ser esconderijo de bandidos ou algo parecido. A cada passo, aumentava o pavor, enquanto a luz se definia - e era mesmo de uma casa perdida no nada. O medo não o fez parar. Mas os demônios se apoderaram totalmente da sua cabeça. Tanto que, ao bater na porta e se deparar com uma pessoa que não tinha nada que aparentasse ser do mal, ele desabafou: "E quer saber de uma coisa? Enfia esse macaco no cu!". Ao ouvir o fim da história, sabia do que se tratava, mas, depois de pensar um pouco, perguntou para a terapeuta: "E se a luz estivesse apagada naquela casa?"
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Pelo telefone
Vinte anos depois abriu o baú. Ali guardava todos os cartões de visita que recebera durante a vida profissional. Pacientemente começou a tentar entrar em contato com aqueles nomes. Tinha um telefone antigo, preto, pesado, de discar. Mantinha o costume de fazer isso com um lápis ainda a ser apontado. Não lembrava quando começou a colecionar os tais. Mas sabia que nunca havia telefonado antes para seus portadores. Achava-os chatos de galocha. Pessoas que incomodavam e que tinham prazer em passar a coisa como se aquilo aumentasse a própria importância, o status, o poder. Agora ele queria falar algo, mas não sabia o quê. Demorou dias, meses nessa tarefa. Não conseguiu falar com ninguém. No último número, uma secretária eletrônica atendeu. Mas a gravação não dizia a quem pertencia aquele telefone. Ele rasgou o cartão, fechou o baú e chorou sozinho na sala da casa que ficava no alto de uma colina sem árvores.
espelho
De Paulo Leminski
acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo
acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
elo e duelo
De Paulo Leminski
veloz
como a própria voz
elo e duelo
entre eu e ela
virando e revirando nós
veloz
como a própria voz
elo e duelo
entre eu e ela
virando e revirando nós
Rango
Com o macarrão ele forrou o prato. Bem forrado. Depois jogou o feijão preto em cima e a massa sumiu na escuridão. Aí a abobrinha compareceu dando o tom verde à instalação. O dono do prato segurava-o com a mão esquerda e ia colocando as camadas com a eficiência de um artista. A quirela ele espalhou. Com o arroz ele exagerou e alguns grãos foram ao chão. Ele pisou e esfregou. Nada de salada. Foi para a mesa e ficou esperando o bifão que pousou ali como uma nave, uma coroa de rei. Aí, aconteceu. Com uma técnica absurda, ele conseguiu revirar e misturar tudo sem deixar cair nada. Fez mais! A cada garfada engolida (ele não mastigava), revirava tudo de volta - sempre no mesmo sentido, partindo do lado mais próximo do seu peito e escorando a massaroca com o garfo. O bife aparecia e desaparecia, mas ia diminuindo porque, depois da garfada, ele cortava um pedação e comia. Não bebeu nada. Ao final, limpou a boca com barra da camiseta puída, prato limpinho à frente, e foi ao balcão pagar. Nove reais pelo rango.
domingo, 1 de setembro de 2013
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